Uma névoa espessa cobria o velho cemitério, as lápides cobertas de musgo dominadas por mato e capim alto. O ar da primavera estava frio, mas agradável, com as folhas começando a brotar nas árvores altas que pendiam sobre a cerca caindo aos pedaços. Eu via que o Quincy estava ficando nervoso. Ele apertava forte o terço que eu tinha dado pra ele contra o peito, e cada respiração pesada virava névoa no ar. Eu tinha pegado aquele terço da coleção da minha avó — ela tinha dúzias enfiadas em cantos aleatórios da casa.
“Não sei não, cara.” A voz do Quincy saiu num sussurro, escondendo o medo atrás de um véu de preocupação. Ele empurrou os óculos mais pra cima do nariz largo. Os olhos azuis profundos dele vasculhavam a noite com cautela.
“Relaxa, mano”, eu disse calmamente, apoiado de boa no cabo da pá que tinha trazido. Nós dois éramos adolescentes mais velhos na época. Eu sempre agia como se tivesse tudo sob controle. Só quando você fica mais velho é que percebe o quanto de controle você realmente tem.
Sob a luz da lua cheia, um espectro começou a tomar forma. No início ela apareceu só como névoa no vento, algo que qualquer cético poderia descartar como truque de luz. Mas devagar a forma dela foi ficando nítida. O cabelo longo, o vestido vitoriano e aqueles olhos que pareciam tão desesperadamente vivos apesar de ser um fantasma. Ela era transparente — dava pra ver as árvores atrás dela como um reflexo distorcido. As maçãs do rosto eram suaves e as sobrancelhas ficavam escondidas debaixo de um chapéu extravagante que combinava com o vestido longo e fluido.
“Caralho.” O Quincy tremia nos joelhos, apertando o crucifixo na ponta do terço com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. “Você não estava mentindo. Ela é de verdade.”
A primeira vez que vi a aparição eu tinha treze anos. Cresci com meus avós na saída de uma cidadezinha cercada por florestas densas e mais nada. Meus dois pais morreram num acidente de carro trágico. Só bem mais tarde descobri que minha mãe estava bêbada no volante. Pra que mentir, não tinha quase nenhuma supervisão na minha criação. Eu saía escondido de casa tarde da noite pra encontrar meus amigos delinquentes, e meus avós nunca sabiam de nada. Uma noite, voltando pra casa, peguei um atalho pelo mato e tropecei nesse cemitério antigo que guardava aquela figura misteriosa.
No começo eu ficava à distância, observando a aparição andar de um lado pro outro através dos galhos das árvores retorcidas. Ela chorava com as mãos no rosto, mas nenhuma lágrima saía daqueles olhos delicados. Eu voltava noite após noite, chegando cada vez mais perto da cerca caindo aos pedaços. A primeira vez que ela me notou eu corri, mas uma compulsão estranha me fez olhar pra trás. O rosto delicado dela estava abatido. Ela estava solitária. Eu me aproximei com cuidado. Os olhos dela cravaram em mim com uma tristeza profunda e indescritível. Eu não fazia ideia de como algo tão morto podia ter olhos que queimavam com tanta emoção.
“Claro que ela é de verdade.” Eu me virei pra pegar a bolsa que tinha deixado atrás de mim. Os ossos lá dentro chacoalharam quando joguei a alça por cima do ombro. “Lembra do plano. Pelo amor de Deus, não fode tudo.”
Eu comecei a andar na direção dela. A forma transparente flutuava pra mim como num sonho. Um sorriso quente se formou nos lábios dela enquanto a mão se estendia pra tocar meu rosto. Estava gelada pra caralho. Fiz o possível pra retribuir o sorriso. Os dedos dela atravessaram direto meu crânio, mandando calafrios que ricocheteavam pelas minhas entranhas.
“Que tipo de relação você tem com essa morta, cara?”
A pergunta do Quincy era chata, mas nem inesperada nem sem razão. Com o tempo eu tinha formado uma relação estranha com ela. Passei noites incontáveis naquele cemitério, minha curiosidade virando algo muito mais profundo. Acabaram-se as noites com meus amigos delinquentes, substituídas por conversas unilaterais com uma morta. O jeito abatido dela foi mudando devagar pra uma alegria melancólica. Ela sorria pras minhas histórias como uma mãe triste se refugiando numa criança que amava. Eu passei a amá-la de volta. Não no sentido romântico, óbvio, mas como um garoto ama a tia ou qualquer parente maternal. Infelizmente, nossa relação estranha estava manchada pelas circunstâncias trágicas da condição dela como espírito assombrado.
Depois de baixar a mão do meu rosto, o fantasma olhou pro Quincy com desconfiança.
“Tá tudo bem”, eu disse. “Ele veio pra ajudar.”
“Você tá tranquilizando um fantasma dizendo que eu não sou problema?”
Eu não tinha energia nem vontade de responder à preocupação dele. O fantasma flutuou mais pro fundo do cemitério, a essência sobrenatural guiando a gente. Nós seguimos obedientes.
Demorei pra caralho pra descobrir quem era a moça. Passei horas da minha adolescência fuçando nos arquivos locais da biblioteca. Não é exatamente como a gente imagina os anos de adolescência. Romance e agito passaram batido enquanto eu cavava jornais velhos e documentos do governo, uma força inexplicável me empurrando pra frente. No fim descobri a identidade dela, mas os eventos da vida continuavam obscuros. Ela era filha do governador, o que dava certa fama local, mas parece que ela lutava pra viver uma vida reservada. Depois de mergulhar nos recessos mais nojentos do oculto — um caminho que eu não recomendo pra ninguém —, descobri o que precisava ser feito pra pôr ela em descanso. Foi por isso que levei o Quincy lá naquela noite. Ele era o único amigo de verdade que eu tinha, o único em quem eu podia confiar. A gente se conheceu na biblioteca. A mania dele por livros o deixou curioso com minha busca maluca. Dali pra frente tivemos várias conversas profundas, embora ele nunca tivesse acreditado 100% na história do espectro. Ele não teve escolha a não ser acreditar enquanto caminhávamos pelo cemitério desolado, o ar frio da noite mordendo nossas bochechas enquanto atravessávamos a névoa. Pensando hoje, se o Quincy tivesse sido um pouco mais esperto ele não teria me seguido. Por outro lado, se eu tivesse sido um amigo melhor, eu não teria levado ele.
O Quincy olhou pra bolsa no meu ombro. “É o que eu tô pensando que é?”
“É”, respondi seco, usando a pá como bengala.
“Como você achou o corpo do filho dela, cara?”
Eu suspirei. “Não pergunta.”
No fim chegamos à cova, o capim alto balançando nos nossos calcanhares. O fantasma olhou pra própria lápide com uma expressão desolada. Eu tinha estudado tanto o rosto dela que quase conseguia ler seus pensamentos. Ela estava morta há tanto tempo que o nome tinha corroído e virado só uma placa de pedra coberta de musgo. Eu me virei pro Quincy.
“Quando eu começar a cavar, você começa a rezar o terço. Não para por nada, não importa o que aconteça. Entendeu?”
“Entendi, cara.”
“Promete?”
“Prometo, cara.” Eu comecei a cavar e o Quincy começou a rezar.
O nome da aparição era Abigail Witherspot. Lembro da primeira vez que a chamei assim. A mistura de emoções no rosto dela foi indescritível. Quem sabe quantos anos tinham passado sem que ela ouvisse o próprio nome em voz alta.
Até hoje eu ainda não sei a história completa da Abigail Witherspot. O filho dela foi assassinado e ela morreu pouco depois em circunstâncias misteriosas. Dizem que ela caiu da janela do terceiro andar da mansão do pai e quebrou o pescoço ao bater com a cabeça no chão. Como você pode imaginar, virou o assunto da cidade. Por razões que só posso supor que eram sinistras, ela foi enterrada absurdamente longe do filho. Eu tive que dirigir até outro estado pra recuperar o corpo dele. Foi foda explicar pros meus avós. Nem lembro mais que mentira eu inventei pra eles me deixarem usar o carro.
Alguém ou alguma coisa realmente maligna se esforçou pra caralho pra manter a Abigail e o filho separados. Nenhuma das duas almas conseguia descansar até eles se reunirem. Na época eu era jovem e impulsivo. Mergulhei na situação de cabeça e isso mudou minha vida pra sempre. Eu nunca poderia ter imaginado o mal que espreitava dentro daquele cemitério.
O maior erro que cometi naquela noite foi mandar o Quincy rezar o terço. Ele não era um crente de verdade. Na época eu também não tinha certeza se era, mas depois de tantas noites com a Abigail eu não podia negar o que meus próprios olhos viam. Eu não sabia em que deus acreditar, mas era inegável que existia algo além de carne e osso. Minha avó rezava o terço o tempo todo e nossa casa era cheia de quadros de figuras da Bíblia. Fiquei surpreso quando descobri que o terço fazia parte do ritual. Apesar dos conselhos dela, eu nunca tinha acreditado que aquelas contas tivessem poder real.
Pelo menos não até aquela noite.
Não sei quanto tempo demorou pra eu chegar aos restos da Abigail. A pilha de terra ao lado da cova estava ridiculamente grande quando os ossos começaram a aparecer. Apesar do ar frio, o suor ensopava minha roupa fina. A voz do Quincy tinha ficado rouca de tanto rezar, os Ave-Marias saindo com menos entusiasmo. Ele não tirava os olhos do fantasma da Abigail, que flutuava em círculos em volta da cova enquanto eu trabalhava. No fim desenterrei todos os ossos dela. Limpei a terra e arrumei do jeito mais respeitoso possível.
Um pedaço de corda podre caiu dos pulsos dela quando mexi nos restos. Segurei o crânio numa mão e olhei direto nas cavidades oculares. Uma mordaça qualquer caiu da mandíbula aberta. Me ocorreu que talvez ela tivesse sido enterrada viva e que a história que eu tinha encontrado era só uma farsa, uma capa pra alguma coisa. Olhei pra fantasma da Abigail e a expressão dela confirmou todos os meus piores pensamentos. Fico imaginando como deve ter sido pra ela aquela noite. Espero nunca ter que olhar pros meus próprios ossos.
As coisas deram errado quando ouvi o Quincy gaguejar na oração. Virei a cabeça rápido e gritei: “Eu falei pra não parar!”
Sem eu saber, ele tinha visto uma figura longe no mato. Tinha um sorriso mais escuro que a noite, com dentes brancos o suficiente pra refletir o luar pálido. Dizem que o Maligno toma muitas formas. A forma que ele tomou naquela noite ficou gravada pra sempre na minha cabeça.
O Quincy tentou retomar a oração, mas já era tarde. O medo deve ter apertado ele com um punho de ferro, porque tudo que eu ouvia eram uns guinchos fracos saindo dos lábios rachados dele. Em pânico, me estiquei rápido pra pegar a bolsa de ossos na beira da cova. De algum jeito eu sabia instintivamente que um grande mal estava descendo.
Antes que eu conseguisse pegar a bolsa, uma raiz enorme brotou da terra e enrolou no meu tornozelo com força mortal. Imaginei que algo parecido estava acontecendo com o Quincy porque ouvi ele gritar. Uma segunda raiz brotou com ainda mais fúria, subindo até meu joelho antes de cravar a madeira cheia de espinhos na minha carne. Eu me encolhi e soltei um grito patético. As raízes começaram a me arrastar devagar pro solo.
O pânico tomou conta da Abigail enquanto ela andava de um lado pro outro freneticamente. Ela estendeu a mão pra mim num desespero irracional. Os braços fantasmagóricos atravessaram meu corpo, mandando calafrios por inteiro. Eu arranhei a borda gramada da cova enquanto as raízes me puxavam. Sangue escorria da minha panturrilha. Olhando pra cima, vi o Maligno pairando acima, fundido com o céu da noite. A boca dele era um abismo mais negro que as profundezas mais escuras. A risada dele era sedosa e sobrenatural, como o eco infinito de sinos numa caverna imensa.
Consegui agarrar a borda da bolsa e arrastei ela pra dentro da cova comigo. Os ossos se espalharam na terra enquanto meus tornozelos afundavam no solo. A risada continuava enquanto a forma curvada do Maligno pairava sobre a cova aberta. A manifestação dele era realmente indescritível, meio humana mas completamente desencarnada. Ele era um ser que não cabia num corpo físico, e mesmo assim sorria com um rosto tão assombrado que corroía minhas entranhas.
Minhas mãos procuravam freneticamente enquanto meus joelhos entravam no solo devorador. Meus dedos deslizaram pelos ossos da Abigail e do filho dela até encontrar o pequeno frasco de vidro. Água benta. Eu tinha colocado junto com os ossos. Era crucial pra última parte do ritual.
Eu segurava minha salvação nas mãos, mas quando fui tirar a tampa mais raízes me atacaram. Elas enrolaram nos meus pulsos me puxando pro chão. Minha coluna dobrou pra trás. Eu sentia como se estivesse sendo partido ao meio. A risada maldita chegou num volume ensurdecedor quando uma última raiz brotou e enrolou no meu pescoço. Sangue escorria dos cortes. Eu ofegava desesperado por ar, mas nenhum veio. Minha visão começou a borrar. A última coisa que vi antes de apagar foi a forma chorosa da Abigail, o rosto escondido nas mãos enquanto o Maligno ameaçava atrás dela. Era como se ele estivesse se gabando, me mostrando que a Abigail era dele e só dele. Fechei os olhos enquanto a vida escorria de mim.
Eu acordei num espaço indescritivelmente grande e brilhante. Tudo se mexia e mudava como se o próprio ambiente estivesse vivo e respirando. Uma senhora vestida de azul se aproximou de mim, o rosto brilhando como o sol. Eu a reconheci dos quadros que decoravam as paredes da minha avó. Ela me abraçou, e o calor dela me envolveu por completo. Como sempre, as palavras me faltam quando mais preciso. Nenhuma descrição faz justiça à Paz e serenidade que eu senti naquele momento.
Me vi de volta no meu corpo, um poder sobrenatural correndo pelas minhas veias. Eu me esforcei contra as trepadeiras que me envolviam. Minha mão apertou o frasco de vidro. Ele quebrou na minha palma com um estalo doloroso. Com toda a força que consegui reunir, joguei a água benta pra frente. Ela caiu sobre os ossos, cacos de vidro manchando a terra. Por entre o aperto das trepadeiras eu gritei:
“Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco!”
O silêncio que veio depois foi ensurdecedor. A risada maníaca tinha sumido. As raízes pararam de se mexer. A noite inteira ficou imóvel. Eu parei em choque antes de perceber que ainda não conseguia respirar direito. Em desespero, libertei as mãos e arranquei as raízes do meu pescoço. Ofeguei por ar, a adrenalina ainda inundando meu corpo.
“Ron!” Ouvi o Quincy gritar. “Me ajuda!”
Ignorando a dor dos cacos de vidro cravados na palma, rastejei pra fora da cova. O Quincy estava quase enterrado até o pescoço, um braço visível arranhando o capim. Apesar de tudo, eu ri da cena.
“Isso não tem graça!” Ele protestou enquanto se contorcia pra tirar o outro braço da terra, lutando pra chegar à superfície.
“Obrigada.”
As palavras doces e suaves me pegaram de surpresa. Eu me virei e vi a Abigail. Cor tinha voltado pro que agora parecia mais carne. Ao mesmo tempo, a forma dela estava sumindo, como névoa se dissipando numa manhã de nevoeiro. Os lábios vermelhos sorriam com alegria enquanto ela segurava a mão do filhinho dela, que não tinha mais de cinco anos. Eu queria falar, dizer algo profundo. Mas as palavras travaram na garganta enquanto lágrimas enchiam meus olhos. Abigail e o filhinho acenaram enquanto iam embora, passando desta vida pra próxima.
“Nunca mais vou sair com você”, o Quincy ofegava enquanto finalmente ficava de pé, as longas tranças dreads cobertas de terra.
“Justo.” Eu disse, me encolhendo enquanto tirava os cacos de vidro da palma. Apesar da dor, eu sorri, lágrimas rolando pelas bochechas. Eu tinha conseguido. Eu tinha libertado eles.
Aquela noite fatídica mudou o rumo da minha vida pra sempre. Hoje eu sou caçador de fantasmas e exorcista, especializado em espíritos inquietos. Não tem um dia que passe sem que minha mente volte pra Abigail ou pra visão que tive enquanto estava morrendo. Meu único arrependimento é ter envolvido o Quincy. O conhecimento do sobrenatural pesou pesado na consciência dele. Ele caiu no álcool e acabou morrendo num acidente de carro que, estranhamente, espelhava o dos meus pais. Às vezes me pergunto se essas coincidências esquisitas são o Maligno brincando comigo, tentando me tirar do caminho. Mas eu não vou vacilar. Uma vez que você viu o mal de verdade, não tem escolha a não ser colocar sua fé no bem.


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