sexta-feira, 3 de abril de 2026

Meu Consolo Insano

Está piorando nos dias de hoje.

Às vezes tenho medo de que minha mãe estivesse certa a meu respeito. De que a maçã não cai longe da árvore. No meu caso, parece que ela bateu em todos os galhos enquanto caía. É bem provável que tenha quicado e rolado em cima do meu galhinho algumas vezes. Nossa loucura. Insanidade hereditária. O ermitão maluco na floresta sobre o qual as crianças contam histórias de terror. Tipo Ted Kaczynski, só que sem a infâmia. Ou o terrorismo. Eu só quero ficar em paz.

Nunca vi necessidade de companhia. Amigos ou qualquer outra coisa. Eu era, para dizer o mínimo, perturbado. Tinha um desprezo visceral por contato físico, cenourinhas baby, mas não cenouras normais, esmalte de unha, certas fontes e a cor roxa, para citar apenas algumas coisas. A distopia urbana em que eu nasci era, por concepção, o meu inferno. Uma selva de concreto onde eu jamais poderia sonhar em roubar um momento de paz e silêncio. Apenas um momento sozinho com os meus próprios pensamentos. O trem das 6h30 da manhã rasgava o meio dos prédios de apartamentos. A serpente de aço ensurdecedora que assombrava meus sonhos das primeiras horas da manhã. Eu me lembro nitidamente de que eu sempre estava em algum lugar tranquilo. Uma cabana na floresta. Um píer à beira de um lago. Um momento maravilhoso em que, justamente quando eu começava a relaxar, o som estridente de rodas enferrujadas rangendo em trilhos de metal ressoava por trás. Eu acordava encharcado de suor frio e em lágrimas. Todas as manhãs.

Por pior que aquilo fosse para mim, acho que para a mãe era ainda pior. Eu era um caos inconsolável, chorando para que ela fizesse o monstro ir embora. Ela realmente tentou me consolar. Mas, com o tempo, passou a me repreender, depois a gritar e, por fim, as coisas ficaram físicas. Acho que não posso culpá-la. Ela estava completamente sozinha. Eu sabia que não era a criança mais fácil de criar. E ela tinha os próprios problemas, não muito diferentes dos meus. Mas ela nunca me expulsou. Poderia ter me colocado no sistema, como ameaçou fazer tantas vezes. Havia algo que ela sentia por mim. Sua própria carne e sangue. Talvez não amor, mas uma certa posse sobre aquilo que se cria.

Era uma noite no fim de dezembro, em um longo trecho de estrada. Eu sempre gostei de dirigir por bastante tempo, acompanhado de nada além da minha própria mente vagando. Pensei em como aquela estrada poderia continuar para sempre e eu ficaria satisfeito. Minha paz só era interrompida por instantes pelos carros que passavam de vez em quando. Toda vez, aquilo me arrancava dos meus pensamentos e me lembrava de onde eu estava. O ronco do motor. O whoosh cortante e ensurdecedor quando eles passavam zunindo. De novo, e de novo, e de novo. Era como tortura chinesa com água. A espera pelo próximo veículo inevitável. O próximo tique. A próxima gota. O próximo e o próximo e o próximo e…

Não me lembro de como fui parar encostado no acostamento. Eu simplesmente estava lá. Sentado, suando em frenesi, apertando o volante até os nós dos meus dedos ficarem brancos como osso. Quando desliguei o motor, tive um momento cegante de clareza. Alcançando, de imediato, um objetivo que eu jamais soube que fosse possível. Um silêncio absolutamente puro e maravilhosamente sereno. Finalmente. Saí do carro e respirei o ar frio como se eu tivesse prendido a respiração a vida inteira. Estrelas que eu nunca tinha visto dançavam no céu noturno. Qualquer destino anterior para o qual eu estivesse indo pareceu tão distante e irrelevante. Eu tinha escapado. Nem hesitei. Deixei as chaves na ignição. Fechei a porta atrás de mim. Saí da estrada e nunca olhei para trás.

Entre no meu consolo.

Estou sendo assombrado.

Talvez “perseguido” seja uma palavra melhor. Ou perturbado. Por qual entidade, eu não posso dizer. Não estou particularmente assustado com essa nova situação. Se era um fantasma ou espectro com quem eu vivia, ele era o meu colega de quarto ideal. Ele (e digo “ele” por respeito, já que não é um IT, mas também não é uma ela, pois a mãe jamais aprovaria a ideia de uma companhia feminina) era bastante afeiçoado à minha caneca.

Sou só eu aqui. Eu sei que não a movi. Eu a tinha deixado bem ao lado do balcão da cozinha. Nunca a ponho na mesa de cabeceira. Não naquela vez. Não fui eu. Foi ele, tinha que ter sido. Deve ter sido.

Consegui improvisar uma vida aqui na floresta. Naquela noite, eu abandonei a civilização. Andei por dias. Eu havia deixado todos os meus pertences mundanos, além da roupa do corpo. Como algum tipo de monge budista em busca do esclarecimento. Acabei encontrando isso na forma de uma cabana abandonada no meio de uma clareira. Lembro que, quando coloquei os olhos nela pela primeira vez, senti uma certa afinidade. Era como se um pedaço da minha alma tivesse se materializado no mundo tangível. Era velha, decadente, negligenciada, mas tão quente e acolhedora. Era tudo de que eu precisava.

Se eu soubesse que ela vinha com uma força invisível que não respeitava o limite de tocar os meus pertences pessoais... bom, eu ainda teria ficado com ela sorrindo. Talvez ele estivesse aqui antes de mim. Ainda assim, só deu as caras recentemente. Ou talvez essa tenha sido apenas a primeira vez que consegui pegá-lo no flagrante. Um deslize da parte dele, o danadinho. Pelo menos foi assim que tudo começou.

Ele tem andado displicente ultimamente. Espero que tenha sido isso. Temo que ele, na verdade, esteja ficando mais ousado. Dei um vislumbre dele outro dia. Bem fora da janela. Pelo menos acho que dei. Havia algo ali, na beirada da clareira, alguns passos atrás da linha das árvores. Uma figura. Uma sombra. Um movimento no canto do olho. Não é paranoia. O que eu teria para paranoiar? Estou completamente sozinho. Sou só eu aqui. Só eu. Meu próprio cantinho do mundo. Ele é meu, e só meu. Sou só eu aqui.

Está piorando.

De vez em quando eu ouvia uma batida. No começo, eu até poderia fingir que era o vento sacudindo os ossos dessa morada antiga. Não posso mais. Sei que é ele. Brincando comigo. Nunca consigo identificar de onde exatamente vem a batida. É sempre do outro lado da cabana. Nós dos dedos fantasma tamborilando em madeira frágil.

Toc Toc Toc

De novo, de novo, de novo

Eu me assustava toda vez que ouvia. Está ficando mais alto. Às vezes, raramente, mas de vez em quando era o som de uma porta sendo violentamente chacoalhada. Já não era a batida educada, e sim pancadas desesperadas. Outro dia ouvi isso enquanto eu estava lá fora, cuidando do meu jardim. Uma batida etérea, como se eu estivesse parado bem ao lado de uma porta. Fiquei mais irritado do que assustado. Saber que ele não está preso à cabana, mas a mim. Eu estou sendo assombrado.

Acho que estou vendo agora. Apenas vislumbres sutis na minha visão periférica. Aquela porta não deveria estar ali.

Está ficando mais claro.

Eu nunca sou de duvidar de mim mesmo. O que é que dizem sobre a loucura? Um louco nunca acha que é louco. Mas e se eu achar? Pensar que sou louco torna isso menos loucura? Acho que depende de eu realmente ser. Se eu for, então meu reconhecimento disso é um passo para deixar de ser. E, se eu não for, então talvez seja o primeiro sinal de que estou perdendo a porra da minha cabeça.

Enfim, encontrei a porta. “Encontrei” é a forma certa de dizer isso? Eu sempre soube onde ela estava. Só agora ela se mostrou. Por completo. De uma forma borrada no canto para uma porta nitidamente real.

Ele ainda bate do outro lado. Eu prefiro não responder. Ele tem sido uma presença invisível desde que nos conhecemos. Acho que não estou preparado para encontrá-lo no corpo físico. Isso estragaria o relacionamento que estabelecemos.

Ele não me deixa em paz. Era só isso que eu queria, e a existência dele é o único obstáculo para o meu consolo. Se eu pudesse simplesmente... removê-lo.

Não é comum alguém se pegar pensando em assassinato. Se ele, de fato, for um fantasma, isso sequer seria assassinato? Isso me cai mal. Que falta de civilidade. Mas, na floresta, não somos todos animais? Criaturas ferozes preocupadas apenas com a própria sobrevivência. Retorno ao instinto básico. Talvez egoísta, mas somos parte da natureza. Ainda assim, ele não merece a chance de apresentar sua defesa? Que ameaça ele realmente representa para a minha existência? Eu, nascido para a civilização, deveria ser mais cortês. Gosto de pensar que a mãe teria me ensinado melhor. Virar a outra face. Apoiar-me na minha natureza perdoadora. Afinal, o que ele realmente fez para merecer a minha ira? Além de, ocasionalmente, extraviar certos objetos e bater incessantemente do dia até a noite, sem que eu tenha escapatória de sua batida batida batida constante bate—

Vou matá-lo.

Nunca pensei que veria isso ao vivo.

Uma vez vi fotos disso numa revista. Uma abertura em página dupla. Páginas 16 e 17. As lombadas grampeadas perfeitamente centralizadas. A linha do horizonte fica ligeiramente acima do ponto médio. Eu gostei disso.

Um oásis lindíssimo cercado por cadeias de montanhas com picos cobertos de neve. Água tão límpida e imóvel que era como uma fina folha de vidro cobrindo um ecossistema aquático lá embaixo. Eu sei que era só uma foto, mas ela encarnava tudo o que eu ansiava. Paz em sua manifestação mais pura. Serenidade.

Lake Tahoe

Ainda mais de tirar o fôlego ao vivo.

“Você devia ter se vestido de forma mais adequada para o tempo. Esse frio vai acabar com você.”

Mãe

Minha determinação de matar. Era matricídio o que eu pretendia? Contra o que eu estava tão furioso? Está tudo embaralhado. Minhas memórias são um novelo de fios e cabos espalhados e entrelaçados. Sem começo nem fim. O que resta é um presente sem contexto. Como entrar num cômodo e esquecer por que você entrou em primeiro lugar.

Uma vez eu tinha matutado sobre a ideia de que a experiência que chamamos de viver não passa de algo representado em fragmentos. A mãe uma vez trouxe para casa um DVD. Um dos primeiros filmes de que me lembro de ter visto. Wallace e Gromit. As Calças Erradas. O meio da animação em stop motion me fascinava. Imagine por um momento uma vida como a de Wallace. A vida dele acontecendo em um movimento fluido, mas, entre um quadro e outro, um Deus arruma meticulosamente cada membro. Um quadro para o seguinte. Wallace tem consciência entre os quadros? Certamente ele não tem noção de um ser além da sua compreensão, torcendo e puxando seus membros. Ajustando sua expressão e zombando do seu livre-arbítrio. Às vezes temo que minha vida não seja tão diferente da de Wallace. Uma vítima impotente aos caprichos de um Deus louco. Como eu poderia ter certeza de que era o mesmo de um segundo atrás? Talvez eu tivesse morrido e, no mesmo instante, sido substituído por uma versão idêntica de mim mesmo, com todas as memórias, exceto o conhecimento de ter experimentado a morte incontáveis vezes.

“Você está sempre perdido nos seus próprios pensamentos.”

Sim, mãe. Perdido. Acho que desta vez foi longe demais. Não acho que exista saída. Eu realmente fiz isso, não foi?

“Eu sempre quis te trazer para cá. Somos só nós dois, querido. Só teremos um ao outro.”

Claro.

“Eu esperei por você.”

O que ela...?

“Por que você nunca veio?”

Por que eu não fui?

“Você me deixou. Eu estava completamente sozinha.”

Era tudo o que eu sempre quis.

“Como você pôde ser tão egoísta?”

Era tudo o que eu sempre quis.

“Como você pôde?”

Eu precisava sair.

“Eu te trouxe a este mundo. Você não pode me abandonar. Você é meu. Você não pode...”

Não aguentava mais. Nem mais um dia, nem mais um minuto, nem mais um segundo dessa porra desse purgatório.

“Volta.”

Mãe, me desculpe. Hoje era para ser especial, não era? O único dia do ano em que nos era permitido largar tudo e perdoar. O primeiro vislumbre de pequenas manchas pálidas descendo, se dissolvendo no lago e se tornando uma só coisa. Eu sempre gostei da neve. Ela era limpa. Um lençol branco que cobria as imperfeições feias do nosso mundo. Você sabia que é mais silencioso quando neva? É verdade. As camadas fofas de neve agem como um absorvedor natural de som. As ondas sonoras ficam presas nos bolsões de ar dentro dela. Isso amortecia o caos. Naquela época do ano, parecia que o volume do mundo estava abaixado.

Ah, como eu amava o Natal.

Estamos nos aproximando do fim.

Não vai demorar para estar aqui. Para me levar embora. Faz tanto tempo. Acho que desta vez estou pronto. Não há medo.

O som do monstro rumbleando fica mais alto. Ele está vindo.

Não tenham medo. Foi maravilhoso enquanto durou.

O aço guinchou até parar, enquanto o chão tremia sob mim.

Fecho os olhos para este mundo. Acordo para outro.

Silêncio.

Já deveria ter acontecido. Olho ao meu redor. Ainda estava de pé no píer com a mãe. Ela olhava para trás de nós, para o fim do píer, de volta para a margem. E lá estava ele. Estranho. Eu nunca tinha chegado tão longe. Já deveria ter acabado.

O trem do metrô vazio me aguardava com as portas abertas.

“Cuidado com o vão”

Acho que eu não deveria ter entrado, mas que outra escolha havia? Por mais que eu quisesse ficar naquele píer com a mãe, eu duvidava que o trem fosse esperar por mim. Pedi que ela se juntasse a mim, mas ela recusou. Achei estranho quando ela me disse que pegaria o próximo. Não acho que vá haver um próximo.

E então me sentei sozinho no vagão, vendo a paisagem passar em disparada, pensando no que tudo isso leva. Há algo inquietante em estar sozinho num lugar que sugere reunião coletiva. Shoppings abandonados, escolas ao entardecer, o último trem programado da noite. Por mais que eu gostasse de estar sozinho, aquilo parecia invasão. Como se eu não devesse estar ali porque ninguém mais estava. O que todo mundo sabia que eu não sabia? O que a mãe não me contou?

Eventualmente o sol se pôs no horizonte e a noite chegou. O trem não dava sinais de parar. Não consegui dizer quanto tempo durou a viagem. A floresta de pinheiros parecia ficar mais densa à medida que eu avançava cada vez mais fundo na mata. A noite só ficava mais escura. As luzes fluorescentes no trem tremeluziam enquanto os galhos estendidos roçavam e batiam na lateral do vagão. À medida que as luzes piscavam, nas breves instâncias de escuridão eu conseguia distinguir o brilho de uma luz laranja dançando entre a folhagem. Uma nuvem de fumaça subindo para o céu. O trem se virou na direção da luz e começou a desacelerar.

Parou diante de uma pequena clareira na floresta. As chamas agora ardiam mais forte e mais alto enquanto minha cabana era engolida, transformando-se em uma pira enegrecida. Minha casa estava em chamas. Meu santuário.

Dentro do fogo eu conseguia ver uma figura parada na janela. Era ele, pensei. Foi ele quem fez isso. Eu saio por um momento e ele põe tudo abaixo. Eu disse que ia matá-lo. Ainda pretendo.

Ao correr para dentro das chamas para enfrentá-lo, meu corpo se incendiava e fervia por dentro. Minhas roupas queimaram em um instante, reduzidas a cinzas. Eu me choquei contra a porta só para descobrir que ela estava trancada, mesmo sem nunca ter havido uma tranca naquela porta. Bati, esmurrando e sacudindo a porta, sem obter nada. O calor era insuportável, e ainda assim eu me recusava a ceder. Como eu havia dito, aquela cabana era um pedaço tangível da minha alma. O único lar que eu jamais conhecera. Eu o recuperaria do intruso ou queimaria junto com ele. Com um esforço triunfante, finalmente arranquei a porta das dobradiças e cambaleei para dentro do inferno em chamas.

Lá estava ele, aguardando por mim. Um estranho familiar. Quase tinha me esquecido da visão do meu próprio rosto. Ele parecia... eu parecia satisfeito. Como se não estivéssemos no meio de madeira em chamas. Ergui minha mão em sinal de conforto.

Está ficando frio.

O quê?

A mãe estava certa. Não estamos vestidos para o tempo.

As estrelas estão caindo.

Elas descem, leve e suavemente, das copas das árvores. É hipnotizante. Estão chegando mais perto. Arde. As estrelas na minha pele estão... formando bolhas.

Ah

Está frio. Congelante, na verdade. Mas eu não estou tremendo. Tudo parece dormente e lento. O que eu estava fazendo aqui fora?

Tento me lembrar do acontecimento que me trouxera para essa situação... Como eu fui parar nisso. Qual foi a última coisa de que me lembrei?

Fogo

Não

Mãe

Não

Não essas fabricações

Concentre-se

Eu estava num carro. Eu estava indo para casa. E então...

Naquele momento, tudo o que consigo fazer é rir para mim mesmo. A tragédia da minha condição e sua natureza autodestrutiva. A falta de autopreservação na busca até mesmo de um pequeno instante de alívio do ruído. Ainda assim, apesar de tudo, não consigo evitar sorrir. Acho que devo estar louco.

Ah, como eu amava a neve.

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