Ele ficou preso numa instituição mental, determinado por lei, durante toda a minha vida. Eu nunca tive permissão pra visitá-lo. Por isso, nunca cheguei a conhecê-lo de verdade como pessoa. Só ouvi as histórias.
Ataques aleatórios contra pessoas. Quebrar objetos. Ser um incômodo pra sociedade. O que o mandou embora de vez foi quando ele atropelou treze pessoas com o carro. A maioria morreu. Eles acham que foi o início de uma doença cognitiva grave causada por anos de encefalopatia traumática crônica do tempo que ele passou no exército. Eu sei que não foi isso.
Me deram o relógio dele no funeral. Não sei exatamente por que meu pai me deu aquilo. Acho que ele pensou que seria um gesto legal. O peso era leve na minha mão. Barato. Um relógio automático simples, prateado, com pulseira de couro surrado.
Tinha algo gravado na parte de trás.
Um sigilo. Tipo daqueles de filme de possessão. Dois triângulos se cruzando, como a Estrela de Davi, mas o canto do triângulo que aponta pra cima foi substituído por um quadrado. Tudo cercado por um círculo. Permanentemente entalhado no fundo de metal.
Embora eu não fosse muito de usar relógio, coloquei ele nos dias seguintes. Era uma sensação boa ter algo com história comigo o tempo todo.
Uma manhã, quando acordei e olhei a hora, alguma coisa mudou.
Enquanto eu estava sentado ali, as linhas minúsculas que formavam os números ao redor da borda do mostrador começaram a se mexer. Eu aproximei o relógio dos meus olhos cansados. Elas se moviam rápido, se reorganizando no centro do relógio pra formar palavras.
SEGURE A RESPIRAÇÃO
Eu fiquei perplexo. Achei que devia estar sonhando. Não segurei a respiração. Só fiquei ali sentado, olhando, boquiaberto.
De repente, uma dor lancinante irradiou pelo meu pulso. Parecia que estavam me espetando com um monte de agulhas. Eu me encolhi e apertei o lugar com a outra mão. Durou só uns segundos. Quando olhei de novo pro relógio, ele tinha voltado ao normal.
Com o pulso ainda latejando, tentei tirar o relógio. As pulseiras soltaram fácil, mas a caixa não. Quando eu levantei, a pele de baixo veio junto, doendo pra caralho. Parecia que minha pele tinha sido colada com supercola no fundo.
Depois de tentar todas as opções que consegui pensar pra tirar aquilo, desisti e deixei no braço. Eu precisava ir pra aula.
No final da primeira aula do dia, logo quando o professor dispensou todo mundo, senti uma vibração fraca no pulso. Olhei pra baixo.
As letras se reorganizaram.
TROPECE NA PRÓXIMA PESSOA NO CORREDOR
Eu ri alto da absurdidade daquilo. Tropeçar em alguém? Olhei pros alunos começando a se levantar e descer pelo corredor. A primeira pessoa estava prestes a passar por mim, já que eu estava na ponta da fileira. Pensei por um segundo em realmente fazer aquilo, mas meu pé hesitou.
Ela passou por mim sem nada acontecer.
Ouvi um clique baixo e um rangido curto vindo do relógio. Antes que eu conseguisse olhar pra baixo, uma dor intensa de facada subiu pelo meu antebraço a partir do pulso. Parecia que estavam me esfaqueando. Meu maxilar travou e eu tentei manter uma cara normal.
Quando a dor parou, uns quinze segundos depois, a pele ao redor do meu pulso tinha ficado pálida. Olhando mais de perto, agora eu conseguia ver umas linhas escuras e fracas saindo em jatos debaixo da minha pele, partindo da caixa do relógio.
Eu saí rápido da sala.
Durante a segunda aula do dia, sentado num auditório gigante, ouvindo o professor falar sem parar sobre cálculo, senti outra vibração. Olhei pra baixo.
ROUBE A CARTEIRA DELA
Virei pra direita. Uma garota estava sentada do meu lado, com o rosto virado pra baixo, provavelmente dormindo. A carteira dela estava bem ali na mesa. Imaginando a dor intensa debaixo do relógio, minha mão direita começou a tremer. Eu precisava pegar aquela carteira. Que se foda as consequências. Não era tão grave assim, né?
Logo quando eu estava a um centímetro de tocar nela, ela acordou com um susto. Minha mão recuou por instinto.
Droga. Se eu conseguisse só—
Meu pensamento foi interrompido pelo disparo rápido de todos os nervos do meu pulso e da mão. Foi tão absurdamente ruim que eu não consegui segurar um gemido de dor que escapou da minha boca. Minha pele parecia que estava sendo esfolada e o osso por baixo esmagado até virar pó.
Eu agarrei a borda da mesa pra me apoiar enquanto balançava com as ondas de sofrimento. Dessa vez não parou por vários minutos. Já tinha uma camada de suor frio na minha testa.
Inspecionando o relógio, vi que a pele ao redor das pulseiras de couro tinha crescido por cima das bordas. Ou talvez o couro estivesse afundando na pele. Difícil dizer. Mas quando puxei levemente a pulseira, ficou claro que estava completamente fundido em mim.
Minha cabeça disparou.
Se eu conseguisse só chegar em algum lugar privado…
O horário no relógio me dizia que eu nem estava na metade da aula ainda. Tentei só ficar sentado e me concentrar no conteúdo da matéria. Torci pra acabar logo.
Logo antes do fim do horário da aula, a vibração veio de novo. Meu estômago caiu.
ESFAQUEIE ELA
Percebi então que eu estava apertando um lápis apontado com força na mão direita. A garota do meu lado tinha a mão esquerda aberta e plana na mesa.
Meu coração começou a bater forte. Sem tempo pra racionalizar. Eu não aguentava mais aquilo. Minha mão tremia de expectativa enquanto eu me preparava mentalmente pra sair correndo da sala. Levantei a mão.
O lápis desceu num golpe rápido, atravessando a carne macia da mão da garota como se fosse manteiga. Ficou cravado na madeira embaixo. Um grito violento e um filete de sangue caindo na minha mão me disseram que eu precisava cair fora. Peguei minha mochila e corri da sala.
Cheguei em casa logo depois. No meio da correria toda, nem percebi dor nenhuma no pulso. Visualmente, não parecia diferente do que estava antes daquela tarefa horrível. Uma onda doentia de alívio passou por mim.
Pensando agora, percebo que não foi a decisão certa. Mas naquela noite, depois de horas sem nada do relógio, eu me senti mais seguro. Comecei a preparar o jantar, o que envolvia cortar um tomate enquanto a água fervia numa panela no fogão.
Eu estremeci e errei o trajeto da facada quando uma nova vibração me fez pular. Apertei a faca de cozinha com a mão direita e fiz uma careta enquanto olhava pro mostrador do relógio.
CORTA FORA UM DEDO
A adrenalina subiu pela minha espinha e eu considerei minhas opções. Por mais que eu não quisesse fazer aquilo, imaginei as possíveis consequências. Me vi sem o mindinho.
Nem fodendo. Isso não é uma troca justa.
Enfiei a faca no tabuleiro de corte. Achei que perder um dedo era pior do que o relógio ficar ainda mais preso do que já estava. Me preparei.
Metal derretido encharcou minha pele e entrou nas minhas veias. Tudo queimou numa dor branca incandescente pior do que qualquer coisa que eu já tinha sentido antes. Eu desabei no chão em agonia e comecei a chorar.
O metal prateado do relógio estava se espalhando pela minha pele, crescendo e se enraizando. Virando parte do meu braço. Gemidos mecânicos, cliques e zumbidos ecoavam nos meus ouvidos. Eu gritei.
Meu grito alertou meu colega de quarto. Ele correu pra cozinha pra ver o que estava acontecendo. Me encontrou encolhido no chão de azulejo, chorando e apertando o pulso.
Eu mandei ele sair. Mas ele não quis escutar.
Depois de meia hora, a dor foi diminuindo aos poucos. Ele se recusou a sair do meu lado, não querendo me deixar sozinho porque eu não deixei ele chamar uma ambulância. Eu conseguia ver que a visão do meu braço tinha deixado ele apavorado.
Bzzzt.
Meus dentes teriam se quebrado se eu tivesse apertado o maxilar mais forte quando senti aquilo. Olhei pro meu braço mecânico se contorcendo.
JOGA ÁGUA FERVENDO NELE
Eu não tive nenhum escrúpulo. Não conseguia pensar numa solução melhor. Não ia deixar aquilo progredir mais.
Tirei o braço do meu colega de quarto do meu ombro e me levantei sem dizer uma palavra. Caminhei até a panela grande de água, que agora fervia violentamente. Sem hesitar, segurei uma das alças com a mão direita e joguei nela sem direção.
A água voou pela sala num arco fumegante, atingindo ele antes que conseguisse se mexer. A água fervendo espirrou no rosto, peito, braços, tudo. Encharcando as roupas. Ele gritou de um jeito que me abalou até o fundo da alma.
Uma nuvem de vapor se formou ao redor dele enquanto a pele ficava vermelha, depois mais escura, e então começou a chiar, estourar e rachar. O ar fedia a carne queimada e cabelo.
Visões do meu avô passaram pela minha cabeça. As histórias. As treze pessoas. A mão da garota. O cara estendido no chão na minha frente.
Quantas pessoas mais?
Eu soube naquele momento que ia ser até eu morrer. Eu ia ser igualzinho ao meu avô. Olhei pra baixo enquanto meu pulso vibrou mais uma vez.
MATE ELE
Não.
Eu virei e corri pro tabuleiro de corte.
Enfiei um pano de prato na boca. Peguei a faca de cozinha, com os nós dos dedos brancos. Joguei meu braço pesado e mecânico em cima do tabuleiro, batendo com um peso imenso. Segui o metal até o fim. Mais ou menos na metade do antebraço.
Antes que eu conseguisse me impedir, cravei a faca na carne macia e pálida. Ela afundou fácil, a dor menos intensa que a do relógio. O sangue começou a jorrar rápido da ferida que crescia enquanto eu serrava.
Lutei pra atravessar o osso, duro e escorregadio no meio daquela bagunça sangrenta. Apertando todo o meu peso, ouvi dois estalos molhados e doentios. Minha cabeça ficou tonta. O mundo girou.
No final, o último pedaço de carne se separou sob a lâmina e eu ouvi o barulho familiar da faca batendo no tabuleiro.
Eu me afastei da bancada e meu braço esquerdo não veio junto. A coisa meio metal meio carne ficou morta numa poça de sangue. Peguei todos os panos de prato da cozinha e apertei com força no meu coto sangrando. Tropecei no corpo carbonizado e mal respirando do meu colega de quarto enquanto corria pro telefone.
Estou escrevendo isso tudo de uma cama de hospital. Já faz uns dois dias. Estou estável agora. Acho que eles vão trazer gente de psiquiatria pra me ver em breve. Então estou preparando minha história.
Quer acreditem ou não, eu sei a verdade sobre o meu avô.
Não repitam os mesmos erros que as famílias de vocês cometeram. Não vale a pena.


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