Estou escrevendo isso do meu carro, no estacionamento da empresa. Eu não quero entrar. Não sei se consigo continuar entrando. Preciso que alguém me diga o que está acontecendo, porque eu estou ficando sem explicações e as que ainda me restam estão ficando cada vez piores.
Eu comecei um emprego novo há quatro semanas. Empresa de porte médio. Departamento de Marketing. Passei por um processo normal de entrevista. Três rodadas. Recebi o e-mail com a proposta numa terça-feira. Assinei a papelada na sexta. Meu primeiro dia foi na segunda seguinte. Eu tenho toda a cadeia de e-mails. Tenho a carta de oferta assinada. Tenho o primeiro contracheque. Tudo datado dentro do último mês.
No meu primeiro dia, uma mulher do departamento de contabilidade me abraçou na máquina de café e disse:
— Bem-vinda de volta, sentimos sua falta.
Eu achei que ela estava sendo simpática com uma nova contratada. Eu ri e agradeci. Ela ficou confusa e falou:
— Como assim “nova”? Você está aqui desde que eu comecei.
Eu deixei pra lá. As pessoas falam besteira. Nervosismo do primeiro dia dos dois lados.
No fim da primeira semana, eu já tinha contado seis situações parecidas. Um cara do TI me perguntou como estava o meu cachorro. Eu não tenho cachorro e nunca tive. Uma mulher do RH me perguntou se eu ia levar meu marido no piquenique da empresa. Eu não sou casada. O diretor do meu departamento mencionou um projeto que eu liderei em 2019 — quatro anos antes de eu sequer saber que essa empresa existia.
Eu comecei a checar as coisas.
Entrei no diretório da empresa. Tem uma foto minha. A foto é minha, mas eu nunca tirei essa foto. Estou usando uma camisa que eu não tenho. A data de contratação que aparece embaixo do meu nome é janeiro de 2017. Quase nove anos atrás.
Fui até o RH. A mulher na mesa puxou o meu arquivo. Ela me mostrou a papelada de admissão que eu assinei no mês passado. Depois rolou a tela e me mostrou nove anos de avaliações de desempenho, reajustes salariais, certificados de treinamento e escolhas de benefícios. Tudo no meu nome. Tudo com a minha assinatura. As assinaturas batem perfeitamente com a minha. Eu nunca assinei nenhuma delas.
Perguntei se existiam dois funcionários com o meu nome. Ela verificou. Só existe um. Eu. Ela disse:
— Querida, você bateu a cabeça ou algo assim?
Saí do RH e fui pra minha mesa. Minha mesa tem fotos agora. Três fotos emolduradas que não estavam lá no final da semana passada. Uma é minha num evento da empresa que parece ser de anos atrás. Outra é minha com duas crianças que eu nunca vi na vida. A terceira é eu segurando um cachorrinho branco numa praia que eu nunca visitei.
As crianças na foto parecem que poderiam ser minhas se eu tivesse filhos. Tem alguma coisa no rosto delas. Eu fiquei sentada na minha mesa segurando aquela foto por um tempão e não conseguia parar de olhar para a mais velha, porque ela tem exatamente os meus olhos.
Isso foi na última terça-feira.
Durante o resto da semana passada, eu tentei agir normalmente. Fiz o trabalho que eu realmente fui contratada pra fazer. Respondi e-mails sobre os projetos que realmente me passaram. Mas as pessoas continuavam mencionando coisas que eu nunca fiz. Uma colega me perguntou se eu queria almoçar juntos “como a gente fazia antes”. A recepcionista perguntou como estava a recuperação da minha mãe depois da cirurgia. Minha mãe está ótima. Ela não fez nenhuma cirurgia. Eu nem falei com ela nas últimas três semanas porque estamos no meio de uma briga.
Na sexta, o cara do TI passou na minha mesa e disse:
— Ei, seu laptop antigo finalmente morreu. Quer que eu tire alguma coisa dele antes de formatar?
Eu perguntei do que ele estava falando. Ele me mostrou um laptop no carrinho dele com uma etiqueta com o meu nome. A tag de serviço era de 2018. Ele disse que aquele tinha sido o meu computador de trabalho até o ano passado, quando eu troquei pelo que uso agora. Perguntei se eu podia ver o que tinha nele. Ele plugou. A área de trabalho carregou. O papel de parede era uma foto minha com as mesmas duas crianças da foto emoldurada. As pastas estavam organizadas exatamente do jeito que eu organizaria. O histórico do navegador estava cheio de sites que eu costumo acessar. Pesquisas que eu realmente faria. Tinha e-mails abertos em abas de um endereço pessoal que não é o meu endereço pessoal, mas é estruturado exatamente do jeito que eu nomeio meus e-mails.
Perguntei se eu podia levar o laptop pra casa no fim de semana antes de ele formatar. Ele disse que sim.
Passei o fim de semana inteiro fuçando nele. Tem nove anos da minha vida nesse laptop. Fotos com as crianças. Fotos com um homem que eu nunca vi na vida. Declarações de imposto. Roteiros de viagem pra lugares que eu nunca fui. Consultas médicas que eu nunca fiz. E-mails da escola sobre reuniões de pais e professores de crianças cujos nomes eu nem conheço. Uma vida inteira. Detalhada. Específica. Minha em todos os sentidos que importam… exceto que eu nunca vivi nada disso.
O homem nas fotos usa aliança. Eu também uso aliança nas fotos. Eu não tenho aliança. Nunca fui casada. Olhei pra minha mão. Tem uma marquinha clara e pálida no meu dedo anelar, exatamente onde ficaria uma aliança. Eu nunca usei aliança. Não faço ideia de como essa marca apareceu aí.
Hoje de manhã eu cheguei e a recepcionista sorriu pra mim e disse:
— Sua filha está melhor?
Eu não tenho filha.
Eu falei:
— O que você disse?
Ela olhou pra mim e o sorriso dela sumiu. Ela falou:
— Sua filha. A menorzinha. Você comentou ontem que ela estava com febre.
Eu não lembro de ter falado com ela ontem. Eu não tenho filha. Fui pra minha mesa. A foto emoldurada das duas crianças ainda estava lá. A menor tem uns seis anos. Ela tem os meus olhos. Eu fiquei olhando pra essa foto por uma hora e não consigo parar, porque alguma coisa no meu peito dói quando eu olho pra ela e eu não entendo por que dói, já que eu nunca conheci essa criança.
Chequei meu celular. Não tem nenhum contato que eu não reconheça. Não tem fotos de crianças. Não tem nenhuma mensagem de alguém me chamando de mãe. Meu e-mail pessoal é o mesmo que eu tenho há anos. Não tem nada nele sobre família.
Mas no meu laptop do trabalho, aquele que eu recebi há só quatro semanas nesse emprego novo, a agenda tem um compromisso marcado pra hoje às 18h que diz: “Buscar Maddie na aula de dança”.
Maddie é o nome da criança mais velha da foto.
Eu não coloquei esse compromisso na minha agenda.
Estou sentada no estacionamento escrevendo isso porque não sei o que acontece se eu voltar lá pra dentro. Não sei o que acontece se eu for embora. A recepcionista sabe o nome da minha suposta filha. O sistema do RH tem nove anos de papelada. Outras pessoas lembram de uma versão de mim que está aqui desde 2017. Elas não estão mentindo. Dá pra perceber. Elas acreditam em tudo o que estão me contando.
A única pessoa nesse prédio inteiro que acha que eu sou nova aqui sou eu.
Fico voltando o tempo todo pra foto emoldurada que está na minha mesa. A menina mais velha. Maddie. Ela tem os meus olhos. E tem uma lasquinha no dente da frente. Exatamente a mesma lasquinha que eu tenho no meu dente da frente desde que caí do balanço quando tinha sete anos.
Eu não sei o que fazer. Não sei pra quem ligar. Minha família vai achar que eu estou tendo um surto. Não posso contar pros meus amigos de verdade porque eles só conhecem a versão da minha vida que eu estou vivendo agora. Tem outra versão da minha vida inteira num laptop que está no banco do passageiro e uma criança em algum lugar que tem a mesma lasca no dente que eu… e alguém está esperando que eu busque ela na aula de dança daqui a três horas.
Vou dirigir pra casa agora. Não vou voltar pra esse prédio hoje. Se alguém já passou por alguma coisa parecida com isso, por favor me conta o que você fez. Não sei se eu estou sendo inserida na vida de outra pessoa ou se alguém foi removido da minha. Não sei qual das duas opções seria pior.
Eu só quero saber quem tirou aquelas fotos. Alguém tirou. Alguém emoldurou e colocou na minha mesa. Essa pessoa sabe o que está acontecendo aqui. Preciso encontrar ela antes das 18h de hoje, porque eu não consigo parar de pensar numa criança que eu nunca conheci esperando do lado de fora de um estúdio de dança por alguém que não vai aparecer.


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