quinta-feira, 2 de abril de 2026

Minha Casa de Infância Não Era Normal...

Eu cresci em uma casa escondida no meio da floresta, não muito longe de Seattle — perto o suficiente de uma estrada principal para ainda conseguir ouvir o mundo, se você prestasse atenção, mas longe o bastante para que as árvores parecessem vivas… como se estivessem observando.

Era um silêncio estranho. Não parecia vazio, só… atento.

Nossa casa ficava ali, cercada pela floresta, como se tivesse sido colocada no meio de algo mais antigo.

Eu morava lá com meu pai, minha mãe e meu irmão mais velho. Tínhamos três cachorros — Blue, Daisy e Pete —, então a casa nunca ficava realmente parada. Sempre havia movimento, sempre algum barulho, algo que lembrava que você não estava sozinho.

Pelo menos, era assim no começo.

Eu era muito novo, tinha por volta de cinco anos quando tudo começou. Nessa idade, eu não sabia nada sobre fantasmas, nem sobre o paranormal, nem nada do tipo. Não havia nenhuma ideia plantada na minha cabeça que me fizesse esperar que algo acontecesse.

O que eu vivenciei, eu vivenciei sem contexto… apenas como algo real.

E, por um tempo, eram coisas pequenas.

Momentos rápidos que não faziam sentido, mas eram fáceis de ignorar: um puxão leve na parte de trás da minha camiseta, quando não tinha ninguém ali; movimentos no canto do olho que desapareciam no segundo em que eu tentava focar.

Coisas que você percebe por um instante… e esquece.

Até começarem a acontecer de novo.

E de novo.

Na época, nada disso tinha um nome. Era só… alguma coisa.

Então minha mãe faleceu.

Depois disso, a casa não parecia mais a mesma. Não de um jeito que eu conseguia explicar naquela época, mas algo mudou. O silêncio ficou mais pesado. As noites ficaram mais longas.

E as coisas pequenas deixaram de ser pequenas.

Parecia pior à noite.

Não aconteceu tudo de uma vez, não foi algo dramático, mas o suficiente para eu começar a perceber um padrão. A casa mergulhava em silêncio — aquele tipo que preenche seus ouvidos quando todo o resto desaparece.

Meu quarto era sempre o centro disso.

Era onde tudo parecia mais forte.

Uma noite, eu acordei com o som de passos.

Eram lentos, deliberados, vindo do lado esquerdo da minha cama. Não no corredor, não em algum lugar distante… mas dentro do quarto, comigo.

Eu não me movi.

Mal respirei.

Só puxei o cobertor por cima da cabeça e fiquei ali, tentando desaparecer debaixo dele, como se aquilo pudesse me proteger.

Então aconteceu.

Um rugido — alto, repentino — bem no meu ouvido.

Perto o suficiente para parecer que aquilo estava ao lado do meu rosto.

Eu não pensei.

Só corri.

Saí disparado do quarto, pelo corredor, direto para o quarto do meu irmão. Nem bati na porta — só entrei e subi na cama dele. Lembro de sentir medo de olhar para trás, para o corredor… principalmente para a porta aberta do quarto dele, quando as luzes estavam apagadas.

Sempre parecia que, se eu olhasse por tempo demais, alguma coisa estaria ali.

Depois disso, não parou.

Algumas noites, quando eu estava debaixo das cobertas, sentia o final da minha cama se mover. Não de leve, não como algo acomodando… mas como se houvesse peso ali. Como se algo estivesse sentando.

Ou quicando, devagar.

Eu nunca olhava.

Nunca conferia.

Só ficava imóvel, esperando parar.

Durante o dia, as coisas eram mais silenciosas… mas não tinham desaparecido.

Às vezes, eu ouvia vozes vindo de trás de portas fechadas, mesmo quando não havia ninguém em casa. Não eram altas, nem claras o suficiente para entender… mas eram o bastante para saber que estavam lá.

Outras vezes, eu via movimentos onde não deveria haver nenhum. Algo se mexendo logo fora do meu campo de visão.

E então vinham os sonhos.

Eles não pareciam sonhos normais.

Pareciam próximos… como se estivessem acontecendo do outro lado de estar acordado.

Às vezes, eu via olhos vermelhos brilhando no fim do corredor, me encarando… antes de eu acordar.

Outras vezes, tudo parecia normal no começo.

Até algo ficar errado.

Uma vez, eu acordei e fui até a sala. De lá, dava para ver direto a cozinha.

Minha mãe estava lá.

De pé, no fogão, cozinhando como se nada tivesse acontecido… como se ela nunca tivesse morrido.

Lembro de me aproximar.

Sem questionar.

Só aceitando.

Então eu olhei para fora.

Pete estava no quintal… mas havia algo errado com ele.

O corpo dele parecia distorcido — esticado, desigual — como se algo tivesse tentado moldá-lo… e falhado.

Ele virou e olhou para mim.

E foi aí que eu acordei.

Mesmo do lado de fora, não desaparecia completamente.

Houve vezes em que eu olhava para a beira da floresta e via figuras paradas ali. Longe o suficiente para não conseguir ver detalhes.

Às vezes, pareciam pessoas.

Às vezes, acenavam.

Eu nunca acenei de volta.

E então houve uma vez em que quase foi mais longe.

Havia gente em casa naquele dia — amigos do meu irmão. Todo mundo estava do lado de fora, conversando, distraído.

E eu me afastei.

Sem ninguém perceber.

Caminhando em direção à floresta, como já tinha feito antes.

Foi quando eu ouvi.

Uma voz chamando meu nome.

Soava exatamente como a voz da namorada do meu pai. Familiar. Clara. Vinda de dentro da floresta, logo além das árvores.

Chamando de novo.

E de novo.

Calma. Paciente.

E eu comecei a andar em direção a ela.

Mais perto das árvores.

Mais perto da voz.

E provavelmente teria continuado…

Se algo não tivesse interrompido.

Ouvi uma moto vindo rápido, ficando cada vez mais alta, cortando todo o resto. Um dos amigos do meu irmão chegou, parou e me puxou para subir na garupa antes que eu fosse mais longe.

Ele me levou de volta para a casa.

Quando cheguei, perguntei onde estava a namorada do meu pai.

Eles me disseram que ela não estava lá.

Ela nunca esteve lá.

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