domingo, 5 de abril de 2026

O Pastor das Sombras

A luz da manhã filtrava-se pelas janelas de vitral da catedral, lançando um brilho estranhamente sereno sobre os bancos de carvalho. Dei um gole no chá quente, sorrindo de leve ao ouvir as crianças do coral brincando alegremente no pátio. Eu amo esta vida; ela me mantém perto de Deus e me permite viver plenamente, com fé e felicidade, ao lado dos paroquianos desta terra, especialmente das crianças, que fazem minha alma se sentir pura e serena. No entanto, o jornal em minha mão naquele momento não trazia paz alguma.

A manchete da primeira página estampava em letras garrafais: “A QUARTA VÍTIMA — O ASSASSINO QUE ARRANCA A PELE AINDA ESTÁ À SOLTA.” Outro corpo havia sido encontrado sem um único centímetro de pele, largado à beira da estrada como uma massa ensanguentada e pastosa de carne. Dobrei o jornal, soltei um suspiro baixo e limpei minha mesa, bem quando uma batida soou à porta.

Eram dois policiais locais. Seus rostos estavam marcados por tensão e exaustão. Tinham vindo perguntar sobre Anna, uma moça adorável, habilidosa e entusiasmada, que era responsável pelos arranjos florais do Altar de Nossa Senhora e uma seguidora profundamente devota.

— Padre, ninguém a vê há três dias — disse um dos policiais. — Tememos que ela possa ter se tornado alvo do assassino.

Franzi a testa, exibindo um semblante preocupado. — Meu Deus, Anna é uma criança tão santinha. Por favor, façam todo o possível para encontrá-la. — Forneci a eles algumas informações sobre as últimas vezes em que Anna havia vindo até aqui, suas atividades diárias na igreja, e então os despedi com uma oração. Eu esperava que a polícia fizesse bem o seu trabalho e trouxesse justiça às vítimas.

A noite caiu. A catedral mergulhou na luz tremulante das velas e em seu silêncio habitual. Entrei no confessionário, sentei-me e fechei os olhos para esperar.

Um momento depois, passos se aproximaram.

Não era o som de saltos batendo no chão de mármore, mas um ruído muito estranho. Chloft... ping... Cada passo vinha acompanhado de um pesado som de gotejamento. Não era claro como água da chuva, mas espesso e pesado. Tump. Tump. O penitente entrou no compartimento ao lado, atrás da fina divisória de madeira. O odor metálico de ferrugem começou a rastejar pelo espaço estreito.

— Perdoe-me, Padre, porque pequei...

A voz veio do outro lado da divisória. Surpreendentemente, era a voz de Anna, a garota dada como desaparecida havia dias. Mas já não era a voz límpida, de pássaro, que eu conhecia; era rouca, úmida e áspera, como se algum fluido espesso estivesse entupindo sua garganta.

— O Senhor está sempre ouvindo, minha filha — respondi em um tom calmo, firme e grave.

Anna começou a falar. Não era uma confissão comum, mas uma história horrenda. Ela disse que, dias antes, fora visitar uma amiga próxima. Quando a porta se abriu, a amiga pareceu recebê-la e convidá-la a entrar. Mas Anna percebeu imediatamente que havia algo errado. A pele da amiga estava flácida e frouxa, com dobras pendendo pesadamente ao redor do pescoço e da linha do maxilar. Parecia muito estranho, como alguém vestindo roupas grandes demais para o próprio corpo.

Enquanto a amiga ia fazer chá, Anna esperou na sala de estar. De repente, ouviu um barulho de farfalhar vindo do guarda-roupa de madeira, acompanhado por um fraco choro ofegante pedindo socorro. A curiosidade venceu seu medo; Anna deu um passo à frente e abriu lentamente a porta do guarda-roupa.

E então, uma visão de horror absoluto atingiu seus olhos.

Uma figura humana de carne viva e vermelha, completamente sem pele, saltou para fora do guarda-roupa e agarrou o ombro de Anna. Ela arquejou com uma voz quebrada: “Me salva...” Apesar do choque e do terror, Anna reconheceu imediatamente a voz da sua melhor amiga. A pobre criatura desabou e morreu ali mesmo sobre seu ombro, o sangue encharcando sua camisa.

Anna gritou freneticamente, empurrou o cadáver para longe e saiu correndo da casa. Depois de correr um trecho, olhou para trás. Pela janela, a “amiga” de pele flácida estava ali, imóvel, o rosto sem expressão, os olhos fixos e atentos na direção em que ela fugia.

Anna relatou o caso à polícia. Eles foram investigar rapidamente, mas não encontraram nada de errado com a amiga, nem corpos sem pele, nem vestígios. Mas Anna tinha absoluta certeza do que viu; a sensação não podia estar errada. Aquilo a aterrorizou tanto que ela não ousava mais sair de casa.

— Mas, Padre... — a voz de Anna atrás da divisória começou a tremer, misturada a ofegos borbulhantes. — Desde aquele dia, senti como se estivesse sendo observada. Principalmente à noite. Comecei a sonhar. Sonhei que estava fazendo meu trabalho diário. Eu estava costurando uma roupa linda, uma grande obra-prima... Esse sonho me persegue, roendo minha mente.

Permanecei imóvel, meus olhos fitando indiferentes a escuridão do confessionário. — E então, o que houve, minha filha?

— Uma semana se passou... Decidi continuar meu trabalho como costureira — gritou Anna, sua voz se distorcendo, carregada de uma excitação mórbida. — Cortei cada pedaço de material para fazer a roupa do meu sonho. Peça por peça... eu os arranquei do corpo... depois costurei tudo cuidadosamente em uma peça completa... Vesti-la... realmente é maravilhoso, Padre.

Shhk!

Um som áspero ecoou. A tela de madeira que me separava da penitente foi cortada ao meio por uma tesoura de costura afiada; o corte foi limpo e rápido.

O rosto de Anna apareceu diante dos meus olhos através da abertura. Não, aquilo não era Anna. Era algo que se enfiara dentro da carcaça da pobre garota. A pele do rosto estava enrugada e solta, costurada com fios grosseiros na linha do pescoço. Gotas espessas de sangue vazavam pelas costuras, escorrendo até o chão e produzindo o som pesado de gotejamento que eu ouvira antes.

O demônio em pele humana sorriu, um sorriso rasgado que se estendia até as orelhas.

— Que Deus me perdoe pelo que fiz e pelo que estou prestes a fazer — sussurrou, com o olhar ganancioso preso ao meu rosto. — Padre, o senhor tem uma pele tão maravilhosa...

A ponta afiada da tesoura de costura atravessou lentamente a divisória, apontando diretamente para o meu olho.

Eu nem pisquei. A máscara de pastor gentil caiu lentamente.

Falei, não com voz humana, mas com uma ressonância profunda e vazia, ecoando do abismo:

— Deus é rico em misericórdia; Ele perdoa os seus pecados. Mas eu não tenho tal misericórdia.

A temperatura dentro do confessionário despencou subitamente abaixo de zero. As velas do lado de fora se apagaram. Sob meus pés, a sombra escura projetada no chão começou a se contorcer. Ferveu como uma panela de piche, depois se alongou a uma velocidade aterrorizante, serpenteando pela divisória e se prendendo com força à sombra do demônio.

A tesoura caiu no chão com estrondo. O demônio ficou paralisado, incapaz de mover sequer um dedo.

Lentamente, tirei meus óculos de aro redondo. Meus olhos não tinham brancos, nem pupilas, apenas a escuridão espessa e sólida do vazio. Olhei diretamente para o demônio.

A fome em seu rosto flácido desapareceu instantaneamente, substituída por puro terror. Pela primeira vez, o caçador percebeu que era a presa.

— Não... isso não pode ser... — gritou o demônio, com a voz aguda e desesperada.

Minha sombra abriu bocas invisíveis. Ela não apenas o prendeu; começou a banquetear-se. Dos pés ao topo da cabeça, o demônio foi lentamente arrastado para a escuridão infinita, afundando na própria sombra. Ele gritou. Um grito que rasgou sua garganta, carregando a agonia extrema de uma alma esmagada e devorada viva. Eu saboreei silenciosamente minha refeição.

Segundos depois, o som cessou. O demônio estava completamente submerso dentro da minha sombra; não restava nem um único fragmento de sua alma. A única coisa que ficou foi a pele de Anna, caindo no chão do confessionário com um chape pesado e úmido.

Abaixei-me e peguei aquela carcaça frágil. Soltei um suspiro e fiz a última coisa que precisava fazer.

Alguns dias depois, a polícia encontrou o corpo de Anna em uma mata rala não muito longe da cidade. Diferente das vítimas anteriores, seu corpo estava intacto, tranquilo como se estivesse dormindo, sua pele ainda perfeitamente no lugar. A caçada ao assassino que arrancava pele continuou e, embora nenhum culpado tenha sido encontrado, nunca haveria outra vítima.

Mas a coisa mais estranha não estava no cadáver.

Naquele dia, quando as pessoas voltaram à igreja para levar a notícia, descobriram que não havia igreja alguma. No terreno elevado no centro da cidade, onde deveria ter se erguido uma catedral de pedra centenária, agora havia apenas um lote vazio e desolado, coberto por ervas daninhas na altura do joelho.

O pastor amigável, as confissões, o coral... tudo havia sido completamente apagado da realidade. Até mesmo as memórias dos moradores sobre aquela catedral começaram a desaparecer, sumindo como um sonho enevoado quando o sol nasce. Eu não podia permanecer mais neste lugar. Eu precisava encontrar outro lugar... outro lar... onde eu pudesse continuar meu trabalho.

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