Quero começar dando um contexto bem completo pra essa história toda. Não quero revelar meu nome verdadeiro, então vou só dizer que me chamo Adam. Saí da casa dos meus pais tem quase cinco meses, quando encontrei um anúncio de emprego que incluía apartamento pra morar em cima da loja. Não vou entrar em muitos detalhes sobre minha vida antes, mas eu tava desesperado pra deixar aquela situação pra trás e finalmente ter uma vida só minha, então agarrei a oportunidade.
Liguei pro número e conversei com uma senhora mais velha que parecia bem gente boa. Ela anotou meu nome e respondeu algumas perguntas. No começo eu fui bem cético e deixei isso claro — era compreensível, considerando o salário alto e tudo que vinha com o emprego. Ela me garantiu que era uma oferta real e que o motivo do pagamento ser tão bom era porque eles não conseguiam manter ninguém no emprego por mais de algumas semanas. Obviamente isso era uma bandeira vermelha enorme, e eu tentei pressionar por mais informações, mas ela não quis contar. A maioria das pessoas teria dado no pé ali mesmo, e com toda razão. Mas eu tava numa situação ruim pra caralho e precisava cair fora, então o desespero venceu a lógica.
O emprego era cuidar de uma mercearia numa cidadezinha pequena, a algumas milhas de onde eu cresci. Eu ia ser responsável pela loja inteira, menos pelos pedidos de estoque — eles faziam isso de lá. Eu só precisava descarregar e arrumar as coisas nas prateleiras. Como não tinha carro, pedi carona pra um amigo local. Contei a situação toda pra ele. Claro que ele achou uma ideia péssima, mas entendeu o aperto que eu tava e me levou mesmo assim. Uma parte de mim queria que ele tivesse me convencido a não ir, mas, como dizem, a visão retrospectiva é sempre perfeita.
Quando chegamos na cidade sonolenta de Pinewood (nome bem original, porque fica mesmo no meio de uma floresta de pinheiros), eu já senti uma sensação estranha pra caralho. Sabe aquelas histórias de cidades velhas onde os moradores ficam te encarando enquanto você passa? Era exatamente isso. Tanto eu quanto meu amigo ficamos bem arrepiados. Ele me perguntou várias vezes se eu tinha certeza absoluta, mas honestamente, entre morar numa cidade sinistra e voltar pros meus pais, eu toparia dividir quarto com um assassino em série se fosse preciso.
A loja ficava no final da rua principal, uma mercearia antiga, meio decadente, mas com aquele charme típico de cidade pequena. Admito que o charme me atraiu um pouco. Achei que talvez os moradores só não vissem muita gente nova passando, quanto mais alguém se mudando pra lá. A senhora com quem falei no telefone me encontrou na porta. Enquanto os outros moradores só encaravam, ela tava toda animada e simpática, uma velhinha doce de uns setenta e poucos anos. Pra manter o anonimato, vou chamá-la de Sra. Sylvie ou só Sylvie.
Sylvie me cumprimentou com tanto calor e educação que eu esqueci todas as coisas estranhas que tinham me levado até ali. A conversa foi mais ou menos assim:
Sylvie: “Você deve ser o Adam! Que rapaz bonito! Muito obrigada por assumir a loja. Esse lugar antigo é um ícone aqui da cidade e eu já tô velha demais pra continuar tocando ela.”
Eu: “Não é problema nenhum, senhora! Na verdade eu que tenho que agradecer. Você tá me dando casa e um emprego pago ainda por cima. Sério, muito obrigado.”
Sylvie: “Ah, deixa disso, não foi nada.”
Depois de mais algumas gentilezas, ela segurou minha mão entre as dela. Lembro que as mãos dela eram frias, mais frias do que o normal pro fim da primavera virando verão. Meu amigo tava tirando minhas duas malas do carro.
“É só isso que você trouxe, querido?”, ela perguntou apontando pras malas.
“É, não é muita coisa, mas dá pro gasto”, respondi. A maior parte era roupa, um laptop que meu amigo me deu quando comprou um novo, e algumas coisas aleatórias.
Sylvie assentiu, mantendo aquele sorriso caloroso o tempo todo. “Se precisar de roupa, o Sr. Corigan tem a alfaiataria ali na rua. Pode pegar qualquer coisa que vendemos aqui também, vai ser descontado do salário com desconto, claro.”
A rua parecia completamente abandonada, sem uma alma viva. Sylvie percebeu o que eu tava pensando e continuou:
“A maioria do pessoal aqui é idoso como eu. É um lugar bem quieto, não tem muita vida no final da tarde e à noite. Tem alguns casais mais jovens, mas eles já se acostumaram com o sossego. Por isso a gente pede pra manter o barulho baixo nas horas mais tarde. Nós velhos precisamos do nosso sono de beleza, né!” Ela deu uma risada típica de vovó de asilo. Ela tinha um charme foda, um jeito maternal bem genuíno.
“Agora vem comigo, querido, vou te mostrar o apartamento. Não é luxo, mas deve servir bem pra quem mora sozinho.”
Sozinho. Foi nesse momento que o pensamento bateu de verdade. Pra muita gente isso seria um pensamento gelado, solitário, mas pra mim foi confortante. Meus pais nunca foram conforto, e eu já passava a maior parte do tempo sozinho mesmo. Eu tinha me acostumado e acolhido aquilo como meu espaço seguro.
Sylvie me levou pela loja, que era pequena como era de se esperar. Era fofa, com poucos corredores cheios de prateleiras, geladeiras pros frios e carnes, e mais itens gerais. Nos fundos ficava o balcão do caixa, a prateleira de cigarros e um espelho pra vigiar parte da loja. Não tinha câmera de segurança nenhuma, o que fazia sentido pra uma loja tão antiga numa cidadezinha tranquila. Ao lado do balcão tinha a porta do depósito, com freezer e prateleiras. Depois vinha a porta pras escadas do apartamento e outra pros fundos pro lixo.
Subindo as escadas, cheguei num corredor longo com luz amarela fraca e aquele zumbido clássico de lâmpada fluorescente. Minha porta era a primeira, e no final do corredor tinha outra porta cheia de trancas e sem olho mágico. Bem estranha.
O apartamento era melhor do que eu esperava: sala pequena logo na entrada, cozinha grande, quarto decente com cama, armário e mesa, banheiro com banheira. O estilo era antigo, com papel de parede e sofá florido. Alguns achariam cafona, eu achei com charme, parecia um lugar que alguém podia chamar de lar de verdade.
Depois que meu amigo foi embora, eu e a Sylvie tomamos chá e conversamos mais. Ela perguntou por que eu tinha aceitado o emprego. Eu disse que queria um recomeço. Ela contou sobre o marido falecido, o filho que assumiu a loja, ficou tenso e foi embora sem explicar o motivo. Disse que vários outros jovens pegaram o emprego mas não ficavam muito tempo.
O primeiro mês foi bem calmo. Acordava às seis, tomava banho, abria a loja às sete. Colocava o laptop no balcão e fazia o que quisesse nas horas vazias, desde que a loja estivesse limpa e abastecida. Os moradores eram todos legais, respeitosos e excêntricos. Conheci o Sr. Corigan (o alfaiate britânico contador de histórias), a Srta. Morgan (a senhora elegante estilo vitoriano), a família Laydon (o médico e a veterinária) e outros. A cidade era unida, quieta e charmosa.
Mas aí o normal acabou. Por volta do segundo mês comecei a sentir que tava sendo observado o tempo todo. A sensação era pior no corredor do apartamento, como se algo estivesse furando minha nuca com o olhar. Parecia aquele medo de andar num beco escuro sozinho à noite.
Uma noite acordei de repente, com o coração disparado. Tinha uma sensação forte de que tinha algo no quarto. Depois de olhar ao redor e não ver nada, ouvi:
Toc. Toc. Toc.
As batidas começaram. Primeiro achei que era na janela ou na porta da frente. Mas não. As batidas eram na porta do meu quarto. Três toques, pausa, três toques de novo.
Toc. Toc. Toc.
Quando me aproximei da porta, senti um cheiro horrível de coisa morta, de podridão. Segurei o estilete que tinha deixado na mesinha e encostei o ouvido. Silêncio absoluto.
De repente:
BAM! BAM! BAM!
A porta sacudiu violentamente, como se fosse ser arrombada. Eu me arrastei pro outro lado do quarto, me escondi debaixo da mesa e gritei:
“Por favor! Vai embora!”
Aí parou. Fiquei encolhido ali até pegar no sono de puro cansaço.
Acordei de manhã ainda debaixo da mesa. Não tinha nada no apartamento mexido, só duas marcas molhadas em formato de pegada no carpete bem na frente da porta do quarto.
Os dias seguintes voltaram a ser calmos, mas não durou. As batidas voltaram várias vezes, sem padrão fixo. Às vezes três dias depois, às vezes nove. Cada vez mais fortes. Já faz meses disso. Tô dormindo cada vez pior. Quando aparece agora, bate com mais raiva.
Eu sei que devia ligar pra Sylvie, mas tô com muito medo do que ela pode me contar. Tô apavorado. Sei que vai acontecer de novo hoje à noite. Alguém, por favor, me diz o que fazer. Me ajuda.


0 comentários:
Postar um comentário