Todo mundo está sempre procurando aquele lugar perfeito. Grande o suficiente, não muito caro, perto do trabalho. De alguma forma, eu realmente encontrei.
O prédio em si era antigo, daqueles com corredores estreitos e um elevador lento que sempre fazia um barulhinho fraco na subida, mas estava bem conservado, limpo e silencioso de um jeito difícil de achar numa cidade como esta.
A proprietária morava no mesmo prédio, três andares acima de mim. Era uma mulher alta, já mais velha, com uma voz suave e ombros tensos, e parecia realmente satisfeita em me mostrar o apartamento.
Tinha dois quartos, uma sala de estar grande e uma varanda. Ficava também a apenas alguns quarteirões do escritório, o que significava que eu podia ir andando para o trabalho toda manhã em vez de enfrentar trens lotados.
Eu andava por cada cômodo esperando que tivesse alguma pegadinha. Eu tinha acabado de me formar e ainda estava cheia de empréstimos estudantis, então não tinha a menor condição de pagar algo daquele nível.
Mas quando ela me falou o valor do aluguel, eu simplesmente fiquei parada ali por um segundo.
Ela explicou que dava um desconto bem grande para garotas jovens que estavam chegando novas na cidade, porque ela mesma já tinha sido uma delas um dia, e eu não questionei. Assinei o contrato naquele mesmo dia.
A mudança foi boa. Meu pai me ajudou a trazer minhas coisas e a consertar uns detalhes pequenos, e pela primeira vez parecia que eu estava realmente começando a minha vida.
A única coisa estranha naquela primeira noite foi quando deixei uma caixa de ferramentas cair no meu pé e cortei feio a lateral do dedão. Limpei o corte, coloquei um band-aid e pensei que ia olhar melhor no dia seguinte.
Mas quando acordei, o corte já tinha sumido, como se tivesse acontecido há muito tempo.
O primeiro mês foi perfeito.
Eu costumava sentar na varanda toda manhã, comendo ovos mexidos e tomando café antes de ir andando para o trabalho. Eu estava no início dos meus vinte anos, morando na maior cidade em que já tinha vivido, com um emprego que eu realmente gostava, e parecia que tudo finalmente tinha dado certo.
O apartamento era uma grande parte disso.
A primeira vez que alguma coisa pareceu errada foi depois de uma noite bebendo com os colegas de trabalho. Cheguei em casa, abri o Instagram e vi uma foto minha daquela noite, e eu parecia diferente.
Nada óbvio, só mais velha. Meu rosto parecia um pouco mais cansado, a pele sem viço, com olheiras fracas embaixo dos olhos.
Eu até puxei fotos antigas para comparar. Mesmo ângulo, mesmo sorriso, mas não parecia a mesma pessoa.
No começo não pensei muito nisso, mas ao longo da semana seguinte ficou cada vez mais difícil ignorar.
Minha pele ficou mais seca, eu comecei a acordar exausta não importava o quanto eu dormisse, e uma manhã no trabalho eu não conseguia parar de bocejar durante uma reunião. Mais tarde naquele dia, durante uma apresentação, senti uma dor estranha nas costas.
No início achei que era só estresse. Primeiro emprego de verdade, cidade nova, rotina nova. Fazia sentido.
Fui ao médico só por garantia, e ele confirmou que provavelmente era fadiga.
Então continuei.
Dia após dia, eu fui me acostumando a me sentir assim. Saía menos, parei de ir pra academia, e na maioria das noites eu só ficava em casa assistindo séries aleatórias.
Todo mês, eu deslizava o aluguel por baixo da porta da proprietária, como combinamos. Quase nunca a via depois da primeira semana, e ela nunca me procurava.
Cerca de dois meses depois de ter me mudado, encontrei meu primeiro cabelo branco.
Era uma manhã de domingo e eu estava escovando o cabelo enquanto ouvia um podcast quando vi. Isso me assustou pra caralho.
Depois disso, as coisas pioraram rápido.
Os colegas de trabalho começaram a notar. Meu rosto parecia mais magro, a pele seca e sem vida, e eu devo ter perdido mais de dez quilos sem nem tentar. Os cabelos brancos continuavam aparecendo.
Meu chefe até me chamou na sala dele e perguntou se estava tudo bem, se eu precisava de algum tempo de folga.
Eu nem sabia o que responder pra ele. Todo médico que eu consultava falava a mesma coisa: estresse, burnout, algo assim. Mas a verdade é que eu nem estava trabalhando tanto assim.
Então chegou o Dia de Ação de Graças, e eu decidi visitar meus pais na casa deles porque não via a hora de sair daquela cidade. Ficava pensando que talvez eu só precisasse daquela pausa.
E por um dia, eu acreditei que era isso. Na primeira noite de volta no meu quarto antigo, minha pele já parecia melhor, eu tinha energia de novo e me sentia eu mesma.
Mas meus pais não enxergaram dessa forma.
Eles me olharam como se estivessem vendo uma pessoa diferente, como se não me reconhecessem mais.
E a pior parte foi quando eu fiquei ao lado da minha mãe no espelho do banheiro.
Nós parecíamos da mesma idade.
Foi aí que eu soube que não era só estresse.
Acabei ficando lá duas semanas, e quando voltei pro apartamento eu já sabia que alguma coisa naquele lugar tinha me mudado pra sempre.
No segundo em que entrei, comecei a fazer as malas. Peguei tudo o que consegui, enfiei em duas malas e corri pro elevador.
Tinha outra mulher lá dentro. Uma mulher alta, atlética, vestindo roupa de academia e óculos escuros, mesmo dentro do prédio. Parecia ter uns vinte e poucos anos.
No começo mal prestei atenção nela. Depois olhei de novo.
Alguma coisa nela me pareceu familiar. O jeito de andar. O jeito como mantinha os ombros tensos. O formato do rosto.
Fiquei encarando, tentando lembrar de onde.
E então caiu a ficha.
Ela era a cara da proprietária, só que décadas mais jovem.
Eu fiquei olhando mais tempo do que devia, e ela percebeu. Virou o rosto rápido e tentou sair assim que o elevador chegou no térreo.
Mas eu não deixei.
Segurei o braço dela e a virei pra mim.
Eu não precisava que ela falasse nada.
Eu já sabia.
Era a proprietária.
Comecei a gritar com ela, perguntando o que caralho ela tinha feito comigo. Ela tentou se soltar, mas eu não larguei, e acabamos brigando ali mesmo no saguão.
Claro que ela agora era bem mais forte do que eu, muito mais forte, e me empurrou com tanta força que eu caí e bati a parte de trás da cabeça no chão.
Não lembro de ter desmaiado. Só pareceu que tudo apagou.
Quando acordei, estava num quarto de hospital, com luzes fortes e enfermeiras andando do lado de fora, e a proprietária sentada ao lado da minha cama.
Ela parecia culpada, quase triste.
Pediu desculpas por ter me empurrado e disse que não tinha escolha, mas eu não estava nem aí pra isso. Só queria respostas.
Entre lágrimas, ela me contou que a mesma coisa tinha acontecido com ela, que tinha se mudado praquele apartamento mais ou menos um ano antes, e que havia outra proprietária antes dela.
Processsei aquela informação por um minuto e perguntei como diabos aquilo funcionava, e ela disse que não sabia exatamente.
O que a última proprietária tinha contado pra ela era só que os dois apartamentos — o dela e o que ela alugava — estavam conectados desde que o prédio foi construído, e que um sugava o tempo enquanto o outro dava, tipo um canudo.
Eu sei o quão insano isso soa, porque meu primeiro instinto foi achar que era mentira.
Mas ela se levantou, enxugou os olhos e colocou uma chave na minha mão, dizendo que agora os dois apartamentos eram meus e que ela estava indo embora.
Perguntei o que eu deveria fazer com aquilo.
Ela deu um sorrisinho cansado e me disse para alugar.
Pensei em ir à polícia.
Pensei em tentar encontrar a proprietária.
Pensei em voltar pros meus pais.
Mas nada disso ia me devolver aqueles meses. Ou os anos.
Eu tenho vinte e dois anos, mas meu corpo tem décadas a mais, e toda vez que me olho no espelho, dá pra ver que isso não vai se reverter sozinho.
Em desespero, coloquei meu apartamento no mesmo site onde encontrei, e me mudei pro dela. As mensagens começaram a chegar quase imediatamente.
A primeira visita é hoje. É por isso que estou escrevendo isso: por culpa.
Uma parte de mim fica dizendo que eu não preciso fazer isso. Que tem que ter outro jeito.
Mas a outra parte grita que eu não tenho escolha, que é isso ou aceitar que perdi toda a minha juventude.
A garota que vem ver o apartamento parecia jovem e cheia de esperança no telefone. Ela está animada por ter encontrado um lugar onde pode viver o melhor momento da vida dela nessa cidade.
Eu lembro de ter soado exatamente assim.


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