quarta-feira, 18 de março de 2026

Os patos que eu alimentei não me deixam em paz

Sabe como é tranquilo ir até um lago? Tem um parque perto dali pra famílias brincarem, bancos pra descansar quando o povo precisa, e quem pode esquecer da vida selvagem? A atmosfera lá é sempre tão calma. Tem esquilos que deixam as pessoas passarem a centímetros deles e nem saem correndo. Minha coisa favorita que eu faço sempre que tenho um dia de folga é ir na loja, comprar um pão e alimentar os patos. Nada me relaxava mais do que arrancar um pedaço de pão e jogar no lago pra eles correrem atrás e mergulharem pegando na água. Bom, pelo menos era assim...

Nos últimos dias, eu me tranquei em casa como prisioneiro. Tô com medo de sair porque eles estão me esperando. Não pelo pão, por mim.

Isso pode soar delirante pra quem tá de fora, mas tá virando devagar o meu dia a dia. Eu devia começar do início pra você entender melhor minha situação. Na terça de manhã, eu acordei cedo — tinha terminado um projeto pro trampo na noite anterior e entreguei na mesma hora. Pra quem tá curioso, eu sou fotógrafo. Especificamente, fotógrafo de natureza. Ainda sou verde na profissão, mas tirei umas fotos decentes no passado. Meu clique mais orgulhoso foi de um par de raposas brincando com uma borboleta só: peguei o momento perfeito quando a borboleta voou no ar bem na hora que uma das raposas pulou pra tentar pegar ela, enquanto a outra dobrou as patas da frente pra dar um pulinho também. Desculpa, me empolguei e saí do trilho.

Era meu dia de folga, então não pensei em nada melhor que ir pro lago local e curtir o mimo de um novo dia começando. Saí de casa às 5:45 da manhã pro supermercado. Comprei uma garrafa de suco de laranja sem polpa e um pão branco. Caminhei pro lago uns minutos depois de sair da loja. Não vou dar a localização por razões óbvias, mas se você mora na área, pode saber de qual lago tô falando. O som já tava começando a subir através da mata de árvores, o tom alaranjado de clementina do céu se estendendo pra dizer oi enquanto o reflexo brilhava no lago cristalino. Enquanto eu admirava a beleza do nascer do sol, fui pego de surpresa. Ouvi o som bem familiar de grasnados e respingos vindo do lago. Era o bando de patos que chamava aquele lago de casa.

“Ah, perfeito!”, pensei enquanto pegava o celular.

Ajoelhei na lama e enquadrei tudo.

“Clic.” Foi um clique perfeito, não podia pedir nada melhor.

O barulho do celular tirando a foto alertou os patos. Eles começaram a nadar na minha direção e depois balançaram pra terra firme. Grasnavam enquanto formavam uma fila bagunçada pra chamar minha atenção. Entende, esses patos sabiam que eu sempre tinha pão comigo. Pra eles, eu era tipo o Papai Noel no Natal.

“Tá bom, tá bom. Tenho pão pra todo mundo.”, eu disse enquanto desamarrava o nó e abria o pacote de pão. Comecei rasgando pedaços do calcanhar e dando pros dois patos na frente, depois peguei três fatias inteiras e joguei no lago. Achei que podia dar um exercizinho pra eles antes do mimo. Rasguei mais uns pedaços antes de parar pra sentar num banco ali perto. Enquanto sentava, dei uma inalada funda no ar fresco.

“Não tem sensação melhor.”, pensei comigo mesmo.

Depois de ficar olhando pro céu agora azul, coberto de nuvens fofas, por um tempo, saí do parque. O resto do dia foi sem graça, só fiz umas tarefas em casa.

Na manhã seguinte, repeti a rotina do dia anterior. Acordei por volta das 5:30 pra ir na loja e depois pro lago, só que a loja de sempre tava fechada porque o dono foi de férias por duas semanas. Não foi grande coisa, só significava que eu precisava achar outra loja aberta antes do sol nascer. Como não tinha nenhuma pra caminhar, tive que dirigir até uma.

Passei uns bons vinte minutos procurando uma loja aberta — e eu sei que parece perda de tempo, mas se você tivesse algo que te ajudasse a relaxar com o mundo de merda que é, não faria o mesmo que eu? Por sorte, achei essa padaria velha de família, mas não lembro o nome. Estacionei o carro bem na frente e entrei. Era um lugar bem pequeno, não tinha pão exposto, só um cheiro que lembrava leite de filhote de cachorro misturado com chulé. Parecia que eu tinha entrado no banheiro de um posto de gasolina, mas era o único lugar aberto, então não dava pra reclamar.

Toquei a campainha no balcão e esperei uns segundos até uma velhinha sair dos fundos. Ela usava um avental coberto de pedaços vermelhos de carne e sangue fresco. Devo ter ficado com cara de choque porque a velhinha me olhou confusa.

“Tudo bem, menino?”, ela perguntou.

A doçura na voz dela me surpreendeu — parecia que ela tinha levado um balde de sangue e tripas na cara, mas falava como uma mãe que te acalma no meio de uma tempestade.

“Sim, tô bem, valeu.”, respondi.

“O que posso pegar pra você?”, a velhinha perguntou enquanto pegava uma toalha limpa pra tirar o sangue das mãos.

“Bom, tava procurando comprar um pão, mas acho que confundi a loja com uma padaria.”, respondi.

A velhinha olhou em volta e viu que não tinha pão exposto.

“Nossa, que coisa! Achei que tinha arrumado a loja! Desculpa, viu, sabe como é a velhice.”, ela tentou rir pra disfarçar. “Meu nome é Gretchen, acabei de abrir a loja hoje de manhã e tava assando uns pães fresquinhos. Quer um?”

A loja ainda cheirava mal, mas ela tinha aberto hoje, então pensei em dar uma chance.

“Sim, quero um pão, por favor.”

Gretchen sorriu e voltou pra cozinha, saindo dez minutos depois com uma forma de pão assado na hora. Parecia um pouco estranho, tipo queimado em umas partes e cru em outras, e o negócio todo era rosado avermelhado, como se ela tivesse esculpido um pão de carne crua.

“Er... que tipo de pão é esse?”, perguntei. Ela deve ter captado meu desconforto porque me deu um olhar tranquilizador.

“É uma receita de família antiga. Minha avó fazia o pão mais gostoso do mundo. Peguei do livro dela, mas adicionei minha ideia!”, ela explicou.

“O que tem dentro?”, perguntei.

“Carne!”, ela respondeu. “Hambúrguer especificamente.”

Tenho que admitir, soou interessante o suficiente, mas não tinha certeza se patos podiam comer carne de hambúrguer. Mesmo assim, comprei pra mim e saí da loja. Gretchen acenou tchau com um sorriso dentuço.

Dirigi pro lago e vi que o bando de patos já tava lá, chapinhando e mergulhando atrás de peixes.

Sentei num banco pra olhar eles. Me senti mal por não ter pão normal pra dar, então pensei que não ia fazer mal dar um pouco do pão de carne que comprei. Foi esquisito rasgar pedaços, tipo destrinchar um coelho depois de caçar. Rasguei uns pedaços do pão e joguei no lago. No começo, os patos só olharam, inclinando a cabeça pro pedaço de comida jogado na frente deles. Um pato bicou curioso até dar uma mordida. Deve ter gostado porque logo correu pros outros pedaços antes que o resto do bando pegasse.

Tipo um valentão roubando o dinheiro do lanche de uma criança pequena, esse pato levou os pedaços de pão de carne que eram pros outros. Rasguei mais uns pedaços e tentei jogar mais perto pro resto do bando, mas esse pato pegou no ar antes de cair na água.

“Ei!”, gritei, assustando os outros patos que nadaram pra longe — mas esse não ligou.

Ele tentou arrancar o pão da minha mão. Eu afastei com a mão o melhor que pude — acredite, o bicho era implacável —, mas em vez disso ele me mordeu, travando na minha mão. Você já levou mordida de pato? É tipo uma alicate grande e afiada te apertando que não solta. Larguei o pão no chão enquanto tentava tirar esse pato psicopata da minha mão, mas ele não arredava. Senti as lamelas afiadas dele cravando na minha pele, tirando sangue do dedo e apertando o bico forte até arrancar meu mindinho inteiro.

Eu chorei de dor enquanto o pato batia as asas e transformava meu dedo numa pasta de carne. Caí de joelhos, apertando a mão pra estancar o sangue. Através das lágrimas, vi o resto do bando devorando o pão. Brigavam por ele como um cardume de piranhas. Quando acabaram com o pão — nem migalha sobrou —, todos olharam pra mim.

Levantei e corri pro carro; os patos voaram atrás de mim. Parecia uma esquadrilha de caças me perseguindo, tentando me derrubar como se eu fosse o alvo. Dirigi embora, ignorando o limite de velocidade, e olhei pelo retrovisor pra ver se ainda tavam me seguindo. Alguns sim. Outros atacaram gente passeando com cachorro ou correndo. Era tipo moscas num monte fresco de merda — ninguém conseguia se livrar enquanto os patos arrancavam a carne deles, pedaço por pedaço.

Cheguei em casa, saí correndo do carro, abri a porta da frente e bati antes que algum pato entrasse. Só ouvia os gritos dos inocentes do lado de fora enquanto corria pro banheiro pra cuidar do ferimento. Uma hora depois ficou tudo em silêncio. Arriscar abrir a cortina e olhar pra fora. Bile subiu pela garganta. Tinha corpos cobrindo a rua e as calçadas. Patos devorando carne como as migalhas que um dia amavam. Vomitei com a cena antes de notar que tavam me vigiando. Tinha patos por todo lado fora de casa, mais que só o bando do lago.

Não saio de casa desde então — faz quase uma semana. Tenho comida pra durar um mês se racionar direito, mas mais dia menos dia vou ter que sair pra comprar mantimento. Os patos sabiam disso. Eles eram pacientes. Antes eu achava patos uns bichos inofensivos, coisinhas fofas que curtiam lagos e represas. Agora, vejo eles como abutres que não ligam se você tá vivo ou morto; só querem carne.

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