Esta não é realmente a minha história favorita para contar, mas é a mais fácil de lembrar.
Pra contextualizar, eu nasci doente. Era algo que estava presente desde o primeiro dia, desde que comecei a respirar, como se a falta de vontade da minha mãe de ter um bebê tivesse se transferido para um bebê que não queria viver.
Eu era doente, sou doente e vou morrer doente. É simplesmente o jeito da vida, como fui construída e como vou morrer. Entre os efeitos do alcoolismo do meu pai e a falta de cuidado da minha mãe, logo me vi com uma lista enorme de doenças, todas crônicas e produtos de um sistema imunológico imunodeprimido. MRSA, febre do feno, coisas que ninguém deveria passar nos primeiros dois anos de vida. Eu deveria estar mastigando fios ou algo assim, não conectada a um respirador, saca?
E mesmo assim, minha primeira memória vai estar sempre marcada pelo pesado véu da E. Coli. Não posso dizer com certeza que tipo de problema levou à infecção, pelo que me contaram foi uma combinação de circunstâncias imprevistas e a minha mãe querendo que a filha de dois anos dela comesse um hambúrguer que custava só um dólar. Tudo que posso dizer com certeza, e da melhor forma que me explicaram, é que eu tinha um “tornado dentro de mim que ficava destruindo tudo no caminho”. Era certamente doloroso. Eu me lembro que, quando me levaram para fazer exames, eu sentia como se estivesse deitada em uma nuvem, tão sonolenta. E então, quando voltei pra casa, foi simples assim: eu caí no sono, bem na minha cama.
Mesmo que eu dormisse no quarto da minha mãe, em uma cama separada, eu nunca estendia a mão pra ela à noite. Eu sempre me deitava com o rosto bem encostado na parede abaixo da janela, com a moldura de madeira perfeitamente alinhada acima da minha têmpora. Era frio, e isso me acalmava melhor. Com a janela virada pra rua, se minha mãe abrisse, eu sentia o frio da noite ou, melhor ainda, ouvia qualquer vizinho que estivesse andando em direção à loja da esquina. Se eu tivesse azar, ouvia minha mãe indo à loja sem mim. Naquele dia, por volta da noite, parecia exatamente isso, pela forma como a pessoa andava bem perto da janela.
E mesmo assim, eu ouvi meu nome. Chamaram por mim, pelo meu nome.
Mesmo que eu não vá dizer qual é, por razões de privacidade, era estranho ouvir aquilo. É o apelido carinhoso de um nome de família, e mesmo assim, essa pessoa estava me chamando, não pela minha mãe, não pela minha avó. Eu sabia que era pra mim, porque falavam de um jeito tão, tão gentil. Por isso, abri os olhos para ver quem era que tinha conseguido distinguir minha forma no escuro, tão perto da janela. Mesmo assim, a visão era tão brilhante que eu não conseguia entender direito.
“Vem comigo”, disseram. Eu não conseguia dizer se era um menino ou uma menina. Cabelo longo, leve e esvoaçante, mais brilhante que o poste de luz atrás deles. Soavam tão suaves, tão gentis comigo, enquanto tocavam o vidro da janela com aquela mão linda e pálida, tentando abrir. Tinham olhos lindos, da cor de mel, que pareciam reluzir e brilhar no escuro.
“Não posso”, eu disse, balançando a cabeça, mesmo que isso me deixasse mais tonta. Era o único jeito que eu sabia que minha mãe entendia que eu não queria alguma coisa, tipo ovos ou carne.
“Mas você tem que vir, está na hora”, eles disseram, com o sorriso e a voz suaves enquanto abriam a janela um pouco mais, tentando me tocar. Mesmo que parecessem bons, mesmo que por todos os sentidos eu me sentisse melhor, tinha algo errado. Alguma coisa não fazia sentido, mesmo que tudo parecesse bom.
Eu gritei, o mais alto que consegui, com a voz rouca e insegura. E então, como se nada tivesse acontecido, ela estava gritando comigo, dizendo aos quatro ventos que eu não podia simplesmente gritar com ela daquele jeito.
Não consigo lembrar todos os detalhes, principalmente porque, mesmo naquela hora, tudo que eu conseguia focar era a memória do rosto daquele estranho.
Passaram-se tantos anos. Principalmente desde que eu descobri que não era bem um “tornado” o que estava passando por mim, nem eu deveria falar com estranhos do jeito que falei com aquele estranho naquela noite, mesmo que minha mãe tivesse atribuído tudo a um pesadelo particularmente agradável.
... Pesadelo agradável? Não, não foi nada agradável.
A verdade é que muitos anos se passaram, e entre a minha família querendo que eu fosse uma boa menina católica e o interesse cada vez menor dos meus pais por mim, o nascimento dos meus irmãos, eu fui relegada ao papel de boa irmã mais velha. Permanentemente solteira, claro, mas isso era por escolha. Nada parecia bom pra mim. Todo relacionamento que eu tive deu errado, e é exatamente isso que me abala até o fundo agora que penso nisso.
Não importava o que eu fizesse, não importava o quanto eu cuidasse de mim mesma, fosse sobrevivendo a uma gripe ou a um surto ruim de herpes zóster, não havia um único momento de alívio. Esse tipo de alívio nem mesmo veio quando eu arrumei meu primeiro namorado. Um babaca, na minha opinião. Não seria um babaca se você perguntasse pra quem precisa de um parceiro pra se apoiar, pra mostrar e justificar como o motivo real de você ser descolada e totalmente não uma virgem perdedora.
Enfim. Ele era o disfarce perfeito. Tipo uma cara que você pode exibir e ainda assim alegar que não tem nenhum compromisso real. Ele tinha certa semelhança com o tipo de cara que algumas garotas gostam: vagamente étnico e ainda branco o suficiente pra ninguém duvidar que ele está na mesma liga que você. Olhos pequenos e miúdos, tom de voz eternamente choroso, pele pálida e doentia. Eu não gostava dele de verdade. Ele sabia que eu não gostava dele daquele jeito, e mesmo assim ele se encaixava bem no papel do que meus colegas de classe consideravam um namorado aceitável e totalmente não falso.
O que era bom.
Exceto quando não era. Veja bem, na minha glória infinitamente sábia e cronicamente congestionada, eu não participava de álcool, muito menos de qualquer outro tipo de droga. Não é que eu julgue os outros, só quando gastam dinheiro demais com isso. Então, quando o Sebastian começou a beber mais que o meu pai, eu pensei que não tinha como salvar aquele relacionamento. Não é como se meus amigos o conhecessem, afinal, como eu ia me orgulhar de namorar um bêbado? Assim, antes que eu percebesse, já tinha tomado minha decisão. Eu tinha que terminar com ele.
... Sem saber direito como dar a notícia pros meus amigos de que meu namorado falso agora era um ex-namorado falso, que não tinha evoluído pra namorado de verdade, mas, bem, você entendeu.
“Quando você vai apresentar ele pra gente?” perguntou uma das minhas amigas enquanto almoçávamos, sem fazer ideia da ansiedade que aquela pergunta estava me causando.
“Ah, ufa, em breve. Em breve, espero”, eu disse, balançando a cabeça. Afinal, com sinais físicos e linguagem não verbal as pessoas sempre entendiam melhor, né? Com certeza elas sabiam que não deviam me pressionar mais enquanto eu estava tão—
“Como ele é fisicamente?” A mesma amiga se virou pra mim, toda animada... Como ele é, ela pergunta pra quem definitivamente não quer admitir que o namorado é um bêbado que parece que o nome do meio é Hennessy.
“Ele é loiro, alto e bonito. Muito bonito”, eu disse, tentando soar segura, como se não estivesse inventando e descrevendo algum cara bonito que eu tinha visto uma vez num anúncio da Calvin Klein.
Claro que ninguém acreditou em mim. Quem acreditaria?
E aquilo foi só o começo! Algumas semanas depois de todo esse dilema, minha avó ficou gravemente doente. Nem era algo que eu tinha planejado, ou melhor, ninguém poderia ter previsto. Sabe quando as pessoas usam a desculpa de que a avó morreu pra serem dispensadas do trabalho ou da faculdade? Isso aconteceu comigo, só que, claro, nos dias antes do primeiro dia do meu terceiro semestre da faculdade. Como se já não fosse ruim o suficiente, como se eu não tivesse sido obrigada a ir na segunda-feira, ontem, e ainda...
Ontem à noite, eu sonhei outro pesadelo. Eu fui pra faculdade, mas não conseguia encontrar meu caminho, nem uma forma de me defender enquanto andava por aqueles corredores escuros, com o cheiro de formol e antisséptico quase gelado no meu nariz enquanto eu caminhava, quase sem fim. Minhas pernas doíam, sem falar de como eu estava com frio no sonho. E então eu o vi. Ou quem eu achei que devia ser uma saída. Era só um sonho, eu sabia, enquanto corria atrás de alguma figura nos meus sonhos, um amarelo brilhante rompendo a serenidade dos azuis até que ele se virou, estendendo os braços antes que eu corresse direto pra ele. Ele me pegou, ele me pegou, mesmo que eu tivesse acordado. Ele me pegou e eu acordei. Quem era ele, afinal?
... O que eu tinha sonhado? Só a cor de ouro e o cheiro de morte pareciam grudados nos meus ossos. Talvez só um lembrete, um eco do que eu tinha vivido no funeral da minha avó.
Hoje foi um bicho completamente diferente.
Eu ainda me lembro bem do meu raciocínio idiota. Nem me dei ao trabalho de pegar a mochila de manhã, sabendo que eu só tinha uma aula e que iríamos fazer um debate, então não precisava dos meus cadernos. Pensei: já que eu tenho um histórico bem pesado de desmaios, vou tomar café da manhã. Café da manhã dos campeões: burritos e uma garrafa de Coca. Meia litro de Coca e três burritos depois, eu estava feliz da vida. Sério, você nunca sabe o quão feliz e tranquila você está até comer sua comida favorita e sair toda animada pra aula. Nem me lembrei onde tinha deixado o celular, só fui entrando na sala de aula e me sentei pro meu terceiro dia de aula.
Uns vinte minutos depois de a aula começar, fui tomada por aquela sensação, aquele sentimento estranho de o estômago dar cambalhotas, quase uma bronca por ter comido comida pra alguém duas vezes o meu tamanho, quase doía dentro de mim. Deixa pra lá, talvez eu precise ir com calma. Nem preciso dizer que não foi fácil, porque acabei desmaiando. Por causa de uma dor de barriga! Só uma dor de barriga! A ida até a enfermaria não foi nada divertida, me levaram de maca pra fora da sala e me trouxeram pra enfermaria, com os estudantes de medicina fazendo treinamento e tudo mais. No meio de tudo, perguntaram se deviam ligar pra alguém pra me buscar. Mesmo sabendo que eu mesma era meu contato de emergência, eu não estava lúcida o suficiente pra protestar e explicar, nem conseguia reclamar enquanto vomitava sem botar nada pra fora.
Eu me sentei, pensando nas minhas opções, porque nem conseguia lembrar de nada. Será que podiam ligar pra minha mãe se ela não tinha como me contatar? Algum dos meus irmãos tinha me visto sendo levada pra enfermaria? Pior ainda, o que eu deveria fazer pra justificar toda a sequência de eventos que tinham me levado até a enfermaria? Então lá estava eu, na sala da enfermeira, bebendo água com eletrólitos e sendo tratada como uma princesa, tudo por causa de um simples desmaio e um mal-estar geral. E então, enquanto eu encostava o rosto na parede fria da enfermaria, ouvi uma batida na porta.
“Ah, ele veio! Achei que ele não fosse atender”, disse a enfermeira-chefe, saindo da sala dela pra abrir a porta, enquanto eu nem me dei ao trabalho de virar a cabeça, sem me mexer do meu lugar, olhando fixamente pra porta. E lá estava ele, com o sol brilhando atrás das costas, um estranho lindo, alto, com cabelo loiro longo, uma mão segurando meu celular e a outra minha mochila, enquanto a enfermeira apontava com a cabeça pro lado, pro estranho bonito que entrava na sala. Olhos brilhantes romperam a luz fria da enfermaria enquanto ele me encarava intensamente, justo quando a enfermeira disse toda animada: “Seu namorado chegou.”
Eu nem conseguia me mexer, só olhando pra ele de baixo, sem conseguir dizer uma palavra.
Estava na hora, afinal.


0 comentários:
Postar um comentário