O elevador geme como um animal moribundo toda vez que se move. Aprendi a ler seus humores — o tranco antes do quarto andar, a hesitação entre os andares, a maneira como as portas precisam de um tapa firme para abrirem direito. É a única forma de entrar ou sair do meu apartamento, a menos que eu queira tentar descer quatro lances de escada nesta cadeira. Eu não quero.
O prédio é antigo. Não antigo de um jeito charmoso, não antigo de um jeito histórico. Só antigo. Cansado. A tinta do corredor se desprende das paredes em enrolados frágeis, revelando camadas de cores por baixo — verde, depois amarelo, depois algo marrom que talvez tenha sido elegante em outra época. Pequenos vazamentos de canos antigos deixaram manchas de água no teto como mapas de países esquecidos. Às vezes, vejo movimento pelo canto do olho e sei que um rato correu atrás dos rodapés.
Moro aqui desde antes do acidente. O apartamento pareceu uma boa ideia naquela época — quase no térreo, em grande parte acessível, barato o suficiente para que meu benefício por invalidez cobrisse o aluguel. Não notei a melancolia. Ou talvez tenha notado, e ela combinava com alguma coisa dentro de mim.
Os estudantes se mudaram numa terça-feira.
Ouvi antes de vê-los — risadas ecoando pela escadaria, música vibrando pelo assoalho, portas batendo a qualquer hora. O apartamento abaixo do meu estava vazio havia meses. Agora estava vivo com os sons de pessoas que ainda acreditavam ser invencíveis.
Naquela noite, eu não dormi.
Às 2 da manhã, o grave do som de alguém vibrou pelo meu colchão. Às 3, houve gritos — comemorativos, não raivosos, mas altos o bastante para acordar os mortos. Às 4, justamente quando tudo se acalmava, uma porta bateu com força suficiente para fazer minhas janelas tremerem.
Fiquei deitada no escuro, olhando para o teto, e pensei no silêncio que conhecia antes. O silêncio de um quarto de hospital às 3 da manhã. O silêncio do meu próprio grito, preso dentro de um corpo que não respondia.
A manhã chegou cinza e fria.
Desci no elevador às nove, com as rodas prendendo no desnível da soleira. O corredor do quarto andar estava vazio, a tinta descascando como sempre. Mas o corredor do terceiro andar, quando cheguei lá, cheirava a cerveja velha e fumaça de cigarro.
A porta deles estava entreaberta.
Bati — com firmeza, com raiva, o tipo de batida de quem não dormiu e quer que os outros saibam disso.
A porta se abriu.
Ele era jovem. Vinte anos, talvez. Cabelo escuro caindo sobre olhos cansados. Vestia uma camiseta amassada e parecia ter acabado de acordar.
— É?
— Sua festa — disse eu, com a voz mais áspera do que pretendia. — Ontem à noite. O barulho — eu não consegui dormir. Estou no quarto andar e...
Ele piscou.
— Festa?
— Não se faça de inocente. A música, os gritos, o—
— Acabei de voltar. — Ele passou a mão pelo cabelo.
— Trem da minha cidade natal, cheguei às seis da manhã. Nem entrei neste apartamento desde domingo. — Olhou por cima do ombro, para a bagunça visível além da porta. — Pelo visto se divertiram sem mim.
Parei. A raiva saiu de mim, deixando o cansaço no lugar.
— Ah.
— É. — Ele se apoiou no batente da porta. — Olha, desculpa. Meus colegas de apartamento são uns babacas. Vou falar com eles. Mas... — Hesitou. — Você está com cara de quem precisa de café. Acabei de fazer. Se quiser.
Eu devia dizer não. Voltar para cima, fechar a porta, me recolher ao meu silêncio. Mas o café cheira bem, e estou muito cansada, e os olhos dele são gentis.
— Tá — digo.
O nome dele é Janus. Ele estuda arquitetura, odeia os colegas de apartamento e faz café forte o bastante para arrancar tinta. Sentamos na cozinha bagunçada, minha cadeira de rodas no fim de uma mesa de madeira toda arranhada, e conversamos por uma hora.
— Você mora sozinha? — ele pergunta.
— Sim.
— Isso é... — Ele para, parece reconsiderar. — Quer dizer, com a cadeira, é... desculpa, isso foi indelicado. Esquece que perguntei.
— Às vezes é difícil — digo. — Mas eu dou conta.
Ele assente, não insiste. Agradeço por isso.
Quando finalmente vou embora, ele me ajuda com a porta do elevador — o tapa firme que ela precisa — e acena quando a porta se fecha entre nós.
Depois disso, nos esbarramos o tempo todo.
No corredor, quando ele está levando o lixo para fora. Na escada, quando está sentado com um livro didático, fugindo dos colegas de apartamento. Em frente ao prédio, onde às vezes me sento sob o sol fraco.
Então ele bate na minha porta.
— Acabei o açúcar — diz, levantando um saco vazio. — Experimento de cozinha que deu errado. Você tem aí?
Tenho. Dou para ele. Ele fica para o chá.
Alguns dias depois, bato na dele.
— Minha prateleira — digo, referindo-me à da minha cozinha, que caiu. — Você disse que tinha ferramentas?
Ele conserta em dez minutos. Fica para o jantar.
Os ruídos continuam.
Festas de outros apartamentos. Sons de reforma — furadeira, martelo, o guincho do metal — em horários estranhos. Começo a investigar. No começo, os ruídos vinham do apartamento acima do meu, mas quando cheguei lá, vi que ele estava vazio havia anos, lacrado pela prefeitura. O do lado, os inquilinos dizem estar no trabalho nos horários em que ouço os sons.
— Não entendo — digo a Janus certa noite, deixando a frustração transbordar na voz. — Eu os ouço. Eu ouço. Mas não tem ninguém lá.
Ele se apoia na bancada da minha cozinha, me observando.
— Talvez seja o prédio. Lugares antigos fazem barulho. Canos, acomodação...
— Isso não é acomodação. — Passo por ele de cadeira, agitada. — É música. É gente trabalhando. É... — Paro. — Você acha que eu sou louca.
— Acho que você fica sozinha demais. — Ele diz isso com delicadeza, sem crueldade. — Acho que seu cérebro está procurando padrões e, às vezes, encontra onde eles não existem.
Quero discutir. Mas estou tão cansada. Tão cansada dos ruídos, das noites sem dormir, das lembranças que voltam quando menos espero.
Ele atravessa o pequeno espaço, se ajoelha ao lado da minha cadeira. A mão dele cobre a minha, quente e firme.
— Klara. Não estou dizendo que você está errada. Só estou dizendo... talvez me deixe ajudar você a descobrir. Juntos.
Olho para ele — o rosto sincero, o cabelo desalinhado, a disposição de se ajoelhar no meu chão sujo só para ficar no meu nível.
— Juntos — digo.
Ele assente.
E então, porque o espaço entre nós ficou pequeno demais para qualquer outra coisa, eu me inclino e o beijo. É silencioso, hesitante no começo, mas depois nós simplesmente... nos perdemos nisso. Passei tanto tempo pensando nas minhas cicatrizes, na cadeira, no que ele poderia ver em mim, mas, naquele momento, finalmente aceito as coisas como são.
Apenas duas pessoas se agarrando uma à outra numa tarde cinzenta, tentando se sentir menos sozinhas.
Depois, fico com a cabeça no peito dele, ouvindo o coração desacelerar.
— Obrigada — sussurro.
— Pelo quê?
— Por não me fazer sentir louca.
Ele beija meu cabelo.
— Você não é louca. Só está... lidando com muita coisa.
Fecho os olhos e me permito descansar no calor dele.
Ele vai embora quando a noite cai, me beijando na porta, prometendo voltar.
Volto de cadeira ao meu quarto, com a intenção de trocar os lençóis, de começar o jantar. Mas algo me detém.
Um som. Fraco, mas inconfundível.
Uma música.
Eu a conheço. Conheço os acordes de abertura, o ritmo, a forma como a guitarra se constrói. Está tocando em algum lugar — abaixo de mim, acima de mim, dentro das minhas paredes. Não consigo saber.
E, de repente, não estou mais no apartamento.
Estou no carro. O sol bate nos meus olhos. Minha mão alcança o rádio, aumentando o volume porque eu adoro essa música. E então — metal gritando, vidro estilhaçando, o mundo girando e girando e—
A música para.
Estou no meu quarto, tremendo, a lembrança se afastando como uma onda.
O rádio do carro. Era isso que estava tocando. Naquele dia. Logo antes de—
Viro a cadeira para o corredor, o coração disparado. O prédio está silencioso. Mas, na minha mente, outros sons começam a surgir. A furadeira, o martelo, o guincho do metal.
Não eram reformas.
Bombeiros. Abrindo o destroço. Me tirando de lá.
Os ruídos não eram festas. Não eram reformas. Eram memórias, presas nos ossos desse prédio velho, vazando pelas paredes como água por um cano furado.
Sento no corredor escuro, a tinta descascando ao meu redor, e, pela primeira vez em três anos, entendo.
Não estava ouvindo o prédio.
Estava ouvindo a mim mesma.


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