Você pode me chamar de doente. Pode me chamar de doente da cabeça. Pode me chamar de fodido pra caralho pelo que eu deixo ficar nessa casa comigo. Eu não iria discutir nada disso.
Tudo começou com o som de ossos se quebrando.
Acordei por volta das 3:15 da manhã com um estalo alto e molhado de algo se partindo. Não era vidro nem madeira, era algo orgânico. Grosso e profundo. Como se um gigante estivesse estalando os nós dos dedos bem do lado de fora da porta do meu quarto. Eu me levantei num salto, o coração já na garganta. Meu cachorro, Jasper, normalmente dormia aos pés da cama. Estiquei a mão para baixo, mas meus dedos só encontraram os lençóis vazios.
Outro som veio do corredor. Um barulho de algo sendo arrastado, depois um ronco gutural baixo. Não era bem um rosnado, mas algo mais pesado. Mais faminto.
— Jasper? — sussurrei.
Nenhuma resposta. Claro que não.
Eu não queria abrir a porta, mas a ideia do meu doce labrador com pastor alemão machucado ou assustado lá fora mexeu com alguma coisa dentro de mim. Peguei o taco de beisebol que ficava ao lado da cama e fui me arrastando até a porta. O cheiro me acertou primeiro. Era quente, quase com cara de carne, com um fundo azedo e metálico de cobre que fez meu estômago revirar. A porta rangeu quando eu abri, e na hora eu me arrependi pra caralho.
Jasper estava no corredor.
Ou… algo que um dia tinha sido Jasper.
Ele estava maior. Essa foi a primeira coisa que notei. Grande demais. O corpo dele parecia esticado de forma irregular, como se tivesse sido inflado torto. As costelas saltavam em ângulos estranhos por baixo da pele esticada, quase translúcida. Tufos de pelo tinham caído em pedaços, e os olhos — aqueles olhos castanhos quentes como mel — agora eram de um branco leitoso, sem pupila. Fios espumosos de baba pendiam das mandíbulas, que pareciam ter se rasgado nos cantos.
Ele olhou pra mim, e por um segundo eu juro que vi reconhecimento. Ele soltou um ganido baixo — um som quebrado e miserável. Ainda parecia ele. Exatamente como o meu bom menino que tinha medo de aspirador de pó, do gato do vizinho, que adorava brincar nas pilhas de folhas secas que eu juntava e era capaz de comer um frango inteiro daqueles de Costco se tivesse a chance.
Aí ele partiu pra cima de mim.
Eu mal consegui fechar a porta antes que ele batesse contra ela, sacudindo o batente com tanta força que um quadro caiu da parede. Eu cambaleei pra trás, agarrando o taco como se aquilo fosse me salvar, a respiração toda esfarrapada. Que porra tinha acontecido com o meu cachorro? Aquilo não era o Jasper. Porra, aquilo nem era um cachorro.
Não dormi mais aquela noite. Fiquei sentado contra a parede mais distante do quarto, com o taco atravessado no colo, encarando a porta, esperando. Escutando. Jasper — ou a coisa — não fez mais nenhum barulho a noite inteira. Quando o sol finalmente nasceu e a luz começou a entrar pelas persianas, abri a porta de novo, mas ele não estava mais no corredor. A porta do banheiro no final do corredor estava entreaberta, então eu empurrei devagar, taco em punho.
Jasper estava na banheira. Deitado encolhido, absurdamente grande, com os membros torcidos embaixo dele como um fantoche quebrado. A respiração dele estava molhada e superficial. Os olhos se abriram quando eu me aproximei. Ainda leitosa. Ainda errados. Mas eles se fixaram em mim quando eu levantei o taco.
Ele não se mexeu. Só ficou olhando.
— Jasper — sussurrei, a palavra engasgando na garganta.
Ele gemeu. Baixo. Quase pedindo desculpas.
Eu deveria ter ligado pro controle de animais. Pra um veterinário. Pra um padre. Porra, sei lá. Pra alguém. Mas não liguei. Desci pra cozinha, joguei água fria no rosto, meio convencido de que tudo isso era só um pesadelo fodido. Conseguia ouvir o Jasper na banheira lá em cima e sabia que não era sonho. Enchi a tigela do Jasper com ração e voltei pro banheiro. Nem olhei direito pro que estava na minha banheira, deixei a tigela no chão e fechei a porta atrás de mim.
Eu não sabia o que fazer. As mudanças continuavam vindo. A cada dia ele parecia… menos um cachorro. As patas traseiras se alongaram. Os ombros se curvaram pra frente. O pescoço ficou mais grosso. Ele começou a andar mais como uma pessoa de quatro do que como um cachorro — devagar e deliberado.
Ele me olhava com aqueles olhos horríveis e cegos e balançava o rabo grosso e escamoso quando eu entrava. A respiração dele estava sempre pesada. Ele não conseguia mais latir — saía como um chiado gorgolejante, como se estivesse engasgando com alguma coisa bem lá no fundo. Eu o mudei pro porão, onde fiz uma cama com cobertores velhos e travesseiros antigos, e fiquei olhando enquanto ele se acomodava, ossos estalando e se torcendo enquanto ele se ajeitava.
E eu comecei a ter pesadelos. Sonhava com uma floresta escura. Com alguma coisa antiga, agachada atrás das árvores, me observando. A respiração dela soltava vapor no frio, e quando ela dava um passo à frente, eu via os olhos do Jasper no rosto dela. Acordava encharcado de suor, quase esperando que ele estivesse parado aos pés da minha cama.
Ele nunca estava, mas os sonhos continuavam, então acabei comprando correntes. Prendi elas na parede lá embaixo. Chorei enquanto fazia isso. Chorei ainda mais quando fechei a algema em volta do tornozelo inchado dele. Jasper soltou um som estrangulado que parecia metade ganido, metade soluço humano.
Duas semanas se passaram. Eu fiquei em casa e disse pro trabalho que tinha uma emergência familiar e que ia trabalhar de home office. Falei pros meus amigos que o Jasper tinha fugido. Parei de dormir. Ficava deitado na cama, olhando pro teto, escutando o som de unhas arranhando o concreto. Tentei ligar pra um veterinário anonimamente. Eles desligaram quando descrevi os sintomas.
Uma noite, peguei meu reflexo no espelho do banheiro. Minha pele estava pálida. Olhos com olheiras pretas. Parecia que eu tinha envelhecido cinco anos em quinze dias. Alguma coisa dentro de mim se quebrou. Desci pro porão com o taco e disse pra mim mesmo que estava na hora.
Ele estava encolhido no canto, acorrentado, respirando pesado. Quando me viu, levantou a cabeça e soltou aquele ganido suave de novo.
— Jasper — eu disse.
Ele levantou uma pata grotesca — mão? — e se arrastou pra ficar de pé. Alguma coisa estalou na coluna dele enquanto ele cambaleava pra frente.
Eu levantei o taco.
Ele parou. Sentou. E levantou uma das patas.
Aperto.
Era o truque que eu tinha ensinado pra ele quando era filhote. Agora parecia errado, o movimento era brusco, a pata terminando em dedos com garras. Mas estava ali. O gesto.
— Jesus Cristo — sussurrei. Caí de joelhos e chorei até não conseguir mais respirar.
Ele se arrastou pra frente e deitou a cabeça enorme e deformada no meu colo.
Isso foi há três meses.
As correntes sumiram. Às vezes eu deixo a porta dos fundos entreaberta à noite pra ele poder sair pro quintal. Ele sempre volta antes do sol nascer.
Os olhos dele começaram a ficar castanhos de novo. Não humanos e nem de cachorro, mas algo no meio. Às vezes, quando eu dou comida pra ele, ele senta do jeito que sentava antes e eu juro que vi o rabo dele balançar na semana passada. Eu li todos os fóruns, todos os sites de ocultismo, todos os casos médicos bizarros. Nada explica isso. Nada ajuda.
Mas… ele ainda é o Jasper. Eu sei que ainda é ele. É o meu Jasper.
Outra noite, acordei e encontrei ele aos pés da minha cama.
Não estava de pé. Não estava pairando. Só sentado, me observando. Eu deveria ter gritado, talvez até pegado o taco. Mas em vez disso eu falei:
— E aí, parceiro.
E ele soltou aquele mesmo ganido quebrado. Depois abaixou a cabeça enorme pro chão e eu voltei a dormir. A cama dele, aquela cinza felpuda grande que ele sempre amou, está de volta no lugar, aos pés da minha cama.
Olha, eu sei como tudo isso soa. Sei que nada disso faz sentido. Mas eu simplesmente não ligo mais. No que o Jasper se transformou, seja lá o que ele for agora… ele ainda é o meu cachorro.


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