terça-feira, 3 de março de 2026

Tô morrendo de medo do jeito que meu filho anda sonambulando

Flashes de vermelho e azul cortam minha visão borrada. O zumbido nos meus ouvidos ficou ainda mais alto, mas as buzinas dos carros próximos pareciam igualmente ensurdecedoras. Na mesma hora me lembrei da primeira vez que fui atropelado. Era uma moto com duas pessoas. Assim que me levantei, percebi na hora que tinha sido uma ideia idiota pra caralho. A onda de adrenalina fez meus olhos lacrimejarem e meu coração disparou de um jeito que não tinha nada a ver com o conforto de uma corrida matinal. É exatamente esse sentimento que venho tentando aguentar nos últimos minutos.

Pela primeira vez na vida, finalmente sei como é um toque da morte. Só que dessa vez eu não estava sozinho. Meus olhos começaram a voltar a funcionar. As manchas de luz foram tomando forma: a rua, os prédios e o meu filho, que não tinha nada que estar ali de cara no chão da faixa de pedestres. Meus pensamentos estavam voltando. Eu sabia disso porque logo ia ter que explicar o que tinha rolado, mas nem eu mesmo sabia como porra.

Tudo começou mais ou menos uma semana atrás, lá pro finalzinho do ano letivo do meu filho. O Ben sempre foi um garoto bem aplicado. A gente vivia discutindo sobre quanto tempo ele ficava grudado no computador. Eu falava pra ele mil vezes como essa rotina era péssima pra saúde e ele concordava… pra depois continuar exatamente igual. Ele dizia que era “só mais uma semana” até terminar. Depois disso, jurava que ia arrumar o sono. Não tenho prova, mas tenho certeza absoluta que o tanto de madrugadas que ele passou acordado escondido de mim ganha de lavada das canecas de café vazias grudadas na mesa dele. Sinto uma culpa danada por achar que não bati o pé forte o suficiente nas minhas broncas.

Numa sexta-feira que parecia totalmente normal, começou a rolar. O corpo do Ben teve espasmos violentos, como se tivesse vida própria. A expressão tranquila de sono dele contrastava demais com aqueles movimentos erráticos que eu estava vendo. Achando que era pesadelo, tentei acordar ele do jeito que dava, largando rápido o lixo que eu tinha juntado enquanto limpava a mesa. Ele acordou na hora, com os olhos perdendo devagar aquele olhar dilatado. Quando contei o que tinha acontecido, ele ficou meio surpreso, porque disse que não lembrava de nada. Na verdade, acho que ele até achou engraçado quando descrevi as convulsões. Pensei que o estilo de vida dele podia estar influenciando, mas na hora não dei muita bola.

Na noite seguinte, aconteceu uma coisa estranha. Como somos só nós dois em casa, é normal eu pedir ajuda dele nas tarefas. Meu filho nunca foi do tipo que curte fazer serviço doméstico — e isso vale pra quase todo mundo da idade dele. Os deveres da escola dele parecem não ter fim, mas às vezes eu suspeito que são só tão demorados quanto ele faz parecer. Notei que ele sempre se escondia atrás do “trabalho da escola”, nunca faltando desculpa pra não lavar louça, varrer o chão e tal. Também reparei que ele dormia absurdamente cedo sempre que sentia que eu ia pedir alguma tarefa mais pesada… e foi exatamente o que ele fez. A roupa que ele deveria pendurar acabou sobrando pra mim, então eu fiz, guardando a bronca pro dia seguinte.

Enquanto eu pendurava as roupas no terraço, o Ben apareceu. “Achei que você estava dormindo”, eu disse. Pedi pra ele me ajudar com a tarefa que era dele, mas zero resposta. O jeito dele andar tinha uma pausa estranha em cada passo. Os olhos bem abertos, mas ele se movia como se estivesse em transe. Ele ficou andando devagar pelo terraço sem direção nenhuma, ainda sem responder aos meus chamados confusos. Depois do que pareceu uma eternidade, ele parou bem antes da porta que dava pra dentro de casa. Quando nossos olhos se encontraram, o olhar dele ficou ainda mais sinistro, mesmo sem mudar.

Não sou de me assustar fácil, mas foi a primeira vez em muito tempo que fiquei realmente tenso — ainda mais vindo do meu próprio filho, que estava com uma cara completamente neutra. Uma mosca pousou no olho esquerdo dele e ficou ali, porque ele estava 100% imóvel. O vento parou de soprar por um segundo. Parecia que estava me desafiando a quebrar aquele silêncio ensurdecedor. Mas antes que eu dissesse qualquer coisa, ele voltou pra dentro. Contei pra ele de novo depois e, como sempre, ele disse que não lembrava de porra nenhuma.

As noites seguintes foram praticamente iguais. O Ben levantava, andava sem rumo pela casa e parava em lugares aleatórios — os olhos sempre bem abertos. Por mais bizarro que fosse, logo entendi que ele estava sonambulando. Não me chamo de coruja, mas eu conseguia ficar acordado pelo menos até ele levantar pra levar ele de volta pra cama na hora. Quando ele deitava, demorava uns minutinhos até fechar os olhos. O ronco vinha logo em seguida… e eu ficava absurdamente aliviado de ouvir aquilo. Era o meu sinal pra finalmente dormir também.

Na noite antes do dia da última prova dele, tive que pendurar roupa de novo. Pensei: “já que tô aqui esperando ele sonambular, vou adiantar as tarefas”. E claro, logo ouvi ele andando. Aquele passo atordoado era familiar de um jeito que eu não gostava nem um pouco. Ele mesmo foi pro terraço e parou perto da mureta de concreto. Assim que terminei de pendurar a última peça, fui até lá pra guiar ele de volta pra dentro. Quando me aproximei, vi de relance o olho dele… as pupilas maiores e mais dilatadas do que eu já tinha visto na vida. Só percebi direito depois. Depois que ele pulou.

Meu fôlego saiu em baforadas ofegantes e geladas enquanto eu gritava por socorro, segurando meu filho pela perna. Minhas unhas cravaram fundo na pele dele — o tremor dos meus braços fazia o sangue escorrer devagar. Ele ficava mais pesado a cada segundo. Eu continuava gritando, mas parecia que ninguém ouvia, só meu filho que parecia ter acordado. Ver você pendurado na beira de um prédio e sentir uma dor queimando onde estão te segurando é algo que eu não desejo pra ninguém. O Ben sempre foi bem maior que eu. Eu sabia que precisava plantar os pés na mureta, não importava o quanto minha posição estivesse estranha, se quisesse ter alguma chance de puxar ele pra cima. Depois do que pareceu uma eternidade, consegui trazer ele de volta. Contei tudo pra ele, que ficou sem acreditar. De jeito nenhum eu ia deixar ele ir pra escola depois disso.

Assim que amanheceu, liguei pra clínica do bairro enquanto ele avisava a orientadora que ia faltar. Consegui marcar uma consulta pro meu filho o mais rápido possível. A médica disse que o horário era só pra amanhã de manhã. Eu conhecia ela muito bem — era minha amiga do ensino médio e a gente ainda se falava. Pensando agora, eu poderia ter insistido, oferecido alguma coisa, ou ligado pra outra clínica. Tinha um monte de coisa que eu deveria ter feito diferente. O Ben ainda estava abalado pra caralho com o que rolou. Acho que isso acabou deixando ele doente. Além das idas rápidas ao banheiro, mandei ele ficar de cama o resto do dia. Depois de um tempo a escuridão tomou o céu como fumaça e era hora de eu esperar mais uma vez.

Ele dormiu bem cedo, tipo 21h — bem longe do habitual 1h da manhã. Por duas horas, nada. O sonambulismo geralmente rolava na primeira hora, mas ele ficou quieto na cama o tempo todo. Achei que talvez tivesse sido sorte. Desci pra lavar toda a louça que tinha levado pra ele durante o dia. A água corrente e o barulho dos pratos e talheres abafavam qualquer som. Mesmo assim, eu tinha certeza que ouviria se ele levantasse. Seja por sorte ou por alguma força maior, um garfo escorregou da minha mão e caiu no chão. Quando me agachei rápido pra pegar, uma rajada de vento passou por cima de mim e o peso de algo me espremeu contra a pia. Eu empurrei de volta por instinto.

Demorei alguns segundos pra entender o que tinha acabado de acontecer. A mão do Ben tremia enquanto ele segurava a faca com força. Fiquei em choque — e ainda mais horrorizado com o tamanho que as pupilas dele tinham atingido. Não deu tempo nem de falar: ele veio pra cima de novo. Corri pra sala, implorando pra ele “acordar”, como se isso fosse adiantar alguma coisa. Com ele vindo atrás, achei que precisava de ajuda. Qualquer ajuda. Em vez de subir, abri a porta da rua e corri o mais rápido que consegui. Gritei por socorro enquanto levava ele pra calçada.

Ele deu várias outras facadas no ar. Eu usava cada gota de energia pra desviar de todas. Estava focado só em onde ele ia tentar me acertar em seguida. Estava exausto e não tinha tempo de olhar pra trás. Quando ele veio pra mais uma, pulei pra trás e tropecei na guia da calçada. Não era alta, mas me pegou de surpresa. Ele tentou de novo, dessa vez com intenção de me prender no chão se errasse. Consegui desviar o braço dele e joguei o garfo no bueiro ao meu lado. Tomei alguns golpes feios, porque precisei das duas mãos pra arrancar o talher dele. Com a merda toda se acumulando, fiz uma coisa que até hoje me arrependo pra caralho, mesmo nas circunstâncias. Chamar de reflexo seria mentira: cerrei os dentes e arranhei o olho do meu filho com toda força.

Ele recuou.

Pedi desculpas mil vezes, com pedaços da pele dele ainda debaixo das minhas unhas. Os cachorros começaram a latir, as luzes das casas dos vizinhos foram acendendo uma atrás da outra. Um carro apareceu. O ronco do motor praticamente anunciou que ele estava ali. Eu nem olhei direito quando ouvi. Meu filho ainda me encarava fixo — a mão cobrindo o olho machucado. A pupila dilatada dificultava ver, mas notei o olho dele se mexer na direção que eu não queria de jeito nenhum. Quando o carro chegou mais perto, eu soube no fundo da alma que precisava impedir o que eu achava que ele ia fazer. Ele correu. Eu corri atrás.

Senti que o que eu fiz foi só meia-boca. A buzina do carro explodiu, mas não doeu tanto quanto a dor latejante como agulhas no meu quadril de baixo. As fofocas da vizinhança não dava pra ouvir, mas eu sentia elas nas costas. Entrei na ambulância logo depois do Ben, que ainda estava desacordado na maca. A porta bateu. A ambulância arrancou. Respirei fundo, bem fundo, e esperei.

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