Pela minha pequena divagação, você provavelmente já percebeu o que eu sinto pela minha vida: entediante, sem graça, irritante. Algo nessa linha. No entanto, há uma coisa que eu esqueci de te contar: essa cidade, que por fora parece ser cheia de Starbucks e de playboys brancos ricos de 17 anos que bebem e atiram em casas aleatórias de uma caminhonete enfiada pra cima de 50 mil dólares, com luzes no aro que o pai deles comprou, guarda um pequeno segredo.
Existe um terreno que abriga um dos assassinatos não solucionados mais prolíficos da história do Texas. Entre os anos de 1983 e 1991, quatro mulheres foram encontradas mortas. Mesmo com a ajuda do FBI, o departamento de polícia da cidade não conseguiu encontrar um culpado, e esse continua sendo o caso até hoje. Ainda mais corpos foram encontrados no total, sendo a maioria mulheres com uma faixa etária e um tipo físico específicos. Até hoje, meninas e mulheres continuam desaparecendo dessa área sem deixar rastros. Todo mundo atribuiu isso ao tráfico humano ou a agressão sexual seguida de assassinato. Depois das últimas semanas, no entanto, eu acho que é algo muito mais sinistro.
Como você provavelmente já deve ter adivinhado, eu moro bem perto desse terreno; na verdade, ele fica diretamente atrás da minha casa. Minha casa é uma daquelas no fim da vizinhança, com nada além de grama e árvores atrás. Depois que os corpos foram encontrados nos “killing fields” — é assim que esse terreno é chamado —
ele foi transformado em um pasto de vacas, que agora foi vendido à cidade para que derrubem o ecossistema e construam mais casas, para que as pessoas possam vir e superlotar a cidade. Quando eu era criança, eu e as crianças da vizinhança costumávamos ir até aquelas planícies selvagens e construir fortalezas ou brincar de esconde-esconde. Tempos divertidos. Agíamos como idiotas, sem a menor preocupação no mundo. Mas, se eu soubesse o que sei agora, acho que teria sido diferente.
Tudo começou por volta de duas semanas atrás, quando fui acordado por volta das 23h. Eu mencionei antes que morava na área de Houston; uma busca rápida no Google vai te dizer exatamente onde ficam os killing fields, então, se você realmente quiser saber onde isso aconteceu, pode procurar. E, como morar perto do Golfo do México vem com as maiores vantagens de todas, como ar úmido, pegajoso, e furacões que arrancam seu telhado e inundam sua casa.
Isso aconteceu pela primeira vez durante uma tempestade muito forte. Eu conseguia ouvir minha cerca balançando de um lado para o outro, ou pelo menos era o que parecia do meu quarto. E, como eu tinha acabado de trocar a cerca, eu não queria ter que pagar mais 300 dólares de novo, então era necessário que eu fosse ao quintal e colocasse suportes para que ela não caísse.
Relutantemente, eu sacudo os pés e pulo da cama. Vou até a sala, que também é onde fica a porta dos fundos. Abro as persianas e olho lá fora; folhas arrancadas das árvores e gravetos voavam no vento. Olhei para a minha cerca, que ainda balançava e sacudia como se estivesse prestes a cair a qualquer momento. E passei os olhos ao longo da cerca, tipo assim,
quando, no meio da chuva e das rajadas de vento, algo chamou minha atenção. No topo da minha cerca, de uma ponta à outra, havia uma mancha vermelha. Ela escorria para baixo, e parte dela já estava manchando a grama. Não vou dourar a pílula: desde o momento em que vi aquilo, eu soube que era sangue. Eu soube pela espessura, pela cor; era horrível.
Mas o pior ainda estava por vir. Meus olhos se concentraram bem na extremidade da linha traseira da cerca, onde eu pude ver a causa do sangue: um coelho. Os olhos dele estavam caindo das órbitas, e o rosto tinha ossos para fora. As patas traseiras estavam enroscadas por cima do corpo, deslocadas e esmagadas. Eu nem teria conseguido reconhecer aquilo se não fossem as orelhas. Recuo imediatamente e engasgo de nojo diante da cena.
Agora eu estou completamente acordado. Corro até o armário, pego minha lanterna e meu rifle e volto para a porta.
Abri a porta e fui atingido por um ar frio e suave, daquele tipo que você só sente quando está chovendo forte. Quem mora perto do golfo entende esse sentimento; normalmente ele também vem acompanhado de um cheiro natural agradável, porém, dessa vez, fui recebido por um cheiro forte, espesso e repulsivo. Era cheiro de morte. Ele tomou minhas narinas, que começaram a escorrer, e tive que limpá-las na camiseta. Eu observo a linha da cerca, garantindo que quem quer que tivesse feito aquela merda ainda não estivesse ali. Então liguei minha lanterna e a coloquei entre os dentes.
Desci do meu pátio para a grama fria, andando em direção à cerca que ainda se balançava sob a pressão pesada do vento. Em uma mão, meu rifle; na outra, tábuas pesadas, que comecei a enfiar uma por uma por baixo da cerca, permitindo que ela descansasse sobre elas. Depois que terminei toda a linha da cerca, voltei para o pátio e dei uma olhada.
Eu fiquei satisfeito, no entanto o problema do coelho eviscerado ainda continuava. Disse a mim mesmo que avisaria a polícia de manhã e tentaria limpar aquilo quando a tempestade passasse. De repente, meu pensamento foi interrompido quando ouvi um arranhão surgindo do lado direito da cerca, viajando para a esquerda, para o lado onde estava o coelho mutilado. Era rápido. No começo, pensei que fosse só um galho, mas o som era constante demais para ser qualquer coisa além de uma pessoa ou um animal. Considerando a velocidade, achei que fosse um animal, mas por que um animal estaria arranhando minha cerca daquele jeito? Por qual motivo? E, antes que eu pudesse reagir, o coelho foi arrancado da minha cerca violentamente,
quebrando a parte de cima da estaca. O coelho também foi rasgado ao meio pela força. Mais um pouco de sangue foi respingado sobre a cerca e o quintal. Eu recuei, sabendo que nenhum animal da área poderia ter tanta força e violência assim. Esquecendo que ainda estava com a lanterna na boca, mordi com força, deslocando um dos meus dentes. Gemei de dor enquanto disparava de volta para a porta, trancando-a rapidamente e fechando as persianas. Meu coração batia mais rápido do que nunca. Eu vomitei pelo menos três vezes naquela noite.
Não dormi. Quando a manhã chegou, liguei para a polícia, contando tudo. Depois de ver o sangue e metade do coelho na minha cerca, eles deixaram um policial de prontidão na área pelos dias seguintes. No fim, eu limpei o sangue. A tempestade passou e, embora eu estivesse um pouco traumatizado, continuei sendo o mesmo de sempre. E voltei à minha vida normal.
No entanto, o horror não terminou por aí. Mais uma vez, fui acordado por volta da meia-noite. Desta vez, não foi por causa de uma tempestade, mas por batidas altas contra a minha cerca. Era metódico e rítmico. TUM… TUM… guincho!… TUM. Parei. Agora eu entendia o que estava batendo na minha cerca: um animal. Um coelho de novo. Peguei meu rifle e a lanterna; meu dente ainda doía, mas mesmo assim eu a prendi entre os dentes.
Antes de sair, eu verifiquei a cerca em busca de qualquer sinal de quem quer que estivesse fazendo aquilo comigo. As batidas pararam de repente. Eu dei uma risadinha, tentando esconder meu medo, mesmo estando sozinho. Tive a sensação de que essa pessoa, ou coisa, conseguia senti-lo. Cheguei à conclusão de que ele estava brincando comigo, tentando me atrair. Quem ele pensa que eu sou? Não. Vai se foder. Essa é a minha casa, e eu tenho a arma. Saí para fora com uma descarga de adrenalina e raiva.
Está silencioso. Nada. Absolutamente nada. Eu ouço meu coração batendo; minha garganta pulsa junto com ele. Olho para a esquerda da linha da cerca e depois para a direita, devagar. Bem à direita da minha cerca, eu mantenho tijolos para tapar buracos feitos por animais. É por isso que há muito cascalho, o que entregou a presença. Minha cabeça e meu corpo se viram mais rápido do que jamais se moveram. Finalmente, pus os olhos nessa coisa: ela era pálida, com manchas pretas, não como um leopardo, mas como um pedaço de queijo mofado. Tinha mais ou menos o tamanho de um urso, ou pelo menos é assim que imagino que eles seriam; nunca vi um pessoalmente. Era magra e comprida, e as patas traseiras estavam penduradas por cima do topo da minha cerca, então a única coisa tocando o meu quintal eram as mãos? As pernas? As patas? Eu não sei o que aquilo era.
Mas estava completamente deformada, como se você mantivesse um humano na escuridão total e só o alimentasse com restos e uma gota de água. A cabeça dela pendia mais baixo do que os ombros. Era careca. O rosto estava num sorriso aberto, borrado de sangue. Os olhos eram escuros — mais escuros do que os de qualquer animal que eu já tivesse visto. Os dentes eram nojentos; alguns eram afiados como os de um animal, outros pareciam humanos. Todos eram diferentes, como se, qualquer coisa que essa criatura matasse, roubasse os dentes da vítima e os usasse para si mesma. O corpo inteiro dela estava deitado sobre o canto da minha cerca, como um cobertor sobre um sofá.
Eu disparo um tiro em uma fração de segundo. O clarão da arma me cega por um minuto. A tensão no ar diminui um pouco antes de eu perceber que o tiro atingiu o rosto da coisa, bem acima do olho esquerdo. Sangue jorra. A cabeça dela recua, depois fica nessa posição por um segundo, como se estivesse fingindo estar ferida. Então a cabeça se abaixa lentamente de novo; o sorriso ainda estava lá, mas ela colocou a língua para fora, permitindo que o sangue pingasse sobre ela.
Dou um passo para trás, congelado de medo, antes que meu corpo finalmente reagisse. Corro de volta para dentro de casa, batendo a porta. Eu não a ouvi me seguir. Acho que ela não queria me matar naquela noite. Queria me deixar apavorado. Queria que eu soubesse que podia me matar quando quisesse. Eu tenho que sair dessa casa, dessa cidade, desse maldito estado, e nunca mais voltar. Isso ainda não acabou. Eu não sei como sei disso, mas eu sei. Ela vai me matar e vai tirar meus dentes, arrancar minha pele e pendurá-la na cerca de outra pessoa.
Talvez a razão pela qual o FBI não conseguiu encontrar um culpado seja porque, o tempo todo, eles estavam procurando por alguém, e não por alguma coisa.


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