“2:03 da manhã.”
Eu sempre gostei do trem nesse horário. Meus amigos acham que dá um medo danado ficar aqui tão tarde, alguns até se ofereceram pra me dar carona pra casa, mas eu curto pra caralho. Meu celular iluminava meu rosto com um monte de notificações, e no topo de todas tinha uma mensagem do Mark: “Se cuida, cara, não esquece de me responder quando chegar.”
Eu fiquei pensando no que ia responder, ou se ia responder na hora, talvez uma figurinha? Ele já tem minha localização mesmo, talvez nem precise mandar nada. Antes de tudo isso eu me encontrava com ele e o Scott toda quinta, era tipo um acordo silencioso. Bebidas baratas, comida boa e a gente reclamando das mesmas merdas do trabalho até um de nós ser expulso por fazer muito barulho — a gente reclamava pra valer, esquentado pra caralho. Mas depois que eu faltei uma vez, parei de ir. Ninguém perguntou por quê, só mandavam aquelas garantias pequenas tipo “Tô aqui pra você” ou “Você pode falar com a gente quando quiser”. Facilitou pra eu faltar na próxima.
Com a visão meio embaçada, fiquei olhando em volta. O cheiro de bolo e mijo tomava conta da estação inteira — a padaria devia ter passado do horário de fechar hoje. O ar estava carregado com aquele fedor grosso de produto de limpeza barato que cobria as paredes rachadas pelo tempo. Eu me sentia calmo. Em todo lugar que eu ia, esperavam alguma coisa de mim, mas aqui ninguém podia falar nada além de mim mesmo. Aqui eu podia simplesmente estar, afundar nos meus próprios pensamentos e sentimentos. Aqui era pacífico.
Um barulho ecoou pelo túnel. Alguns minutos depois, o ronco profundo de um trem sacudiu a estação toda. Meu corpo acompanhou as vibrações no chão. Eu deixei ele me levar.
Tropeçando pra dentro do vagão, desabei num banco. Uma sensação de afundamento tomou minha barriga e ecoou pelo trem vazio. Olhando em volta, o vagão era todo misturado num cinza monocromático. Um anúncio de água com gás brilhava numa tela, e aquela iluminação triste pra caralho me lembrava de uma sala de cirurgia. Era tudo familiar demais. Na minha frente tinha uma janela. A única coisa que me cumprimentava de volta era meu próprio reflexo.
Eu estava sozinho.
Quando as portas fecharam, me peguei olhando pra fora delas, quase esperando que alguém viesse correndo pro vagão no último segundo, pedindo desculpa por estar tão atrasado. Não sei quando peguei esse hábito, essa mania de ficar esperando. Ultimamente, isso tem sido minha única habilidade real — esperar qualquer coisa acontecer: meu turno acabar, o barulho baixar o suficiente pra eu ouvir alguma coisa por baixo dele. Não sei quando aconteceu. Eu ainda gostava de conversar com o Mark e o Scott, e agradecia quando eles me chamavam, mas acho que apreciava mais na teoria do que na prática.
Eu afundei mais ainda no banco. Alguns lenços de papel caíram no chão. Fiquei olhando pra eles um tempo. Posso pegar depois. Fiquei mexendo nas coisas dos bolsos pra me distrair: um isqueiro que esqueci de jogar fora, mais uns lenços. Comecei a carregar isso sem nem perceber. Apareciam em todo casaco, bolsa, calça, tipo trocado solto. Eu dizia pra mim mesmo que era alergia.
O trem andou. Eu andei com ele. As luzes passavam deslizando. O vidro encostado na minha cara. Eu não pensava em nada. Pensava na próxima estação. Pensava na estação depois. Pensava na caminhada pra casa. Nada de novo. Meu corpo ficou parado. Nada mudava. Nada vai mudar. Vai ficar assim.
“Pra onde você tá indo, filho?”
A voz não veio de lugar nenhum. Não ecoou, não se espalhou. Eu não me mexi na hora. O trem não parou. As portas nunca abriram. Eu não tinha ouvido nenhum passo nem movimento de banco. O lugar ao meu lado ainda estava vazio. Tinha que estar.
Eu virei. Alguém estava sentado do meu lado. Quando caralho ele apareceu? Ele estava completamente coberto, quase nada visível: casaco longo, luvas e um chapéu. A luz parecia deslizar direto por ele, como se o rosto dele nem tivesse terminado de ser feito.
“Então, pra onde você tá indo?”
Eu engoli seco. Minha garganta precisou lembrar como funcionava. Eu desviei o olhar dele. Conseguia sentir o banco embaixo de mim, a vibração dos trilhos. Minha boca abriu pra falar, mas o queixo travou no lugar, os músculos se recusando a cooperar. Eu só fiquei em silêncio, olhando pra frente.
Ele esperou. Não piscou. Não se mexeu. Mantinha o olhar cravado em mim enquanto os trilhos sacudiam lá embaixo. Ele falou de novo, num tom quase entediado.
“Você tá indo pro seu apartamento na Seventh Avenue. Vai entrar pela porta da frente e soltar uma saudação brega como se tivesse alguém morando lá, e vai desmaiar no sofá.”
Alguma coisa apertou no meu peito. Não era medo, era pressão. Tipo uma mão me fechando.
“Como você sa—”
“Não é, Isaiah?”
Eu me levantei rápido demais. Meu corpo nem checou comigo se minha cabeça tava de boa com isso antes.
“Ok, quem caralho é você!” Minha voz saiu mais alta do que eu esperava. “Você tá me perseguindo? Me fala agora ou eu chamo a polícia!” As palavras tropeçavam umas nas outras. Eu me preparei pra alguma coisa. Uma gota de suor escorreu pelo meu pescoço.
“Senta.” O tom dele era calmo, mas dava pra sentir o amargor por trás. “Você não vai me bater”, ele olhou pro banco vazio do outro lado, “você não é do tipo que dá o primeiro soco. E não vai chamar a polícia, porque aí ia ter que admitir de onde tá vindo.” Ele parou e ficou me encarando. “Você tá tremendo.”
Eu olhei pra baixo e vi minha mão apontada pra ele. O tremor subia até os ombros. Isso é normal, eu disse pra mim mesmo. Eu não tô agindo estranho aqui, esse estranho é que tá me encurralando!
Eu olhei de novo pra ele. Alguma coisa nele não parava quieta. Além dos olhos frios, o resto parecia amolecer e mudar, tipo óleo tentando escorregar na água. As bordas em volta dele borravam. Eu não conseguia distinguir o contorno. Todo ele parecia o contorno.
Eu apertei os olhos. Talvez seja só a escuridão. É tarde. Eu tinha bebido antes. Não… eu tô sóbrio. Faz tempo que tô sóbrio.
“Não tô tentando te ameaçar”, ele disse de um jeito bem ameaçador. “Me fala, se você fosse chamar a polícia, o que você ia dizer pra eles?”
Eu abri a boca. Nada saiu. Um cara sombra que apareceu do nada na minha frente e sabe meu nome?
“Não sei”, eu finalmente resmunguei.
“Exatamente. E é por isso que você vai sentar de novo.”
Eu sentei. Que porra eu tô fazendo? Ele sorriu pra mim. O sorriso era frio. Sem compaixão. Sem maldade. Era uma tentativa falsa de me acalmar. Dava pra perceber.
“Novo assunto. De onde você tá vindo?” Ele continuava imóvel, o olhar atravessando direto por mim enquanto esperava quietinho a resposta. “Não me deixa esperando pra sempre.”
Meus olhos fugiram dele. Minha cabeça acompanhou. “Você já não sabe? Do bar.”
Ele se levantou. Eu nem vi ele se mexer — o corpo só mudou de um lugar pro outro. “Não, não é isso”, o tom dele ficou mais impaciente comigo. Foi aí que eu percebi: partes dele derretiam e se reformavam. “Você e eu sabemos que não é disso que se trata.” Ele começou a mudar.
Quase por instinto primitivo eu caí pra trás no chão tentando fugir — as luvas e o casaco dele pareciam derreter dentro de si mesmos. Eu quase conseguia sentir o estalo de ossos quebrando e se reconstruindo enquanto ele crescia bem na minha frente. O vagão gemeu sob o peso dele. O chão embaixo dele se curvou pra dentro em protesto, mas não quebrou. Devia ter quebrado. O metal se enrolou e se encaixou na nova forma dele, como se o próprio trem tivesse permitido aquilo acontecer.
Eu me arrastei pra trás, as palmas das mãos escorregando no chão molhado. Fui atingido pelo cheiro de formol e ferrugem, podridão e alguma coisa doce por baixo, tipo flores deixadas tempo demais na água. As luzes de cima piscaram, apagaram um pouco, estabilizaram, desenhando a forma dele em pedaços.
Ele era outra coisa completamente. Ângulos demais empilhados onde devia ter só um. Os braços dobravam pra trás, um deles bem maior e mais cheio que o outro. Articulações giravam onde nunca tinha existido articulação. Ele estava rastejando de quatro, não, de cinco, não — os membros torciam e se costuravam de volta, como se não tivessem decidido quantos deviam ter. Não parecia uma transformação sem dor pra ele.
Eu conseguia ouvir cada vértebra estalar e voltar pro lugar enquanto o rosto dele pairava na minha direção e acima de mim, sustentando um ângulo que traía a anatomia dele. Tudo mudava, menos os olhos. Esses permaneciam os mesmos. Sempre familiares.
“Fica longe de mim”, minha voz saiu pequena, só chegou uns metros na frente. “Some da porra da minha frente!”
Ele não reagiu. Nenhum sobressalto. Nem um inclinar do que eu achava que era a cabeça dele. Nada. O trem continuava andando. Alguma coisa tava errada. Eu não sabia o que ia acontecer, nem o que ele ia fazer comigo — quando a força de vontade saiu da minha alma, eu decidi simplesmente aceitar qualquer coisa que viesse.
Ele baixou o corpo. O pescoço se alongou de um jeito nojento enquanto ele encontrava meu olhar. Pela primeira vez os olhos dele pareceram outra coisa. Estavam cansados.
“Você fugiu dela. Do velório dela.”
Fisicamente as palavras saíram quase sem sentido, mas eu entendia tudo com clareza. A voz dele vinha de todo lugar — das paredes, de dentro da minha cabeça, dos trilhos em movimento — em sotaques que não eram desse mundo, em línguas que ainda não foram inventadas. O trem continuava andando. As palavras dele não ecoavam. Elas só ficavam ali entre nós, obsoletas.
Palavras não saíam da minha boca. Elas se recusavam a serem ditas. Eu via o pescoço deformado dele inclinando, esperando alguma coisa, qualquer coisa de mim. A única coisa que consegui soltar foram uns pedaços de palavra — eu tava confuso, com medo e só esperando minha estação chegar pra eu dar o fora daqui.
“Você não precisa se preocupar com isso”, ele arrastou as palavras enquanto olhava pras janelas. “Vai demorar um tempo até sua parada.”
O trem finalmente saiu do túnel. Lá fora não tinha estação me esperando, nem cidade, nem a noite escura. Lá fora tinha o infinito — sem horizonte pra olhar, nem céu. Nada além de um trilho impossível correndo por um espaço branco sem textura, infinito, sem destino à vista. Um entorpecimento se espalhou pelo meu corpo — começando nos dedos, subindo pras pernas e chegando atrás dos meus olhos. Eu devia sair daqui, mas meu corpo não obedecia. Eu olhei pro ser. O foco dele voltou pra mim, ainda esperando uma resposta. Finalmente comecei a falar.
“Ela não ia querer isso”, minha voz quase sumia no ronco lá embaixo. “Ela não ia querer que a última memória dela fosse um cadáver podre.” As palavras ecoaram entre nós. Eu me senti mal. Ele ficou em silêncio, ainda esperando. “Ela me disse uma vez, anos atrás, se ela morresse — não queria gente em volta do corpo sem vida dela, fingindo que sabia o que ele tava pensando.” Eu falei com mais confiança, o som ecoando mais alto que antes.
“Então é, eu não fiquei”, terminei. “Foi uma forma de respeitar ela.” Minha voz começou a ficar plana. Ele só me olhava. Sem resposta.
Os olhos dele continuavam focados em mim — não mais cansados, mas substituídos por outra coisa. Raiva? O silêncio ficou desconfortavelmente óbvio, grosso e sufocante. O vagão parecia menor, como se o trem agora estivesse escutando a gente. Eu engoli seco. O silêncio ficou alto demais. “Eu saí, entrei no carro, esperei acabar e fui embora. Ela ia querer…” Minha voz foi sumindo. Eu desviei o olhar dele.
“Você esperou.” Ele enfatizou, as palavras deslizando pelo chão, pelas paredes, embaixo dos bancos. “Suas falas estão bem ensaiadas.”
Ele começou a ter espasmos. Os movimentos ficaram aleatórios. Tendões pulavam debaixo da pele. Ligamentos se mexiam sozinhos, sem permissão da física. A forma dele tremia quadro a quadro, apertando. Afrouxando. Apertando de novo, tipo animação quadro a quadro travada.
Uma dor aguda veio correndo da minha barriga. Olhando pra baixo, vi uma das mãos dele atravessando meu corpo. Eu tava sangrando pra caralho. As luzes apagaram. O vagão apertou de todos os lados. Meu peito queimava. Mãos no rosto. Eu gritei. Não de dor, mas de outra coisa. Tudo veio de uma vez: ouvi uma voz chamando de um corredor longo — máquinas fazendo promessas que nunca cumpriam — cheiro de amônia e flores — um quarto preservado de um tempo melhor — e o peso da terra batendo num caixão. Minhas mãos saíram do rosto molhadas. Com a visão embaçada eu olhei pra cima pra ele de novo. O corpo dele parecia mais normal que antes. Quase humano.
“Você evita o quarto”, as palavras dele tropeçavam nele mesmo. “Você dorme no sofá. A cama ainda guarda um cheiro que você não aguenta.”
Minha respiração ficou pesada.
“Você não abriu a última gaveta da cozinha”, ele continuou. “Você se recusa a falar o nome dela, mesmo quando tá sozinho.”
O chão embaixo de mim parecia tão longe. Só consegui sussurrar: “Para.”
“Você deixa a correspondência dela se acumular, mas não serve mais pra nada. Ela se foi.” Os trilhos diminuíram a velocidade. O ronco ficou suave, depois desapareceu completamente. Ele virou pra janela. “Essa é sua parada.”
Eu ouvi as portas começando a abrir. A gente não tava mais no vazio. O corredor na minha frente se transformou num estacionamento de igreja. Luzes fluorescentes iluminavam o prédio. Tinha cadeiras dobráveis, casacos escuros. No canto do meu olho tinha um caixão. Era um velório. O velório dela.
“Não, eu não consigo”, meus olhos queimavam. “Eu não consigo descer aqui.” Ele virou pra mim de novo.
Pela primeira vez a forma dele se estabilizou. Humana. “Você precisa aceitar”, a voz dele estava suave. As portas abriram mais. A mão dele gesticulou pro lado de fora.
Eu engoli seco. Tentei me levantar. Meu corpo não obedeceu. Ficou parado. Em desespero eu perguntei: “O que acontece se eu não descer aqui?”
Os olhos dele travaram em mim, cansados, depois desviaram. “Aí você continua andando. Desmaia no sofá. Amanhã você volta pra cá, e a gente tem essa conversa de novo. E de novo. Até esse trem ir pra algum lugar que você não consegue descer.” As palavras dele soaram derrotadas.
Eu olhei lá fora. Olhei pra trás. Virei pro banco vazio. Senti cheiro de podridão. Senti cheiro de flores. Pensei no apartamento. Pensei nela. Virei pro caixão. Tentei me levantar. Meu corpo, no entanto, continuou parado, lutando contra o pouco de força de vontade que ainda me restava.
Eu fiquei sentado, imóvel, enquanto o ronco dos trilhos em movimento voltava a ser ouvido lá embaixo. Quando as portas fecharam, meu corpo se moveu junto com o trem. Ele era bom nisso.


0 comentários:
Postar um comentário