domingo, 22 de março de 2026

Comprei um manequim num leilão de espólio de uma atriz morta. Acho que tem algo errado com ele…

Encontrei um manequim num leilão de espólio em Hollywood Hills. Não é como se eu trabalhasse com moda ou tivesse qualquer motivo pra me interessar especialmente por um manequim… mas eu me senti atraída por ela.

Pele pálida e lisa. Cabelo preso. Um vestido de renda e pérolas. E tinha alguma coisa nos olhos dela. Eram de vidro? De plástico? Nenhuma das duas opções parecia certa pra mim.

A mulher que estava comandando a venda disse que o nome dela era Cynthia. Disse que ela tinha sido feita por um escultor de sabão nos anos 1920. Quando o escultor morreu, deixou ela para uma atriz linda chamada Ruby del Mar. Ruby fez um monte de filmes noir nos anos 40. Mas teve uma vida meio trágica. Muitas mortes repentinas. E lá estava eu revirando a roupa íntima dela.

Enfim, eu decidi que o manequim poderia ser uma decoração legal, talvez um bom assunto pra puxar conversa. Mas quando meus amigos bateram o olho nela, eles riram. Disseram que ela era assustadora. Humana demais.

Aí, uma noite, eu acordei com um som. Tipo alguma coisa tentando rastejar pra fora de uma parede. Talvez um rato de palmeira. Mas quando eu fui até a sala, não tinha rato nenhum. Nenhum som. Só a Cynthia sentada ali onde eu tinha deixado ela. Quer dizer, ela estava no mesmo lugar… mas agora estava virada na direção do meu quarto. Eu fechei a porta quando voltei pra cama.

De dia, eu sou esteticista. Tenho um estúdio pequeno ali perto da Sunset Boulevard, em West Hollywood. Eu faço limpeza de pele, mas também aplico botox, faço preenchimento, esse tipo de coisa. Na segunda-feira eu estava no trabalho e uma cliente disse que estava fazendo aquela tendência de “resistência mental”. Não queria creme anestésico pro microagulhamento dela (basicamente uma agulhinha afiada espetando seu rosto de novo e de novo). Eu avisei que ia doer. Ela cerrou os dentes e insistiu.

Na manhã seguinte, eu fui escovar os dentes e travei na hora. Minha pele parecia mais lisa. E estava mais lisa. Meu rosto, de algum jeito, estava mais simétrico. Meu cabelo mais cheio. Não era nada drástico. Mas a gente sempre nota as menores mudanças no próprio rosto. Principalmente quando você faz o que eu faço.

Eu ainda estava olhando pro meu reflexo quando uma sombra passou atrás de mim. Eu levei um susto. Virei. A Cynthia tinha mudado de posição de novo. Ela estava com um sorrisinho de canto, olhando direto pra mim.

Eu tentei tirar ela do apartamento. Levei ela até o beco atrás do meu prédio. Deixei ela ao lado das caçambas de lixo. Mas quando eu voltei lá pra cima depois de uma noite bebendo, a minha porta da frente estava entreaberta. Quando eu empurrei mais, a Cynthia estava de volta no lugar de sempre.

Aí veio o acidente.

Minha amiga Cassie estava lá em casa. A gente estava arrumando depois do jantar e, quando eu entreguei pra ela uma lata de tomate aberta pra ela enxaguar, ela cortou a mão na borda afiada do metal. Sangue pra todo lado.

Eu corri pra pegar o kit de primeiros socorros, mas quando eu voltei, ela estava brava comigo. Perguntando por que, enquanto ela estava sentindo toda aquela dor, eu tinha ido lá e passado maquiagem. Eu não tinha. Óbvio. Mas quando eu olhei no espelho, eu vi que ela estava certa. Eu parecia… renovada. Rejuvenescida.

Parece loucura, eu sei. Mas, conforme os dias foram passando, a cada suspiro, a cada gemido contido de um cliente, eu conseguia sentir alguma coisa dentro de mim mudando. Cintura mais marcada, cílios mais escuros, lábios mais cheios.

Eu não fazia ideia do que estava acontecendo. Mas toda noite eu voltava pra casa e era como se a Cynthia estivesse aprovando. Não fisicamente, mas como se ela aprovasse em silêncio cada queimadura de laser, cada picada de agulha, cada momento em que eu causava dor. Como se ela tivesse orgulho de mim.

Eu disse pra mim mesma que estava imaginando coisas. Mas aí eu olhava no espelho e via uma linha sumida, um poro desaparecido, e era como se eu soubesse que a Cynthia estava contabilizando tudo. Quanto mais sofrimento eu causava, mais bonita eu ficava.

Olhando agora, eu devia ter tentado mais destruir ela. Queimado. Esmagado. Feito qualquer coisa. Mas tinha algo intoxicante no jeito que ela me fazia sentir. Como se eu fosse uma versão de mim que eu não sabia que podia existir. Quem é que quer abrir mão disso?

Eu não percebi na época, mas não era só por fora que estava mudando.

Uma noite, eu acordei e a Cynthia estava aos pés da minha cama, sentada. Me encarando. Totalmente imóvel. Mas aí, por um instante, eu juro que vi ela inspirar.

Eu quis pular da cama. Sair correndo. Mas quando eu olhei pro espelho do outro lado do quarto, eu congelei. Não era só eu encarando de volta. Era a Cynthia. O rosto dela tinha substituído o meu. Olhos pretos demais, como se estivessem cheios de sangue. Boca larga demais, um sorriso cruel cortado de orelha a orelha.

Eu estou escrevendo isso porque estou com medo de estar perdendo o controle. Dela. De mim. Tenho medo de contar pros meus amigos. Pra minha família. Mas o domínio dela sobre mim está apertando.

Eu só espero que alguém por aí possa ajudar.

Mais alguém já lidou com algo assim antes? Um manequim ou uma boneca que tem um poder sobre você? Que parece viva?

Eu só espero que alguém leia isso antes que seja tarde demais.

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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon