Quando eu era criança, eu ficava doente o tempo todo. Era uma batalha crônica de febres que pareciam ferver o cérebro e dores no corpo que me deixavam imóvel. Passava longas noites curvado sobre a privada enquanto minha mãe ou meu pai esfregava círculos nas minhas costas, cansado, só pra me consolar. Parecia que eu pegava cada vírus ou bactéria que andava por aí. Mesmo assim, meus pais sempre me chamavam de “filho milagroso”. Pelo que me contaram, quando eu nasci, não era provável que eu saísse da UTI neonatal, mas eu era um lutador.
Minha mãe sempre dizia:
“Qualquer coisa que você pega uma vez só te deixa mais forte!”
Eu tentava acreditar nela.
Alguns dias eu tinha medo de nunca mais ficar bem.
Eu vivia entrando e saindo de consultórios médicos. Estava acostumado a passar longas horas debaixo daquelas luzes fluorescentes doentias das salas de espera, sentado em cadeiras duras e desconfortáveis, jogando no meu Game Boy Color até a bateria acabar, depois lendo aquelas revistas chatas de saúde só pra dar risada das palavras grossas e dos diagramas estranhos até a enfermeira me chamar.
Foi por causa dessa familiaridade toda com consultórios que eu passei anos tentando descobrir se a história que vou contar agora realmente aconteceu ou se era só um collage surreal de experiências inventadas pelo meu subconsciente hiperativo pra preencher as lacunas. Sabe como eventos distintos do passado acabam se misturando com o tempo? Você pode confundir um sonho de infância ou um programa de televisão com uma memória real, mesmo que o conteúdo pareça impossível.
Mas aquelas noites grudam nos cantos mais fundos do meu cérebro como um mofo que vai se espalhando. Toda vez que eu me atrevo a lembrar de uma, os detalhes são vívidos, dolorosos e exatamente iguais.
As memórias são reais. Eu sei que são. Eu tenho cicatrizes pra provar.
Aqui vai uma memória de quando eu tinha dez anos. Eu lembro de acordar suando embaixo dos meus lençóis do Homem-Aranha. O relógio digital na mesinha de cabeceira brilhava em vermelho: 11:59 PM. Eu me senti paralisado de medo, tão em pânico que não conseguia respirar nem gritar por ajuda, mas não sabia por quê. Conseguia distinguir as formas da minha escrivaninha, do abajur, do armário e do meu estegossauro de pelúcia na cadeira de balanço no canto. Tinha outra forma também, e eu percebi que não tinha sido o calor que me acordou.
Tinha um homem grande parado no meu quarto, bem do lado da minha cabeça. Ele estava me olhando. A luz vermelha do relógio se refletia nos óculos dele.
Eu gritei pelos meus pais com toda a força dos meus pulmões. Eles entraram, acenderam as luzes e tentaram me acalmar. O homem ainda estava lá, e ele parecia pálido e igualmente assustador sob a luz. Era um homem mais velho, mais alto que o meu pai, com o rosto afundado e papadas caídas. Os olhos dele eram fundos, por baixo de pálpebras pesadas. Pareciam pequenos demais pras órbitas, como se ele estivesse espiando de trás da própria cara. Ele me lembrava uma máscara de látex de velho que eu tinha visto no Walmart uma semana antes. Meio derretida e oca.
Eu lembro da minha mãe pedindo desculpas pra ele, e do meu pai se abaixando pra falar comigo.
Eles o chamavam de Dr. Moris. Eu odiava ele. Me disseram que ele ia me fazer algumas perguntas e me examinar, e depois eu poderia voltar a dormir.
Na hora eu não soube o que dizer, mas lembro de ter pensado que estava tudo mais ou menos bem. Como meus pais não estavam alarmados, eu deixei rolar.
Dr. Moris sentou na beira da minha cama e pediu um braço, depois o outro. Minhas mangas já estavam dobradas. Ele tirou uma fita métrica do bolso do jaleco e mediu os dois braços: primeiro do ombro até o cotovelo, depois do cotovelo até o pulso. Fez o mesmo com as minhas pernas. Depois, com a minha coluna.
Ele perguntou se eu praticava esportes e se eu me dava bem com as outras crianças. Eu disse que sim. Eu jogava futebol e tinha uns amigos na rua de baixo.
O médico só balançava a cabeça, concordando.
“Nós vamos nos ver bastante a partir de agora”, eu lembro dele dizendo, ou algo parecido. “Se você quiser crescer grande e forte, vou precisar te ver enquanto você cresce.”
Ele se levantou, disse alguma coisa baixinho pros meus pais e pronto. Saiu do quarto tão rápido quanto tinha chegado.
Meus pais me cobriram e eu voltei a dormir, cansado demais pra fazer qualquer pergunta.
A próxima memória estranha começa comigo acordando de novo. O relógio digital mostrava 11:30 PM em vermelho brilhante. O alarme estava tocando, com aquele mesmo som repetitivo e o barulho de passarinho rouco que eu ouvia toda manhã antes da escola. Achei que tinha sido engano. Desliguei. Aí minha mãe entrou e mandou eu entrar no carro. Perguntei por quê e ela me lembrou que eu tinha uma consulta.
Eu lembro de estar sentado no banco de trás tentando não dormir no caminho. Acho que acabei dormindo, porque a próxima coisa que lembro é estar numa sala com paredes brancas e teto popcorn, deitado numa maca acolchoada. Tinha um buraco num dos ladrilhos. Eu ficava olhando pra aquele ponto escuro e vazio, sonolento demais pra me mexer ou olhar pra qualquer outra coisa.
Uma enfermeira entrou depois de um tempo e me perguntou coisas tipo quantos anos eu tinha e quais programas de TV eu gostava enquanto media meus sinais vitais. Eu falei com ela um bom tempo sobre The Electric Company. Ela desenhou um X no meu braço direito.
A enfermeira trouxe uma segunda pessoa: uma senhora velha com máscara cirúrgica. Os olhos dela também pareciam miudinhos, como se as feições estivessem afundando pra dentro. Eu senti cheiro de amônia e de biscoito queimado.
Eu lembro dela cantando o tema do The Electric Company enquanto colocava uma máscara no meu nariz e na minha boca. Eu comecei a cantar junto também.
Depois o Dr. Moris apareceu e disse que era bom me ver de novo.
Eu tenho uma cicatriz no antebraço esquerdo. Ela vai do osso do cotovelo até a base da palma da mão.
Perguntei pro meu pai sobre ela há pouco tempo. Ele disse que eu tinha me ferrado feio numa queda de bicicleta quando tinha uns dez anos, indo pra casa do meu amigo Leland, que morava na rua de baixo.
“Eu achei que íamos ter que amputar”, ele sempre brinca quando conta a história pra família toda.
Eu não lembro nada disso. Só lembro do braço.
Eu lembro de voltar pra casa com o braço esquerdo numa tipoia. Estava dormente, mas também formigando, como se estivesse cheio de aranhas minúsculas. Já estava escuro quando chegamos. Eu já estava de pijama. Lembro de me enfiar na cama e olhar pro relógio de cabeceira. Eram 3:00 da manhã.
Demorou meses pra cicatrizar. Todos os meus amigos na sala perguntavam, e eu só dizia que tinha sofrido um acidente. Até que eu meio que curtia ser o centro das atenções por aquelas semanas.
E aí continuou acontecendo.
Eu definitivamente fui ao médico da noite mais de uma vez. O que contei até agora foi só a noite mais antiga que consigo lembrar.
Eu tenho mais de 42 cicatrizes visíveis no corpo. Minha esposa me ajudou a encontrar várias nas costas que eu nem tinha notado. O número só continua aumentando.
Algumas cicatrizes são longas e finas, outras são pequenas, redondas ou em formato de cruz. Algumas cicatrizaram melhor que outras. Talvez algumas tenham cicatrizado tão bem com o tempo que quase não dá pra ver mais.
Eu tenho bem menos de 42 memórias distintas das visitas ao médico da noite. Se eu penso nisso por muito tempo, meu estômago começa a revirar e eu sinto vontade de vomitar tudo, de expulsar cada memória que eu tenho da cabeça de uma vez por todas.
Hoje em dia eu tomo banho no escuro.
Felizmente, minha saúde melhorou de um jeito milagroso conforme eu fui ficando mais velho. Como adulto, eu desenvolvi uma fobia bem forte de ambientes médicos — uma coisa que, até pouco tempo atrás, eu achava que vinha de ter ficado doente tantas vezes na adolescência.
Eu tomo todo tipo de tônico e suplemento preventivo que consigo pra derrubar qualquer resfriado antes que precise de antibiótico. Eu malho o tempo todo, mas nunca exagero a ponto de machucar músculos ou ossos. Eu durmo exatamente às 21h e acordo pontualmente às 6h da manhã.
Vocês nunca vão me encontrar num consultório médico.
Mas duas noites atrás, eu senti uma dor latejante no peito tão forte que derrubei a cafeteira inteira no chão da cozinha. Minha esposa me levou correndo pro pronto-socorro. Depois de uma rodada assustadora de exames, eles disseram que eu ia ficar bem, mas que tinham várias perguntas.
Depois de uma tomografia computadorizada completa do corpo, me chamaram de volta pra fazer outra rodada. O técnico pediu desculpas, dizendo que a máquina estava dando problema.
Na segunda tentativa, eles encontraram algo tão raro que foi considerado medicamente impossível.
A quantidade de distorção e interferência visual na imagem sugeria que eu tinha mais de 100 implantes colocados em intervalos aleatórios pelo corpo inteiro.
“Tipo uma prótese de joelho de titânio ou algo assim?”, eu perguntei pro técnico, brincando, enquanto mexia na fita do acesso venoso. “Eu não tenho artrite.”
“Tipo titânio em tudo”, ela respondeu. “Por que você não me contou que era um ciborgue?”
Dava pra ver que ela estava tentando manter o clima leve enquanto a gente esperava o resultado da terceira rodada. Dava pra ver também que ela ainda achava que era só uma falha maluca da máquina.
A terceira rodada chegou. Depois de ler o laudo, eu quero acreditar que é falha. Não faz o menor sentido. Eu li várias vezes. Cada vez dói mais na cabeça.
De acordo com os resultados, eu estou faltando cerca de 66% da massa óssea, espalhada em vários pontos: desde ossinhos pequenos dos dedos das mãos e dos pés até a clavícula, vértebras isoladas, costelas inteiras, a ulna e o rádio dos dois lados, pedaços da pelve e as curvas entrelaçadas do crânio. Tudo sumido, tudo removido cirurgicamente e substituído de forma metódica por algo artificial, leve e com precisão quase perfeita. A equipe do pronto-socorro não conseguiu dar nenhuma outra informação.
Seja lá o que for, não é osso.
As cicatrizes internas indicam que vários implantes foram movidos, estendidos ou reajustados em diversas ocasiões separadas, provavelmente pra imitar o crescimento natural.
Eu fico imaginando o que fizeram com as sobras minhas.


0 comentários:
Postar um comentário