quarta-feira, 11 de março de 2026

Eu tive sorte de não gostar de suco de tomate, senão eu teria ficado lá pra sempre…

O hospital psiquiátrico estadual da cidade N., perto de Almaty, no Cazaquistão, é um lugar bem sinistro e deprimente. É um prédio enorme da era soviética que não vê uma reforma desde os anos 90, e que abriga, entre outras coisas, o departamento de narcologia. Aqui eles “tratam” alcoólatras e drogados. Bom, “tratam”… na real é enfiar soro na veia e dar uns comprimidos, alguns dos quais fazem praticamente o mesmo efeito que as drogas.

O lugar é úmido pra caralho, tem corrente de ar o tempo todo; por causa das árvores grandes e escuras de folha caduca, o sol quase não entra nas enfermarias. A maioria aqui são homens — 12 a 15 por ala; as mulheres são poucas — só uma ala, onde além de mim tem mais três mulheres com cara de gente em situação de rua. Mas mesmo assim dá pra se sentir bem aqui, principalmente se antes a situação era bem pior.

O hospital tem dois pátios: um é gradeado, onde ficam os doentes mentais que não conseguem se controlar. O segundo é aberto, onde as pessoas consideradas sãs e os drogados podem andar. Mas nem esse segundo pátio significa liberdade de verdade, porque todo o setor de narcologia é cercado por um muro alto de concreto armado com arame farpado em cima.

Nesses curtos três dias eu consegui arrumar um amigo — na fumódromo, no meio de cuspe no chão, bituca de cigarro até o filtro e bancos caindo aos pedaços, eu conheci ele. Ali é policial talentoso; trabalha no Departamento de Assuntos Internos, mas infelizmente cai em bebedeiras de vários dias seguidos e por isso tá aqui.

No setor de narcologia, onde a maioria das pessoas não tá aqui pra se livrar de um vício pesado, mas pra passar o inverno no quentinho, o cheiro é de desespero puro. Mas não pra mim — porque agora eu tenho o Ali. Ele é o meu sol. Ele prometeu que, assim que sair daqui, vai atrás dos meus parentes na mesma hora.

Se é que eles existem, claro.

Eu não sei se tenho família. Eu não sei porra nenhuma sobre mim mesma — só lembro das últimas duas semanas da minha vida. Bom, na verdade não é verdade que não sei nada sobre mim. Algumas coisas eu descobri sozinha. Eu sei falar, escrever, ler, manjo de navegar na internet, e até sei quais comunidades na web eu curto e quais eu detesto. E uma coisa eu sei com certeza absoluta: eu não sou drogada nem alcoólatra. Os médicos incompetentes me jogaram nesse setor porque, quando eu apareci aqui pela primeira vez, eu não lembrava de porra nenhuma. Mas o Google que vê tudo diz que eu tenho amnésia retrógrada — as habilidades e os conhecimentos ficam intactos, mas o passado some.

Pela primeira vez eu “acordei” no sótão de alguma dacha. Era um lugar entulhado, fedendo pra caralho e escuro — quase não entrava luz. Uma vez por dia uma mulher idosa subia até lá (depois eu descobri que o nome dela era Grusha). Ela trazia uma papa nojenta de lata e um copo de suco de caixinha; às vezes levava o balde que eu usava de privada. Era a ração do dia inteiro, então eu ficava feliz pra cacete com esse momento, devorava a papa rápido e tomava o suco.

Normalmente eram sucos de fruta de caixinha, mas em algum momento essa filha da puta começou a trazer suco de tomate. Eu odeio suco de tomate com todas as forças, então jogava tudo direto no balde da privada. Depois de alguns dias eu comecei a me sentir melhor; de repente caiu a ficha do horror que eu estava vivendo. Procurei maneiras de fugir, mas a porta estava trancada com cadeado. Não, a escada pro sótão não era de dentro da casa, era de fora, e pra subir até mim a Grusha usava uma escada de extensão — uma escadinha. Ela levava embora toda vez depois de trazer comida ou tirar o balde. Eu tava em desespero total — praticamente sem saída.

Ao mesmo tempo, eu comecei a descobrir aos poucos o que rolava no andar de baixo. Como a casa tava caindo aos pedaços e várias tábuas tavam podres pra caralho, dava pra ver algumas coisas. A visão era bem limitada, mas dava pra entender. Descobri que eu não era a única na dacha. Lá embaixo tinha quatro camas; uma obviamente era da Grusha. Nas outras três, tinha três cativos em cada — uma mulher bem idosa, a segunda um pouco mais nova, uns 40-45 anos, e um homem magro e idoso.

Eles dormiam quase o tempo todo, acordando só pra comer uma vez por dia. O homem mijava e cagava numa garrafa plástica vazia; as mulheres, pelo jeito, faziam tudo em cima de si mesmas. Quando acordavam, só dava tempo de comer e se virar de um lado pro outro uns minutinhos, soltando suspiros pesados. Pareciam uns coitados, sujos, cabelo oleoso grudado na cabeça, roupa que parecia não ter sido trocada há meses.

A Grusha não fazia porra nenhuma o dia inteiro — só ficava deslizando o dedo naquele celular pré-histórico 24 horas por dia e às vezes cozinhava uma merda simples pra ela. Minhas suspeitas se confirmaram: ela misturava algum remédio no suco, e nem disfarçava. Várias vezes nesse período um carro parava na frente da casa; a Grusha saía por 5-10 minutos e voltava com sacolas cheias de comida e remédio. Ela também saía umas duas vezes por dia por poucos minutos pra ir ao banheiro. A privada era daquele tipo fossa mesmo.

Depois de cinco dias, o remédio obviamente saiu do meu organismo, e aí eu decidi fugir. A Grusha e os comparsas dela não contaram que a casa tava tão podre que um cadeado não ia segurar nada — eu arrombei a porta seca com o ombro quase sem esforço. Esperei ela ir ao banheiro, e fiz talvez o pulo mais perigoso da minha vida.

Doeu pra caralho, mas não tinha tempo pra pensar; corri o mais rápido que consegui, deixando a casa abandonada pra trás. O medo era foda; parecia que a minha carcereira já tinha ligado pros comparsas e que agora eles tavam rodando de carro pela região toda atrás de mim. E o que ia acontecer quando me achassem… dá pavor só de imaginar. Quando minhas forças acabaram, eu andei…

Andei sem rumo, olhando pra onde meus olhos iam; o lugar era deserto — antigamente era uma vila de dachas, mas agora tava tudo abandonado. Em volta só floresta fechada e as montanhas altas do Trans-Ili Alatau. Perto do fim da tarde o medo só aumentou — tava escurecendo e ficando muito frio; eu tava só de agasalho de moletom, nada adequado pro clima. Tomei uma decisão — tinha que voltar pra aquela dacha… pelo menos lá eu não ia morrer de fome e de frio. Eu não ligava mais se me torturassem.

Como eu tava andando com chinelos masculinos enormes (não tinha outra coisa no sótão), meus pés tavam destruídos e eu não conseguia mais andar. Em desespero e completamente congelada, juntei uns galhos, estiquei no chão e dormi…

Acordei num lugar surpreendentemente quente e aconchegante. Um homem idoso de jaqueta camuflada velha sorriu com bondade e colocou na minha frente uma tigela de sopa cheirosa e um copo de leite. Eu ataquei a comida sem nem perguntar nada. Ele começou a se mexer pela casa. Quando terminei, ele me contou que trabalha como guarda florestal e é responsável por essa parte da floresta. De madrugada, fazendo ronda a cavalo, quase passou por cima de mim. Aí de algum jeito me colocou na sela e me trouxe pra cabana dele.

Eu não senti medo perto dele — o homem transpirava bondade. Perguntei o que ia acontecer comigo agora. Ele disse que chamou a polícia e a “Ambulância”. No mesmo dia eu já estava nesse departamento de narcologia estadual…

O mundo não é sem gente boa, e agora eu fico preocupada com o guarda florestal; e se os meus sequestradores foram lá e tentaram arrancar alguma informação dele na porrada? Aqui eu ainda fico um pouco com medo também. Mas o Ali é minha esperança e meu sol; ele me disse pra não ter medo de nada, que não vai deixar ninguém me machucar. Mas em uma semana ele sai do hospital. Por um lado é bom, porque ele vai atrás da verdade sobre mim. Por outro lado — e se eles voltarem quando ele não estiver aqui?

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