sábado, 4 de abril de 2026

O Coelhinho da Páscoa me deixou 4 ovos e matou minha família inteira

Você precisa esquecer tudo o que acha que sabe sobre a Páscoa. Os ovos coloridos, o chocolate, tudo isso. Na minha família, a gente não espera a Páscoa com ansiedade. A gente teme por ela. Estou te contando isso na Sexta-feira Santa, 3 de abril de 2026. Já se passaram vinte anos.

Vinte anos até o dia em que tudo começou, o dia em que o Coelhinho da Páscoa escolheu minha família. A lista dele não tem nada a ver com ser levado ou bonzinho… é uma ordem de execução. E o som abafado que eu ouço lá fora? Aquele cheiro fraco e adocicado de feno úmido e terra invadindo por baixo da minha porta? Isso significa que ele está aqui. E acabou de escolher meus filhos.

Tudo começou numa Sexta-feira Santa, lá em 2006. Eu tinha dez anos, e a vida ainda era simples. Morávamos numa casa de dois andares no fim de uma rua sem saída silenciosa, com os fundos dando para um trecho denso de mata. A Páscoa era algo enorme na nossa casa. Minha mãe organizava os feriados com precisão militar, então o ar já estava pesado com o cheiro de pãezinhos assando e presunto glaceado com mel. Meu pai tinha acabado de passar a tarde montando uma bicicleta nova para meu irmão mais velho, Michael, e a escondeu sob uma lona na garagem. Éramos só… uma família normal e feliz.

Foi naquela sexta-feira que tudo começou a parecer errado. Eu estava no quintal com meu pai, juntando as últimas folhas mortas do inverno. Foi então que eu vi, bem na beira da mata. Uma única pegada enorme, afundada fundo demais na lama. Era grande demais para ser o pé de uma pessoa, comprida e estreita demais. Parecia só… errada. Uma paródia distorcida de uma pegada. Mostrei aquilo para meu pai. Ele estreitou os olhos, apoiando-se no ancinho. “Provavelmente só uns moleques aprontando”, disse ele, com aquela confiança fácil de adulto que cala uma criança. “Ou um cervo, talvez.” Mas não era um cervo. Cervos não deixam uma única pegada. E não deixam para trás um leve cheiro de feno molhado e alguma coisa metálica, como moedas velhas.

Mais tarde, naquela noite, depois que o sol se pôs, minha mãe chamou a gente para dentro. Quando corri de volta pelo gramado, olhei na direção da mata. Por um segundo só, um lampejo no crepúsculo, juro que vi alguma coisa ali parada nas sombras. Uma forma alta e magra. E as orelhas… aquelas orelhas eram impossíveis de confundir. Longas e pontudas contra o resto da luz que ainda morria. Pisquei, e ela sumiu. Disse a mim mesma que devia ser só um galho, meus olhos me pregando peças. Mas aquele medo frio já se torcia dentro do meu estômago. Eu sabia, com a certeza que só crianças têm, que aquilo não era uma árvore.

Na escola, a gente tinha histórias. Toda criança tem. Lendas locais que se trocam no recreio. A nossa era o Bunny Man. A história era antiga e tinha uma dúzia de versões diferentes. Alguns diziam que ele era o fantasma de um paciente fugitivo de hospício chamado Douglas, que esfolava coelhos para vestir e, no fim, começou a esfolar gente. Outros diziam que, se você fosse até a velha Colchester Overpass à meia-noite e falasse o nome dele três vezes, ele apareceria e te penduraria na ponte. Tem um motivo para chamarem aquilo de Bunny Man Bridge.

A gente até tinha uma rima para ele, um canto de corda de pular. Nossas vozes eram todas cantaroladas e inocentes, sem ideia do que realmente estávamos falando.

Bunny Man, Bunny Man, machado a reluzir,

Se esconde nas sombras, não dá para o ver surgir.

Não usa lista, não confere duas vezes,

Ser bom ou mau não salva a vida de vocês.

Era para ser uma história de fantasma. Mas eu tinha ouvido os outros sussurros. Os verdadeiros. Dos mais velhos, cujos pais não eram cuidadosos. Eu tinha ouvido falar da família Johnson, cinco anos antes. O pai era lenhador, e encontraram ele lá na mata. Esfolado. A polícia disse que foi um urso, mas não havia pegadas de urso. Só rumores de uma pegada única e estranha, e umas fibras que pareciam vir de uma fantasia barata de coelho. Eu tinha ouvido falar do garotinho dos Smith, que desapareceu do próprio quintal durante uma caça aos ovos de Páscoa. Nunca encontraram o menino, só os ovos que ele tinha recolhido, arrumados em um círculo perfeito no quarto vazio dele.

Tentei contar aos meus pais sobre a pegada, a rima, a coisa que vi na mata. Tentei juntar as peças que queimavam na minha mente. Minha mãe só me dava aquele sorriso forçado e paciente. “Chega de histórias assustadoras, querida. Você vai acabar tendo pesadelos.” Meu pai só ria. “Não existe Bunny Man nenhum. É só história.” Eles guardaram meus medos numa caixa, rotularam de “fantasia infantil” e colocaram numa prateleira. Eles me amavam. Só não conseguiam imaginar um mundo em que os monstros fossem reais. A descrença deles parecia uma jaula, e eu estava presa dentro dela, sabendo que alguma coisa terrível estava a caminho. A Páscoa estava chegando.

Na noite da Sexta-feira Santa, os sons começaram. Um thump… thump… thump… suave e constante contra a lateral da casa. Parecia um coração gigante batendo dentro das paredes. Fiquei deitada na cama, paralisada, com as cobertas puxadas até o nariz. Por fim, me arrastei até a janela e olhei para fora, para o quintal. Não consegui ver nada além das formas escuras das árvores. Mas o cheiro estava ali de novo, muito mais forte agora. Feno molhado e podridão. E sangue.

No sábado, o mundo parecia cruelmente normal. O sol estava lá fora, os pássaros cantavam. Parecia uma piada doente. Minha mãe estava na cozinha, perdida numa nuvem de farinha e açúcar. Ela pediu ao meu pai para ir buscar a forma grande de assar na garagem. A bicicleta nova do Michael ainda estava lá dentro, e senti um pequeno lampejo de empolgação por ele antes que o pavor o sufocasse de novo.

“Já volto”, disse meu pai. Ele bagunçou meu cabelo ao sair pela porta dos fundos.

Mas ele não voltou logo.

Depois de uns dez minutos, minha mãe enxugou as mãos no avental, com cara de aborrecida. “O que está prendendo esse homem?”, resmungou, indo até a porta. Eu a segui. Meu coração batia forte. A porta da garagem estava aberta só uma fresta. Minha mãe chamou o nome dele. Nada. Ela caminhou até lá, mas eu fiquei paralisada no pátio.

Ela empurrou a porta até abrir completamente e simplesmente… parou. Ela não gritou. É isso que eu mais me lembro. O silêncio. Ela só ficou ali, com a mão tampando a boca. Dei um passo lento para frente, depois outro, até conseguir ver por cima do ombro dela para dentro da garagem.

Meu pai estava no chão, ao lado da lona caída e da bicicleta novinha do Michael. A forma de assar estava no chão perto dali, salpicada de vermelho. A cabeça do meu pai… estava virada num ângulo que não devia ser possível, e a parede atrás dele estava pintada de carmim. Escorado em alguns pneus havia um machado. Era o nosso machado; o que meu pai usava para rachar lenha. Mas ele não estava onde a gente o guardava. E não estava limpo. O mundo simplesmente inclinou. A única coisa que me manteve em pé foi ver as costas da minha mãe, rígidas como uma tábua. Ela se virou devagar; o rosto dela era uma máscara pálida e cerosa. “Vá para o seu quarto”, sussurrou, a voz fina e estranha. “Tranque a porta. E não. Saia. De. Lá.”

Corri. Corri escada acima, passando pelo quarto do Michael, onde ele ainda estava jogando videogame, totalmente alheio a tudo. Tranquei a porta e me escondi no armário, enterrando o rosto num monte de roupas, tentando apagar da cabeça a imagem do machado e da parede.

O resto do dia foi um borrão de policiais, luzes piscando e vozes baixas em cômodos onde eu não podia entrar. Minha mãe quis levar Michael e eu para outro lugar, um hotel, a casa da minha tia, qualquer lugar menos ali, mas a polícia disse para a gente ficar. Disseram que teriam agentes por perto durante a noite. Disseram que a casa estava segura. Eu me lembro da expressão no rosto da minha mãe quando eles disseram isso. Ela não discutiu. Mas eu sabia. Ela sabia. O que quer que tivesse matado meu pai ainda não tinha terminado.

Naquela noite, a casa estava silenciosa como um túmulo. Mamãe colocou Michael na cama, dizendo que o papai tinha ido ajudar um vizinho. Trancou todas as portas, todas as janelas. Depois ficou sentada na sala, no escuro total. Eu não conseguia dormir.

As batidas voltaram, mas já não estavam do lado de fora.

Estavam dentro da casa. Passos suaves e pesados no andar de baixo. Uma tábua do assoalho rangendo no corredor.

Então, ouvi a água correndo no banheiro dos meus pais. Um respingo. Depois… silêncio. Um silêncio espesso e pesado, muito pior do que o barulho. Esperei o que pareceram horas. Não aguentei ficar no meu quarto. Abri a porta devagar e me arrastei para o corredor. A porta do quarto dos meus pais estava aberta. A luz do banheiro estava acesa, derramando-se sobre o carpete.

Andei na ponta dos pés e espreitei pela moldura da porta. Minha mãe estava na banheira. Mas ela não estava tomando banho.

Ela estava pendurada no chuveiro pelo cinto do meu pai, o corpo só… balançando. A garganta dela tinha sido cortada, um sorriso horrível e aberto de orelha a orelha. A água que eu tinha ouvido vinha do chuveiro, lavando o sangue dela pelo ralo.

E na parede branca de azulejos, desenhado com sangue, havia uma imagem tosca de um ovo de Páscoa.

Cambaleei para trás; um grito travou na minha garganta. Eu precisava pegar o Michael. Corri até o quarto dele e escancarei a porta.

A cama dele estava vazia. Os lençóis estavam rasgados e jogados no chão. A janela estava totalmente aberta, as cortinas soprando no ar da noite. E no travesseiro dele, exatamente onde a cabeça dele deveria estar, havia um único ovo de Páscoa azul, cor de ovo de tordo. Ao lado dele, uma cenoura meio comida.

Ouvi uma tábua do assoalho ranger bem atrás de mim.

Não me virei. Só disparei. Pela porta dos fundos, para dentro da mata. Corri até o sol nascer e minhas pernas cederem. Me escondi embaixo de um arbusto, tremendo, enquanto as primeiras sirenes cortavam a manhã de Domingo de Páscoa. Eu era a única que tinha sobrado. Ele não usava lista. Não conferia duas vezes. Por algum motivo que jamais vou entender, ele me deixou ir.

A polícia chamou aquilo de roubo seguido de homicídio. Um andarilho, eles supuseram. A janela aberta no quarto do Michael, algumas joias desaparecidas, essa era a história deles. Meu pai reagiu, e minha mãe foi vítima de uma crueldade sem sentido. Para o Michael, não tinham história nenhuma. Ele só virou uma pessoa desaparecida. Um rosto num folheto. Um fantasma.

Eles não acreditaram numa menina de dez anos em choque. O Bunny Man? Só me olhavam com pena. Minha história foi enterrada sob sessões de terapia e relatórios psiquiátricos. Fui enviada para morar com minha tia em outro condado, longe da mata e dos sussurros.

Por vinte anos, eu tentei com todas as forças ser normal. Fui para a escola, fiz amigos, entrei na faculdade. Conheci meu marido, Mat. O mundo dele é tão concreto, tão abençoadamente normal, que por um tempo eu quase consegui fingir que o meu também era. Nós nos casamos. Compramos uma casa nova, sem passado, sem estalos, sem garagem. Tivemos dois filhos. Lily, que tem os meus olhos, e Sam, que tem o sorriso fácil do pai.

Eu construí uma vida em cima da negação. Mas, todo ano, quando a primavera chegava, o pavor voltava rastejando. Eu via enfeites de Páscoa no supermercado e minha garganta se fechava. Via um cara vestido de coelho no shopping e precisava lutar contra um ataque de pânico de verdade. O passado não estava morto. Só estava dormindo. E eu sempre soube que, um dia, ele ia acordar.

Hoje à noite, ele acordou. É Sexta-feira Santa, vinte anos depois. E as batidas voltaram.

Começaram há uma hora. Aquele mesmo ritmo suave contra a parede da sala. Thump… thump… thump…

“É só a casa assentando, querida”, disse Mat sem levantar os olhos do laptop. “Casas novas fazem isso.”

Mas eu sabia…

Então veio o cheiro. Aquele mesmo feno podre e pelo úmido, infiltrando-se pelas molduras da janela. Eu conferi as trancas três vezes. Fechei todas as persianas.

“O que há de errado com você?”, Mat finalmente perguntou, fechando o laptop. “Você está branca como um fantasma. Isso é por causa da Páscoa de novo? A gente já conversou sobre isso. Foi uma tragédia horrível, aleatória. Mas acabou.”

Ele estava tentando me consolar, mas era como jogar gasolina no fogo. Ele não entende. Não pode entender. Para ele, o Coelhinho da Páscoa é só chocolate e cestas. Para mim, é um assassino num figurino sujo com um machado. É um monstro que despedaça famílias por diversão.

Meus filhos estão dormindo lá em cima. Lily tem oito anos, Sam tem seis. Passaram a noite inteira falando sobre a caça aos ovos da cidade, amanhã. Eles até deixaram cenouras para o Coelhinho da Páscoa. A inocência deles parece um pedaço frágil de vidro, e eu consigo sentir que está prestes a se estilhaçar.

As batidas pararam. E é isso que mais me assusta. O silêncio sempre é pior. Mat suspirou. “Olha, eu vi um galho batendo na lateral da casa mais cedo. Vou cortar. Isso vai te deixar melhor?”

“Não, Mat, não faça isso”, eu disse, a voz trêmula. “Por favor, só fique aqui.”

“Vou demorar dois segundos”, ele disse, beijando minha testa. “Vou sair pela garagem. Tranca a porta atrás de mim.”

Ele foi em direção à cozinha, em direção à porta da garagem. Para a parte de trás da casa. Exatamente como meu pai indo em direção à garagem. A velha rima explodiu dentro da minha cabeça. Meu sangue gelou.

Ele está fora há cinco minutos.

Parece uma hora…

A luz com sensor de movimento no quintal acabou de acender…

Eu não consigo ver os fundos da casa daqui.

Só a luz.

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