terça-feira, 10 de março de 2026

Tenho alguns minutos antes do meu voo embarcar. Preciso que alguém saiba o que aconteceu...

Como conselheira familiar, já vi a humanidade no seu pior absoluto.

Pais alcoólatras descontando a frustração em crianças indefesas. Adolescentes com dismorfia corporal que mal chegam aos quarenta quilos e estão convencidas de que são obesas. Garotos atolados em subculturas obscuras da internet se cortando os pulsos com canivetes. Mães que tentam suicídio depois de sobreviver uma década de amor não correspondido só pra serem trocadas por uma versão mais nova.

Eu poderia entrar em detalhes absurdos sobre casos específicos que você nem acreditaria, e depois disso você nunca mais conseguiria andar por uma rua de subúrbio sem ficar imaginando o que diabos está acontecendo por trás daquelas cortinas. Mas não vou. Vou poupar sua imaginação. Em vez disso, deixa eu te contar sobre a minha visita domiciliar mais recente — que, por acaso, tenho certeza que vai ser a última da minha vida.

Estacionei em frente ao jardim de uma casa bem comum e chequei minha prancheta. Com a caneta, risquei o último endereço da lista e desci do carro. Levantei a aldrava de bronze em formato de esquilo e bati as patinhas traseiras dela três vezes contra a placa de metal. Uma senhora baixa, sorridente, de cabelo acobreado e pés de galinha ao redor dos olhos me recebeu e me fez entrar. O resto da família recomposta já estava sentado ao redor da mesa de mármore da sala de jantar. Sentei no lugar que me ofereceram e olhei um por um para cada membro daquele grupo.

Na cabeceira da mesa tinha um homem grandalhão, cabeça raspada, que me fuzilava por trás de óculos de armação fina. Ao lado dele, uma menina de doze anos de cabelo escuro cujo olhar captava cada tique e cada movimento nervoso dos outros. Atenta, mas calada, ela parecia uma lebre escondida num tufo de grama-das-dunas, torcendo pra raposa passar em paz. O jovem adulto na frente dela era um espetáculo triste pros meus olhos treinados. Pálido, magro feito um varapau, com o olhar baixo de quem já se considera condenado. A mulher que me recebeu — que só podia ser a mãe do rapaz por causa da cor de cabelo idêntica — fechou a porta e sentou.

A sessão começou com aquelas formalidades de sempre e esclarecimento de detalhes rotineiros. Confirmei que o motivo do encaminhamento ainda era válido: a família realmente precisava de ajuda pra lidar com desentendimentos e mal-entendidos, principalmente entre o padrasto e o enteado.

— Então — eu disse, abrindo meu caderno. — Quem quer começar?

Um silêncio ensurdecedor tomou conta. Eu estava prestes a cutucar o grandalhão pra dar a versão dele quando o adolescente abatido falou de repente.

— Eu posso, se estiver tudo bem.

— Claro. Pode falar — respondi, clicando a caneta e encostando na página.

— Teve um incidente ontem à noite em que eu senti que minha privacidade foi invadida — ele disse. O grandalhão jogou a cabeça pra trás feito uma bola de rúgbi e suspirou pesado.

— O que aconteceu? — perguntei.

— Eu cheguei do trabalho e—

— Ryan, se você não gosta, vai morar com o seu pai — cortou o grandalhão.

A esposa dele e eu pedimos calmamente pra ele esperar, o que fez ele bufar e revirar os olhos. Depois de um segundo pra se recompor, Ryan contou o que rolou na noite anterior. Quando terminei de anotar tudo, pigarreei e perguntei pro grandalhão se ele queria dar a versão dele. Ele ficou lá, emburrado, de braços cruzados bem alto no peito.

— Se ele não gosta das regras, pode ir morar com o pai dele — repetiu.

Vale notar aqui que, em vez de me chamar pelo título e sobrenome como o enteado tinha feito e como a esposa dele havia feito por telefone mais cedo, ele me chamou pelo primeiro nome. Eu não tinha me apresentado assim. Era firmemente “Senhora Sobrenome”. Mas esse cara decidiu que podia fazer o que quisesse. Era revelador. Achando que ele devia ter visto meu nome no crachá pendurado no pescoço, enfiei ele de volta pra dentro do cardigã. Com esses filhos da puta que são arrastados pra terapia familiar aos berros, eles tentam inventar motivos pra fazer a parceira cancelar a sessão. Na hora, eu pensei que ele estava tentando um joguinho de poder pra me desestabilizar, na esperança de que eu me ofendesse ou corrigisse ele. Se eu fizesse isso, ele ia dizer que eu estava sendo parcial e que a coisa toda era inútil. Eu não ia dar essa vitória pra ele. Em vez disso, fiz uma pergunta direta.

— A sugestão de ele ir morar com o pai é um pedido razoável?

— Sim — ele afirmou.

Virei pra senhora de cabelo acobreado e fiz a mesma pergunta. Ela mastigou as palavras por um segundo antes de responder:

— A gente não tem notícia do meu ex-marido… pai do Ryan… faz muito tempo.

Dessa vez foi Ryan quem interrompeu:

— Eu literalmente não vejo ele desde os quatro anos. Não conheço ele. Não sei onde ele está.

Na hora, os olhos fundos do grandalhão incendiaram a lateral da cabeça de Ryan.

— Isso não é problema meu, né? Eu sou o provedor dessa casa, então se você quer morar aqui, VAI FAZER O QUE EU MANDO, PORRA!

Chamei rápido pra calma e virei pra menina assustada, abrindo meu melhor sorriso.

— E você, como está hoje à noite?

— Bem — ela respondeu.

— Imagino que você nunca tenha passado por uma situação parecida com a do seu irmão postiço, né?

A menina fez bico e bateu o dedo no queixo.

— Uma vez eu deixei um doce no quarto quando não podia — disse.

— Alguma medida disciplinar foi aplicada nesse caso?

O olhar da menina correu pela mesa, torcendo pra pergunta ir pra outro lugar.

— Uhh… não lembro — falou.

— Não — disse Ryan. — Ele faz vista grossa pra ela.

O grandalhão se inclinou pro enteado.

— Ela é criança. Você é adulto — sibilou.

Sorri de novo pra menina.

— O que você acha da situação?

— Sobre o doce ou da situação em geral?

— Em geral.

Ela pensou antes de responder.

— Acho que o que a gente tem aqui são duas pessoas com ideologias diferentes — disse.

Ryan caiu na gargalhada, o pai da menina explodiu numa raiva cheia de bile e a madrasta implorou pra todo mundo, pelo amor de Deus, não ser tão provocativo. Admito que fiquei bem chocada de ver uma menina tão nova usando uma palavra tão sofisticada, mas no meu ramo a gente aprende a esperar o inesperado.

— Não! Ele está errado e eu estou certo. É simples assim! — berrou o grandalhão, apertando aquelas mãos enormes até virarem marretas de carne. Fiz uma anotação rápida da reação dele, mas quando ele viu que eu estava escrevendo, abriu os punhos e se acalmou. Quebrei o silêncio que ele tinha imposto falando direto com a menina.

— Sabe de uma coisa? Acho que essa foi a resposta mais inteligente que ouvi hoje. Você está certa. Acho que todo mundo aqui faria muito bem em seguir o seu exemplo.

O grandalhão bufou, mas ignorei e me dirigi agora pra mesa inteira.

— Ela digeriu a pergunta e respondeu de forma objetiva. Quer dizer, ela tirou a emoção da equação e olhou de cima pra baixo. Assim ela conseguiu dar um passo atrás pra realmente pensar como cada lado se sente na briga. Em outras palavras, ela empatizou. Acho que se todo mundo nessa mesa, inclusive eu, vivesse o dia a dia com um pouquinho mais de empatia, o mundo seria um lugar muito melhor.

As crianças balançaram a cabeça concordando com meu discurso e a senhora de cabelo acobreado colocou a mão delicada em cima da pata do grandalhão. Depois disso não teve mais tensão na sessão, e quando nossa hora acabou, levantei e confirmei que voltaria na mesma hora na semana que vem.

Só queria agora que eu não tivesse feito essa promessa. Talvez as coisas tivessem sido diferentes.

Entrei no carro fingindo que não tinha escutado o grandalhão me chamar de “vadia idiota” depois que fechou a porta. No fim de um dia longo fuçando a vida dos outros, minha cabeça foi pras coisas práticas da minha própria vida. Será que meu marido lembrou de comprar alguma coisa pro jantar? Será que levou as crianças pro balé no horário? Será que eu ia ter tempo de fazer a roupa e pendurar antes de dormir?

Assim que a sola do meu mocassim marrom encostou no acelerador, um homem se ergueu de baixo dos bancos de trás do meu carro que nem uma cobra saindo da cesta do encantador.

— Ah — foi só o que eu disse. Gosto de me ver como uma mulher inteligente e capaz. Não tive a melhor infância, e isso gerou um monte de emoções desconfortáveis no começo da vida. Aprendi a descartar instinto e impulso em favor de decisões calculadas. Infelizmente, nessa ocasião teria sido bem melhor ouvir aqueles sinos de alarme distantes tocando na parte animal do meu cérebro que eu achava que tinha dominado.

O rosto longo do estranho encheu o retrovisor: bochechas fundas, queixo fraco, olhos cor de lama. Usava uma camisa xadrez azul, aberta no pescoço, por baixo de um fleece da cor de algas sem oxigênio. Um brilho de diversão apertou os músculos nos cantos dos olhos dele e um dedo pálido subiu pra pressionar aqueles lábios finos feito minhoca no pedido universal de silêncio.

Ele inclinou o pescoço pra frente e sussurrou uma série de palavras sem sentido no meu ouvido, fazendo a língua estalar em todos os cantos da boca. Quando terminou, afundou no couro do banco de trás e ficou olhando pela janela. Tentei falar, mas minha garganta estava selada. Só conseguia respirar pelo nariz. As vértebras e músculos do meu pescoço e ombros me fizeram virar de volta pro volante, e meu pé afundou no acelerador. O assobio rouco do ar entrando e saindo do meu nariz ficou mais alto enquanto eu começava a entrar em pânico. Minhas mãos giravam o volante sem que eu mandasse, e antes que eu me desse conta, chegamos na minha casa. As luzes da cozinha estavam acesas e eu via mãos acenando e cabelo loiro balançando enquanto minhas filhas praticavam a coreografia que tinham aprendido juntas naquela noite, e meu marido provavelmente desviava delas em algum lugar fora de vista com panelas e assadeiras.

A porta do carro abriu e meu passageiro desceu. Fiquei olhando ele andar gingando pela entrada da garagem. As mãos e os pés dele eram absurdamente grandes e as pernas engoliam o chão à frente. Ele inclinou a cabeça longa pra frente e sumiu nas sombras do meu corredor. Não demorou muito pra ele reaparecer, limpando sangue dos cantos da boca. Voltou pro carro e soltou um arroto baixo. Na mão, cuspiu um punhado de dentes de criança e um tufo de cabelo loiro. Um gemido escapou do meu pescoço estrangulado e os olhos divertidos do estranho encontraram os meus no retrovisor.

Ele se inclinou pra frente.

Senti o bafo quente dele fazendo cócegas na minha nuca.

Segurando os dentes com arte na mão de aranha, ele levantou até minha orelha e apertou. Suores quentes explodiram pelo meu corpo inteiro enquanto os dentes da minha filha mordiam carne e cartilagem. Quando ele tirou a mão, sangue escorria livremente pelo meu pescoço, mas ele ainda não tinha acabado. Pegou alguns fios soltos de cabelo e enfiou debaixo da alça do meu sutiã.

— Uma lembrancinha — disse com uma voz suave e culta.

Tentei gritar.

Tentei lutar.

Tentei correr.

Tudo em vão. Qualquer que fosse o feitiço que ele tinha me lançado, segurou firme.

Me dissociando da máquina que meu corpo tinha virado, só voltei pro momento presente quando parei em frente à casa onde tinha feito a sessão de terapia mais cedo naquela noite. Um braço branco e longo arrancou a prancheta de onde estava no banco do passageiro e soltou o crachá do meu pescoço.

— O patriarca daquela casa ali é o resultado de um projeto de gerações meu — sussurrou a voz no meu ouvido. — Eu odiaria que você desfizesse todo o meu trabalho duro.

Se eu conseguisse falar, teria prometido qualquer coisa pra ele me soltar, mas ele pareceu antecipar isso.

— Não sobrou nada pra você aqui agora que sua família sumiu. Só implicações.

Pensei na minha orelha mordida. No cabelo plantado em mim. Sinais de luta. Estavam me incriminando pelo assassinato da minha família.

— Hora de você começar do zero, eu acho. Eu cuido das coisas aqui.

Em vez de devolver minha lista de clientes, ele deixou cair delicadamente uma passagem de avião pra um país do outro lado do mundo no banco do passageiro. Depois desceu, fechou a porta e deu duas batidinhas no teto do meu carro. Fiquei olhando ele ficar menor, parado ali com minha prancheta encostada na barriga, enquanto eu dirigia embora, lágrimas escorrendo pelo rosto.

Agora, aqui na sala de embarque do aeroporto, digitando isso, estou testando os limites da minha autonomia. Como eu disse, ainda consigo chorar. No caminho pra cá, no meio de um ataque de pânico louco, descobri que minha bexiga ainda consegue esvaziar se meu nível de medo chegar num certo ponto. Os seguranças do raio-X torceram o nariz pro cheiro de urina seca, mas só me mandaram pros portões.

Consigo usar o celular, mas não consigo ligar pros serviços de emergência. Meu cérebro manda o sinal, mas o dedo não mexe. É bizarro. Até tentei digitar o número de emergência de outros países, mas não consigo fazer isso também.

Acabaram de anunciar que meu voo está embarcando, então vou digitando enquanto ando.

Pensando bem, é meio estranho eu ainda estar assim.

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