E, no entanto, depois de chegarmos até o fim daquela longa estrada de terra em zigue-zague, o carro todo arranhado por galhos de árvores, quando por fim saímos e abrimos caminho pela mata sombria até a varanda da frente dele, empurramos aquela porta toda lascada com dificuldade, o que vimos foi... magnífico.
Perdoe-me, eu sei que se espera que eu lide com coisas assim com mais, suponho, empatia, mas você também não teria gostado do sujeito. Ele era violento e racista.
As palavras tinham sido talhadas por toda parte nas paredes, revelando o que quer que fosse o material vermelho por baixo. A “caligrafia” era tão áspera e montanhosa, se é que você me entende, e mesmo assim de algum modo parecia tão porra tão precisa. Como se, em todo o tempo que passou talhando... isso tudo, ele nunca tivesse cometido um único erro. Cada traço era uma caralha de perfeição.
Temo que aquele babaca sub-humano abusivo fosse um gênio artístico.
E, o que é mais, se você olhasse com atenção suficiente, começava a discernir duas caligrafias distintas.
Eu não sei como ele fez aquilo.
Não havia uma cronologia clara, e palavras e frases próximas quase nunca pareciam relacionadas, e ele devia não acreditar em frases completas, mas ainda assim, passando tempo suficiente nesses cômodos abarrotados e horríveis, você quase começava a ter a sensação de, meio que, de um diálogo.
Tome, por exemplo, a frase: “Abra seus olhos, meu filho, meu”, no banheiro úmido, à esquerda e acima do vaso sanitário.
Em combinação com, lá em cima, no teto da despensa em que tudo tinha vencido: “sim, Pai, eu vejo, eu”.
E tantas das inscrições de uma única palavra eram, na verdade: “Pai”, e “filho”, e “Pai”, e “filho”, ad nauseum.
E ler todas aquelas outras gravuras... menos... explicáveis, naquele “contexto”, bem, acho que você começava a sentir um pouco do que ele devia estar sentindo.
“Eu te amo, eu amo amar, meu filho, meu filho, o Mundo, nosso”
“o que são estas, estas, estas raivas, raivas, a dor, sim, sim”
Estávamos começando a sentir bastante frio, explorando aquele lugar cheio de corrente de ar desde a infância, tão arruinado, tão profanado. Os olhos de nós quando crianças nos observando a partir de retratos tortos.
“Se você ama algo, você ama ama ama, você deixa, deixa, você deixa”
“a luz, a luz, eu sinto, sinto ela, sinto ela, livre, eu quero, eu quero livre eu quero”
Temo que nossos cérebros já começavam a se encher de “noções fantasiosas”, como ele costumava chamar, muito antes de virar o que quer que fosse aquilo. E, como você sabe, o plano era passar o dia inteiro e esvaziar o lugar. O que deveríamos doar? O que podemos vender? Esse tipo de coisa. A gente realmente precisa do dinheiro, você entende. Os preços agora para mandar qualquer coisa até aqui...
Bem à frente da cama queen inclinada no quarto principal: “eu deixo deixo deixo deixo deixo voar voar voar voar voar sim vá sim vá seja”
Dentro do armário gotejante sob a pia queimada: “provo eu provo eles provo provo provo para provar para voar”
O plano era passar o dia inteiro, e nem haviam se passado três horas. E nem sequer discutimos o... novo plano. Um de nós simplesmente encontrou o fluido de isqueiro e pôs a mão na massa, eu acho.
Não houve alívio na minha vida como o alívio de deixar a cabana dele queimando para trás, e ir embora da fumaça para qualquer lugar que não fosse ali.
Então por que não consigo pensar em nada além daquele lugar, e daquelas paredes, e daqueles cheiros, e daquelas palavras de merda?
A cada turno no posto de gasolina elas ecoam, a cada aula de violão que dou, esses personagens de “Pai” e “filho” tagarelam na minha cabeça e o pobre garoto machucado que estou ensinando começa a perguntar coisas como: “Tem certeza de que você está bem para hoje?” e “A gente pode remarcar, se precisar?” e tantos velhos amigos estão voltando à minha vida e, do nada, perguntando se eu tenho algum problema com drogas, e eu nunca usei droga nenhuma na vida, eu acho, e tudo em que consigo pensar são aquelas palavras vermelhas talhadas na porra da parede.
São só palavras.
Eu sei que são só palavras porque ele era apenas algum pobre caso perdido de alma maligna que enlouqueceu sozinho na cabana o tempo todo e cometeu suicídio por avião e nada disso significa nada e nada significa nada porque o universo não é assim, é só aleatório e mecânico e feito de estrelas, e são só palavras.
Talvez colocá-las na sua cabeça faça com que saiam da minha.
Se não, talvez esta seja a última vez que vocês ouvem falar de mim.


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