sábado, 11 de abril de 2026

Meu colega de carona tem me levado de carro passando pela mesma mulher duas vezes por dia há três meses. E ontem à noite ela me disse que eu nunca deveria ter visto ela

Preciso de ajuda e não sei mais pra quem perguntar. Estou digitando isso do banheiro da minha casa com a porta trancada porque não confio mais no meu próprio apartamento agora. Vou tentar explicar tudo com clareza, mesmo que minhas mãos estejam tremendo tanto que eu fico apertando as teclas erradas.

Eu faço carona com uma colega de trabalho. Vou chamá-la de M. A gente se conheceu no serviço uns seis meses atrás e, há três meses, ela se ofereceu pra me levar e trazer do escritório porque a gente mora no mesmo bairro e a gasolina tá cara pra caralho. Eu aceitei. Ela é quieta, simpática, coloca uma música baixa no carro e as viagens costumam ser a parte mais tranquila do meu dia.

Ontem de manhã eu estava olhando pela janela no caminho pro trabalho e reparei num hidrante de incêndio vermelho numa esquina que a gente passou. Uma mulher estava passeando com um cachorrinho marrom bem na frente dele. Não pensei nada.

Ontem à noite, no caminho de volta pra casa, vi o mesmo hidrante. E a mesma mulher. E o mesmo cachorro. Andando na mesma direção, passando pela mesma esquina, no exato momento em que nosso carro passou.

Eu comentei com a M como se fosse uma coincidência engraçada. Falei algo tipo: “Que estranho, a mesma mulher com o cachorro dela duas vezes no mesmo dia.”

As mãos da M apertaram o volante com força. Ela não olhou pra mim. Só disse “ah, é, isso acontece às vezes” com uma voz que tentava muito soar normal e falhava completamente.

Não pensei mais nisso até chegar em casa. Aí eu abri o histórico do GPS no meu celular, aquele que rastreia minha localização automaticamente. Toda manhã, mesma rota pro trabalho. Toda noite, mesma rota pra casa. Todo dia, durante três meses, passando pela mesma esquina mais ou menos no mesmo horário.

E toda vez, aquela mulher estava lá. Eu revisei minha memória com cuidado. Nas viagens da manhã, eu lembrava dela passeando com o cachorro numa direção. Nas viagens da noite, eu lembrava dela passeando com o cachorro na mesma direção. Ela nunca volta. Em três meses de caronas, eu nunca vi ela andando no sentido contrário nem uma única vez.

Isso não é possível. Ela teria que andar pra algum lugar e voltar. A não ser que ela só ande numa única direção. A não ser que ela esteja sempre naquela esquina exatamente naqueles dois horários todos os dias.

Não consegui dormir ontem à noite. Fiquei pensando na voz da M quando ela disse “isso acontece às vezes”.

Hoje de manhã entrei no carro dela normalmente. Eu ia perguntar sobre isso. Não tive chance. Assim que fechei a porta, ela disse bem baixinho: “Por favor, não olha pro hidrante hoje. Por favor. Só fica olhando pro seu celular até a gente passar.”

Eu perguntei do que ela estava falando. Ela disse: “Se ela souber que você reparou nela, ela te segue até em casa. Eu estou tentando impedir que ela te note há três meses. Achei que a gente estava seguro. Ontem à noite você me disse que viu ela. Isso significa que ela sabe. Ela sempre sabe quando alguém fala em voz alta.”

Eu perguntei quem era “ela”.

A M disse: “Eu não sei o que ela é. Só sei que ela anda naquela esquina. De manhã e de noite. Ela está andando ali desde antes de eu começar a trabalhar na nossa empresa. O colega que me levava antes me contou as regras. Não olha pra ela. Não menciona ela. Não deixa ela ver que você viu ela. Ele disse que estava tentando passar a rota pra mim porque já dirigia esse caminho há quatro anos e estava cansado pra caralho.”

Eu perguntei onde ele está agora.

Ela não respondeu por um bom tempo. Depois disse: “Ele parou de vir trabalhar mais ou menos há seis meses. O apartamento dele ainda está alugado. O carro dele ainda está no estacionamento da empresa. Ninguém teve notícia dele. Eu passei de carro na frente da casa dele uma vez pra checar e a luz da varanda estava acesa, e uma mulher estava passeando com um cachorrinho marrom na frente da casa dele.”

Eu perguntei por que ela não me contou nada disso quando se ofereceu pra fazer carona comigo.

Ela disse: “Porque eu precisava de outra pessoa no carro comigo. Ela se interessa menos quando tem duas pessoas. Desculpa. Eu sinto muito. Eu ia te contar eventualmente, depois que ela se acostumasse com você. Achei que a gente tinha mais tempo.”

Quando a gente chegou na esquina hoje de manhã, eu não consegui me controlar. Eu olhei. Eu precisava saber se ela realmente estava lá.

A mulher com o cachorro estava parada. Não estava andando. Estava parada bem embaixo do hidrante, de frente pro nosso carro, olhando pra gente passar. Ela tinha um rosto completamente normal. Ela sorriu pra mim. O cachorro não se mexeu.

A M começou a chorar em silêncio. Ela não disse mais nada durante o resto do caminho. Quando chegamos no trabalho, ela estacionou, desligou o carro e me falou: “Vai pra casa. Fala que tá doente. Não usa o meu carro. Não usa nenhum carro. Vai andando se precisar. Quando chegar em casa, tranca a porta, fecha as cortinas e não abre a porta pra ninguém hoje à noite, por nada nesse mundo. Nem pra mim. Nem pra um vizinho. Nem pra ninguém. Eu vou tentar levar ela pra outro lugar, mas não sei se vai dar certo.”

Eu peguei um táxi pra casa. Tranquei tudo. Fechei todas as cortinas. Estou sentado no banheiro porque é o único cômodo do apartamento sem janela.

Uma hora atrás eu ouvi passos do lado de fora da minha porta. Lentos. Pacientes. Eles pararam bem na frente do meu apartamento. Depois eu ouvi alguma coisa pequena e viva respirando do outro lado da porta. Um cachorro. Bem do outro lado da minha porta. Sem latir. Sem ganir. Só respirando.

Então eu ouvi a voz de uma mulher, bem calma, dizer: “Você não era pra ter me visto. Mas já que viu, achei que eu devia me apresentar direito.”

Eu não me mexi. Não fiz nenhum barulho. Meu celular está com 14% de bateria.

A respiração ainda está lá. Ela não bateu na porta. Está esperando alguma coisa. Não sei o quê. Acho que ela está esperando eu fazer algum som pra saber exatamente em qual cômodo eu estou.

A M não está respondendo minhas mensagens. Eu tentei ligar pra ela três vezes. Cai direto na caixa postal. A última mensagem que mandei pra ela só diz “ela está na minha porta” e foi marcada como lida, mas sem resposta.

Eu estou pedindo pra qualquer pessoa que ler isso. Se você já viu uma mulher passeando com um cachorrinho marrom no mesmo lugar duas vezes por dia, todo dia, e você reparou nisso e falou em voz alta pra alguém, por favor me conta o que aconteceu depois. Por favor me conta o que ela quer. Por favor me conta se a M ainda está viva, porque a última coisa que ela me disse foi que ia tentar levar ela pra outro lugar, e eu acho que “outro lugar” queria dizer o apartamento dela mesma.

A respiração acabou de parar.

Não sei se isso é melhor ou pior.

Vou esperar até de manhã. Vou deixar o celular no silencioso. Não vou abrir essa porta por nada.

Se alguém tiver alguma informação, por favor responde. Eu vou checar isso quando a bateria deixar.

Por favor, se apressa.

0 comentários:

Tecnologia do Blogger.

Quem sou eu

Minha foto
Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon