Eram 8h da manhã de segunda-feira. Aula de Fisiologia Comparada. Se você já passou por isso, sabe o quanto pode ser um saco do caralho.
Todo mundo estava ou dormindo ou num torpor enevoado. O professor falava arrastado sobre ciclos de sono em mamíferos e como eles se ajustam a diferentes fontes de luz ao longo das estações. Aí ele disse uma coisa completamente diferente.
“Como todos sabemos, o cérebro humano, ao contrário do de outros primatas, consegue funcionar em homeostase com apenas 30 minutos de sono por noite, em média”, falou ele, com uma cara totalmente séria que negava o absurdo da afirmação.
Eu levantei o olhar, confuso. Ele estava zoando? A expressão e a linguagem corporal dele pareciam as de um agente funerário no fim de um plantão de 12 horas. Olhei mais pra cima, pros slides projetados na tela.
Tinha um diagrama absurdamente detalhado do sistema nervoso dentro da cabeça humana. Um mapa complexo de linhas entrecruzadas com setas apontando para várias partes estava sobreposto em cima do cérebro e dos olhos. Eu não fazia a menor ideia do que era aquilo. Não se parecia com nenhum diagrama que eu já tinha visto antes, e a frase dele era estranha pra caralho.
Antes que eu conseguisse olhar melhor, ele clicou no controle remoto e pulou pro slide seguinte. Não tinha nada a ver com o que eu tinha acabado de ver.
Olhei pros lados pros meus colegas e ninguém estava nem aí, ninguém piscou.
Pensando que provavelmente eu só estava entendendo merda da matéria, fui falar com o professor depois da aula.
“Professor Davis, pode explicar aquele diagrama de novo? O do cérebro humano? Aquela coisa sobre dormir?”
“Uh, qual slide você tá falando? A gente não cobriu nada sobre comportamento de sono humano. Era só sobre diferentes espécies de urso.” Ele me olhou franzindo a testa.
“E aquele slide com o cérebro? Você falou alguma coisa sobre quanto tempo os humanos dormem. Né?”
“Não, não tô entendendo do que você tá falando. Com certeza não teve nada disso hoje. Talvez você tenha sonhado!”, ele riu de si mesmo.
“É… talvez.” Dei uma risada falsa. “Acho que vou só checar a apresentação da aula de novo quando chegar em casa.”
Ele riu de novo enquanto eu saía do auditório.
Mais tarde naquele dia, quando voltei pro dormitório, abri o notebook na hora e fui conferir a apresentação da aula. Estudei cada slide com calma e não achei porra nenhuma. Era tudo sobre urso mesmo. Será que eu tinha dormido na aula? Sonhado com aquilo?
Eu jurava que tinha acontecido. Aquele diagrama era bizarro. Aquela rede de linhas em cima do cérebro. Que porra era aquela?
Embora um pouco abalado, tentei deixar pra lá.
Mas naquela mesma noite eu senti. Alguma coisa dentro do meu cérebro. Meu crânio parecia um ovo cozido sendo descascado. Senti uma coceira leve debaixo da pele do couro cabeludo que eu não conseguia aliviar de jeito nenhum. E aquilo me deixou acordado. Fiquei encarando o teto por horas, tentando só desligar o cérebro e cair no sono. Mas eu simplesmente não conseguia.
Às 6h eu desisti. Sentei na cama e esfreguei os olhos. Meu corpo estava destruído de cansado. Mas meu cérebro não parava quieto. Levantei e me vesti pro dia.
Apesar de estar me sentindo exausto o dia inteiro, a terça-feira correu até que normal. Meu corpo estava louco pra deitar na cama de novo, mas minha cabeça estava apavorada com isso. Eu já tinha certeza de que tinha a ver com aquela aula. E a próxima era na manhã seguinte, às 8h.
Outra noite sem pregar o olho.
Quando terminei de fingir que dormia, me arrastei nervoso pra me vestir e fui caminhando pra Fisiologia Comparada.
A aula estava falando sobre adaptações que mamíferos em ambientes úmidos fazem pra sobreviver melhor e usar o corpo de forma mais eficiente. Nos primeiros minutos estava tudo normal.
“Claro, o corpo humano tende a piscar bem menos quando a pessoa está adaptada a ambientes equatoriais úmidos. Como aqui.” Ele olhou ao redor, cruzando rapidamente o olhar com o meu. “Na verdade, o olho consegue funcionar praticamente sem pálpebras nenhuma.”
Meus olhos voaram pro slide, mas ele clicou rápido demais. Não consegui ver. Fiquei encarando a tela com força, sentindo um buraco se abrindo no estômago. Que merda tinha ali? Prestei atenção redobrada nas anotações.
Seja lá o que fosse, os efeitos da minha insônia tomaram conta. Meus olhos pareciam pesados pra caralho, quase queimando. Foi aí que percebi que não tinha piscado desde que olhei pra cima. Quanto tempo tinha sido?
Olhei pro relógio. 8h46.
Não podia estar certo. Eu devia estar encarando direto a tela por pelo menos… 30 minutos? Meus olhos começaram a arder pra valer.
Quando tentei forçar as pálpebras a fecharem, nada aconteceu. O conforto normal da escuridão não veio. Senti lágrimas começando a se formar nas bordas.
Virei pro cara do lado. Ele estava dormindo. Agarrei o ombro dele e sacudi.
“Ei cara, você viu aquele slide sobre o olho humano?” O desespero na minha voz saiu mais do que eu queria.
“O quê? Eu não tava prestando muita atenção.” Ele abaixou a cabeça de novo.
Eu estava começando a me sentir louco. Talvez eu fosse?
Não. Impossível.
Meus olhos queimavam pra porra. Fiquei contando os minutos. Quando deu 8h50, levantei na hora da carteira e marchei pra frente da sala com as pernas tremendo.
“Professor Davis. Quanto tempo um ser humano precisa dormir?” Minha voz cansada estava falhando.
“Hum, não sei bem o que você quer dizer. Oito horas por noite?” Ele deu um sorrisinho rápido que sumiu na hora que olhou nos meus olhos. “Se você tá com dificuldade pra prova do meio do semestre que vem aí, pode sempre aparecer no meu horário de atendimento.”
“Não… eu, eu, só aquela coisa que você falou hoje. Sobre piscar? O olho? Umidade? Alguma coisa?” Fiquei olhando fixo pra ele, segurando a mesa dele pra não cair.
Ele franziu a testa. “Você tá se sentindo bem? Tá com cara de doente. Sabe que pode ir pro posto de saúde dos alunos–”
Eu virei as costas e saí andando enquanto ele ainda falava. Ele não ia me ajudar.
Quando cheguei em casa à noite já estava insuportável. Meus olhos pareciam que estavam jogando metal derretido neles. As lágrimas já tinham secado fazia tempo. Minha mente estava a mil. Eu não sabia o que fazer.
Davis tinha dedo nisso. Eu sabia. Ele estava fazendo alguma coisa comigo. Só não sabia exatamente o quê.
Passei o resto da noite tentando me concentrar nos estudos pra prova de outra matéria que eu tinha no dia seguinte. Nem preciso dizer que não rolou. Na manhã seguinte eu me fodi bonito. Mal conseguia segurar o lápis direito. Minha cabeça estava numa névoa grossa sem fim.
O resto da quinta-feira foi igual. Se alguma coisa, foi pior ainda. Eu percebia que as pessoas estavam me evitando agora. Desviando o olhar quando falavam comigo. Me encarando quando achavam que eu não ia notar.
O dia passou numa névoa cinzenta.
8h. Sexta-feira. Fisiologia Comparada.
Eu estava largado na carteira, mal conseguindo ficar sentado sem cair. A aula era sobre organismos coloniais. A caravela-portuguesa. Aí ele mudou o rumo.
“Assim como a caravela-portuguesa, nossos corpos estão numa relação bem próxima com um organismo.” Ele clicou no controle.
“Filaria habitans”, disse ele, o slide novo brilhando acima da cabeça dele. Mostrava um mapa completo do sistema nervoso humano ao lado de uma rede secundária de tubos e linhas espalhada pelo corpo inteiro. Parecia se juntar num núcleo parecido com tumor no estômago.
“Esse organismo, feito de 320 quilômetros de tubos, se origina dentro do estômago quando a gente come certos alimentos que contêm os ovos dele. O núcleo da filaria cresce dentro do hospedeiro, ajudando na saúde do microbioma intestinal, até chegar num certo tamanho.” A pele pálida e os olhos mortos dele davam uma aparência vazia enquanto ele falava.
Levantei a mão.
“Sim?” Ele apontou pra mim.
“Do que você tá falando? Que porra é essa? Isso não é real. Sou o único prestando atenção aqui?” Olhei ao redor, mas ninguém nem se mexeu.
Ele deu uma risadinha. “Eles não ligam. Não vão te escutar.”
“O quê? O que tá acontecendo? Por que eu não consigo mais dormir? Por que não consigo piscar?” Só aí percebi que minhas unhas estavam cravadas na carteira, sangrando.
“Tá dentro de você agora. Sempre esteve. Quando chegar no ápice, vai ter que sair.” Ele apertou o maxilar.
Fiquei olhando pra ele sem acreditar, com minha visão distorcida e seca.
“Enfim, vamos continuar”, disse ele, clicando no controle e indo pro slide seguinte. Voltou pra caravela-portuguesa.
Eu senti no estômago. Uma massa. Do tamanho de uma toranja. Se mexendo, gemendo. Levantei e saí da aula direto pra casa.
Quando cheguei no quarto já estava enjoado pra caralho. O mundo estava começando a rodar. A velocidade com que tudo isso avançou foi demais. Eu sentia que ia vomitar.
Desabei no chão e comecei a ter ânsia seca. A toranja no meu estômago subia e descia, chegando cada vez mais perto da garganta. Cuspe grosso escorrendo da boca, os nós dos dedos brancos enquanto eu agarrava o carpete.
Senti minha garganta se esticar até o limite e além, queimando enquanto a massa rasgava caminho pra fora. Meu maxilar rachou e estalou quando a coisa espremeu pro chão com um ploft molhado.
Era pálida, cheia de veias, mais ou menos redonda. Coberta por uns pelinhos brancos minúsculos que saíam pra todos os lados. Tudo brilhava na luz do quarto, encharcado de bile e cuspe.
Fechei os olhos. Um alívio gelado me invadiu e, pela primeira vez em anos, eu não vi mais nada.
Estou escrevendo tudo isso depois de ter dormido direto as últimas 15 horas. Foi o melhor sono da minha vida.
Talvez se eu não tivesse visto, nada disso teria acontecido.
Se você é estudante, talvez seja ok dormir na aula de vez em quando.


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