Não consigo lembrar exatamente os resultados que apareceram quando pesquisei isso, mas alguma coisa apareceu. Fiquei meio perturbado. Qual era a chance de alguém ter passado pelo mesmo problema?
Não era só um caso de “ah, que burro, eu levei ela pro banheiro e deixei lá depois de cagar”.
Eu dei um gole no café e coloquei a caneca de volta no descanso, bem de leve. Dois segundos depois, quando olhei pra ver se ela estava centralizada, ela tinha sumido.
A mesma coisa tinha acontecido com alguém na internet, ou pelo menos foi o que a pessoa alegou. Tragicamente, ninguém respondeu.
Depois de alguns momentos de descrença, eu me gaslightei e me convenci de que tinha levado a caneca lá pra baixo e simplesmente imaginado aquele último gole.
Procurei na pia, nas mesas, na geladeira… caralho, eu até olhei dentro da lareira. Era uma caneca branca simples, com um adesivo de gato.
A cor dela contrastava com a maioria dos móveis, então eu descartei rápido a ideia. Se não estava lá embaixo, então ela simplesmente tinha desaparecido e não era mais problema meu. Eu tinha que voltar pro trabalho.
Aí eu me vi diante de uma escolha: ou subia pro andar de cima ou fazia outro café primeiro. Escolhi a segunda opção.
Nesse momento, preciso mencionar que todos os copos e canecas que eu tenho são diferentes uns dos outros. Eu nem tenho duas canecas iguais.
Então, quando abri o armário, com certeza não esperava que ele estivesse lotado até o topo com aquelas canecas brancas sem graça. Na verdade, todos os armários estavam assim.
Minha primeira reação foi esfregar os olhos, torcendo pra estar sonhando. Quando percebi que não estava, minha curiosidade foi substituída por algo que eu nunca tinha sentido antes.
Não era medo. Era algo mais primitivo. Uma sensação que revirava o estômago e me dava vontade de arrancar a própria pele.
No meu delírio, comecei a revirar a cozinha inteira. E não era só nos armários. A geladeira que eu tinha checado cinco minutos antes também estava transbordando de canecas. Acho irônico que nenhuma delas era a caneca que eu estava procurando.
Tentei me agarrar a várias esperanças, mas não conseguia deixar de descartá-las. Ninguém estava pregando uma peça em mim; nenhum ser humano conseguiria fazer uma coisa dessas. E eu não estava imaginando.
Eu conseguia sentir fisicamente meu sangue esfriando a cada nova caneca que encontrava. Elas não se limitavam à cozinha. Apareciam em lugares que eu tinha verificado poucos minutos antes. Eu devia parecer um louco tentando acompanhar o ritmo.
Pelo menos a brisa do ar-condicionado roçando no meu pescoço me ancorava na realidade. Respirei fundo e tentei pensar em alguma explicação possível. Como nada veio à mente, decidi que o melhor era me trancar no quarto. Talvez, se eu me sentisse mais seguro, conseguisse descobrir um jeito de superar… fosse lá o que isso fosse.
Antes de fazer isso, desliguei o ar-condicionado. Pelo menos eu ainda tinha controle sobre a conta de luz.
Parecia uma onda de desrealização. Meu coração batia forte contra as costelas, ameaçando quebrá-las. Minha respiração ficou descontrolada e entrecortada. Por um momento, tive a sensação de que estava olhando pro ar-condicionado já desligado em terceira pessoa.
Não tinha nenhuma janela aberta. Nenhuma ventilação. O ar-condicionado estava desligado. Alguém tinha respirado no meu pescoço.
Corri em direção à escada, subindo desesperado de quatro, e quando finalmente cheguei no meu quarto, tranquei a porta sem olhar pra trás.
A falsa sensação de segurança evaporou rápido na forma de inspirações e expirações rápidas e erráticas. Eu tinha acabado de me prender ali. Liguei pras autoridades e disse que alguém tinha invadido minha casa. De jeito nenhum eles iam acreditar na minha história.
Sem saber o que fazer, fiquei andando de um lado pro outro no espaço pequeno, ansioso. Eu me arrependo de ter olhado pra minha janela.
Duas marcas de mão, os vestígios de respiração quente entre elas, e um bilhete. Inconfundível. Caí de joelhos, com os olhos fixos naquela cena brutal. Será que eu tinha enlouquecido?
Minha janela fica uns 6 metros acima do chão. Não tinha parapeito, sacada, nada pra pisar.
A ideia de alguém olhando pra mim pela minha própria janela, impossivelmente elevado acima do chão, foi o suficiente pra me dar vontade de pular.
O bilhete. O bilhete era a pior parte.
“Encontre a caneca, ou você é o próximo.”
Tá de brincadeira, porra? Alguma coisa com habilidades incompreensíveis estava me perseguindo, me colocando numa situação impossível, e a única coisa que ela tinha pra me dizer era pra encontrar uma caneca idiota? E o que diabos significava “você é o próximo”?
Um barulho repentino bem atrás de mim me fez pular pra trás. Precisei de toda a força que eu tinha pra me virar. Uma trilha. Uma trilha de canecas brancas simples, as mesmas que tomaram conta da minha casa. Ela levava pro meu armário.
“É, foda-se, eu não vou fazer isso”, eu lembro de ter dito pra mim mesmo, incrédulo.
Não foi aquela abertura lenta e arrepiante de porta que a gente vê nos filmes. Foi barulhento. Violento. Parecia um chute.
Foi aí que um pensamento me passou pela cabeça.
E se o fim da trilha não fosse no armário, mas bem nos meus pés?
E se eu não fosse o responsável por seguir a trilha, mas sim o que quer que estivesse dentro do meu armário?
O que saiu de lá foi o ser mais visceral que alguém pode imaginar. Era eu mesmo. Uma versão mutilada e grotesca de mim.
Minhas órbitas oculares estavam esticadas à força pra abrigar duas canecas brancas. Meu maxilar estava quebrado e minha boca parecia grande demais pro meu rosto comportar.
A voz dele saiu distorcida e com um tom agudo anormal, dizendo coisas como:
“Dói! Dói pra caralho!”
“Me mata!”
“Meu Deus, como dói!”
Meu peito apertou e o quarto começou a girar. Acho que dei alguns passos pra trás e acabei caindo pela janela, que eu nem lembro de ter aberto.
Fui encontrado pelos policiais quando eles chegaram e depois fui levado correndo pro hospital. Apesar da queda, meus ferimentos foram leves, embora eu tenha sofrido uma parada cardíaca por causa do puro terror do encontro.
Estou escrevendo isso de uma cama de hospital. A polícia me disse que alguém estava morando dentro das paredes da minha casa nos últimos doze anos. Tinha túneis ligando meu armário ao sótão e ao banheiro de baixo.
Eu sei que isso não é algo pra se levar na brincadeira, mas não explica nada do que eu passei. Nenhuma pessoa normal seria capaz de fazer nada daquilo. O que era aquela coisa que eu vi? Aquela versão apavorante de mim ainda está por aí.
Estou tão desesperado por respostas que vou fazer o que o bilhete mandou. Não quero descobrir o que “ou você é o próximo” significa.
Não acho impossível que a caneca esteja do outro lado do mundo agora. É uma caneca branca feita sob medida, com um adesivo de um gato de smoking. Eu sei que a descrição não ajuda porra nenhuma, mas realmente não tem mais nada.
Por favor, me ajudem. Estou desesperado e não sei o que fazer.
Observação: Isso pode ser coincidência, mas todas as pessoas aqui estão bebendo nas mesmas canecas que inundaram meu apartamento. Estou morrendo de medo, porra.


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