Ultimamente, toda vez que eu desço pro nosso porão pra pegar alguma coisa — seja qualquer equipamento de pesca que eu guardo lá embaixo ou algo do congelador fundo —, eu olho pra cima da escada quando chego lá embaixo, ligo a luz e, só por uma fração de segundo, vejo alguma coisa no topo da escada.
A gente mora nessa casa há um bom tempo, eu e minha esposa, então a maioria dos barulhos e coisas que batem à noite dá pra explicar fácil: tábuas rangendo ou vento assobiando contra as vidraças. Mas isso aqui é diferente. Isso me mantém acordado à noite, pensando no que diabos é, se são meus olhos pregando peça ou até um tumor pressionando meu crânio (foi o que Diane, minha esposa, sugeriu). Eu tentei ficar lá embaixo e apertar os olhos na escuridão, tentando distinguir onde a figura estaria — até ligando e desligando as luzes várias vezes seguidas, ligando e desligando, ligando e desligando. Por horas. Só tentando ver o contorno da figura por um mísero segundo que fosse.
Diane acha que eu tive um colapso nervoso. Ela pediu licença médica de emergência no meu trabalho pro futuro previsível e me sentou com todos os médicos e terapeutas que conseguiu encontrar pra tentar me diagnosticar e me encher de remédios pra eu não sentir mais nada. Me encher de remédios não vai fazer o medo ir embora. Pode acreditar — eu bebi o suficiente ao longo dos anos pra saber como é se sentir completamente anestesiado pro mundo, mas isso aqui é outro nível. Eu sinto no fundo mais profundo do meu estômago que o que quer que eu veja naquela fração de segundo é real.
Eu estava sentado todo encolhido no chão do porão, minha mão esticada pra cima clicando sem parar o cordão da luz e virando a cabeça fracamente pro topo da escada. Eu já não fazia ideia de que hora ou que dia era, nem de quanto tempo eu estava lá embaixo — meus olhos ardiam de tanto encarar e meu braço latejava, mas nada mais importava.
Em meio ao meu transe, ouvi o passo firme e acolchoado de Diane se aproximando da porta do porão. Ela suspirou e passou a mão pelo cabelo. Eu a escuto começar a descer, mas no meu foco eu a perco completamente. É como se ela nem existisse. Tudo que eu consigo focar é o clique da luz e meu coração vacilante. Ligado, desligado, ligado, desligado, ligado. Talvez se eu apertar mais os olhos eu consiga ver melhor. Ligado, desligado, ligado, desligado. Tenho certeza de que se eu continuar tentando, o que quer que eu venha vendo vai finalmente ficar ali e me deixar ver o que é e finalmente me deixar descansar. Ligado, desligado, ligado, desligado, ligado...
— Por favor, você não quer vir pra cama? Eu fico te dizendo que não tem nada ali, querido. Deve ser estresse do trabalho.
Diane aperta os olhos contra o piscar alucinante da luz que eu faço puxando o cordão sem parar, estendendo a mão pra acariciar meu rosto. Eu quero me afastar do toque. Ela estava destruindo meu foco.
— Você está aqui embaixo há horas, isso tá começando a me preocupar de verdade.
Eu paro de clicar pra olhar pra ela. Olhar de verdade. Uma expressão preocupada puxa os cantos da boca dela numa linha apertada. Ela não acredita em mim nem um pouco.
— Você não entende… Eu… eu sei que tem alguma coisa ali, toda vez que eu ligo a luz. Eu juro que consigo ver. Por que você não acredita em mim? — sinto o desespero subindo pelo peito.
Ela suspira de novo e me aperta num abraço forte.
— Por que amanhã de manhã a gente não marca outra consulta com os médicos e vê o que dá pra fazer com essa insônia sua? Sabe, eu estava lendo que ficar acordado tempo demais pode causar alucinações e…
A voz dela some, as palavras viram estática nos meus ouvidos. Eu sinto todos os pelos do corpo se arrepiarem ao mesmo tempo. Na luz do porão, numa forma borrada, alguma coisa estava parada no topo da escada. Parecia alto e quase disforme, mas tão borrado e fraco que eu não conseguia distinguir quase nada além de uma expressão triste no “rosto” dele. Uma cara quase cômica de tristeza exagerada que me olhava vazia. Eu me arranquei dos braços de Diane e gritei o mais alto que consegui, lágrimas escorrendo pelo rosto. Meu corpo tremeu violentamente enquanto eu me arrastava pro canto da sala, tentando me proteger do que quer que estivesse ali. Diane ficou horrorizada, tentando me calar como se eu fosse criança e exigindo saber o que tinha acontecido.
— EU VI! POR QUE VOCÊ NÃO CONSEGUE VER! EU VI A EXPRESSÃO NO ROSTO DELE! — eu respiro fundo, tremendo —, POR FAVOR ME DIZ QUE VOCÊ CONSEGUE VER!
Eu cubro os olhos com as mãos e soluço pateticamente feito criança.
Ela suspira, exasperada, olhando rápido da minha forma aterrorizada pro topo da escada —
— Querido, eu fico te dizendo, não tem nada ali! Agora para de ser bobo e vem pra cama comigo.
Ela me arranca do chão e me arrasta escada acima direto pro nosso quarto. Eu não lembro muito dos dias seguintes — foi tudo um borrão de Diane basicamente me forçando a comer e me obrigando a levantar e andar, mas por mais que ela insistisse, eu não chegava nem perto do porão. Ela me fez prometer que eu não ia mais descer lá ou então a gente ia pros médicos e finalmente tomaria algum remédio.
Teve uma noite, porém, em que eu de repente me sentei ereto na cama e senti uma vontade esmagadora de ir pro porão. Pra não acordar Diane, eu andei pela casa o mais silencioso possível. Finalmente cheguei na porta do porão.
Meu coração batendo fora do peito, eu estendo a mão trêmula pra maçaneta e…
A luz se acende.
— Querido. Você me prometeu que não ia mais descer lá! Eu tentei ser o mais tolerante possível com esse comportamento, porque eu te amo e sempre tô do seu lado, mas agora você tá levando isso longe demais. Você tá doente mentalmente e a gente precisa fazer alguma coisa a respeito.
Ela me repreende como se eu fosse sujeira debaixo da bota dela. Ela nunca me entendeu. Sempre a mesma Diane cheia de condescendência.
— Diane, eu tô te dizendo do fundo do meu coração que tem alguma coisa ali. Eu vi da última vez que desci. Tá me deixando louco e a única forma de resolver isso é tentar ver por tempo suficiente, eu sei que—
— Sentir louco? VOCÊ É LOUCO! Você faz ideia do que eu tive que dizer pras pessoas? Pros nossos amigos? Eu tive que inventar histórias de que você tá tão ocupado com o trabalho que nem consegue mais sair de casa pra ver eles. Você não vai trabalhar há MESES!
A raiva sobe pelo meu peito e eu sinto os punhos se cerrarem. Diane dá um passo na minha direção, na direção da porta.
— E sabe de uma coisa? Eu vou abrir a porta e te mostrar que não tem nada ali, e essa sua fantasia finalmente vai acabar!
Ela puxa a porta com força, revelando a escuridão do porão lá embaixo.
— Viu? Eu te disse que—
Meu corpo age sozinho. Eu empurro Diane com toda a força escada abaixo. Ela olha pra mim em puro horror por uma fração de segundo antes de eu ver o corpo dela cair degrau por degrau e bater no concreto frio com um baque alto.
Meu peito sobe e desce. Tudo que eu escuto é um zumbido nos ouvidos.
Demora um tempo eu parado ali congelado antes de conseguir perceber o que fiz. A sensação volta pro meu corpo enquanto minhas pernas me carregam escada abaixo e eu embalo Diane nos braços, chorando pateticamente em cima dela.
Eu arrisco um último olhar pro topo da escada.
Ele está lá. Olhando pra mim. Dessa vez, com um sorriso cartunesco no rosto.


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