sexta-feira, 20 de março de 2026

O motel mais estranho em que já estive

Eu achei que ia ser um dia comum, mas não foi. Peguei um ônibus de linha pra cidade onde minha família mora, porque o casamento da minha irmã é amanhã. Desde o começo reparei que não tinha muita gente: uns doze passageiros, contando comigo. Tudo estava indo de boa… até o ônibus parar de repente no meio de uma estrada no meio do mato.

O motorista tentou ligar de novo, mas o motor não respondia. Ele desceu, tentou outra vez e ficou repetindo isso sem parar. Um dos passageiros perguntou o que estava acontecendo. “Acabou a gasolina”, ele disse, “mas vou chamar ajuda agora mesmo.”

Esperamos mais ou menos uma hora e os passageiros começaram a ficar putos. Um gritou nervoso: “Quanto tempo a gente vai ficar esperando? Quando é que essa ajuda vai chegar?” Outro completou: “Isso é responsabilidade sua como motorista! Como você deixa a gasolina acabar no meio da viagem, caralho?” A discussão continuou enquanto o motorista tentava acalmar todo mundo e pedia desculpas sem parar.

No fim, ele falou que tinha um motel ali perto. “Vocês podem ir descansar lá até a ajuda chegar”, disse ele, “pode demorar um pouco.” E pediu desculpa de novo.

Todo mundo desceu do ônibus e ele nos levou até o motel. O lugar ficava no meio da floresta. Fiquei surpresa, mas não pensei muito nisso. Eu estava morta de cansaço e só queria dormir.

Entramos no motel e na recepção tinha uma velhinha. Ela nos entregou as chaves dos quartos. Meu quarto era no andar de cima, os dos outros eram embaixo. Entrei no meu, me joguei na cama e apaguei na hora.

Acordei com risada vindo lá de baixo. Desci e vi que todo mundo estava reunido num dos quartos, jogando cartas e rindo pra caralho. Cumprimentei eles e perguntei sobre a ajuda, mas disseram que não sabiam de nada.

Fui até o ônibus. Ele ainda estava lá, mas o motorista tinha sumido. Imaginei que ele tinha ido buscar ajuda de algum jeito, então voltei pro meu quarto. Tentei matar o tempo de qualquer forma: peguei o celular, mas não tinha sinal nenhum. Acabei lendo um livro até pegar no sono de novo.

Acordei na manhã seguinte e percebi que já tinha passado um dia inteiro. Corri até os outros e falei: “Já é o dia seguinte e a ajuda ainda não chegou! Como isso é possível?” Um deles respondeu bem tranquilo: “Relaxa, não vale a pena se estressar tanto.” Aí todo mundo começou a rir. Outro falou: “Sinceramente, eu nem quero sair daqui. Eu gosto pra caralho deste lugar. E vocês, galera?” E riram de novo.

Aquela cara de não tô nem aí me deixou puta da vida. Fui checar o ônibus outra vez. Ele continuava no mesmo lugar, mas o motorista não apareceu. Fiquei lá um tempão esperando ele voltar com ajuda, mas nada aconteceu. Decidi voltar pro motel. Quando entrei, a velhinha me cumprimentou: “Não se preocupe, meu querido. Deixa nas mãos do destino.” Eu forcei um sorriso e fui pro meu quarto.

Antes de entrar, ouvi choro vindo do quarto ao lado. A porta estava entreaberta, então espiei. Tinha uma menininha encolhida na cama, chorando. Cumprimentei ela e perguntei o nome e por que estava chorando. Ela disse que se chamava Amy e que estava dormindo no carro. Quando acordou, os pais tinham sumido. Achou que eles tinham ido buscar alguma coisa e esperou um tempão dentro do carro antes de conseguir chegar até o motel. Agora ela estava apavorada porque não fazia ideia de onde os pais estavam.

Senti pena dela e fiquei do lado dela pra consolar. O sol começou a se pôr e eu percebi que ia passar mais um dia ali. Fiquei pensando na minha irmã… o casamento dela era pra ser hoje. Tentei ligar pra ela e pra minha família, mas não tinha sinal. Só esperava não ter estragado o dia especial dela.

Quando escureceu, voltei pro meu quarto e dormi. Na manhã seguinte acordei com o barulho de sempre dos outros. Como antes, estavam todos reunidos num quarto jogando cartas e rindo. Fui até o ônibus ver se tinha mudado alguma coisa. O que eu não sabia era que o que ia acontecer em seguida seria a experiência mais estranha da minha vida.

Antes mesmo de sair do motel, ouvi uma TV ligando. Era uma televisãozinha pequena, da velhinha.

“O ônibus 471 se envolveu num acidente na Rodovia 40, resultando na morte de vários passageiros, enquanto alguns permanecem em coma.”

A TV apagou. A reportagem tinha mostrado fotos das vítimas… e eu estava entre elas. Fiquei paralisada, sem conseguir entender o que estava acontecendo. “Isso é pegadinha?” Peguei o controle remoto e tentei ligar a TV de novo, mas não funcionou. Joguei o controle longe e corri pro ônibus, histérica. Tentei até ligar o ônibus eu mesma, mas óbvio que não mexeu.

Corri tentando escapar daquele lugar, mas sempre voltava pro mesmo ponto. Resignada, voltei pro motel e ouvi os outros rindo como sempre. Eles pareciam viver num mundo só deles, completamente indiferentes. Eu sentia que eu e a Amy éramos as únicas pessoas sãs ali.

Fui pro meu quarto, sentei na beira da cama e mergulhei em pensamentos profundos. A Amy interrompeu meus pensamentos e perguntou como eu estava. Eu a tranquilizei, sem querer contar coisas que eu mesma ainda não entendia direito. Ela saiu e eu finalmente me entreguei pro sono.

Acordei de novo, mas dessa vez não tinha nenhum barulho dos outros… só silêncio absoluto. Desci e procurei em todos os quartos, mas não tinha ninguém. Pra onde todo mundo tinha ido? Até a velhinha tinha desaparecido. Só a Amy continuava do meu lado, me seguindo desde que saí do quarto.

Fui até o ônibus, achando que talvez a ajuda tivesse chegado e todo mundo estivesse lá. Mas quando cheguei perto, o ônibus estava vazio, ainda no mesmo lugar, completamente deserto.

Fiquei ali esperando com a Amy. O medo e a tensão tomaram conta de cada pedacinho do meu corpo. Mas aí, de longe, do outro lado da estrada, eu vi a velhinha. Ela estava indo em direção à floresta. Eu e a Amy fomos atrás dela e eu gritei: “Para! Para!” Mas ela andava de um jeito estranhamente rápido, mesmo sem correr.

De repente ela parou no lugar e virou pra mim. Sorriu… e então tudo mergulhou num breu total. O motel, as árvores, o ônibus, a estrada… tudo desapareceu.

Quando abri os olhos, minha família estava em volta de mim. Eles estavam chorando, depois se abraçaram entre si e em seguida me abraçaram. Eu ainda não conseguia entender o que tinha acontecido.

Um homem entrou. Pelo uniforme, parecia ser um médico. “Graças a Deus você está salva, senhorita Elizabeth”, ele disse. Eu perguntei onde eu estava e o que tinha acontecido. Ele me contou que eu tinha ficado em coma por três dias depois do acidente. Infelizmente, todos os outros passageiros tinham morrido, exceto eu e o motorista, que só teve ferimentos leves. Depois ele saiu.

Fiquei imóvel. Minha família saiu do quarto pra me deixar descansar, mas eu estava perdida em pensamentos, lembrando das risadas dos passageiros, da velhinha, do motel e da Amy.

Será que tudo aquilo tinha sido só na minha cabeça? Um sonho, talvez? Não podia ser. Tinha parecido tão real… tão real pra caralho. Fiquei me perguntando que lugar era aquele. Se os passageiros tinham morrido no acidente, quem eram aquelas pessoas que eu vi no motel o tempo todo? Um arrepio percorreu meu corpo inteiro.

Minha estadia no hospital acabou e era hora de voltar pra casa. Na saída, passei por um quarto no corredor. Congelei quando vi o que tinha lá dentro. “Amy?” Era ela, a mesma menininha daquele lugar misterioso.

Ela me viu e ficamos nos encarando por um longo tempo, como se estivéssemos analisando uma à outra. Eu sentia que nós duas sabíamos exatamente o que a outra estava pensando, mas nenhuma de nós tinha respostas pras perguntas que giravam na nossa cabeça.

Ela sorriu pra mim e eu sorri de volta. Depois saí do hospital.

Fim

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