terça-feira, 7 de abril de 2026

Eu devia ter ouvido minha esposa...

Mais um dia no escritório. Fiquei olhando para o relógio enquanto o tempo ia se esgotando; toda essa hora extra acabaria comigo. Mas alguém tinha que manter as coisas em ordem.

Meu olhar vagou até a tela inicial do celular. Uma foto de Sophie — o sorriso dela me ajudava a aguentar aquelas longas horas. Meu amor do colégio. Fazia um tempo que ela não sorria assim. Nunca tínhamos tempo um para o outro. Ela era uma professora sobrecarregada de trabalho. Mesmo assim, adorava as crianças. Eu cuidava das contas.

Foi então que meu celular apitou. Era o Ronny. Eu não tinha notícias dele há anos; a gente estudava juntos. Ele me mandou um link de um site. “O desafio.” “Estamos procurando casais dispostos a provar que conseguem viver sem o outro. Se você conseguir sobreviver um mês sem o seu parceiro ao seu lado, vai sair daqui com um milhão de libras!”

No começo, achei que fosse algum golpe. Aquele tipo de merda de sempre que eles promovem. Mas, quando fui ver a lista de vencedores, lá estava Ronny. Chequei o Facebook dele, e era isso mesmo. Uma vida de luxo. Fotos dele em um iate, modelos e supercarros. Meus olhos se arregalaram de incredulidade enquanto eu sentia um vazio de esperança se formar no meu estômago. Talvez aquilo não fosse golpe nenhum.

Depois do expediente, liguei para ele. Perguntei sobre detalhes, se a gente podia se encontrar e que tipo de coisa acontecia nesses lugares. Ele estava relutante em se encontrar. Sua voz parecia apressada, como se não quisesse falar sobre aquilo. “Não faça perguntas demais.” Ele resmungou. Botou a culpa em algum NDA. Claro que fariam a gente assinar alguma coisa.

Preenchi os dados dos dois; Sophie entenderia no fim. Alguém tinha que tomar uma decisão. Normalmente era eu. A gente precisava de uma pausa. Fazia um tempo que ela não sorria assim. Desde que perdemos nosso filho, ela parecia só uma casca vazia de si mesma.

Responderam terrivelmente rápido. Fizeram perguntas pessoais, mas eu não hesitei. Uma oportunidade daquelas era boa demais para deixar passar. Naquela noite, eu disse a Sophie que a gente ia viajar de férias juntos. Expliquei que era tipo um jogo. Claro que ela ficou preocupada e assustada. “A gente não passa tempo suficiente junto. Você realmente acha que dinheiro vai resolver isso?”

Mas eu a tranquilizei. Com aquele tipo de dinheiro, a gente poderia recuperar nossa antiga vida. Poderíamos ficar juntos de novo, e nenhum de nós jamais precisaria trabalhar. Não era como se a gente não estivesse acostumado a ficar longe um do outro. Ela sempre dizia que eu trabalhava demais. Isso era eu tentando, e ainda assim não era suficiente.

O dia chegou, e embarcamos naquele iate enorme. Ele nos levou até uma pequena ilha na costa leste. Quando chegamos, meus olhos se maravilharam com a cena. Vilas deslumbrantes feitas de mármore e ouro, reluzindo sob o sol. Frutas penduradas nas árvores, com aparência madura e prontas para serem colhidas.

Até Sophie parecia deslumbrada com tudo aquilo. Um homem e uma mulher se aproximaram de nós. Disseram que eram os donos da propriedade. Nunca nos disseram seus nomes. Os dois usavam um colar de ouro, um meio coração. Os sorrisos deles pareciam forçados. Quase sinistros.

Eles vestiam roupas que combinavam com o tema da ilha. Um vestido branco revelador na mulher e um terno branco que parecia valorizar o homem. Eles trocaram um olhar antes de explicar as regras da ilha.

“Vocês só têm uma hora por semana para se comunicar. Se forem pegos conversando por qualquer outro meio, serão automaticamente desclassificados. Sair desta ilha não é permitido até o mês inteiro terminar. Qualquer coisa que fizerem na ilha continuará em segredo.” Eles completavam as frases um do outro como um casal excêntrico exibido.

As palavras deles não soaram como nenhum alerta na minha cabeça, mas eu podia sentir o quanto Sophie estava tensa. “Eu não gostei do jeito que ele falou isso.” Ela murmurou baixinho o bastante para só eu ouvir. Ela apertou minha mão de leve. Eu lhe lancei um olhar tranquilizador. “É só uma tática para assustar a gente.” Resmunguei em voz baixa. Parecia estar funcionando nela.

Fizeram a gente assinar alguns documentos para provar nosso acordo. Assinei meu nome passando os olhos por cima das palavras. Nada me chamou a atenção, tudo parecia em ordem. O de sempre. Olhei para Amy, apressando-a. “Vamos, Amy. A gente veio até aqui.” Murmurei. Ela me lançou um olhar levemente irritado. “Não tem nada de errado em tomar cuidado.” Retrucou. O casal rico deu risadinhas. Ela assinou com um suspiro relutante.

Devíamos aproveitar as riquezas enquanto estivéssemos ali.

O homem levou Sophie embora enquanto a mulher me conduzia até minha vila. Mas não sem antes lançar um último olhar para mim; eu sorri de volta para ela.

O mármore mordia meus pés. Afundei no sofá enquanto olhava ao redor. Aquele mesmo símbolo de meio coração estampado em ouro na lateral da parede. Câmeras colocadas nos cantos. “É só pela sua segurança.” A mulher murmurou, encarando-as. “Seus segredos estão seguros aqui.” Disse com calma.

Fiquei olhando aquilo por muito tempo. Quem exatamente estava me vigiando?, comecei a me perguntar. O que teriam a ganhar? Isso era para ser algum reality show? Ninguém havia dito nada sobre isso.

Minha atenção foi rapidamente desviada pela quantidade de comodidades. Tinha tudo que um homem poderia querer e mais. Um bar embutido, uma piscina logo do lado de fora, todo tipo de conforto. Um chef pessoal e todo tipo de comida exótica. Um cheiro agradável no ar, o sal do mar e um perfume que permanecia suspenso no ambiente.

A equipe parecia educada, vestida com roupas leves. Permaneciam em silêncio, com sorrisos forçados no rosto. Um ponto eletrônico também zumbia em seus ouvidos; seus olhares me acompanhavam pela vila inteira. Quando tentei falar com um deles, a pessoa se afastou como se eu nem estivesse ali. Devia ser só profissionalismo.

Meu olhar foi puxado para os seguranças. A cada poucos passos havia um parado ali. Fuzis de assalto repousavam em seus peitos. Nem pareciam abalados pelo calor. Seus pontos eletrônicos zumbiam com ruídos. Ignorei isso. É uma ilha remota; provavelmente é para manter os animais afastados.

O luxo me atingiu de uma só vez. Me perguntei se era o mesmo para Sophie. Mas, antes que eu pudesse me demorar nesse pensamento, a mulher me puxou para longe, continuando a exibir a grandiosa vila.

Minha primeira semana foi incrível. A mulher que ficava comigo me vestiu com roupas novas. Ela deveria morar comigo. Eu não tinha preocupações. Amo Sophie demais para jamais traí-la. Comecei a relaxar; tenho certeza de que era isso que Sophie gostaria que eu fizesse.

Ela me encheu de elogios. O quanto eu era corajoso por trabalhar aqueles turnos intermináveis tudo por Sophie. A mão dela repousou no meu ombro enquanto me olhava. “Queria que alguém cuidasse de mim assim. Você praticamente carregou esse casamento nas costas.” Sua voz era doce, o olhar dela se prendia na TV mesmo estando desligada.

Ri, como se nada fosse. Mas uma parte de mim se perguntou se ela tinha razão.

Ela disse que eu era inteligente por ter decidido vir para cá. A gente tomava drinks e descansava à beira da piscina. Ouvi o drone zumbindo lá em cima, mas ela me tranquilizou. A segurança parecia realmente apertada ali. Ela ria das minhas piadas, do mesmo jeito que Sophie costumava rir. Eu não conseguia parar de falar sobre mim mesmo. Disse a mim mesmo que era inofensivo.

Chegou a hora de ver Sophie; ela estava linda. A mais bonita que eu a tinha visto em muito tempo. Uma flor no cabelo, mas não havia sorriso no rosto. Supus que ela estivesse se adaptando àquela nova vida. Ela mantinha as mãos para si, unidas e apertadas. Os seguranças permaneciam perto. Um cronômetro havia sido preparado com antecedência.

Sophie me perguntou se eu estava gostando. Não consegui evitar de contar tudo sobre o meu lugar. Um sorriso pequeno aqui e ali, mas ela parecia fora de si. Provavelmente estava cansada. Acho que falei sem parar durante a hora inteira. Ela assentia nos momentos certos. Quase parecia ensaiado. “Sinto sua falta.” Ela conseguiu encaixar as palavras pouco antes de o cronômetro terminar. Apertou minha mão de leve, mas não conseguiu sustentar meu olhar.

Percebi a forma como o homem permanecia atrás dela. O mesmo com a mulher atrás de mim. Parecia que estavam se posicionando de propósito no nosso campo de visão. Mas tudo o que eu conseguia focar era Sophie. Até o segurança gritar: “Tempo!” Fomos praticamente arrancados um do outro. Desprezei as palavras dela. Era natural que sentisse minha falta.

A segunda semana chegou. Aquele homem não saía da minha cabeça; o que ele estava fazendo com a minha Sophie? A ideia de vê-lo segurando ela me fez arrepiar da cabeça aos pés. O sorriso idiota dele continuava na minha mente. Sophie é minha.

A mulher voltou usando um biquíni branco enquanto se sentava à beira da piscina. Eu não conseguia impedir meus olhos de devorá-la. Ela me chamou para entrar, e eu não estava com vontade de recusar. “Ela não parece muito feliz por você.” Disse com leveza. “Talvez ela já tenha seguido em frente.”

As palavras dela permaneceram na minha cabeça por mais tempo do que deveriam. Aquilo não era algo que eu jamais quisesse imaginar. Aquele homem não tinha o direito de ficar tão perto dela. Eu tinha sacrificado demais para perdê-la.

“Você não a conhece!” Respondi rápido, com um leve acesso de raiva se acendendo dentro de mim. Ela se desculpou depressa, pousando a mão no meu braço. “Ela só pareceu um pouco distante.” Odiava o jeito como as palavras dela acertavam em cheio. “Só deixa isso pra lá.”

Um pequeno sorriso surgiu no rosto dela. Ela observou os funcionários com um sorriso travesso enquanto enchiam o copo dela. Espirrou água de leve na piscina. “Você também merece ser cuidado, sabia?” O tom dela era leve e provocador. Não me dei ao trabalho de responder. Eu congelei. Sem entender por que as palavras dela faziam meu peito apertar.

Quando a segunda semana terminou, chegou a hora de encontrar Sophie de novo. O olhar dela permaneceu na mulher atrás de mim. “Você... é próximo dela?” Perguntou quase hesitante. “O quê? Não, claro que não. Por que você pensaria isso?” Respondi. Inclinei-me para a frente, prendendo meu olhar no dela. Ela não pensava tão mal de mim assim. Os olhos dela se fixaram nos meus como se buscassem a verdade. Eu não conseguia parar de franzir a testa.

“Ei. Eu não estou fazendo nada com ela, tá. Quer dizer, o máximo que fazemos é conversar. Vamos, não fica assim.” Tentei tranquilizá-la, mas ela parecia determinada a não ouvir. Eu conhecia aquele olhar. Era o mesmo olhar que ela me lançava quando eu trabalhava nos nossos aniversários.

“E ele? Você está se aproximando dele?” O olhar dela enrijeceu enquanto um vinco se formava em sua testa. Meu maxilar travou. “Não! Não! Nada!” A voz dela saiu alta. Algo tinha mudado. E eu não tinha certeza de que era nela.

O segurança anunciou o tempo de forma abrupta. Sophie relaxou visivelmente, soltando um suspiro de alívio. Minha expressão se fechou quando me levantei e fui embora.

.

Na terceira semana, minha mente estava focada em Sophie. Ela não confiava mais em mim? O luxo que antes me encantara se tornou tedioso e sem graça. A equipe continuava me vigiando com seus sorrisos falsos. Havia alguém ali que fosse real?

A mulher que estava comigo tentou me tranquilizar; ela vestia roupas provocantes. O colar continuava balançando no pescoço dela. O símbolo de repente pareceu bastante significativo. Não consegui evitar desviar o olhar. “Quando foi a última vez que alguém cuidou de você?” Ela disse suavemente.

As palavras dela faziam sentido. Comecei a contar mais sobre o nosso passado, sobre nossas dificuldades. Ela era boa em ouvir, igual a Sophie. Os dedos dela se enredaram no meu cabelo enquanto eu descansava no colo dela. Eu devia ter me movido, mas não me movi. “Você passou por tanta coisa. Eu vejo como você é forte.” As palavras dela apertaram meu peito. Eu me senti visto. Apreciado. Um sorriso apareceu no meu rosto. E permaneceu ali por mais tempo do que deveria.

Chegara a hora de ver Sophie. Eu me sentia mais calmo do que na semana anterior e disse a mim mesmo que tudo ficaria bem. Foi então que congelei. Meus olhos se arregalaram ao encarar a cena.

Sophie tinha um olho roxo inchado e machucado. Senti minhas mãos se fecharem quando vi aquele sorriso convencido daquele desgraçado ao fundo. “Sophie. Quem fez isso com você?”

Ela continuou sentada ali, muda como um rato. O olhar dela não conseguia encontrar o meu, apesar da preocupação na minha voz. Parecia que o próprio tempo havia parado; a hora já nem importava mais.

“Sophie?” Minha voz tremeu de leve.

“Eu te traí.” Ela disse enquanto lágrimas começavam a se acumular em seus olhos. Esperei ela retirar aquilo. Para ser alguma brincadeira cruel ou algum desafio. Em vez disso, ela ficou em silêncio.

As palavras não me atingiram de imediato. Foi a última coisa que eu esperava ouvir da boca dela. Da pessoa por quem eu dei tudo.

Tudo ficou em silêncio.

“Você fez o quê?” Minha voz saiu tensa. Minha mente se recusava a acreditar nela. Mas os olhos dela diziam mais do que palavras poderiam dizer. Toda a culpa daquilo. Eu conhecia Sophie bem demais para aquilo ser mentira.

Toda razão me abandonou quando dei um passo na direção dela. Joguei a mesa para o lado; nem mesmo os seguranças conseguiram me conter. “Como você tem coragem, porra! Eu fiz tudo isso por nós!” Minha voz se quebrou.

Ela olhou de volta para aquele filho da puta lá atrás. “Vai, olha pra ele.” Ela começou a se encolher em posição fetal e ficou em silêncio. Os seguranças me empurraram para longe antes que eu pudesse me aproximar. Tentei forçar a passagem, mas o homem rico já a estava arrastando para longe. O braço dele passou por cima do ombro dela enquanto ele sussurrava no ouvido dela.

“Eu não fui o suficiente para você!” Gritei. As palavras ecoaram muito depois de ela ter ido embora. Eu só conseguia ficar ali, quebrado e derrotado.

Parecia que meu coração tinha sido rasgado em dois.

Os dias passaram de forma incoerente. Tudo o que me lembro é de afogar minhas mágoas no álcool. Expulsei a equipe. Quebrei as câmeras dos quartos com garrafas. Eu precisava ficar sozinho. Não comi. Não consegui dormir.

As lágrimas corriam livremente pelo meu rosto, muitas vezes me fazendo chorar até pegar no sono. Eu não podia deixar ninguém me ver tão patético. Senti esse vazio profundo tomando conta do meu ser. Cada lembrança era um lembrete do que eu tinha perdido.

Só depois de tantos dias me lembrei do hematoma dela. Alguém tinha machucado Sophie; alguém machucou a minha Sophie. E se ela tivesse sido forçada? Minha respiração falhou quando a possibilidade me atingiu em cheio no peito.

Era o meio da noite. Eu era o único que não conseguia dormir? Saí de fininho da vila. Não me importava mais com as regras. Eu precisava de respostas. Atravessando de mansinho a floresta que nos separava, fui até a vila de Sophie.

Espiei pela janela. Lá estava ele. Aquele desgraçado ainda mantinha o braço em volta dela. Ela estava imóvel. Eu não conseguia ver muita coisa. Fui até a porta e entrei sem fazer barulho. O mais silencioso que consegui.

Espiei por cima dos ombros deles. As drogas espalhadas pela mesa fizeram meu estômago despencar. O que ele tinha feito com a minha Sophie? A expressão dela estava vazia. A boca entreaberta.

“O que você fez!?” Senti a raiva subir de novo ao peito enquanto agarrava o homem exigindo respostas. Ele riu aberta e debochadamente, as mãos fracas enquanto a expressão dele se apagava.

Meus braços se apressaram para segurar Sophie. Ela estava fria. Fria demais. Minhas mãos tremiam enquanto eu levava a mão até o pescoço dela. Nada. O silêncio no ar parecia insuportável. “Sophie?” Falei baixinho. “So...phie...?” Minha voz se quebrou enquanto eu a apertava com mais força.

Meus olhos dispararam de volta para a mesa. Droga suficiente para matar qualquer pessoa. Aquele emblema de meio coração está gravado na mesa.

Não. Não isso. Qualquer coisa menos isso. Pensei comigo mesmo. O que ela fez? O que ele fez com ela? O que eu fiz com ela? Continuei ali, sem conseguir me mover.

Perto de Sophie, vi uma carta. Peguei-a e comecei a ler. Talvez aquilo fosse a verdade que eu procurava. A esperança que eu procurava.

“Querido amor, espero que você consiga encontrar em seu coração a força para me perdoar. Sinto muito. Eles me mostraram coisas em que eu não queria acreditar. Sinto muito. Não sei mais no que acreditar. Eles me fizeram jogar jogos. Eu não conseguia vencer. Me desculpe, eu tentei ser forte. Estou tendo que escrever isso depois que confessei o que fiz com você. Você foi bom para mim. Vou esperar por você. Por favor, me salve.”

Meu coração martelava no peito. Li uma vez. Depois duas. Depois uma terceira vez. Minha própria tolice se revelando para mim. A culpa era minha.

Se eu tivesse ido antes. Se eu tivesse ouvido em vez de me defender. Se eu não tivesse estado tão desesperado para estar certo. Eu a deixei sozinha quando perdemos nosso filho. Dizia a mim mesmo que estava mantendo a gente de pé. Eu estava trabalhando. Sustentando a casa. Consertando as coisas.

Ela é que estava se afogando.

Fiquei ali por um longo tempo. O silêncio só era quebrado pela respiração do homem. Meus olhos percorreram Sophie. A expressão quebrada no rosto dela — ela devia ter se sentido tão sozinha. Ela tinha buscado ajuda em mim. E eu tinha gritado com ela.

Enfiei a carta no bolso. Ele ainda respirava; o chiado da respiração dele enchia o ar. Decidi o que ia fazer. Minhas mãos se firmaram enquanto minha respiração se acalmava. Por que ele ainda estava vivo?

Estendi a mão para a faca em cima da mesa. O tempo praticamente desacelerou para mim. Me senti preso naquele momento. Olhei para mim mesmo pelo reflexo da lâmina. Eu não queria mais me sentir tão impotente.

Ergui a lâmina lentamente. O terror nos olhos dele era inconfundível. Me agachei ao lado dele, mantendo-o preso no lugar. Ele começou a implorar. Eu não parei. Então, aos poucos, seus gritos se afastaram até desaparecerem no fim da noite.

Os seguranças começaram a correr ao ouvirem os gritos. Fiquei de pé sobre o cadáver. Não me importava se me atirassem. Eles me dominaram no número. Me jogaram no chão e me injetaram alguma coisa. Apaguei.

Acordei no meu apartamento. Minha cabeça doía. Fiquei ali, segurando-a por um bom tempo. A carta ainda estava apertada na minha outra mão. O sangue do homem agora a manchava. Então não foi só algum pesadelo horrível? O milhão de libras estava diante de mim. Fiquei olhando para ele até o sol nascer. Não sabia o que queria dali. Aquilo não era a vitória que eu buscava. Não passava de um lembrete das minhas ações. Não toquei em uma única nota daquele dinheiro.

O desafio havia acabado.

Sophie não voltaria para casa.

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