Tudo começou quando baixei um novo app no meu celular. Não, não vou dizer o nome dele, não sou idiota o suficiente pra deixar outras pessoas se machucarem também. Fico um pouco envergonhado de admitir exatamente pra quê o app supostamente servia, mas, sem entrar em detalhes, ele despertou meu interesse.
Quando o abri, fiquei decepcionado ao ver apenas uma tela preta. Tentei reiniciá-lo. Mesma coisa. Apenas o meu reflexo fraco me encarando de volta. Olhei pra mim mesmo e dei um sorriso. Quando finalmente desisti e fechei o app, uns 20 minutos haviam se passado.
Não voltei pro app por alguns dias depois disso.
Numa noite, porém, deitado na cama pra dormir, tentei abri-lo de novo, torcendo pra funcionar dessa vez. De novo, tela preta.
Fiquei encarando.
Alguma coisa nela prendia meus olhos na tela – talvez o tom de preto, ou o reflexo de mim mesmo, talvez só o mistério de por que não mostrava mais nada. Fosse qual fosse o motivo, devo ter ficado olhando por bons segundos.
Quando finalmente fechei o app e pus o alarme pra dormir, percebi que 40 minutos haviam se passado. Fiquei surpreso. Por que eu ainda estava acordado? Caí num sono agitado.
No dia seguinte, na primeira aula, cansei de ficar mexendo nos dedos e me entediando. Às 10:40 da manhã, peguei o celular e abri o app. De novo, preto. Antes que eu pudesse dar mais que uma olhada, fui interrompido.
“Com licença, você está na minha aula?” O professor gritou pra mim.
Levantando os olhos, percebi que não era o meu professor. O slide no quadro não era da minha aula. Verifiquei o celular, marcando 1:20 da tarde. Fiquei surpreso e confuso com como aquilo tinha acontecido.
Envergonhado, saí da sala e tentei alcançar a aula do outro lado do campus em que eu devia estar.
Mais tarde naquela noite, pensei no que tinha rolado. Não conseguia acreditar que tinha ficado olhando pro app por tanto tempo. Não pareceu tanto assim, nem de longe. O mistério me atraía. Queria descobrir qual era a dele. Contra meu bom senso, e junto com um hábito que crescia, cliquei no ícone na tela inicial.
O preto parecia quente. Observei de perto, procurando um sentido nele. Não tinha certeza se encontrei ou não. Fechei quando comecei a me sentir entediado.
Foi aí que notei o sol lá fora. Estava mais claro. Verifiquei a hora. Era… 3 horas antes do que era antes? Não fazia sentido. Levantei e senti dois estalos fortes nos joelhos, e o sangue subiu pra cabeça.
Tonto, fui até a porta da frente e saí pra ver a luz e pegar um ar fresco. Vi que tinha correspondência nova pra mim. Peguei e folheei. Spam. Espera. O quê?
A data estava marcada pra amanhã.
Ou, suponho, pra hoje. Conferi o celular pra ter certeza, e realmente era. Quase um dia inteiro havia passado. 21 horas? Isso é possível mesmo?
A partir dali, jurei largar o app. Até deletei ele.
Por aquele tempo todo, ele ficou no fundo da minha mente. Toda vez que fechava os olhos e via preto. Não vou mentir, eu ansiava por ele. Queria o conforto dele. Mas não podia arriscar. Então não arrisquei. Por umas 3 semanas.
Aí, num dia particularmente ruim, quando desabei na cama à noite, exausto e puto, precisei de alívio. Honestamente, nem ligava se perdesse mais um dia de tempo. Além do mais, talvez dessa vez, depois de reinstalar, ele funcionasse direito.
Quando terminou de baixar, com um frio na barriga nervoso, abri o app.
Estava preto. Mas… talvez tivesse algo mais? Achei que via um contorno fraco de alguma coisa. Era difícil dizer. Me inclinei e encarei bem de perto, até meus olhos começarem a arder. Quando desisti, fechei o app. Verifiquei a barra de notificações.
Uma enxurrada de chamadas perdidas, mensagens, e-mails, tudo quanto é coisa, lotado de notificações não lidas.
Agora era dezembro. Pra ser exato, 14 dias haviam se passado.
Perdi uma prova. Vários eventos extracurriculares. As pessoas estavam me procurando. Professores diziam que eu ia ser reprovado. Meu coração afundou. Era um pesadelo.
Levou boas horas pra acalmar o fogo das obrigações que eu tinha deixado pra trás. Fiquei tão envergonhado. Como explicar o que tinha acontecido?
Esses pensamentos sumiram da minha cabeça quando tentei levantar e sair da cama. Desabei no chão na hora, as pernas doendo e fracas. Minha visão estava embaçada. Fiquei ali no chão, lutando pra me levantar por vários minutos. Quando finalmente consegui, fiz uma refeição. Estava morrendo de fome.
Enquanto comia meu ramen sentado, peguei o celular pra checar o Instagram. Ele escorregou da mão e os dedos apertaram a tela enquanto tentava impedir que caísse na tigela, falhando.
Frustrado, olhei pra tigela cheia de ramen com o celular saindo dela.
A tela estava preta.
Tinha desligado? Ou…? Meus olhos se arregalaram e encarei fundo na escuridão tinta. Provavelmente tinha só desligado.
Tirei o celular da tigela de ramen seco e encrostado. Seco? Mas eu tinha acabado de fazer. Tentei ligar, sem sucesso. Tinha quebrado? Pensei em colocar no carregador pra ver se voltava.
Na tentativa de levantar, desabei direto no chão duro, o sangue inundou meu corpo, e apaguei rápido.
Quando acordei, levantei grogue e levei o celular pro carregador no quarto. Meu corpo doía horrivelmente por todo lado.
Tinha pavor de ver quanto tempo havia passado.
Março. 2026. Em outras palavras, 1,25 ano se foram.
Nem conseguia acreditar na hora. Pensei que devia ser só um sonho. Não dava pra explicar. O que esse app estava fazendo comigo?
Tenho escrito isso aqui pra registrar todas as vezes anteriores que lembro de ter usado o app. 20 minutos, 40 minutos, 2,5 horas, 21 horas, 14 dias, depois 1,25 ano. Pelo que vejo, cada vez seguinte multiplica por um grau maior. Primeiro 2x, depois 4x, 8x, e assim por diante.
Se for verdade, da próxima vez que abrir o app… 80 anos vão passar.
Durante esse ano, fui expulso da faculdade. Perdi meus amigos. Perdi praticamente tudo, pelo que vejo. Mas… não sinto nada. Talvez ainda não tenha batido. Mas não paro de pensar no que pode ter visto na escuridão. Juro que tinha algo lá. Se eu abrir só mais uma vez, vou descobrir. E se descobrir, talvez o tempo nem passe.
Decidi agora. Vou dar uma olhada, só um vislumbre, logo depois de postar isso. Atualizo depois. Voltem em breve.


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