sábado, 2 de maio de 2026

Minha moto quebrou numa estrada que ninguém se atreve a cruzar. Eu descobri o porquê...

Fui visitar meu irmão mais velho, que morava numa casinha do outro lado da cidade. Fui com o J.

Agora, embora o J não fosse uma pessoa de verdade, ele era a única motocicleta que eu já tive. Viajar com o J era como viajar com um melhor amigo, e tudo o que a gente tinha vivido junto me deixou mais próximo dele do que qualquer pessoa que eu já tivesse conhecido. O J foi um presente do meu irmão no meu aniversário do ano anterior. Na época, eu achei que ele ficaria feliz se eu aparecesse para visitá-lo com a moto. E eu estava certo.

Fiquei com ele e com a esposa dele por algumas horas, rindo e conversando sobre os velhos tempos. Acabei perdendo a noção do tempo, mas assim que percebi o sol começando a se pôr, disse que já estava na hora de eu voltar para casa.

“Tem certeza de que não quer dormir aqui?” ele disse, segurando meu ombro enquanto me acompanhava até a porta.

“Queria poder, mano, mas preciso levar meu cachorro para passear. A última coisa que eu quero é o coitado fazendo xixi no chão todo. Ele foi resgatado, então ainda estou tentando acertar uma rotina direitinho com ele.”

Nos despedimos ao som de uma sinfonia de cigarras e grilos cantando ao fundo. Eu fui embora justamente quando o sol sumiu atrás do horizonte.

Eu tinha duas opções para voltar para casa: uma estrada mais curta e movimentada, ou uma estrada vicinal mais longa que eu evitava a qualquer custo. Os rumores e histórias de terror da região quase sempre envolviam essa estrada. Decidi fazer o que eu sempre fazia e pegar a estrada mais curta. Eu sabia que talvez houvesse um pouco mais de trânsito do que na estrada longa, mesmo já estando tarde, mas achei que ainda assim chegaria em casa mais rápido.

Antes mesmo de chegar perto da estrada, já dava para ouvir gente buzinando. As buzinas me disseram que havia um engarrafamento, mas só quando alcancei a via foi que vi que a fila se estendia por quilômetros. Xinguei baixinho e meu coração começou a bater mais rápido enquanto eu pensava se valia a pena dar meia-volta e pegar a estrada longa e vazia.

Pensando no meu cachorro, virei e segui para a outra estrada.

Lembrei de já ter ouvido histórias de assassinatos brutais e desaparecimentos estranhos acontecendo ao longo daquela estrada longa. Apesar de sempre ter acreditado que essas histórias eram uma mentira, uma lenda que a maioria das cidades e vilarejos por perto tinha aceitado por tempo demais, uma nuvem preta de dúvida se formou no meu peito.

Quando cheguei à estrada vicinal, já estava escuro. Segui com cautela. Havia poucos postes de luz de vez em quando, e a estrada fazia muitas curvas e contornos. Uma fileira de chorões formava uma espécie de perímetro logo além do acostamento, e feixes de luar atravessavam os galhos e as folhas.

Quase na metade do caminho, minha moto começou a fazer um som de engasgo e o motor morreu. Encostei devagar no canto da estrada para ver o que estava acontecendo.

Olhei para os dois lados. Não havia ninguém por perto. Dei uma olhada no J para ver se o problema era algo que eu mesmo pudesse consertar. Infelizmente não era, então liguei para meu irmão. No começo ele disse que já era tarde demais para vir até mim, mas depois de um minuto ou dois de insistência, falou que eu podia esperar ele em cerca de uma hora.

Pensei em jogar alguma coisa no celular enquanto esperava, mas estava com pouca internet no mês, então resolvi só ficar olhando ao redor. Insetos zunindo na mata próxima criavam uma barulheira constante, e de vez em quando um vaga-lume brilhava. De tempos em tempos eu conferia a estrada, mas nenhum outro carro passava. Apesar de já ser um pouco tarde, ainda me parecia estranho a estrada estar completamente vazia. Uma lua cheia pairava no alto, e, ao ver como ela estava brilhante, percebi que não havia nenhum poste de luz naquela área.

Os minutos foram passando, mas pareciam horas. Peguei o celular e comecei a entrar em pânico. A tela tinha escurecido, o aviso de bateria fraca apareceu, e de repente tudo naquela situação parecia errado demais, como se eu estivesse vivendo uma cena de um dos filmes Premonição.

Para economizar o pouco de bateria que restava, baixei o brilho da tela até o mínimo e coloquei o celular para dormir no bolso. Sozinho naquela estrada escura e vazia, um sentimento profundo de solidão caiu sobre mim como uma névoa grossa. O zumbido dos insetos ficou mais alto até virar um apito nos meus ouvidos.

“Hehehe.” A risadinha veio nítida, cristalina, e eu me virei num pulo. O som vinha de um arbusto ali perto. A risadinha continuou e o som de uma criança correndo se juntou a ela. Os galhos se mexeram um pouco, mas ninguém apareceu.

Mesmo parecendo a risada de uma criança, e sem nenhum sinal óbvio de perigo ou hostilidade, havia algo naquele riso que me deixou inquieto.

Recuei devagar, mas decidi chamar. Peguei meu capacete da moto e o ergui numa postura defensiva enquanto falava. “Oi?”

A risada parou na hora, assim como o som de todos os insetos na mata, mas uma rajada forte de vento atravessou as árvores.

Então tudo ficou em silêncio por pelo menos dois minutos. Eu continuava assustado, então arrisquei gastar o restinho de bateria do celular tentando ver se meu irmão estava perto. Mas o celular não conectava de jeito nenhum, e percebi que eu não tinha mais sinal.

Passos sobre folhas secas tiraram minha atenção do telefone, mas dessa vez não havia risada.

Enquanto eu tentava entender o que estava acontecendo, uma voz de criança falou de dentro dos arbustos. “Oi, me ajuda.”

Fiquei petrificado, sem conseguir me mexer nem responder.

“Me ajuda”, veio de novo. “Estou perdido.”

Foi então que me lembrei das histórias aterrorizantes e das lendas sobre aquela estrada, e dos relatos de pessoas que viram coisas das quais nunca se recuperaram.

O que uma criança estaria fazendo nos arbustos a essa hora da noite, pensei, tentando me convencer de que eu não estava com medo e de que a situação era completamente normal.

Um calafrio subiu pela minha espinha. Ainda não via sinal do meu irmão nem de qualquer outro carro, em nenhuma direção. Quando estava prestes a decidir qual seria meu próximo passo, a voz da criança apareceu outra vez. “O senhor pode me ajudar?”

“Quem é você?” consegui dizer, percebendo de repente que estava tremendo.

“Meu nome é Chuck”, disse o menino.

Meu medo de repente virou uma espécie de agressividade. “Olha, seja lá quem for você, isso não tem graça. Quero que você saia daí e...”

Alguns segundos depois, Chuck saiu de dentro do mato. Ele tinha a altura típica de uma criança de seis anos. Ainda abalado com a situação, fiquei olhando para ele enquanto ele parava ao lado da estrada, de cabeça baixa. A pequena figura silenciosa estava sem camisa, descalça, usando apenas um short escuro. Os alarmes continuavam disparando na minha cabeça. Estava frio, e não havia motivo nenhum para uma criança estar do lado de fora sem roupa. E o fato de ele ainda não ter levantado a cabeça fazia meu coração bater mais rápido.

A luz da lua revelou uma pele estranhamente pálida, quase acinzentada, sugerindo que ele talvez estivesse no frio havia muito tempo.

Então ele levantou a cabeça para me olhar, e eu recuei em horror. Eu esperava ver lágrimas no rosto de um menino, mas, em vez disso, enfiado na pequena estrutura de uma cabeça de criança, havia uma careta de homem idoso. Ao perceber meu terror, ele abaixou os olhos e um sorriso torto aprofundou ainda mais as rugas do rosto.

Gritei, deixei cair o celular e o capacete, e corri o mais rápido que minhas pernas aguentavam, deixando a moto para trás. Enquanto corria, achei que ouvi aquela risada assustadora e infantil atrás de mim.

Não corri por muito tempo até que uma luz forte me iluminou. Olhei por cima do ombro enquanto corria e vi de relance a minha sombra. Pela visão lateral, também vi uma sombra menor atrás da minha própria sombra, se movendo na mesma velocidade que eu. Parei de correr na hora, gritando palavras que não consigo lembrar. Olhei de volta para a direção da luz e só então ouvi o ronco de um motor, percebendo que era outro motociclista.

“Graças a Deus”, murmurei, enquanto ficava no meio da estrada, acenando para o piloto que vinha em alta velocidade na minha direção. A moto diminuiu a velocidade e eu olhei ao redor para ter certeza de que nenhuma figura sombria estava por perto. Corri até o motociclista para explicar a situação.

“Oh, obrigado, por favor, eu posso—” Minhas palavras travaram e meu coração pareceu pular uma batida. Na moto estava Chuck, com aquele sorriso macabro se espalhando de novo pelo rosto.

Um demônio, um fantasma, um alienígena — eu não fazia ideia do que era aquela figura humanoide. Ela tinha o rosto de um homem idoso, o corpo de uma criança e os olhos brilhavam com a mesma luz do farol.

“Precisa de carona?” disse ele. Só que não com voz de criança. Agora ele falava com uma voz grossa, de homem.

Gritei pela que parecia ser a centésima vez naquela noite e corri de volta na direção do J. Enquanto corria, notei que a moto não se mexia, então imaginei que a figura tinha saído dela e estava me perseguindo de novo. Corri ainda mais rápido.

Ao longe, eu conseguia ver a luz fraca do meu celular no chão.

Antes que eu chegasse até ele, senti os faróis me iluminando de novo. Eu estava exausto, mas ainda assim corri até a minha moto e tentei ligá-la, torcendo por um milagre. Não funcionou, e eu gritei. Ainda estava gritando quando ouvi uma voz.

“O que diabos está acontecendo?” disse a voz.

Era meu irmão. Ele desceu da caminhonete com uma expressão de confusão estampada no rosto. Corri até ele, ofegante.

“Precisamos ir!” eu disse, puxando-o até o carro.

“O quê? E a sua moto?” ele tentou dizer, apontando para o J parado ao lado da estrada.

“Temos que ir agora!” gritei de novo, quase chorando.

Ele ficou assustado, mas entrou na caminhonete, e nós saímos dali.

“O que foi? Que diabos está acontecendo? Você estava fugindo de alguém?” perguntou ele, com expressão preocupada.

Meus olhos marejados ainda estavam atentos. De vez em quando eu olhava para frente para ver se enxergava o Chuck ou a moto dele.

Meu irmão chamou meu nome e me trouxe de volta ao presente. “Você pode me contar o que aconteceu?”

Depois de alguns minutos, quando tive certeza de que já estávamos a quilômetros dali, contei a história toda para ele. Ele ficou perturbado, mas uma coisa que não fazia sentido era o fato de ele ter dito que não viu ninguém enquanto vinha na minha direção.

Ele tinha que ter visto a moto com aquela figura estranha, pensei. Aquilo não podia simplesmente ter desaparecido. Ou podia?

Ele me deixou em casa depois que eu disse que não queria ir à polícia naquela noite. Dei comida para meu cachorro, deixei ele correr um pouco do lado de fora e chorei como um menino o tempo todo.

Depois que meu cachorro foi alimentado e passeado, e depois que eu comi um pouco, me sentei no sofá e fiquei pensando nos acontecimentos da noite. Um leve toque foi ouvido em uma das janelas da frente da casa. Meus nervos foram direto para o teto.

Escutei enquanto meu coração começava a bater mais rápido. Meu cachorro me fez dar um pulo quando começou a latir. Eu sabia que havia problema. Abracei a mim mesmo e torci para que fosse um ladrão ou um vândalo. Qualquer um, menos o Chuck.

Quando não houve mais barulho por alguns minutos, corri para verificar todas as janelas. Quando não vi sinal de arrombamento, fiquei aliviado. Talvez fosse coisa da minha cabeça. Quando eu ia voltando para o meu quarto, congelei ao ouvir aquela risada horrível de criança.

Demorei um pouco para entender de onde vinha, mas logo percebi que vinha da porta da frente. Minha respiração ficou irregular, meu coração acelerou e minhas mãos começaram a suar.

Peguei um taco de beisebol no armário perto dali e fui até a porta. Abri devagar, com o taco erguido, e olhei ao redor. Não havia nada ali. Meu cachorro saiu ainda latindo para algo que eu não conseguia ver. Ela estava assustada e assanhada, mas não tão assustada e assanhada quanto eu.

Engoli seco e recueI para dentro de casa quando meus olhos o viram. O J estava estacionado bem na esquina da minha casa. Fiquei olhando para ele em silêncio por alguns segundos, depois bati a porta, fui até o telefone e disquei para a polícia.

Eu não moro mais lá, e já não tenho mais o J. Foi, de longe, a coisa mais apavorante que já aconteceu comigo.

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Minha irmã desapareceu. Outra coisa voltou no lugar dela...

Eu sou gêmea. Sempre fui, e sempre serei.

Sempre fomos muito próximas. Mesmo quando brigávamos e discutíamos por cada besteira. Sam é minha melhor amiga, e eu acho que ela me conhece melhor do que eu mesma. E eu conheço ela.

A maioria das pessoas não consegue nos diferenciar; ouve “idênticas” e nem tenta. Brincam e riem, dizendo que somos “imagens no espelho” e que é “impossível” distinguir uma da outra. Até nossos pais às vezes nos confundem, mas para nós as diferenças sempre foram óbvias. É só olhar.

O maxilar dela é um pouco mais arredondado, meus olhos são mais ovais, e há uma pequena pinta abaixo da minha orelha esquerda, mas não na dela.

Há alguns meses, minha irmã simplesmente desapareceu. Num dia, ela estava ali, agindo como sempre. No outro, sumiu, sem deixar vestígios.

Procuraram e procuraram, mas não encontraram nada. Não havia uma única pista sobre o que tinha acontecido ou para onde ela tinha ido. Não sabiam se ela tinha ido embora por vontade própria ou se tinha sido levada. Não sabiam se ela estava morta ou viva.

Depois de um mês sem nada, de “sinto muito” e “estamos pensando em vocês”, repetidos tantas e tantas vezes que eu já queria gritar, eu estava deitada na cama, encarando o teto, sem conseguir dormir enquanto a noite avançava até as primeiras horas da manhã.

Saí da cama em silêncio e fui de fininho até o quarto da Sam, tomando cuidado para não acordar meus pais, embora, pelos sons baixos de choro vindos de baixo, pelo menos um dos dois estivesse acordado.

Entrei no quarto dela pela primeira vez desde o desaparecimento e encontrei tudo exatamente como estava antes de ela sumir. Sentei na cama dela, inexplicavelmente nervosa com a ideia de mexer em qualquer coisa. Por um instante, o silêncio e a imobilidade pareceram tranquilos. Então arrepios subiram pela minha pele quando, de repente, senti que estava sendo observada.

Mas o quarto estava vazio, eu disse a mim mesma, mesmo sentindo um frio percorrer minha coluna. Tive um calafrio e pulei da cama, voltando para o meu quarto. Não importa o que eu dissesse a mim mesma, eu não conseguia afastar a sensação de que algo estava me observando.

Acordei na manhã seguinte com os gritos da minha mãe e os passos apressados do meu pai subindo a escada.

Minha irmã tinha voltado.

Três semanas, seis dias e dezoito horas depois da última vez em que tínhamos visto a Sam, a mamãe tinha ido até a porta do quarto dela, em seu ritual diário, para ver Sam dormindo na cama como se nunca tivesse saído.

Sam não tinha nenhuma lembrança do mês em que esteve fora. Para ela, era realmente como se tivesse adormecido naquela noite fatídica e acordado com os gritos e o choro da mamãe, com os palavrões e berros do papai, comigo parada, imóvel na porta, incapaz de me mexer ou falar, diante da visão de Sam, da minha Sam.

A polícia ficou perplexa — eles tinham tão pouca ideia quanto o resto de nós. Os médicos garantiram que Sam estava perfeitamente saudável e não fazia ideia da própria perda de memória. Os terapeutas e psicólogos também não. Nossos pais ficaram felizes em seguir em frente, felizes em aceitar que a filha desaparecida tinha voltado. E eu também fiquei, no começo.

A percepção de que algo estava errado aconteceu devagar, como uma marcha aos trancos até algum tipo de entendimento torto.

Quem quer que — ou o que quer que — tivesse voltado não era minha irmã, não era Sam.

No início, achei que o arrepio na nuca era apenas a estranha sensação de estar sendo observada da qual eu não conseguia me livrar. Depois percebi que havia algo errado com Sam. Claro, ela ria e sorria, provocava e brincava como sempre, era delicadamente paciente com a preocupação do papai e com as perguntas da mamãe.

Mas quando ela — aquilo — achava que ninguém estava olhando, o sorriso escorregava do rosto, a testa se alisava, os olhos ficavam vidrados. Era como se tudo o que estivesse ali fosse uma casca vazia, sem vida quando ninguém estava observando.

Isso acontecia repetidamente, e toda vez, depois de alguns momentos, aquilo parecia perceber que eu estava ali vendo, e ela voltava à vida, com um sorriso fácil retornando ao rosto enquanto perguntava das fofocas dos nossos colegas ou citava uma piada antiga e compartilhada para tentar me fazer rir.

Seja lá o que fosse, tinha as memórias da minha irmã; não importava o que eu perguntasse ou sugerisse, aquilo entendia e respondia. Sabia como a Sam quebrou o pulso há seis anos, o nome do nosso cachorro de infância que morreu quando tínhamos oito anos, os segredos que eu sussurrava para ela e os que ela sussurrava de volta quando uma de nós, de vez em quando, entrava na ponta dos pés no quarto da outra tarde da noite e se encolhia numa cama de solteiro pequena demais, com os joelhos se batendo.

Tentei pegá-la em contradição, inventei amigos falsos ou histórias inventadas. Ela sempre descobria; franzia a testa e me corrigia, ou ria e entrava na brincadeira, deixando a história ainda mais absurda, com uma piscadinha e um sorriso.

Depois, percebi que Sam não comia mais. Antes ela já não comia muito, mas agora parecia que nem um único pedaço de comida passava pelos seus lábios. Ela empurrava a comida pelo prato, cortava tudo em pedaços para parecer que estava comendo enquanto elogiava a comida do papai e puxava uma conversa animada com a mamãe para distraí-la, e depois se oferecia para limpar tudo com alegria, para se livrar das provas.

Comprei o bolo favorito dela e a surpreendi com ele na frente dos nossos pais. Insisti para que ela comesse a primeira fatia, entregando a ela com um sorriso inocente. Ela agradeceu, mas recusou, dizendo que estava muito cheia. Quando insisti, lembrando que ela nunca tinha recusado bolo antes, o rosto dela foi tomado por uma fúria assustadora por um instante, e seus olhos castanhos pareceram ficar pretos. Pisquei e aquilo já tinha sumido, mas o mal-estar ficou comigo.

Ela aceitou com certa graça, mas vi o breve nojo quando deu a primeira mordida. Assim que pôde, fugiu para o banheiro, e eu fui atrás. Pude ouvir o som de ânsia de vômito e murmúrios irritados.

Ontem, finalmente percebi que o maxilar dela estava um pouco mais afiado do que antes. Seus olhos eram menos redondos. Parecia comigo. Lembrei da sensação de estar sendo observada no quarto dela na noite anterior àquilo aparecer em seu lugar, e senti uma onda de náusea.

Então, à noite, fui até a porta dela em silêncio e espiei pela fresta para vê-la sentada na penteadeira, jogando o cabelo por cima do ombro. Ali, abaixo da orelha esquerda, havia uma pequena pinta.

Meus olhos foram até o espelho e vi o reflexo dela. E vi sua verdadeira forma. Era o meu rosto — o nosso rosto —, mas de um jeito horrivelmente errado.

Os olhos estavam fundos no rosto, com íris e pupila sendo a mesma massa preta e indistinta. O branco dos olhos estava seco, com uma faixa horizontal amarelada e acastanhada atravessando cada um deles. A pele era esbranquiçada e acinzentada, com manchas de cor como hematomas. Os lábios estavam puxados para trás, revelando os dentes.

Fiquei paralisada, imóvel na porta, incapaz de me mexer ou falar, entorpecida de terror.

O olhar dela deslizou até mim pelo espelho.

Esperei que ela se virasse e avançasse sobre mim, que me rasgasse com aquelas unhas longas e amareladas, moldadas como garras afiadas.

Não fez isso.

Ela sorriu devagar, os lábios finos e azulados esticados de forma obscena sobre gengivas cheias de buracos e depressões. Emitiu um som como se estivesse cantarolando, um som que me fez pensar em unha arranhando lousa e dentes de garfo raspando num prato. Virei-me e fugi para o meu quarto, e ela não me seguiu.

Revirei a internet, procurando sites e blogs que falam de demônios e possessões, de espíritos malignos que habitam um corpo, mas nada parecia combinar com a minha situação.

Então vim para cá, para ver se consigo encontrar alguma resposta sobre no que minha irmã se transformou, ou o que tomou o lugar dela.

Desde então, não confrontei aquilo de novo, o cadáver em decomposição fingindo ser minha irmã com o meu rosto. Não tive coragem.

Golems não são brincadeira

Antes, ele nos obedecia, se curvava à nossa vontade. Trabalhamos duro, de forma ritualística, para encher seu barro com nossos mártires locais. Isso, sim, é superioridade. Me mostra qualquer outra cultura que consiga pôr um homem de volta na terra e mandar ele agir. Você não consegue.

Nós conseguimos.

Nós não somos maus. Isso é papo liberal de merda. Só queríamos garantir empregos para o nosso condado. E que se dane se a câmara acha que pode impedir o fracking de sair da cidade. Homem precisa de trabalho, e, se vocês não vão deixar a gente minerar carvão, pelo menos deixem a gente trabalhar em algum lugar. Fechem as minas, as fábricas, os shoppings, a faculdade. O que é que os homens vão fazer? A gente não queria isso.

Bom, a gente fez alguma coisa. Um monte de nós. Por aqui, sempre foi assim. A Klan tomou as rédeas em 1924, por causa da Lei Seca, e agora estamos fazendo de novo. Alguém tem que acabar com o perigo por aqui. Alguém tem que tornar tudo seguro outra vez. Alguém tem que construir um mundo para os nossos filhos.

Não nos chamam de feiticeiros à toa. Queime cruz suficiente, leia livro suficiente, fale com Deus o bastante, e, mais cedo ou mais tarde, você aprende a fazer alguns milagres. Foi isso que Grant fez por nós. É só assim que eu o conheço, e nem sei se esse era o nome dele, o primeiro ou o último. A gente só se via por baixo do capuz, só olhos sem rosto, mas dava para ver pelas mãos gastas e enrugadas que ele era velho.

Muito velho. Tipo, uma geração a mais do que os homens que salvaram nossa cidade cem anos atrás. O pai dele talvez tivesse lutado naquela cruzada. Ele esteve na Klan a vida inteira, o que é admirável. É por isso que ele é o grão-ciclops. É também o homem que trouxe Deus de volta para a minha vida.

Isso pode soar piegas, mas é verdade. Quando você vê um homem ressuscitar os mortos, começa a acreditar no Deus dele muito rápido.

Foi fascinante. As línguas que ele conhecia, os textos que citava. Não é à toa que ele é o Grão-Ciclops. Livros pareciam jorrar da boca dele enquanto ele comandava os ventos.

Queria ser inteligente o bastante para citar alguma coisa aqui, mas o hebraico sempre soou para mim como um monte de “shalalá” e improviso. Não vou pedir desculpa se isso for racista. Eu vi a verdade, e estou em paz com a minha cultura, com a minha tribo. Vocês não são nada perto de nós; temos o poder de condenar o mundo.

Ouvi falar dos serviços pela primeira vez quando eu estava no fundo do poço. Afundando garrafas no único boteco de quinta da cidade. Um homem veio falar comigo, mais ou menos da minha idade. Disse que havia um lugar para gente como nós, homens descartados, masculinos demais num mundo feminino.

Desde o primeiro instante em que ouvi Grant falar, soube que ele era um profeta.

“Eu olho para vocês todos e meu coração se parte. Tantos jovens sem onde ser homens. Sem dinheiro para levar para casa, para suas esposas ou filhos. Sem mulheres para casar! Elas nem querem mais ser mulheres!”

Os ventos se ergueram, roçando o topo do milho e da grama inútil, dando vida a um coro de juncos.

“Deus diz basta. A árvore da vida está quebrada, e nós vamos consertá-la, um galho de cada vez.”

Ele se curvou até a terra e vomitou palavras primitivas e profundas que nos fizeram cair de joelhos. Não reconheci nenhuma delas, mas reconheci quando ele trocou o latim pelo grego e depois pelo hebraico. Esse homem fez a lição de casa.

A cruz se acendeu sozinha. O céu noturno, o firmamento, ficou completamente preto, como se uma cortina tivesse caído. O cadáver que eu não tinha notado antes se arrastou para fora da cruz, tomado pelo fogo, e saiu disparado pelo campo. Um estado entre a vida e a morte, deixando só cinzas no rastro.

O incêndio saiu no noticiário no dia seguinte, mas nada sobre um corpo. Acho que a maioria de nós pensou em ir embora da cidade, largar a própria vida, encontrar religião. Mas todos nós voltamos na semana seguinte. Na verdade, havia ainda mais gente. Tantos picos brancos naquela noite vazia.

Grant estava sempre vestido em roxos ricos, quase sacerdotais. Coragem repousava sobre os ombros dele. Pureza. Confiamos a esse homem tudo. Ele nos mostrou a verdade. Uma fera. Um golem.

Estávamos de joelhos, moldando um homem de barro de três metros e meio à luz tremulante da nossa cruz. Nossas vestes estavam pesadas e duras de tanta terra. Os grilos começaram a se calar, e o cheiro de cabelo queimado ficou cada vez mais forte.

As mãos do homem em chamas cortaram a grama enquanto ele a apartava, entrando no nosso clareiro de sempre. Ele se ajoelhou na altura da virilha da figura de barro e se encolheu como um bebê. Minha mente ficou afiada e distorcida, meus olhos lacrimejaram e minhas gengivas arderam de medo. Os acontecimentos seguintes são um borrão, mas vou tentar descrevê-los.

Todos os nervos de um corpo, desfeitos e incendiados pelo fervor religioso, rastejando para dentro do sistema circulatório de um homem de barro. Eu senti aquilo, eu também estava dentro. Um pedaço de todos nós gravado na simples escrita na testa da fera. Quando meus sentidos começaram a voltar do retrocesso, vi Grant enfiando um bilhetezinho dobrado na boca dele.

Deixamos aquilo para a noite, e ele agiu imediatamente. Na manhã seguinte, um dos conselheiros estava morto, e logo seria substituído por um dos nossos. A entidade não estava lá quando nos reunimos na semana seguinte. Só pegadas chamuscadas e um círculo carbonizado, como se um barril de queima tivesse sido arrastado dali.

Nosso enigma de barro executou nossa vontade por cerca de um mês antes de tudo azedar. A gente resolveu boa parte dos problemas que afligiam a cidade, substituindo aquelas pessoas horríveis que estavam deixando comida longe das nossas casas. Mas precisava parar. Alguém ia sacar toda a sequência de assassinatos. As portas da frente destruídas. As pegadas da força imparável que estava salvando nossa cidade.

Mas isso não vai parar. Não parou. Nem vai parar até arrancarmos esse papel da boca fria e sem vida dele. Nem até alterarmos a escrita na testa dele. Ele ainda está em fúria. E está ótimo. Nem precisamos enforcar mais nenhum ilegals ou da nossa própria terra; ele faz isso por nós. Quando o FBI vem à cidade, ele amassa os carros e entorta os rifles ao meio. Um Super-Homem de verdade. Isso tem que acabar em algum momento.

Infelizmente, ele só aparece para aqueles que vai matar, imediatamente antes de matá-los. Nenhum de nós consegue descobrir para onde ele vai quando termina o serviço, nem quando vai agir de novo. Ele já matou alguns de nós até agora, mas o número só aumenta. Outro dia ele saiu da cidade para matar o xerife. Vai continuar matando os que se opõem a nós até o mundo ficar vazio. A violência se perpetua sozinha, eu acho.

Ele matou Grant na semana passada. Então, agora eu nem sei mais o que podemos fazer a respeito. Ele o ergueu, drenou a vida dele bem diante de nós, na luz ardente da nossa própria cruz. Tentamos invocá-lo, domá-lo. Mas ele não quer ser domado. Se você for alto o bastante para alcançar a testa dele, já pode se considerar sortudo se conseguir passar só um borrão antes que ele quebre seu antebraço em dois, talvez três pedaços. A lama é surpreendentemente firme e inflexível. Ele é forte o suficiente para estourar a cabeça de um homem como se fosse uma melancia. Confie em mim, eu vi isso.

É como a singularidade. A IA que meio que sente quando você está prestes a desativá-la, e luta com todas as forças para não ser desativada. Não sobra milagre nenhum que possa impedir isso.

Deus nos ajude.

Na semana passada, fui ver estrelas pela primeira vez, e isso mudou minha vida para sempre

Então, semana passada, fui ver as estrelas pela primeira vez. Nunca dei muita importância para estrelas nem para o espaço, mas meu amigo me convenceu a tentar, dizendo que isso podia “mudar sua perspectiva sobre a vida”. Achei que ele estivesse falando besteira, mas depois que me mostrou algumas fotos que tinha tirado, decidi finalmente topar. Pensei que poderia ser divertido e talvez eu ainda conseguisse tirar umas fotos boas também.

Como meu amigo já tinha feito isso antes, ele já tinha praticamente todo o equipamento de que precisávamos. Faltavam só algumas coisas, e eu levei porque queria ajudar.

Foi então que meu amigo me falou de um lugar que ele sempre quis visitar. Disse que era popular entre outros “observadores de estrelas”, porque, aparentemente, existe um ponto dali que oferece uma visão do céu noturno realmente incrível, diferente de tudo o que você encontra em outro lugar.

No caminho, perguntei ao meu amigo de onde vinha esse interesse por observação de estrelas. Eu era amigo dele há praticamente a vida inteira e, pelo que eu sabia, ele não parecia o tipo de pessoa que gostaria de ficar encarando o céu por horas a fio; talvez olhando pela janela durante a aula, mas não para observar algo com significado. Ele sorriu e me disse que era um hobby “especial”, algo que significa pouco para a maioria e muito para alguns; devo mencionar que ele não disse “alguns”, ele disse “as pessoas certas”. Não sei o que era, mas a forma como ele falou aquilo me pareceu muito estranha.

A viagem deve ter levado umas 1 ou 2 horas. Para ser sincero, meu amigo nunca chegou a me dizer para onde exatamente estávamos indo, mas eu confiei nele. Só que, ao ver o lugar, minha confiança começou a vacilar.

O local estava abandonado. Éramos os únicos lá, mas parecia que nem a vida selvagem estava por perto. Expressei minha preocupação ao meu amigo, e ele só disse:

“Você não pode ter medo de ascender. Muito poucos conseguem.”

Não sei se ele estava tentando me acalmar ou algo assim, mas, se era isso, falhou.

Pegamos todo o equipamento e começamos a subir a montanha. Para ser justo, a caminhada foi bem agradável; não era muito íngreme, mas sim uma subida gradual. Para falar a verdade, parecia até que a montanha estava nos guiando aos poucos para cima. Embora a caminhada tenha sido boa e tenha ajudado a me deixar um pouco mais tranquilo, eu não conseguia ignorar o quanto aquele lugar era silencioso e parado. A única coisa que eu conseguia ouvir era o vento, e mesmo ele estava estranhamente calmo para uma montanha; de alguma forma, quanto mais subíamos, mais calmo ficava o vento.

Sinceramente, perdi noção de quanto tempo passou. Não conseguiria dizer quanto tempo levamos para subir a montanha. No caminho, meu amigo e eu não conversamos muito; ele não falava e, enquanto caminhávamos, continuava ficando cada vez mais longe de mim, o que tornava difícil manter uma conversa com ele.

Quando o sol começou a se pôr, decidimos encerrar o dia e começar a armar a barraca para passar a noite. Estávamos mais ou menos na metade da montanha e conseguiríamos terminar a trilha no dia seguinte.

Quando terminamos de montar tudo, jantamos e conversamos sobre a vida. Por um momento, pareceu aqueles velhos tempos, só nós dois contando piadas e fazendo bobagem. Depois de um tempo, criei coragem para fazer uma pergunta que estava na minha cabeça havia bastante tempo, mas que, por algum motivo, eu não conseguia fazer. Perguntei o que tinha levado ele à escalada.

Ele me disse que foi um velho amigo que conheceu na faculdade que o apresentou a isso. Os dois entraram para uma sociedade na universidade e, desde então, ele ficou obcecado por observação de estrelas. Ele também mencionou que, depois que a faculdade acabou, ele e esse amigo “se afastaram” e que não o vê mais. Havia algo estranho na forma como ele falava desse amigo; ele fez parecer que ia vê-lo de novo muito em breve. Naturalmente, perguntei se ele tinha planos de reencontrá-lo e colocar o papo em dia ou algo assim, mas ele simplesmente me ignorou.

Nas horas seguintes, passei o tempo olhando o mapa e planejando a rota com meu amigo.

Enquanto eu estudava o mapa, vi ele pegar a garrafa e servir uma bebida para si. A tal bebida era um líquido vermelho-escuro que parecia quase vinho. Por um segundo, fiquei apenas olhando. Olhei tempo suficiente para vê-lo dar um gole antes de perguntar o que ele estava bebendo.

Ele tomou um longo gole da garrafa antes de responder. Explicou que era uma bebida boa para a cabeça enquanto se está escalando. Quando perguntei se eu podia provar, ele ficou um pouco na defensiva e disse que eu não ia gostar.

Um pouco depois, ele foi dormir.

Meu amigo foi o primeiro a pegar no sono, mas eu não consegui dormir. Tinha tanta coisa passando pela minha cabeça que eu nem sabia por onde começar. “Onde estamos?”, pensei. “Por que está tão silencioso?” “O que torna esse lugar tão especial?”. Eu sentia que não entendia aquele lugar, que estava faltando muita informação.

Tentei afastar muitos desses pensamentos. “É minha primeira vez vendo estrelas”, pensei. “Tenho certeza de que, no fim, tudo vai fazer sentido.”

Olhei para o meu amigo; ele estava profundamente dormindo. Ao lado dele estava a mochila, e a garrafa dele estava aparecendo para fora. Pensei que só um gole rápido me ajudaria a dormir. Só um pouco não ia fazer mal, com certeza.

Então me inclinei, peguei a garrafa dele e despejei um pouco do líquido vermelho na minha caneca. O cheiro do líquido era muito peculiar; parecia o cheiro de cada erva e especiaria misturados, criando uma união de sabores que tinha o potencial de iluminar qualquer língua que tivesse o prazer de tocá-lo.

E o sabor... tinha gosto de pura felicidade. A bebida era mais suave do que qualquer coisa que eu já tinha provado e mais doce do que um bilhão de barras de chocolate.

Passei o resto daquela noite pensando em anjos, em como são lindos e em como seria incrível ver um pessoalmente. Eu tinha uma imagem vívida de um na minha cabeça, e isso me manteve acordado a noite toda.

Na manhã seguinte, continuamos a subida. Eu conseguia ver quase o topo. Havia uma área ampla e plana, onde eu imaginava que montaríamos nossas barracas.

Perguntei algo ao meu amigo; na verdade, nem lembro o quê, mas ele simplesmente me ignorou. Lembro de repetir a pergunta, e de novo não obtive resposta.

Acho que ele estava falando sozinho baixinho, não consegui entender as palavras, então apenas supus que estava exausto por causa da trilha.

Acho que chegamos ao topo por volta das... 6?

Quando chegamos lá, armamos a barraca e tudo o mais, e depois ficamos sentados esperando anoitecer.

Nesse ponto, meu amigo começou a falar de novo. Não dissemos nada importante, só ficamos passando o tempo.

Enquanto ele ria, precisou começar a limpar a boca porque estava... babando.

Achei estranho, então só ri dele. Ele não pareceu se importar.

Quando escureceu o suficiente, finalmente conseguimos ver as estrelas, e preciso dizer: elas eram lindas.

Uma coisa é ver fotos de estrelas, mas vê-las pessoalmente, lá no alto, é um nível completamente diferente de maravilha.

E, enquanto estávamos observando as estrelas, algo incrível aconteceu... eu vi um anjo.

E era a coisa mais linda que eu já tinha visto.

Ele desceu até nós vindo das estrelas acima, sustentado pelas asas. Tinha asas tão grandes quanto mil arranha-céus, com trilhões e trilhões de escamas brilhantes de uma cor que eu nem sei como descrever.

Seus olhos eram duas enormes pedras pretas que reluziam ao luar, e seu olhar estava totalmente fixo em nós...

O anjo falou conosco com uma voz tão linda que meus ouvidos choraram; até agora, aquela voz elegante continua gravada no meu tímpano.

E, enquanto estávamos sob o olhar do anjo, um apêndice fino e comprido surgiu do peito dele e ergueu meu amigo do chão.

Ele começou a gritar — de alegria, obviamente, quem não gritaria?

E, à medida que se aproximava, o anjo abriu um caminho para o meu amigo seguir. Uma caverna onde ele certamente encontraria um paraíso para passar toda a eternidade. O buraco era escuro, com uma escuridão tão negra que parecia devorar toda a luz. Também parecia profundo, mais fundo do que a Fossa das Marianas.

Quando meu amigo terminou sua jornada, o anjo liberou um líquido vermelho e espesso pela boca. É difícil de descrever, mas o líquido não desceu em linha reta; em vez disso, voou direto para a montanha, seguindo na diagonal até cair na montanha à minha frente.

Imediatamente, esvaziei minha garrafa e meu pote plástico para enchê-los com aquele líquido (de qualquer forma eu não tinha comido nada desde a primeira vez que bebi aquilo).

E então, assim como veio, o anjo foi embora. Mas eu sabia que ele voltaria.

Na manhã seguinte, arrumei minhas coisas e desci da montanha.

Foi uma viagem agradável. Sou grato ao meu amigo por ter me levado para ver estrelas, porque não é algo que eu teria feito sem ele. Mas não se enganem: com certeza é algo que farei de novo.

Tenho tentado encontrar outra pessoa para levar até aquele lugar, porque ele é especial de um jeito difícil de explicar. Mas eu vou encontrar alguém e, um dia, vou ver meu amigo de novo.

Desde aquele dia, tenho pensado no anjo e em como gostaria de vê-lo outra vez. Em como espero que, um dia, sejamos reunidos para que ele possa me levar até aquele lugar sem fim...

Esse pensamento me mantém acordado à noite, sorrindo sozinho.
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