E realmente ouvimos menos barulho. À noite, no nosso quarto, fica tão silencioso que dá para fingir que ainda moramos no meio do nada. O único problema do apartamento é a vista. Todas as nossas janelas dão para o prédio ao lado ou para o prédio atrás do nosso. Isso fez abrir as persianas parecer estranho, como se um monte de desconhecidos pudesse espiar para dentro, então geralmente deixamos as persianas abaixadas.
Levamos meses para perceber. A primeira vez que vimos, tínhamos chegado tarde de um show. Tomamos banho e comentamos como a lua estava linda no caminho de volta. Meu namorado quis saber se dava para ver a lua por alguma janela, então apagamos as luzes e levantamos as persianas. Era um pouco depois das três da manhã.
Nós travamos assim que olhamos para fora. A lua deixou de importar. Havia uma pessoa no centro de quase todas as janelas dos outros apartamentos. Mais de vinte pessoas, paradas nas janelas, com as luzes acesas dentro dos apartamentos. Talvez todo mundo quisesse ver a lua também, sugeriu meu namorado. Mas não fazia sentido: com as luzes acesas atrás delas, mal conseguiriam enxergar para fora. Eu mandei meu namorado fechar as persianas.
Dez minutos depois, meu namorado espiou de novo por entre as frestas.
“Sumiu todo mundo”, ele disse. Eu olhei para fora. Todas as luzes estavam apagadas. Nenhum sinal de vida em lugar nenhum.
Foi difícil pegar no sono naquela noite. O silêncio do nosso quarto parecia perturbador, não tranquilo. Tivemos que ligar uma máquina de ruído branco. Combinamos que, no dia seguinte, colocaríamos um alarme para as três da manhã e ficaríamos esperando para ver se acontecia de novo.
Na noite seguinte, sentamos perto da janela do quarto, com as luzes apagadas e as persianas levantadas. Às três, todas as luzes estavam apagadas. Eu contei: do nosso ângulo, dava para ver 46 janelas.
Às 3:10, todas as luzes acenderam ao mesmo tempo. Então as pessoas apareceram nas janelas. Era como se estivessem agachadas abaixo dos peitoris e, no mesmo instante, todas se levantassem. Como estavam iluminadas por trás, era difícil distinguir os rostos, mas parecia haver homens, mulheres e crianças.
Às 3:13, todas abaixaram de novo, como se voltassem a ficar agachadas abaixo dos peitoris. As luzes apagaram de repente. Meu namorado e eu nos encaramos, sem saber o que fazer. Não era o tipo de coisa para ligar para a polícia.
Por três noites, colocamos o alarme para as três para poder olhar pela janela. A mesma coisa aconteceu todas as vezes.
Meu namorado queria investigar mais. Queria perguntar aos vizinhos sobre isso, mas nós dois somos tímidos e não conhecemos quase ninguém na cidade.
Eu implorei para ele não fazer isso, mas na quarta noite ele quis sair enquanto aquilo acontecia. Eu disse que ficaria observando de dentro do quarto e chamaria ajuda se algo acontecesse com ele.
Às três, meu namorado estava no estacionamento do prédio. Às 3:10, nenhuma luz acendeu. Às 3:13, nada tinha acontecido. Ele voltou para dentro, e eu achei que talvez tivesse acabado. Mas ele quis tentar de novo no dia seguinte, desta vez esperando para sair só depois que as pessoas estivessem de pé nas janelas.
Naquela noite, as luzes acenderam ao mesmo tempo de sempre. As pessoas se ergueram e ficaram paradas nas janelas. Eu observei a porta dos fundos do nosso prédio e vi meu namorado sair. Ele deu só alguns passos para fora antes de ficar completamente imóvel, paralisado no meio de um passo. As pessoas desapareceram às 3:13. Um minuto depois, meu namorado voltou a andar. Ele ergueu o olhar, vasculhando as janelas escuras dos prédios, e então entrou de novo.
“Acho que não está acontecendo mais”, ele me disse quando voltou para o nosso quarto.
“Você acha que não aconteceu?”
“É, eu não vi nada lá fora. Você viu alguma coisa?”
Eu contei o que tinha acontecido. Isso assustou ele o suficiente para decidir que deveríamos parar de investigar. Não estava nos afetando, ele disse. No começo, eu fiquei aliviada de parar de mexer com isso. Mas, ultimamente, comecei a me perguntar. Nós conhecemos algumas pessoas do prédio atrás do nosso, e elas parecem tão gentis, tão normais. Comecei a me perguntar se são mesmo elas que ficam nas janelas. Toda vez que eu e meu namorado observávamos aquelas pessoas paradas, eu sentia um aperto ruim no estômago.
Comecei a me perguntar se eu preciso avisar alguém.


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