É uma merda que a gente, os moleques, tenha que resolver o que adultos despreocupados deviam ter resolvido sozinhos. Foi exatamente isso que meteu eu e o Kurt na merda desde o começo.
A gente tava no acampamento de verão dos escoteiros. Dois dos moleques mais novos, o Dylan e o Joey, tinham saído pra ganhar a insígnia de mérito de “sobrevivência na natureza”, que consistia em passar 24 horas no mato sem contato com ninguém. Deram pra eles uns itens pra ajudar: duas facas de bolso, umas garrafinhas de água, algumas barrinhas de proteína, duas lanternas e um rolo de barbante.
Eram duas da manhã quando o Dylan voltou correndo pro acampamento. Foi direto pra barraca do chefe escoteiro Rusty e acordou o cara. Aí o Rusty veio direto pra nossa barraca e acordou a gente.
“Vocês dois precisam se levantar e descobrir o que aconteceu com o Joey. Ele tá apavorado com alguma coisa”, disse o Rusty, com a voz rouca e cansada.
Eu me sentei e esfreguei os olhos. “Hã? O que a gente tem que fazer?”
“Vão lá e encontrem ele. Certifiquem-se de que tá tudo bem. O Dylan disse que encontrou uma aranha grande e… bem, vocês sabem como ele é com essas coisas.” Ele olhou pra nós dois.
O Kurt murmurou baixinho que o Joey era uma putinha.
Eu falei rápido pra cobrir o comentário do Kurt. “Isso não ia desclassificar ele da insígnia de mérito? E cadê o Dylan?”
“Ele não quer admitir, mas acho que ele também se assustou. Agora não sai mais da barraca.” O Rusty apoiou a mão na testa vermelha e enrugada. “De qualquer jeito, o Joey não pode ficar lá sozinho. Insígnia de mérito que se foda.”
Foi só isso. Botamos as botas e nossos pés já tavam andando no meio do mato fechado. O Kurt tava mais puto com a situação do que eu, achando que o sono dele valia mais que dois adolescentes chorões de 15 anos. Pra um quase-18, um escoteiro mais novo era basicamente uma formiga.
Enquanto seguíamos a trilha até onde devia ser o abrigo deles, a floresta foi se abrindo e a vegetação baixa virou um chão pelado de agulhas de pinheiro. As árvores altas tavam espaçadas o suficiente pra gente ver um pouco do luar, mas não o bastante pra confiar só nele. Quando as lanternas iluminaram um tronco grande e podre que servia de marco pro abrigo, a gente saiu da trilha principal e andou perpendicular a ela, bem fundo no mato sem marcação.
“Esse moleque sempre me irrita pra caralho, cara. Juro por Deus”, soltou o Kurt.
“Ele não tem 14 anos? Você também era um pé no saco nessa idade.” Minha voz ecoou entre as árvores.
“Joey e aquele suéter amarelo feio pra porra.” Ele me olhou com nojo. “Foda-se. Tudo isso por causa de uma aranha só… que idiotice.”
“A gente só pega ele e volta, fácil. Não vai dar nem 20 minutos”, eu disse, tentando me convencer de não ficar puto também.
Depois de quase 15 minutos andando fora da trilha — bem mais do que a gente esperava —, a lanterna do Kurt finalmente parou num telhado baixo de galhos e folhas de pinheiro. Mal ficava de pé, sustentado por um pinheiro fino no meio. Tava bem na nossa frente.
“Joey?” A gente chamou os dois ao mesmo tempo.
Nenhuma resposta.
Iluminando o abrigo de longe, a gente viu que tava vazio. Varremos a área com os cones amarelos de luz, chamando pelo Joey. Enquanto o Kurt agachava pra olhar alguma coisa, eu me aproximei do abrigo.
O Kurt gritou: “Que porra é essa? Acabei de achar a lanterna do Joey, tá morta! Só tá largada aqui no chão!” Ele tava uns 6 metros do abrigo.
Eu abaixei a lanterna, fiquei de quatro e entrei engatinhando no abrigo escuro. No breu, ouvi um barulhinho de arranhado. Tipo folhas farfalhando com vento leve. Quando eu tava bem lá dentro, apontei a lanterna pra frente de novo.
Tinha uma bola grande no chão do abrigo, com uma faca de bolso aberta do lado. Tamanho de bola de futebol, e a superfície parecia areia endurecida. Tinha três cortes visíveis em cima do negócio. Dois rasos e tímidos, e um mais longo e bem fundo que mostrava o interior oco. Eu peguei a faca.
Quando um monte de pernas pretas e finas saiu do buraco, eu me assustei. Várias aranhas começaram a jorrar dali, como se tivessem reagido à invasão da luz. Pelo que eu sabia na época, pareciam só aranhas de porão inofensivas.
Aí eu senti uma coceira. Olhei pra baixo. Uma tava andando pela minha mão enquanto eu segurava a faca. Levantei a mão e dei um pulo, batendo a cabeça no teto do abrigo. Dezenas delas caíram das folhas sacudidas lá de cima, chovendo em cima de mim. Eu gritei de susto e tentei voltar engatinhando pra saída.
Enquanto recuava, apontei a lanterna pro interior do abrigo. Praticamente toda superfície tava coberta por uma bagunça emaranhada de patinhas pretas. Elas tavam em todo lugar. Nas paredes, no chão, tudo.
Eu gritei e rolei pra fora do abrigo, levantei rapidinho e comecei a me bater freneticamente. O Kurt correu pra ver o que tava acontecendo.
“Não me diz que você viu uma aranha”, ele falou de brincadeira, a lanterna dele me cegando.
“Por que você não olha com seus próprios olhos, seu filho da puta!” eu berrei.
O Kurt apontou a lanterna pra dentro do abrigo, revelando a massa enorme de aranhas. Ele deu um pulo e abaixou a lanterna pro chão, mostrando as ondas de aranhas saindo do abrigo e vindo na nossa direção. Elas já tavam nas nossas pernas.
A gente saiu correndo e chutando desesperadamente pra longe do abrigo. Só ouvia o barulho das nossas botas esmagando e a nossa respiração pesada.
No fim, a gente juntou coragem pra parar.
O Kurt balançou a lanterna em volta. “Onde caralho a gente tá?” Ele olhou pra mim.
“Onde tá o Joey?” eu gaguejei, curvado pra recuperar o fôlego.
A gente percebeu no mesmo segundo o quanto tava fodido. O abrigo já não tava mais à vista. Nenhuma marca de trilha, nenhum marco, nada. A gente sentou.
“Vamos pensar. Ele não tava no abrigo, né? E eu achei a lanterna dele, então ele não tem mais luz. Quanto tempo ele ficou sozinho mesmo?” O Kurt coçava o tornozelo com força.
“Demorou uns 30 minutos pra gente chegar aqui… pelo menos 30 pro Dylan voltar pro acampamento… quer dizer, ele deve ter ficado lá mais de uma hora”, eu disse, girando a faca entre os dedos.
“O Rusty vai ficar puto pra caralho!” Os dedos dele afundaram na terra.
Eu não consegui parar de olhar pras mãos do Kurt. “Acho que os dois devem ter encontrado um ovo de aranha gigante. Um deles abriu, os dois piraram e o Dylan não aguentou.”
Ele apertou os olhos pra mim. “Então… o quê? Você acha que ele foi comido pelas aranhas? Sério?”
Snap!
A gente virou a cabeça pro escuro. As lanternas iluminaram só mato vazio.
“Você ouviu isso, né?” disse o Kurt, coçando o tornozelo de novo.
“Ouvi.” Minha voz saiu baixa. “Por que você tá se coçando assim?”
Ele abaixou a meia. “Eu… acho que uma me mordeu. Nojento, né?” O tornozelo tava inflamado e rosado, com um pontinho vermelho no meio vazando sangue fresco.
“Caralho. A gente resolve isso quando voltar”, eu sussurrei, olhando pros dedos finos dele. Eram tão longos.
A gente ficou em silêncio uns minutos, tentando se recuperar depois das aranhas. Quando ficou mais confortável, apagamos as lanternas pra ver melhor o céu.
Eu vi um movimento pelo canto do olho.
Olhei direto pro Kurt. No escuro, mal dava pra ver uma coisa grande, enorme, bem atrás dele. Minha nuca formigou. Peguei minha lanterna, acendi e apontei pra ele.
“Porra! Que merda foi essa?!” gritou o Kurt, levantando a mão pra proteger os olhos da luz.
A figura pulou pra longe da luz e do barulho, revelando só uma perna preta e peluda antes de sumir.
Eu pulei de pé. “Você viu aquela coisa?!” Minhas mãos tavam tremendo. “Que porra era aquela?”
O Kurt virou, não viu nada. “O quê? Ver o quê?” Ele acendeu a própria lanterna e vasculhou atrás. “Você tá me zoando? Eu te mato, cara!”
“Não tô brincando! Tinha alguma coisa atrás de você. Correu quando acendi a luz”, eu disse, notando os pelinhos pretos finos saindo do dorso das mãos do Kurt.
Ele não acreditou. Achou que eu tava só zoando ele, do mesmo jeito que ele faria comigo. Mesmo assim, isso nos colocou de pé e andando de novo.
A escuridão lá fora parecia opressiva. Invasiva. Como se pudesse nos engolir inteiros a qualquer momento. Eu imaginava o Joey sendo puxado pro escuro por uma mão invisível. Pro nada. Como se ele nunca tivesse existido de verdade. Eu estremeci.
De repente, a lanterna do Kurt apagou. A escuridão engoliu ele.
“Merda!” ele berrou, batendo a lanterna com a palma da mão.
Eu virei minha lanterna pra ele. Meu estômago deu um nó doente.
Seis olhos pretos, bulbosos e brilhantes refletiram a luz, olhando direto pra baixo pro Kurt. Um par de presas pretas e peludas mirava bem atrás dos ombros dele, prestes a atacar. A coisa tava pendurada na árvore atrás dele.
Eu gritei.
Os olhos do Kurt se arregalaram e ele olhou pra cima bem na hora de ver as mandíbulas se fecharem, perfurando as costas dele e saindo pelo peito, jorrando sangue em mim. O corpo dele foi erguido do chão e puxado pra cima da árvore num piscar de olhos.
“Argh! Jesus, meu Deus, ME AJUDA!” As palavras saíram pra mim em explosões curtas e gritadas da escuridão lá em cima. “ME AJU—”
Os gritos pararam. O som de mastigação molhada tomou o lugar. Por mais alto que eu apontasse a lanterna, a luz sumia antes de achar a fonte.
Alguma coisa caiu da árvore e bateu no chão na minha frente com um baque nojento.
A cabeça pálida e horrorizada do Kurt, sem corpo. Tinha sido arrancada do pescoço. Tiras de carne e gosma se espalhavam pra fora por baixo, tipo tentáculos de água-viva.
Meu mundo girava. Eu ia vomitar. Corri o mais rápido que consegui. Não importava pra onde.
Não sei quanto tempo corri até achar. As agulhas de pinheiro deram lugar a uma trilha estreita de terra e pedra. Achei um marcador reflexivo neon numa árvore. Diminuí o passo e recuperei o fôlego.
Alívio.
Enquanto andava, repassei os eventos da noite na cabeça. Imaginei que o Joey tinha acabado do mesmo jeito que o Kurt. Pensei na lanterna dele. Morta. Foi o que aconteceu com a do Kurt também. Pensei no ovo. Como elas saíram quando eu acendi a luz.
Tava em algum lugar, me esperando, na escuridão. Esperando minha luz apagar. Pra eu perder minha tábua de salvação.
Parei de repente. Olhei pra frente na trilha, pro breu além da minha lanterna. Opressivo. Invasivo. Uma mão invisível…
Girei nos calcanhares, olhando pro outro lado da trilha e iluminando.
Era enorme.
Oito pernas grossas, peludas e monstruosas saíam pra todos os lados de um tronco absurdamente pesado. Os seis olhos pretos me encaravam sem um pingo de consciência. As mandíbulas ensanguentadas tavam prontas pra atacar. O corpo era largo o suficiente pra bloquear mais que a trilha inteira.
Tava perto o bastante pra eu ver o muco vermelho-escuro pingando da boca.
A lanterna caiu da minha mão. A besta pulou pra frente e eu agarrei a faca de bolso do short.
Caí no chão e mergulhei na escuridão total.
Sem ver nada, balancei a faca e senti ela afundar em carne macia e peluda. A criatura soltou um guincho horrível e agudo. O peso do corpo era imenso enquanto as pernas com espinhos prendiam meus outros membros no chão. Um líquido podre pingava no meu rosto.
Esfaqueei de novo e de novo. Senti o bafo quente da criatura chegando perto do meu rosto. Uma dor queimando irradiou na minha bochecha quando uma mandíbula atravessou a pele fina, o espinho duro quebrando meus dentes. Puxei a faca do esterno e cortei a cabeça numa última tentativa, sentindo a morte bater na porta.
De repente, um jorro de líquido quente caiu em cima de mim, encharcando minha roupa e os poros da pele. Tinha gosto de sangue. Metal. Cobre. Quente e nojento. Cuspi, junto com pedaços de dente. Senti as pernas dela ficarem moles.
Me arrastei pra fora de baixo da massa, as unhas quebrando enquanto cravava no cascalho. Peguei minha lanterna e levantei nas pernas cansadas.
O corpo enorme da aranha tava amassado e sangrando. Os olhos tavam turvos e sem vida. As pernas todas esticadas pra fora feito uma estrela de oito pontas. Foi só então que reparei.
Uma faixa longa de tecido amarelo, pendurada numa das pernas da frente.
Um suéter amarelo?
Não. Não podia ser. Corri direto pro acampamento, com a boca destruída e doendo pra caralho.
Eram 5h20 da manhã quando voltei. O Rusty tinha sido acordado pelo Dylan mais ou menos uma hora depois que a gente não voltou. Ele tava com medo que algo tivesse dado errado. Depois disso, o acampamento inteiro acordou enquanto os boatos se espalhavam entre a tropa sobre onde a gente tava, ficando cada vez mais desesperadores e apavorantes conforme as horas passavam.
O Rusty não saiu do acampamento pra procurar a gente, mas ligou pro telefone de emergência dos guardas florestais pra reportar nosso desaparecimento. Eles ainda tavam varrendo a floresta quando eu voltei.
Tentei contar pra ele o que realmente aconteceu, mas tudo saiu embolado e sem sentido por causa dos dentes quebrados. Não que importasse. Ele não teria acreditado na história mesmo.
Já faz uns dias. O psicólogo designado pro meu caso me pediu pra escrever tudo isso porque eu ainda não consigo falar. A polícia estadual entrou no caso depois que acharam a cabeça do Kurt. Não encontraram o Joey. Eu sei que não vão encontrar.
Eles não acreditam na minha história. Ainda não. Mas vão acreditar. Eu vou ser a prova viva.
Já consigo ver os pelinhos pretos crescendo no dorso das minhas mãos.


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