sexta-feira, 10 de abril de 2026

Minha Última Memória

A gente sempre chama de coincidência — aqueles momentinhos comuns e bobos que parecem um pouco errados. Você está tomando seu café e o ar fica frágil de repente, uma geada repentina que não tem nada a ver com o tempo lá fora. Você culpa a corrente de ar. Você sempre culpa. Mas não era corrente de ar. Era o quarto ficando lotado.

Aqui vai um desses incidentes que, quando olho para trás, acho que não foi só uma coincidência qualquer. Ou talvez eu esteja pensando demais.

18 de dezembro de 2016

Era uma noite de inverno bem fria e amarga. Eu estava curvado na cadeira, com a luz azul da tela do laptop vazando para dentro da escuridão do quarto. Tentava forçar uma história de terror a existir; a atmosfera estava perfeita, mas as páginas continuavam teimosamente vazias. Não tinha nada de assustador no que eu escrevia — pelo menos ainda não.

Estiquei a mão para pegar minha garrafa laranja de cobre, mas recuei por um segundo. Ela estava grossa de ferrugem, com uma película escura e opaca cobrindo o metal que eu tinha polido até ficar brilhando só algumas horas antes. Eu até conseguia sentir o cheiro — aquele cheiro forte e metálico de moedas antigas. “Talvez o ar esteja úmido demais”, disse para mim mesmo, uma desculpa fraca para explicar como o metal tinha azedado tão rápido. Ignorei a intuição apertando meu peito e voltei para a tela.

— Mamma, você pode encher isso pra mim? Tô no meio de uma coisa aqui.

Nenhuma resposta.

— Mamma? Você tá aí? — Levantei a voz, mas a casa não deu nem um rangido de tábua do assoalho em resposta. Era um silêncio pesado, sufocante.

“Ela deve estar só assistindo TV com a porta fechada”, pensei. Mas um pensamento gelado não me largava: mesmo com a porta dela fechada, eu deveria estar ouvindo o zumbido abafado do jornal ou o piscar de uma comédia. Em vez disso, só havia... nada. Fiquei na cadeira, usando a preguiça como escudo contra o desconforto que só crescia.

Consegui escrever duas páginas inteiras. De repente, a história começou a fluir, ficando sombria e visceral — tanto que os pelos dos meus braços começaram a se arrepiar. Mas os arrepios não vinham das palavras na tela.

Vinham do som.

Um rangido ritmado, estalando, como botas pesadas pisando em tábuas de madeira antigas. Era inconfundível. Continuei digitando, com os dedos tremendo um pouco enquanto tentava racionalizar aquilo. “Minha cabeça só tá pregando peças por causa da história”, pensei. “Essa casa é toda de piso de mármore. Não tem madeira nenhuma aqui pra ranger.”

Mas o som não parava.

A sede ficou insuportável, uma dor seca na garganta que me tirou da cadeira. Peguei a garrafa enferrujada e me levantei.

— Mamma, sério, que porra tá acontecendo?

Caminhei até a porta. Ela estava um pouco entreaberta, revelando só uma fresta do corredor completamente preto lá fora.

“Espera, o corredor tá escuro demais. Deixa eu só... acender as luzes.”

Eu estava falando sozinho. Eu nunca falo sozinho, a não ser quando tento abafar um silêncio que parece pesado demais. Acionei o interruptor da luz principal do quarto. Por uma fração de segundo, enquanto a lâmpada zumbia e acendia, eu vi — uma mancha de preto absoluto no canto, escondida atrás das dobras grossas das cortinas.

“Só uma ilusão”, sussurrei. “Pareidolia. O cérebro é só uma máquina de reconhecer padrões jogando xadrez às cegas consigo mesmo. Ele vê um rosto numa nuvem; vê um fantasma numa sombra. Nada mais.”

Eu me agarrei àquela explicação, mesmo enquanto uma tensão fria e afiada apertava entre meus pulmões.

Mas então olhei para a porta.

Meu quarto estava inundado de luz, mas o corredor continuava um vazio sólido e impenetrável. Mesmo com a porta bem aberta, nem um único fóton parecia cruzar o limiar. Era como se a escuridão lá fora estivesse faminta, devorando ativamente a luz antes que ela conseguisse escapar do quarto.

Tentei forçar meu cérebro de volta para a zona de conforto. “Fenômenos paranormais não existem”, disse para mim mesmo. “A ciência tem resposta pra tudo. Talvez fosse uma interferência eletromagnética alta (EMI) causando uma alucinação localizada? Ou talvez o ar do quarto tivesse ficado tão incrivelmente denso que eu estava testemunhando uma ocorrência rara de Reflexão Interna Total (TIR), presa dentro do limite da porta.”

Mas a lógica falhou assim que se formou. Para uma TIR acontecer naquela escala, o ar do meu quarto teria que estar denso o suficiente para esmagar meu peito. Eu não conseguiria respirar, muito menos ficar de pé.

Naquele momento, percebi que eu não estava só racionalizando. Eu estava mentindo para mim mesmo para não gritar.

“Tá bom, Avinash! Não é nada. É literalmente nada. Só entrar no corredor, acender as luzes, ir até a cozinha e encher a garrafa. Só isso. Talvez eu dê uma olhada na Mamma no caminho de volta.”

Me forcei a cruzar o limiar. A escuridão não só me cercou; ela parecia pesada, como se eu tivesse mergulhado no oceano e mexido sem querer na lama do fundo. Num vazio turvo daquele tipo, você não consegue ver sua própria mão na frente do rosto. Só precisa confiar na corda de segurança. Minha “corda” era a propriocepção — o mapa interno que meu cérebro tinha da minha própria casa. Eu não precisava de olhos para achar o quadro de interruptores; meus músculos já sabiam o caminho.

Meus dedos encontraram o plástico frio do interruptor. Acionei.

Nada. O corredor continuou um bloco sólido de preto.

“Ah... interruptor errado. Foi mal. Deixa eu tentar de novo.” Eu me ouvi rindo — um som irregular e agudo, que estava a meio caminho de um grito. Eu fazia o maior barulho possível, tentando sufocar o silêncio aterrorizante da casa.

Acionei o próximo interruptor. Ainda nada.

“Acho que as lâmpadas queimaram. São velhas... isso é perfeitamente normal.” Eu falava cada vez mais rápido, com a respiração engasgando na garganta. “Tão normal quanto a temperatura. O corredor só está... naturalmente mais frio que o resto da casa. Termodinâmica. É tudo só física.”

Continuei rindo, mas o som saía oco, ecoando nas paredes de mármore como se pertencesse a outra pessoa.

De repente, eu senti. Uma lufada de bafo gelado contra meu ombro direito.

Cada célula do meu corpo começou a gritar, mas minha garganta era um deserto; eu não conseguia emitir som nenhum. Meu coração não estava só acelerado — ele martelava contra minhas costelas como um animal preso tentando escapar da jaula. Comecei a recuar, um passo trêmulo de cada vez, voltando para o santuário do meu quarto.

Acelerei, com os calcanhares batendo freneticamente no mármore, quando uma mão — morta de fria e impossivelmente forte — agarrou meu pulso esquerdo por trás.

— Socorro! SOCORRO!

O grito finalmente rasgou de dentro de mim. Eu me lancei para frente, arrancando o braço com tanta violência que senti a pele rasgar. Unhas longas e afiadas arranharam minha carne. Não parei para olhar para trás. Mergulhei no quarto e bati a porta, mexendo no trinco até a trava encaixar com um clique.

Desabei contra a madeira, ofegante. Olhei para minha mão. Estava uma bagunça; sangue quente e escuro já pingava das pontas dos meus dedos, manchando os azulejos brancos. Isso não era truque de luz. Era físico.

Eu me arrastei até a janela, desesperado para ver um vizinho, um carro — qualquer coisa que pertencesse ao mundo real. Puxei as cortinas com força, esperando o brilho familiar dos postes de rua.

Nada.

O mundo lá fora era um vazio de escuridão absoluta, preta como tinta. Não havia veículos, nem postes, nem sequer a silhueta da casa do outro lado da rua. Não fazia sentido. Ontem tinha sido lua cheia, mas hoje à noite o céu era uma prisão. Nuvens grossas e antinaturais tinham engolido a lua inteira, devorando até a última gota de luz, como se o próprio universo tivesse sido apagado.

Uma batida ritmada e forte soou contra a madeira. Eu me virei rápido, com a respiração presa na garganta, só para ver o impossível: a porta que eu tinha acabado de trancar estava escancarada.

Não era mais só um corredor lá fora. A escuridão invadia meu quarto como uma maré física, grossa e parecida com tinta, engolindo o piso. Eu recuei desesperado, com as mãos procurando freneticamente na escrivaninha por qualquer coisa — uma caneta, um abajur — algo para usar como arma. Mas antes que eu conseguisse pegar qualquer coisa, a lâmpada do teto piscou uma vez e morreu.

O blecaute foi total.

A única coisa que eu conseguia ouvir era o som molhado e irregular da minha própria respiração e o tum-tum pesado do meu coração. Então lembrei do celular no meu bolso. Minhas mãos tremiam tanto que quase o deixei cair, mas consegui deslizar na tela e apertar o ícone da lanterna.

O feixe de luz cortou um buraco irregular na escuridão. Eu varri o quarto — nada. Virei de volta para a janela — nada. Então eu senti.

Duas mãos, frias como terra de túmulo, cravaram nos meus ombros por trás.

Eu girei a lanterna, e o feixe pegou um rosto a poucos centímetros do meu. Era um pesadelo irregular e esquelético — pele esticada como pergaminho cinza sobre um crânio, olhos afundados em poços podres de sombra. Não gritou; só ficou olhando, com a boca puxada num sorriso largo e sem lábios.

O mundo inclinou. A lanterna caiu da minha mão e tudo ficou preto.

Acordei com o cheiro esterilizado e cortante de antisséptico e o bipe-bipe constante de um monitor cardíaco. Minha cabeça estava pesada, enrolada em camadas grossas de gaze. Segundo a Mamma, ela me encontrou caído no corredor, inconsciente e sangrando muito dos cortes no braço. Ela não tinha ouvido nada — nem gritos, nem passos, nem batidas. Só o som do meu corpo batendo no piso de mármore.

O contraste é o que me assombra. Para a Mamma, a cena foi mundana, quase chata. Sem gritos, sem luta, sem escuridão impossível. Na versão dela da realidade, eu simplesmente escorreguei no mármore polido e bati a cabeça — um acidente rotineiro causado por um corredor escuro e um pouco de desajeito.

Mas conforme a ardência do antisséptico vai passando, meu cérebro científico já está descartando a teoria dela. Ele está procurando uma nova hipótese para explicar os dados. Se eu descarto o paranormal como “não comprovado”, sobra um terror bem mais clínico.

Esquizofrenia. Os sintomas encaixam com uma precisão aterrorizante: alucinações auditivas (o rangido da madeira), distorções visuais (a escuridão “faminta”) e delírios táteis (o bafo frio, as mãos nos meus ombros). Talvez os cortes no meu braço não tivessem vindo de unhas, mas dos meus próprios movimentos frenéticos e inconscientes contra os móveis.

Estou numa encruzilhada do medo. Um caminho leva a um mundo onde fantasmas são reais e as leis da física podem ser quebradas. O outro leva a um mundo onde minha própria mente é uma traidora, uma “prisão de escuridão” da qual eu nunca vou conseguir escapar.

Não sei qual dos dois eu estava rezando para ser verdade.

Fui liberado dois dias depois. A psiquiatra foi clínica, profissional e totalmente desinteressada. Depois de uma bateria de testes, ela disse que meu cérebro estava funcionando dentro de parâmetros perfeitamente normais.

— Não é esquizofrenia, Avinash — disse ela, rabiscando na prancheta. — E com certeza não são fantasmas. Você andou consumindo muita “porcaria de terror” enquanto escrevia sua história. Quando você escorregou e bateu a cabeça, seu cérebro entrou num estado de consciência parcial. Você estava sonhando acordado, alimentado pela própria adrenalina criativa. Sua mente só preencheu as lacunas com os monstros que você já estava pensando.

Eu queria acreditar nela. Cientificamente, fantasmas não têm massa mensurável, nem assinatura de energia, nem lugar nas leis da termodinâmica. Se não estão comprovados, eles não existem.

Naquela noite, meu amigo Abhinav passou lá para ver como eu estava. Contei tudo pra ele — a escuridão, os arranhões, a dispensa da psiquiatra.

— Você deve ter feito alguma coisa que ofendeu eles — disse Abhinav, com a voz baixa. — O que quer que esteja nessa casa... você devia só pedir perdão.

Eu ri, embora tenha soado forçado.  
— Pedir perdão pra quem, Abhinav? Pros meus próprios neurônios? Se eu me desculpar com uma sombra, só vou treinar meu cérebro pra acreditar na mentira. A ciência não comprovou fantasmas, então eu me recuso a reconhecer eles.

Abhinav foi embora pouco depois, parecendo preocupado. Fui dormir cedo, me agarrando às palavras da psiquiatra como se fossem uma boia salva-vidas. Era só um sonho. Uma concussão. Porcaria de terror.

Mas naquela noite, a escuridão voltou.

Dessa vez não veio com batidas. Não teve bafo frio no ombro, nem luta desesperada na porta. Foi muito pior.

Enquanto eu estava deitado, senti o colchão afundar ao meu lado. Foi uma depressão lenta e pesada, como se alguém — ou alguma coisa — tivesse acabado de sentar bem do lado do meu quadril. Eu conseguia sentir o frio irradiando através dos cobertores. Fiquei olhando para o espaço vazio na cama, com o coração vibrando de um terror que nenhum livro didático conseguiria explicar.

No silêncio esmagador, uma memória do meu professor de Física veio à tona, um aviso que eu tinha descartado meses antes:

“Só porque algo não foi comprovado pela ciência, não significa que foi desprovado.”

Percebi então que a ciência não era um escudo. Era só um mapa das coisas que a gente entendia. E eu estava dividindo minha cama com algo que não estava nesse mapa.

Aliás, esse foi o último episódio que aconteceu comigo. Voltando para 2026, não teve mais nenhum. Mas essa história minha, que eu mandei pro meu amigo que literalmente publicou isso nessa plataforma, literalmente me deu uma saída.

Como Avinash, eu ignorei eles demais, e eles cansaram disso. Queriam provar a presença deles pra um cara científico e mal-educado.

Mas enfim, obrigado por ler minha história. Embora talvez eu te encontre em breve, se você não se importar com alguém deitado na sua cama ao seu lado.

Obrigado por ouvir minhas palavras e por me dar permissão pra ficar.

0 comentários:

Tecnologia do Blogger.

Quem sou eu

Minha foto
Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon