Preciso de uma segunda opinião sobre isso aqui.
A essa altura, já trabalhei como “vigia” em vários lugares diferentes. O que isso realmente quer dizer é que eu tenho tempo demais pra ler e escrever, e desenvolvi um péssimo hábito de exagerar pra caramba na prosa. Isso aqui é diferente e vai ter que ser simples e rápido. Espero que tudo bem.
Recentemente fui transferido para um laboratório cujo nome não posso revelar. Fui pego dormindo no último lugar, aquela história toda. E me surpreende que não tenham simplesmente me mandado embora, porque me pegaram bem no meio de um dos meus sonhos malucos e, aparentemente, eu estava resmungando alguma coisa sobre goblins.
Enfim, no Laboratório as coisas funcionam um pouco diferente de qualquer outro lugar em que eu já “trabalhei”. Turnos noturnos de doze horas, eu e outra guarda. A gente se reveza dirigindo um carrinho de golfe sem rumo pelo estacionamento durante duas horas. Acho que eles querem parecer vigiados.
Nas duas horas de folga, eles querem especificamente que a gente durma.
Eles querem que os guardas durmam.
Nunca vi nada parecido.
Não numa cama nem nada assim, porque por que seria? Tem uma mesa, na área de recebimento, num canto. Cientistas de jaleco branco passam correndo a noite toda falando principalmente várias línguas asiáticas. Outros trabalhadores passam correndo falando principalmente espanhol. Eles realmente se certificaram de que eu era monolíngue antes de me colocarem aqui. De novo, nunca vi nada parecido.
Você pensaria que eu deveria ficar de olho em todos esses cientistas e trabalhadores, sabe, como um “vigia”. Não. A cadeira atrás da mesa é muito mais confortável do que parece e, por algum motivo, eu sempre fico tão cansado quando chego lá e, ah é, fui instruído especificamente a “tirar um cochilo”.
Então lá estou eu, profundamente adormecido, tendo todos os meus sonhos malucos enquanto todos esses cientistas malucos e trabalhadores ficam correndo de um lado pro outro.
E se os sonhos já eram malucos antes, nossa, agora eles estão malucos de verdade.
Todo sonho virou o mesmo.
Estou numa ponte. Atrás de mim, a ponte leva a uma pequena ilha coberta de floresta. À minha frente fica, eu acho, o continente, e há todas essas sombras humanoides espiando pra fora da selva, todas tentando atravessar a ponte, mas, enquanto eu observo, elas não conseguem.
Eu as chamo de sombras humanoides, e não de pessoas-sombra, porque elas definitivamente não são pessoas, seja lá o que forem.
Há algo no sonho que é sempre tão inexprimivelmente desolador.
Enfim, aí me acordam e me mandam sair de novo no carrinho de golfe pra outra guarda tirar o cochilo dela.
Ganhar pra dormir é um ótimo negócio, então você não pode me culpar por fazer o que me mandam e não pensar demais nisso.
E tudo isso ia muito bem, até que uma noite, por pura coincidência, ouvindo um audiolivro enquanto dirigia o maldito carrinho de golfe, eu aprendi sobre a palavra em espanhol “duende”.
Aparentemente ela pode se referir a um monte de criaturas diferentes, eu suponho, meio parecidas com elfos (pesquisa aí se quiser), e eu não sou nenhum especialista, mas, para os fins disso aqui, seja lá o que isso for, vou chamá-las de goblins.
Digo isso porque, depois de dirigir o carrinho de golfe naquela noite, voltei pra mesa-de-dormir e podia jurar que continuava ouvindo os trabalhadores dizerem essa palavra. Duende.
E voltei na noite seguinte armado com um conjunto de palavras memorizadas que são mais ou menos equivalentes a “goblin”, em várias línguas asiáticas.
Eu não sei nenhuma dessas línguas e, além disso, eu estava errado, muitas delas nem sequer são asiáticas, então o que é que eu vou saber, né?
Mas eu juro que continuo ouvindo essas palavras. Eu juro, não sei por quê, mas parece que todos esses cientistas malucos, e todos esses trabalhadores malucos, ficam falando sem parar sobre goblins.
Toda noite.
Por quê?
Será que eles só curtem muito fantasia?
E eu odeio pra caralho fazer essa pergunta, mas isso tem alguma coisa a ver com os sonhos?
Porque agora, toda vez que tenho aqueles sonhos, comigo na ponte observando todas as sombras humanoides saindo da selva, eu me pego chamando elas de goblins. Por que goblins?
E eu não sou idiota.
Eu me lembro do que disseram que eu estava resmungando quando me acordaram naquele outro posto.
E, sejam lá o que forem essas sombras humanoides, eu juro que continuo vendo elas pelo canto do olho, em todo lugar a que vou agora.
Privação de sono, né?
Meu cérebro está ficando delirante e meu reconhecimento de padrões está enlouquecendo, né?
Esse Laboratório não tá nem aí pra goblins idiotas de fantasia, né?
Mas por que meu cérebro inventaria isso?
É específico demais.
E os sonhos.
As sombras.
Essa desolação.
O que eles têm nesse laboratório?


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