quinta-feira, 19 de março de 2026

Eu dei sementes pra uma coruja e ela mordeu minha mão

Quando eu era uma menininha, ouvi o piado suave de uma coruja bem pertinho. Saí da cama correndo e fui direto pra janela da sala, porque era o lugar onde eu achava que tinha mais chance de ver a coruja. Agarrei a cortina, mas antes de conseguir abrir, minha mãe me parou, acordada pelos meus passos barulhentos.

“Você não pode fazer isso”, disse minha mãe com uma voz suave, mas firme.

“Desculpa”, respondi, desviando o olhar dela.

“Tudo bem. Mas só lembra que você não pode abrir as cortinas à noite porque pode chamar a atenção das bruxas”, ela me lembrou enquanto me levava de volta pro quarto e me cobria direitinho.

Não lembro se respondi alguma coisa, mas lembro dela me abraçando bem forte e, em algum momento, eu peguei no sono.

Tem uma história bem conhecida na minha cidade. As corujas são bruxas disfarçadas. Elas se transformam à noite e voam pelo bairro procurando a próxima vítima. Quando escolhem alguém, elas pousam no telhado da casa e avisam o morador que a morte está chegando.

Às vezes a morte não é imediata, mas nessa ocasião foi. Duas casas depois da minha, o bebê recém-nascido de um casal morreu dormindo. A notícia se espalhou rapidinho. Do ponto de vista médico, o menino morreu de SIDS, síndrome da morte súbita infantil, mas todo mundo sabia o que tinha acontecido de verdade: uma bruxa roubou a alma dele.

Alguns meses depois, tudo tinha se acalmado de novo. O casal que perdeu o bebê mudou de casa e um casal novo se mudou pra lá. Ninguém tinha ouvido coruja nesses mesmos meses e, finalmente, todo mundo dormia em paz.

Uma manhã, eu saí pro quintal dos fundos pra procurar joaninhas. Encontrar elas significava que eu ia ter sorte.

“Bom dia, passarinhos!”, acenei pros periquitos dentro da gaiola.

Eu adorava ver eles voando pela gaiola grande que meu pai tinha construído pra eles. Mas naquele dia eu estava numa missão e corri direto pro jardim pra achar o máximo de joaninhas possível.

Toda vez que eu achava uma joaninha, contava quantos pintinhos ela tinha e depois colocava na minha mão na esperança de que virasse minha amiga. Eu ria quando elas faziam cócegas com as patinhas minúsculas. Toda vez que uma voava embora, eu ficava um pouquinho triste, mas logo me recuperava e voltava pra busca.

O canto dos periquitos tinha virado minha trilha sonora de fundo. Passou uma hora, ou talvez duas, ou talvez só dez minutos quando o papo normal dos periquitos virou gritos de terror.

Eu me virei rapidinho e vi uma coruja tentando alcançar a gaiola. Esqueci completamente da minha tarefa e corri pra gaiola e pra coruja.

Quando cheguei mais perto, percebi que a coruja estava machucada. Tinha sangue na asa esquerda dela. Demorei um segundo pra notar que os periquitos tinham se calado e que a coruja estava me olhando direto nos olhos.

“Tá tudo bem. Eu não vou te machucar”, tentei tranquilizar a coruja.

A coruja continuou me encarando, dando olhadas rápidas pra gaiola de vez em quando.

“Deixa eu pegar uns curativos adesivos e aí eu te dou comida! Por favor, fica aí!”, gritei pra coruja enquanto corria de volta pra dentro de casa.

Corri pro meu quarto e peguei vários curativos, caso a coruja tivesse um corte grande. Eu sempre me sentia melhor quando minha mãe colocava um curativo em mim. Torci pra conseguir fazer o mesmo pela coruja.

Ela ainda estava parada perto da gaiola quando eu voltei. Me aproximei devagar, tentando não assustar ela. Toquei na cabeça dela e fiquei maravilhada com a maciez das penas.

“Isso vai doer um pouquinho, mas prometo que você vai se sentir melhor logo”, falei pra coruja enquanto levantava a asa dela e colocava dois curativos rosa. A coruja não se mexeu, ficou me olhando o tempo todo, mas nunca tentou morder.

Aí me veio outro pensamento. Ela devia estar com fome e por isso estava parada perto da gaiola — queria sementes! Na época eu não sabia que corujas eram carnívoras, achava que todos os pássaros comiam sementes.

Peguei o saco de sementes que ficava embaixo da gaiola e coloquei um punhado na minha mão. Ofereci pra ela, torcendo pra que, se comesse, se sentisse melhor.

A coruja me olhou por um tempão. Não dava pra saber o que ela estava pensando, mas eu mantive a mão estendida na esperança de que ela comesse e melhorasse.

Como se tivesse decidido, a coruja deu uma mordida nas sementes — e junto com elas, mordeu minha mão.

“Ai!”, gritei enquanto puxava a mão pra longe.

A coruja ficou ali parada, me observando.

Senti as lágrimas enchendo meus olhos. Já tinha sido mordida pelos periquitos antes, mas nunca tinha sangrado. Falei pra mim mesma que provavelmente foi um acidente e, mesmo sem querer levar outra mordida, estendi a mão de novo pra coruja na esperança de que ela comesse mais.

A coruja me deu mais uma olhada e resolveu terminar as sementes que sobraram na minha mão. Depois que comeu todas, inclusive as sujas de sangue, ela foi embora sem avisar.

Não sei por que menti pros meus pais sobre como cortei a mão. Falei que tinha tropeçado e que minha mão tinha batido numa pedra afiada. Depois que eles viram que eu não precisava de pontos, colocaram uns curativos e só me mandaram tomar mais cuidado.

Algumas noites depois, ouvi o piado de aviso da coruja sobre a morte que estava chegando. Lembrando do aviso da minha mãe, não fui olhar pela janela. Em vez disso, rezei pra coruja não estar na casa do vizinho, porque o Don Cristobal fazia as melhores tortilhas do mundo e eu queria pedir umas de manhã.

Naquela noite, a coruja estava particularmente agitada. Normalmente a gente ouvia uns piados por alguns minutos e depois ela sumia. Dessa vez, os avisos dela continuaram a noite inteira, até o sol raiar e quebrar a escuridão.

Na manhã seguinte, não aconteceu nada. Com permissão dos meus pais, fui pra casa do lado e comi umas das melhores tortilhas da minha vida. Os vizinhos cochichavam sobre o que tinha rolado na noite anterior, se perguntando quem seria o próximo a morrer.

O medo da morte foi diminuindo nos dias seguintes porque nada aconteceu. Talvez dessa vez a coruja tivesse se enganado. Talvez essa coruja específica não fosse uma bruxa. Talvez…

E aí aconteceu. Eu estava sentada lá fora com meus pais comendo sanduíches quando vi a coruja que eu tinha alimentado. Os curativos ainda estavam grudados na asa dela. Quando eu ia apontar ela pros meus pais, o chão começou a tremer.

Meus pais tentaram me alcançar. Eu tentei levantar e correr pra eles, mas era impossível. Na minha tentativa desesperada de chegar neles, nem percebi que a coruja estava vindo na minha direção.

Quando eu a vi, fiquei confusa. Vi ela crescer, ficar enorme, quase do tamanho dos meus pais. Ela mergulhou, abriu as asas por cima de mim e me cobriu. Eu conseguia ouvir os gritos dos meus pais, as casas ao redor caindo e o chão rachando.

Quando finalmente parou, tudo ficou em silêncio.

A coruja tirou as asas protetoras de cima de mim e, sem avisar, voou embora. Tudo ao meu redor estava destruído. O bairro inteiro tinha sumido. Depois me contaram que eu fui a única sobrevivente.

Minha história de ter sido salva pela coruja-bruxa foi descartada como coisa de criança tentando lidar com o inimaginável. Eu sei o que vi, e ainda vejo ela voando perto da minha casa de vez em quando. Carrego a cicatriz que ela deixou na minha mão esquerda daquele dia que eu alimentei ela.

E eu sei que um dia ela vai pousar no meu telhado pra anunciar a minha morte.

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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon