domingo, 1 de março de 2026

Suicídio Quântico

Disseram que o experimento ia mudar vidas.

Disseram isso como se fosse um presente, como se não fosse uma sentença.

Tudo o que eu vi foi branco.

Uma sala tão limpa que não parecia um lugar. Nenhum canto guardava sombra. Nenhuma emenda no chão. A luz não vinha de lugar nenhum que eu conseuisse apontar. Ela só existia, achatada em cima de tudo, até meus olhos parecerem esfolados, ardendo.

Eles não tinham me dado uma cadeira. Eu tava em pé desde que me conduziram pra dentro, e minhas pernas já sabiam alguma coisa que eu não sabia.

No centro, tinha um pedestal, liso e na altura da cintura, com um botão preto fosco em cima. Perfeitamente redondo. Perfeitamente comum. Uma palavra impressa nele, em letrinhas pequenas e limpas: PLEXUS. Tipo um botão de emergência de elevador que se perdeu e foi parar num lugar onde não tinha a menor chance de estar.

A única outra coisa identificável na sala era a porta. Não a porta inteira. Só um retângulo pequeno de vidro encaixado nela, na altura dos olhos, a única prova de que o mundo ainda tinha um lado de fora.

Ela estava ali, emoldurada por ele.

Dra. Halden. Cabelo loiro preso pra trás, bem apertado; sobrancelhas claras; aquele rosto brilhante e limpo que as pessoas ganham quando dormem em horários normais e acreditam no que fazem. O uniforme dela era cinza, com uma faixinha azul fina na gola. Tudo coberto por um jaleco padrão de laboratório. Postura calma. Uma calma que é ou bondade, ou prática.

A voz dela veio pelo interfone:

— Há uma presença radioativa na sala. Ela não faz nada até você apertar o botão.

Eu encarei o botão.

— E depois?

— Depois, ela tem cinquenta por cento de chance de ativar. Pode ser que ainda não faça nada. Também pode te matar. Na hora.

Eu esperei ela dar uma suavizada. Ela não suavizou.

— Eu... — eu murmurei. — Eu vou sentir?

— Teoricamente, não. Você não vai ver, nem ouvir, nem sentir. — Uma pausa. — Mas observadores do lado de fora podem registrar alguma coisa. Esse é o ponto.

Eu olhei pra ela através do vidro. Ela olhou de volta, paciente, como se isso estivesse indo exatamente do jeito que ela queria.

Meu dedo pairou sobre o botão. Ele não zumbia. Não brilhava.

Toquei.

Nada.

Sem clarão. Sem calor. Sem desabar. A sala continuou branca, teimosa e vazia. Meu coração nem chegou a hesitar.

— Isso é consistente — disse a Dra. Halden. — De novo.

Toquei.

— Nada?

Talvez eu esteja tocando fraco demais?

— Segura — ela disse, rabiscando alguma coisa. — De novo.

Eu quase ri. O som que saiu não foi bem risada.

Toquei.

Nada mudou na sala.

Mas, quando eu olhei de novo pra Dra. Halden, tinha alguma coisa diferente no uniforme dela.

O corte era idêntico. O crachá ficava no mesmo lugar. A faixinha da gola ainda estava lá. Mas as cores estavam erradas: verde-escuro onde antes era cinza; amarelo-claro onde antes era azul.

Meu corpo inteiro gelou.

— Sua roupa — eu disse, mais alto do que eu pretendia.

Ela piscou.

— Minha o quê?

— Seu uniforme. Era cinza. Agora tá verde.

Os olhos dela se estreitaram, mas ela não pareceu alarmada.

— Interessante.

— Eu não tô imaginando.

— Não — ela disse. — É isso que eu tenho usado o dia inteiro.

Meu coração bateu uma vez, alto demais.

— Desde o estágio, inclusive.

Estágio? Como se a minha memória é que estivesse dando pau.

Minha boca tinha gosto de metal. Minhas mãos não paravam de tremer.

Eu toquei de novo, precisando que o mundo se comportasse.

Nada mudou. Ela continuou em verde e amarelo. Cabelo loiro ainda preso. Rosto ainda limpo e convicto.

O alívio bateu forte o bastante pra virar som.

— Beleza. Beleza. É aleatório, é só—

— Segura — ela disse.

A voz dela ficou mais dura no meu ouvido.

— O que que você— Isso é a primeira tentativa.

Eu encarei ela.

— O quê?

— Essa é a tentativa um.

— Mas eu já apertei quatro vezes.

Ela me olhou pelo vidro como se conseguisse ver a minha versão do tempo e simplesmente não reconhecesse.

— Você acredita que apertou.

Minha mão se mexeu mesmo assim. Com raiva agora. Apavorado agora.

Toquei.

O uniforme continuou verde e amarelo. O crachá continuou no mesmo lugar. A postura continuou calma.

Mas quem estava vestindo era um homem.

O mesmo cabelo loiro, só que cortado mais curto. As mesmas sobrancelhas claras. Os mesmos olhos vivos e afiados. O mesmo rosto, refeito. Como se alguém pegasse ela, virasse uma única decisão ao contrário e deixasse todo o resto seguir igual.

— Onde está a Dra. Halden? — As palavras rasparam pra sair de mim.

O homem se inclinou pro vidro. Quando ele falou, era a mesma voz que eu vinha ouvindo o dia inteiro, só que meio tom mais grave, como se tivesse caído dentro de um corpo diferente sem reclamar.

— Eu sou o Dr. Halden.

Eu recuei do pedestal. Meus joelhos cederam e eu fui pro chão, me arrastando pra trás até meu ombro encontrar... nada, porque a sala não oferecia nada pra me apoiar.

— Que porra tá acontecendo?

— Interessante — ele disse, baixo e satisfeito.

Eu me atirei de volta e bati no botão.

Apertei. A sala branca ficou azul.

Merda.

Apertei. Apertei. Apertei.

Meu dedo bateu até a pele ficar dormente.

Eu agarrei o ar. Olhei pra baixo. Uma alavanca, fina e inclinada, onde o botão tinha estado. Minha mão fechou nela antes de eu decidir.

Eu puxei.

O vidro escureceu. Sem médico. Sem rosto. Sem prova do lado de fora. Só um brilho além dele, grosso e sem cor, pressionando contra a borda como uma coisa que esperou por muito tempo.

Eu não conseguia parar.

Me tira daqui.

Puxa. Puxa. Puxa.

Meu braço queimava com isso. Meu corpo inteiro tremia, como se o único jeito de continuar vivo fosse continuar fazendo o mundo se mexer primeiro, continuar sendo quem mexia nele.

Acaba com isso.

Puxa, puxa, puxa, puxa, puxa, puxa.

Eu me ouvi fazendo sons, não palavras, só o ar rasgando do jeito errado. Minha garganta em carne viva. Meus olhos não achavam nada pra se agarrar. A sala piscava cores que não tinham nome. O chão virou ângulos.

Eu olhei pra baixo, e a alavanca tinha sumido. Um painel liso e vazio no lugar. Minha palma bateu nele mesmo assim.

Esmaga. Esmaga. Esmaga.

O painel se abriu numa emenda, num volume, em nada; a sala tentando engolir o próprio mecanismo inteiro.

Esmaga, esmaga, esmaga, esmaga—

Eu tentei contar. Eu não conseguia segurar o próximo número na cabeça. Eu bati do mesmo jeito. E de novo. E de novo.

Em algum ponto, eu parei de ser alguém que contava.

Eu não sei o que veio depois. Eu tentei de novo. O próximo número ainda não vinha. Pode ser que o tempo tenha passado. Não parece uma coisa que aconteceu comigo, tanto quanto uma coisa que aconteceu ao meu redor enquanto eu tava ocupado apertando.

Quando eu olho pra baixo, minhas mãos não parecem mãos.

Não errado de um jeito que eu consiga nomear. Errado de um jeito que faz nomear parecer um jogo que crianças brincam e depois esquecem. Eu tinha dedos uma vez. Eu tenho quase certeza disso. O formato do meu próprio polegar. A lembrança fica começando e nunca termina. Eu não sei quantos. Eu não sei como eu pareço. Eu parei de conseguir imaginar isso em algum lugar lá no meio dos apertos e, agora, quando eu tento, não vem nada; só um borrão onde uma pessoa costumava estar.

A sala é todas as cores ao mesmo tempo, dobrando em cima de si. Sem paredes, não de verdade. Sem chão, não exatamente. Só planos se deslocando, se rearrumando toda vez que eu pisco; cor se quebrando em padrão, em textura, em uma coisa que eu quase consigo sentir o gosto, mas não consigo falar. Às vezes, o chão é um som. Às vezes, eu solto o ar e sai alguma coisa junto que não é ar, se arrastando pro caleidoscópio e se dissolvendo antes de eu conseguir olhar direito.

A porta é uma luz. Um retângulo duro de luz, brilhante demais pra encarar direto, definido demais pra ignorar. Como se a sala tivesse mantido um limite só pra ter uma coisa pra esfregar na minha cara.

E a doutora ainda está lá.

Ela não mudou muito. Não recentemente. Não faz um tempo maior do que eu sei medir.

É isso que eu me digo. Eu seguro isso como se significasse alguma coisa.

Ela tem pelos. Não pelos macios. Não uma coisa que pertença a algo quente. Eles rastejam pelo contorno dela em ondas lentas, como estática com paciência, como um casaco costurado da ideia de um gato. Eles pegam as cores da sala e entortam elas em algo que se mexe como se estivesse vivo e parece que não está.

Eu engasgo. Nada sobe. Minha garganta tenta mesmo assim.

E as orelhas. Altas na cabeça dela, certinhas demais, precisas demais. Tremendo. As únicas coisas que sobraram que ainda parecem intenção. Elas são a coisa mais horrível que eu já vi na vida. Eu sei disso com clareza, mesmo agora, mesmo com todo o resto sem clareza.

Horrível.

A palavra ainda funciona. É uma das últimas que funcionam.

Ela me observa através da luz onde a porta costumava ser, do mesmo jeito que me observou no começo disso, seja lá quando foi. Paciente. Fascinada. Como se eu ainda fosse só um resultado que talvez saia limpinho se ela esperar tempo suficiente.

Ela tem essa aparência há mais tempo do que eu sei. Ela é a coisa mais familiar que sobrou.

Eu não sei há quanto tempo eu estou aqui. Eu perdi o número, e eu perdi o formato dos dias, e eu perdi, eu acho, várias coisas cujos nomes eu nem sei mais.

Eu só sei que eu cansei de ficar em pé faz um, puta, de um tempo agora.

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