sexta-feira, 20 de março de 2026

Uma Conversa no Silêncio

Desde que eu consigo me lembrar, sempre tive aversão a ficar sozinho. Pra ser mais preciso, eu odiava pra caralho ser deixado sozinho com os meus próprios pensamentos.

Quando eu era bebê, meus pais contavam que eu chorava mais alto do mundo no segundo em que eles saíam do quarto. Mas quando a gente se mudou pra cidade, eles notaram que eu fiquei bem mais calmo. Mesmo quando me deixavam por conta própria, eu não berrava mais como antes. Eu sempre me perguntei o motivo, até chegar no ensino médio. Foi aí que eu entendi: não era a solidão que me apavorava; era o silêncio que vinha junto com ela.

O incidente rolou no meu último ano. A escola nos deu a chance de ir acampar num terreno remoto e bem conhecido lá no sul. Era uma reuniãozinha antes da formatura. Como era atividade escolar, não dava pra pirar muito.

Quando chegamos, já era meio-dia. Enquanto montávamos as barracas e o equipamento todo, me deram a tarefa mais simples: juntar galhos. Era a primeira vez na vida que eu me via cercado por mata fechada. Até então, tudo que eu conhecia era a cidade, com aquele barulho constante ecoando por todo lado e o fluxo interminável de gente. Por um momento, senti uma coisa que não conseguia explicar: uma empolgação louca de descobrir algo estranho e novo.

Fui avisado pra não passar das cordas que cercavam o acampamento. Os professores disseram que não era necessariamente “perigoso”, só que eu podia me machucar com as raízes grossas e a folhagem densa, ou talvez trombar com algum animal que aparecesse por ali. Eu obedeci as palavras deles, mas a curiosidade me empurrou direto até a beirada.

Eu disparei por entre as árvores. Quanto mais eu avançava, mais fracos ficavam os sons do acampamento. Viraram um sussurro quase inaudível até eu chegar na corda que separava o terreno da floresta selvagem e crescida.

Parecia surreal pra caralho, mas eu tinha um trabalho pra fazer. Comecei a catar galhos quando vi algo pelo canto do olho. Achei que era algum colega que tinha me seguido até o limite. Dei um “e aí” casual e continuei juntando a madeira caída.

Quando ninguém respondeu, um arrepio gelado subiu pela minha espinha. Juntei os galhos e olhei em volta. Um suor frio escorreu pelas minhas costas. Não tinha ninguém. Eu tinha certeza absoluta de que tinha visto alguém, e a pessoa não podia ter sumido sem eu ouvir os passos nas folhas secas.

Então, bem atrás de mim, ouvi um farfalhar suave.

Eu me virei rápido e vi… cinza.

Um vazio sem cor cobria tudo. Minhas pernas viraram gelatina na hora e eu desabei. Tentei gritar, mas nada saiu. Sentia o ar saindo da garganta, mas nenhum som chegava aos meus ouvidos.

Aí caiu a ficha: eu não conseguia ouvir porra nenhuma. Nem o vento nas folhas, nem o barulho das minhas próprias botas quando tentei me levantar. Eu queria ficar maravilhado com aquela impossibilidade toda, e foi nesse momento que eu ouvi.

“Só um pouquinho mais…”

Um sussurro rasgou o vácuo. Eu me virei e vi uma forma humanoide, mas completamente errada, encurvada sobre uma árvore e me encarando. Era do mesmo cinza sem vida que o mundo inteiro ao redor. Ele se levantou e começou a deslizar na minha direção.

Conforme chegava mais perto, os detalhes ficavam nítidos. Tinha uma boca em forma de buraco, sem lábios. Os olhos eram só fendas rasgadas, revelando dois pontinhos brancos finos como agulhas. O corpo era nu e liso como um manequim sem detalhes, e quando levantou as mãos, vi um brilho de lâminas afiadas no lugar dos dedos.

Ele deu um passo e parou. Um som alto e esmagador de folhas ecoou — mas não vinha dos pés dele. Vinha do ar em volta. Eu sentia uma alegria doentia pulsando da coisa.

“Só um pouquinho mais”, repetiu. A voz congelou meu sangue. Era a minha própria voz. Soava exatamente como uma gravação minha tocando num alto-falante quebrado e distorcido.

Ele congelou, parecendo um predador selvagem prestes a dar o bote. Abriu a boca num rugido silencioso, depois sussurrou de novo: “Só um pouquinho mais…”

Ele saltou. Eu nem pensei: corri. Disparei cegamente na direção onde achava que ficava o acampamento. De repente, o barulho abafado de gente conversando começou a voltar. Aos poucos o volume subiu. Pisquei os olhos e as cores do mundo voltaram com tudo, batendo forte.

Eu desabei na frente dos outros, soluçando de alívio. Meus colegas me olharam confusos e preocupados até um professor vir correndo. Eu estava hiperventilando tanto que desmaiei.

Acordei dentro do ônibus. A viagem tinha sido cancelada. Depois fiquei sabendo que, quando os professores foram investigar o lugar onde eu tinha caído, encontraram um pesadelo. Os galhos que eu tinha juntado estavam destruídos em pedaços. O chão e as árvores estavam cheios de marcas profundas e irregulares de garras.

Eles me perguntaram o que eu tinha visto. Tentei contar a verdade, mas eles descartaram como alucinação causada pelo choque. Não diminuíram o perigo, porém. Eles sabiam que alguma coisa tinha estado lá.

Isso foi há cinco anos. Desde então eu nunca mais saí da cidade. Pode me chamar de covarde, mas eu me recuso a voltar.

Estranhamente, eu saí dessa com o que meus amigos chamam de superpoder. Eu consigo chegar de fininho em qualquer pessoa. A verdade é que eu não produzo som nenhum de passo, a menos que esteja usando sapatos pesados ou andando numa superfície barulhenta. Meu jeito natural de andar é perfeitamente, anormalmente silencioso. Por outro lado, sou péssimo com segredos. Não importa o quanto eu tente, não consigo mais sussurrar.

Às vezes me pergunto se deveria voltar pra tentar recuperar o que perdi. Mas aí o quê? Não sei nem se conseguiria tirar aquelas coisas de volta da criatura. Então eu fico aqui, no meio do agito e do burburinho da cidade, onde nunca fica quieto.

A criatura pode ficar com os meus passos e com os meus sussurros. Eu fico com o que sobrou de mim.

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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon