Depois de levantar uma pedra enlameada, encaixada entre dois brotinhos de grama-preta, uma centopeia pequena, marrom-escura, saiu rastejando e veio parar na palma da minha mão. Observei as perninhas minúsculas com curiosidade, sem saber na época o que era. As patinhas fizeram cócegas enquanto ela subia pelo meu antebraço, num tec-tec apressado.
Corri até a minha mãe, que estava sentada na varanda. Quando tentei mostrar para ela, ela disse, bem direta, que não sabia o que era. Que não estava vendo nada.
Quando insisti, os olhos dela se arregalaram e ela reconheceu o bicho, empolgada. Eu fiquei feliz naquele momento, sem perceber até muito tempo depois que ela só achava que eu tinha arrumado um novo amigo imaginário.
Não demorou para a centopeia subir o resto do caminho pelo meu braço e se enfiar por baixo da manga da minha camiseta. As pernas finas dançavam pela minha pele enquanto ela ia parar nas minhas costas. Quando voltei para o meu quarto, tirei a camiseta e olhei por cima do ombro, pelo espelho, enquanto o bichinho se acomodava bem em cima da minha coluna.
Meus dedos gordinhos de criança se atrapalhavam para alcançar as costas e puxá-lo, e no lugar disso eu só sentia os pezinhos pontudos pressionando a pele. Não lembro de doer naquela época; era só uma coceguinha, de um jeito que eu gostava de sentir.
Daí em diante, meu novo amigo ficou ali, às vezes rastejando um pouco para cima ou para baixo, às vezes no meu ombro ou na nuca. Algumas semanas depois de encontrá-lo, aprendi o que era um piolho-de-cobra num livro ilustrado. Foi aí que eu dei o nome dele: Mr. Wood. Pouco tempo depois percebi que ele era uma centopeia, não um piolho-de-cobra, mas o nome pegou.
Claro que, como qualquer criança, eu tentei contar para outras crianças, para professores também. Ninguém parecia “reconhecer” ele. Teve até uma época, lá pela quarta série, em que meus pais me levaram a um psiquiatra. Mr. Wood foi descartado como fruto da minha imaginação, algo que eu logo superaria.
A primeira vez que senti que tinha algo errado foi quando entrei na sexta série, numa escola nova. A gente estava se apresentando na aula de matemática. Quando chegou minha vez de levantar, senti uma fisgada aguda no meio das costas, e soltei um grito, achando que alguém tinha me cutucado com um lápis.
Os alunos riram de mim enquanto eu esfregava as costas. O calor conhecido da vergonha subiu pelas minhas bochechas, e eu segui o resto do dia, todo encolhido.
Quando cheguei em casa naquela tarde, minha mãe fez todas as perguntas que qualquer mãe faria depois do primeiro dia numa escola nova. Contei para ela do incidente na aula de matemática, e ela me deu uma bronca, dizendo que eu precisava crescer. Ela não queria ouvir mais nada sobre Mr. Wood.
Depois do sermão, fui para o meu quarto e tirei a camiseta para examiná-lo. Foi a primeira vez que percebi que ele tinha crescido. Fiquei chocado. Agora ele tinha a largura da minha coluna e pelo menos vinte, vinte e poucos centímetros de comprimento.
Depois disso, eu realmente comecei a sentir o peso dele, agarrado à minha coluna com as perninhas pontudas — cada uma puxando minha pele e beliscando para se manter firme.
Minhas mãos magrelas tentaram removê-lo, como eu fazia quando era menor. Meus dedos se fecharam em volta do exoesqueleto dele, quente e duro, e eu puxei com força. Em resposta, ele se enterrou mais na minha pele, e eu senti os membros dele abraçando o osso por baixo. Uma dor subiu pela minha coluna e eu fui obrigado a desistir.
Eu tentei guardar aquilo para mim, com medo da reação dos meus colegas e, Deus me livre, da minha própria mãe.
Eu sentia beliscões ou mordidas ocasionais quando estava fazendo prova ou apresentando algum trabalho. Nunca acontecia com frequência suficiente para eu me acostumar. Cada vez me pegava de surpresa e doía, e eu passava o resto do dia tremendo.
Eu odiava o Mr. Wood. Eu queria que ele sumisse. Mas eu não sabia o que fazer.
Depois de criar coragem e admitir para minha mãe que eu tinha dores nas costas, ela me levou a um especialista na oitava série. O médico não conseguia vê-lo.
Só depois de uma hora exposto e envergonhado, com minha pele pressionada contra um metal frio e duro, mandaram eu vestir a camiseta de novo. Ele não conseguiu me diagnosticar com nada além de dor crônica nas costas — algo para tratar com um ibuprofeno de vez em quando.
Apesar do quanto eu desejasse o contrário, só piorou quando entrei no ensino médio. Mr. Wood cresceu até ficar grande o bastante para eu sentir o peso dele o tempo todo. Eu fiquei corcunda.
As pernas dele se estendiam para os lados, envolvendo toda a lateral da minha caixa torácica. Elas me davam choques ardidos ao longo de cada dia. Por mais que doesse, eu convivia com aquilo.
Uma lembrança dessa época que se destaca foi quando eu estava no segundo ano do ensino médio. Eu saí da última aula numa sexta-feira com alguns colegas. A gente tinha combinado de ir para a casa de um deles assistir a um filme. Assim que atravessamos a porta da escola, Mr. Wood mordeu com força: as mandíbulas afiadas se fecharam em volta da minha coluna, bem abaixo da gola da camiseta.
Eu gritei de dor, como se um fogo disparasse pelas minhas costas e ombros. Caí no asfalto. Os outros fingiram preocupação, mas no fim eu fui deixado para trás, mancando para casa sozinho.
Virou um fardo constante e, com o tempo, eu desisti da vida social. Eu tinha que ficar em casa. Continuei tomando remédio a pedido da minha mãe, mesmo sabendo que não ia funcionar. Eu tinha que deitar do jeito exato para a dor diminuir. Só eu e Mr. Wood.
No fim do ensino médio, embora eu tivesse conseguido me virar bem com as notas, eu não tinha mais nenhum amigo. Mesmo com a dor, eu consegui manter viva minha única paixão de verdade: música.
Eu vinha praticando trompete com a intenção de me inscrever em faculdades de música. Horas e horas de preparação, trancado sozinho num quarto. Era a única coisa que realmente acrescentava algo à minha vida de um jeito que eu gostava. Por sorte, Mr. Wood geralmente me deixava em paz nesses momentos.
Quando finalmente chegou a época das audições, eu dirigi três horas para o norte até uma das escolas para as quais eu tinha me candidatado. Senti o peso familiar de Mr. Wood voltar assim que saí do carro e me aproximei do prédio.
Eu recebi um crachá e fui encaminhado para a sala de aquecimento. Eu me perguntava se eles conseguiam ver o monstro nas minhas costas por baixo da minha camisa de gola. As pernas dele se enrolaram em volta do meu tronco inteiro enquanto eu sentava ali, tentando tocar algumas notas.
Quando me chamaram para entrar na sala de concertos para a audição, eu mal consegui ficar de pé. O peso dele era absurdo, como se eu estivesse carregando uma mochila de trilha cheia. Quando cheguei à porta, minha testa estava escorrendo de suor. Meu estômago revirava e parecia que um buraco sem fundo se abria dentro de mim.
Chamaram meu nome. Eu entrei. Os jurados estavam bem longe, no salão vazio, atrás de cortinas. Eles pediram o primeiro trecho.
Eu puxei um ar trêmulo e tentei me acalmar. Levei o bocal aos lábios e comecei a tocar.
Começou claramente tremido, mas aceitável. Mr. Wood apertou as pernas em volta da minha caixa torácica, empurrando os ossos contra meus pulmões. Minha respiração travou na garganta e eu mal conseguia respirar.
As notas começaram a falhar e morrer, caindo moles na primeira fileira de cadeiras vazias.
Um arrepio atravessou meu corpo inteiro quando ouvi aquele som. Terminei o trecho de qualquer jeito, espasmódico, e abaixei o instrumento. Mr. Wood apertou ainda mais e minhas bochechas ficaram vermelhas.
Eles pediram o próximo trecho.
Eu suspirei aliviado. Eu estava apavorado, achando que iam me expulsar. Quando Mr. Wood relaxou, eu também comecei a relaxar. Levantei o instrumento e comecei a tocar.
De repente, as mandíbulas se fecharam na base da minha nuca e se cravaram na minha pele, fundo, espalhando um calor aterrorizante em um instante.
Tirei o instrumento do rosto, mal conseguindo segurar com a mão esquerda. Eu me curvei e a minha boca ficou aberta, gritando sem som, fazendo de tudo para conter a minha miséria para que os jurados não ouvissem. O suor brotava e pingava no chão, gota por gota, sumindo na madeira.
Levei a mão atrás da cabeça e toquei a cabeça dele, maior do que a palma da minha mão. Era quente e dura. Eu puxei; meus dedos se cortaram ao agarrar as bordas do exoesqueleto. Puxar só fez ele cravar mais fundo, e a dor era elétrica. Eu senti algo quente e pegajoso.
Minha mão direita estava coberta de sangue.
“Ah… obrigado. Você pode sair pela porta lateral agora”, disse um jurado sem rosto, tentando não demonstrar constrangimento pela minha apresentação. A voz me deixou zonzo.
Eu manquei para fora da sala. Quando uma assistente me encontrou no corredor, o sangue já tinha sumido. A cabeça de Mr. Wood não aparecia mais acima da minha gola.
Assim que saí do prédio, desabei na grama e chorei, soluçando. Todo aquele tempo. Todo aquele esforço. Tudo inundou minha mente de uma vez. Eu tinha estragado tudo.
Não.
Ele tinha estragado tudo.
Alguma coisa precisava ser feita. Não importava o preço. Eu decidi ali mesmo.
Naquela mesma noite eu voltei para casa e mantive minhas respostas vagas quando meus pais perguntaram. Eu tentei não reviver a audição na minha cabeça, mas ela continuava voltando. Eu estava com vergonha.
Quando fui para o meu quarto dormir, fiz questão de trancar a porta. Tirei a camiseta e olhei no espelho.
Meu corpo ficou dormente.
Mr. Wood cobria toda a extensão das minhas costas; os segmentos marrom-escuros alaranjados eram duros, bem definidos, brilhando na luz. As pernas dele davam a volta e vinham até a frente do meu corpo, prendendo firme na minha caixa torácica e no estômago. Pezinhos pontudos perfuravam a minha pele onde ele tinha se enterrado. Dois tubos gigantes, as antenas, se projetavam acima da minha cabeça.
Na parte de trás do meu pescoço ficava a boca. As duas mandíbulas gigantes, mais parecidas com garras pretas de lagosta, estavam presas rigidamente no topo da minha coluna.
Eu me preparei. Minhas mãos úmidas se fecharam em volta dos lados do segmento do meio que cobria minhas costas. Senti as bordas afiadas e a parte de baixo macia e quente. Empurrei com força para afastá-lo das minhas costas.
A borda da carapaça cortou fundo as pontas dos meus dedos, ao mesmo tempo em que as pontas das pernas dele rasgavam a pele do meu estômago. Eu não consegui segurar o grito de dor e empurrei mais. Sangue e suor escorreram para o chão.
Era como se um fogo estivesse derretendo meu tronco inteiro. Meu peito parecia um presente de Natal sendo rasgado, pedaços de músculo vermelho aparecendo por baixo. Eu puxei com ainda mais força e, por fim, as pernas perderam a firmeza; cada uma se debateu frenética no ar ao perder contato comigo.
No exato momento em que a última se soltou, as mandíbulas morderam.
Elas se cravaram fundo no meu pescoço e sangue vermelho-vivo espirrou no chão. Eu caí de joelhos e travei a mandíbula. Eu senti o aperto delas na minha coluna. Cada puxão depois disso trazia uma dor imensa, paralisante. Eu tinha que parar.
Eu soltei o corpo e me levantei. Olhei em volta do quarto com os olhos cheios d’água até, por fim, fixar o olhar no canto afiado da cômoda ali perto. Cambaleei até ela e virei as costas.
Eu joguei minhas costas contra o canto. Ouvi um estalo alto e um guincho agudo atrás da minha cabeça. As mandíbulas afrouxaram um pouco. Eu me projetei para a frente. Enterrei os calcanhares no chão e bati a coluna na cômoda de novo.
Um impacto úmido, visceral. Ouvi algo espirrar no chão, e vi tripas marrons e estilhaços negros de algo rígido se acumulando numa poça abaixo das minhas pernas. As mandíbulas afrouxaram de novo.
Quando eu levantei o corpo, as mandíbulas se fecharam com força renovada, cortando mais fundo dentro de mim. Minha cabeça inclinou para a frente sem eu conseguir controlar, e eu senti o ar frio passar por um enorme talho atrás das orelhas. Com mais um impulso, eu me atirei contra a quina de madeira afiada.
Outro grito de rasgar os ouvidos atrás de mim veio antes de um baque pesado, quando a metade de baixo de Mr. Wood caiu no chão num emaranhado de pernas e vísceras. As mandíbulas finalmente se abriram, permitindo que o resto dele caísse na pilha. Eu caí para a frente, sem conseguir me apoiar, e desabei no chão.
Num torpor dolorido, eu observei do chão a metade da frente de Mr. Wood erguer as antenas acima da poça de órgãos. Ele vasculhou o chão com elas e então saiu correndo, rápido, deixando um rastro marrom e pegajoso para trás.
Fechei os olhos e abracei o chão frio. A dor foi sumindo aos poucos. Quando abri os olhos de novo, as vísceras tinham desaparecido. Não havia mais sangue. Nenhuma evidência de luta. Quando me sentei, percebi que eu não estava mais ferido.
Fiz uma careta ao tocar a nuca, que estava completamente normal. Eu me levantei e examinei o quarto. Nenhum sinal de Mr. Wood.
Isso foi há um mês. No começo foi bom, o peso ter sumido. Eu fiquei genuinamente feliz naquela manhã. E, na verdade, eu ainda estou mais feliz.
Mas ainda sinto uma sensação persistente, aquela cócega na minha nuca. Eu não vi Mr. Wood desde que ele se arrastou para fora da minha vista.
Mas eu ouço. As perninhas dele fazendo tec-tec dentro das paredes. No teto.
Em qualquer lugar para onde eu vou.
Sempre perto de mim.


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