sexta-feira, 13 de março de 2026

Você não acreditaria nas coisas que só uma criança notaria

Meu nome é Deon. Eu tinha só 5 anos quando vi aquilo pular pela primeira vez.

Ninguém acreditou em mim, claro. Afinal, por que acreditariam? Eu tinha só 5 anos. Mas conforme minha vida foi se desenrolando do jeito que se desenrolou e coisas aconteceram depois disso — coisas estranhas, coisas que nenhuma ciência da Terra conseguiria explicar pra mim —, eu não consegui mais viver negando que tudo o que eu tinha visto era só imaginação solta de criança.

Na semana anterior, na escola, eles estavam nos ensinando a ler as horas no relógio. Falaram sobre aquelas coisas chamadas relógios de sol, uns aparelhos analógicos que as civilizações primitivas usavam pra saber a hora do dia pela sombra que ele projetava no mostrador. Eu fiquei fascinado. Passei a notar sombras em todo lugar. Olhando pra trás, é engraçado no que a mente de uma criança se agarra.

Eu já conseguia multiplicar números de dois dígitos aos 5 anos, mas não entendia como a luz podia criar escuridão do nada. Um vento não elimina o ar atrás de você só porque você está no caminho dele. Uma maré não cria trechos de terra seca atrás dos seus pés quando você vai à praia e quebra as ondas. Não fazia sentido pra mim. Eu precisava entender.

Então eu roubei um caderno do escritório do meu pai. E comecei, desenhando do melhor jeito que conseguia na época, toda sombra curiosa que eu via, escrevendo sobre ela com o máximo de detalhes que minha cabeça de criança conseguia inventar.

Eu via sombras em desenhos animados, vivendo a vida delas, mas minha mãe me dizia que desenhos animados eram feitos por artistas como o meu pai e que não eram reais.

Eu via elas no teatro de sombras que às vezes montavam na escola. Mas a professora me dizia que aquilo era feito com recortes de papelão e que as sombras não eram reais.

Eu via elas no parquinho, imitando perfeitamente as crianças mais velhas que corriam rápido feito o vento, mas meu treinador me dizia que eram só a luz do sol sendo bloqueada pelos corpos das crianças e que as sombras não eram reais.

Eu sempre amei nosso cachorro, Price Davon. Meus pais pegaram ele filhote e deram esse nome de brincadeira — uma piada que eu era novo demais pra entender na época. Os adultos achavam hilário dar nome completo pra cachorro. Eu praticamente cresci com o Price e o considerava mais irmão do que animal de estimação. Ele era um cachorro protetor, feliz, brincalhão.

Um dia meu pai precisou levar ele pro veterinário pra tomar a vacina da raiva. E desde que voltou com o meu Price, eu soube que alguma coisa estava errada.

Ele passava a sentar na cadeira do escritório do meu pai sempre que podia. Latia pro meu pai, exatamente do jeito que meu pai costumava gritar com ele e comigo. Bebia do caneco de café dele toda manhã, igual meu pai fazia desde que eu me lembrava.

Se eu não soubesse a verdade, eu teria jurado que o meu cachorro Price estava agindo mais como o meu pai do que como o cachorro com quem eu cresci e que eu amava.

Algumas semanas depois, minha mãe estava assando uma torta de maçã na cozinha. Eu estava na sala com as luzes apagadas, brincando com minha lanterna, fazendo formas bobas de sombra com minha mãozinha. Desenhei cada uma delas no caderno que eu tinha roubado.

Coração. Pássaro. Coelho. Nave espacial. Veado. Eu estava ficando bem bom nisso.

Logo me cansei. Queria desenhar um animal de verdade. Então chamei o Price Davon pra desenhar a sombra dele. Foi aí que eu notei. A sombra dele era de um homem — e só anos depois eu percebi que era quase idêntica à silhueta do meu pai morto.

Cinco segundos depois de eu ter notado, o Price Davon virou um monte morto, perdendo o calor pro chão da sala, e no segundo seguinte que ele caiu, eu vi a sombra pular na direção da minha mãe, que estava ocupadíssima com a torta de maçã dela.

Eu lembro de implorar, chorar e suplicar por horas pra minha mãe ir ver o Price. Mas ela estava mais preocupada com a torta de maçã do que com qualquer tristeza que eu demonstrasse.

Quando o forno começou a queimar e soltar fumaça, os vizinhos vieram e apagaram o fogo. Eu lembro da cara da minha mãe. Como eu ia esquecer? Ela ficou com aquela mesma cara pelos próximos 15 anos, sem um único músculo se mexer do lugar.

Era a mesma cara que ela tinha quando deixaram ela sair do manicômio pra ir ao enterro do meu pai, que tinha morrido de raiva duas semanas antes do incêndio.

Eu fiquei pensando naquela memória terrível da minha infância por 15 anos. E no meu 20º aniversário, finalmente deixaram minha mãe voltar pra casa. Eu finalmente pude perguntar pra ela o que tinha acontecido.

Quando descobri a verdade, eu soube que precisava agir rápido. E agi.

Eu já estava sentado numa poça do sangue da minha mãe antes mesmo dela terminar de sangrar e cair morta. O sangue era vermelho vivo contra os azulejos brancos e, felizmente, refletia luz suficiente pra não projetar sombra nenhuma. Ele não tinha pra onde correr.

Eu ri, ri e ri porque finalmente entendi o maior mistério da minha vida. Era tudo tão simples.

A polícia chegou e tinha repórteres lá fora tirando fotos minhas coberto daquele vermelho escuro lindo e profundo.

Quando me enfiaram nas camisas de força no mesmo manicômio da minha mãe, eu olhei pra baixo, atrás de onde a luz batia em mim, e vi meu pai.

Não sei como, mas a sombra estava sorrindo.

Pensando agora, foram os jornais que começaram a me chamar de Deon. Meu nome verdadeiro nunca foi Deon.

Era Price Davon.

0 comentários:

Tecnologia do Blogger.

Quem sou eu

Minha foto
Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon