Fui visitar meu irmão mais velho, que morava numa casinha do outro lado da cidade. Fui com o J.
Agora, embora o J não fosse uma pessoa de verdade, ele era a única motocicleta que eu já tive. Viajar com o J era como viajar com um melhor amigo, e tudo o que a gente tinha vivido junto me deixou mais próximo dele do que qualquer pessoa que eu já tivesse conhecido. O J foi um presente do meu irmão no meu aniversário do ano anterior. Na época, eu achei que ele ficaria feliz se eu aparecesse para visitá-lo com a moto. E eu estava certo.
Fiquei com ele e com a esposa dele por algumas horas, rindo e conversando sobre os velhos tempos. Acabei perdendo a noção do tempo, mas assim que percebi o sol começando a se pôr, disse que já estava na hora de eu voltar para casa.
“Tem certeza de que não quer dormir aqui?” ele disse, segurando meu ombro enquanto me acompanhava até a porta.
“Queria poder, mano, mas preciso levar meu cachorro para passear. A última coisa que eu quero é o coitado fazendo xixi no chão todo. Ele foi resgatado, então ainda estou tentando acertar uma rotina direitinho com ele.”
Nos despedimos ao som de uma sinfonia de cigarras e grilos cantando ao fundo. Eu fui embora justamente quando o sol sumiu atrás do horizonte.
Eu tinha duas opções para voltar para casa: uma estrada mais curta e movimentada, ou uma estrada vicinal mais longa que eu evitava a qualquer custo. Os rumores e histórias de terror da região quase sempre envolviam essa estrada. Decidi fazer o que eu sempre fazia e pegar a estrada mais curta. Eu sabia que talvez houvesse um pouco mais de trânsito do que na estrada longa, mesmo já estando tarde, mas achei que ainda assim chegaria em casa mais rápido.
Antes mesmo de chegar perto da estrada, já dava para ouvir gente buzinando. As buzinas me disseram que havia um engarrafamento, mas só quando alcancei a via foi que vi que a fila se estendia por quilômetros. Xinguei baixinho e meu coração começou a bater mais rápido enquanto eu pensava se valia a pena dar meia-volta e pegar a estrada longa e vazia.
Pensando no meu cachorro, virei e segui para a outra estrada.
Lembrei de já ter ouvido histórias de assassinatos brutais e desaparecimentos estranhos acontecendo ao longo daquela estrada longa. Apesar de sempre ter acreditado que essas histórias eram uma mentira, uma lenda que a maioria das cidades e vilarejos por perto tinha aceitado por tempo demais, uma nuvem preta de dúvida se formou no meu peito.
Quando cheguei à estrada vicinal, já estava escuro. Segui com cautela. Havia poucos postes de luz de vez em quando, e a estrada fazia muitas curvas e contornos. Uma fileira de chorões formava uma espécie de perímetro logo além do acostamento, e feixes de luar atravessavam os galhos e as folhas.
Quase na metade do caminho, minha moto começou a fazer um som de engasgo e o motor morreu. Encostei devagar no canto da estrada para ver o que estava acontecendo.
Olhei para os dois lados. Não havia ninguém por perto. Dei uma olhada no J para ver se o problema era algo que eu mesmo pudesse consertar. Infelizmente não era, então liguei para meu irmão. No começo ele disse que já era tarde demais para vir até mim, mas depois de um minuto ou dois de insistência, falou que eu podia esperar ele em cerca de uma hora.
Pensei em jogar alguma coisa no celular enquanto esperava, mas estava com pouca internet no mês, então resolvi só ficar olhando ao redor. Insetos zunindo na mata próxima criavam uma barulheira constante, e de vez em quando um vaga-lume brilhava. De tempos em tempos eu conferia a estrada, mas nenhum outro carro passava. Apesar de já ser um pouco tarde, ainda me parecia estranho a estrada estar completamente vazia. Uma lua cheia pairava no alto, e, ao ver como ela estava brilhante, percebi que não havia nenhum poste de luz naquela área.
Os minutos foram passando, mas pareciam horas. Peguei o celular e comecei a entrar em pânico. A tela tinha escurecido, o aviso de bateria fraca apareceu, e de repente tudo naquela situação parecia errado demais, como se eu estivesse vivendo uma cena de um dos filmes Premonição.
Para economizar o pouco de bateria que restava, baixei o brilho da tela até o mínimo e coloquei o celular para dormir no bolso. Sozinho naquela estrada escura e vazia, um sentimento profundo de solidão caiu sobre mim como uma névoa grossa. O zumbido dos insetos ficou mais alto até virar um apito nos meus ouvidos.
“Hehehe.” A risadinha veio nítida, cristalina, e eu me virei num pulo. O som vinha de um arbusto ali perto. A risadinha continuou e o som de uma criança correndo se juntou a ela. Os galhos se mexeram um pouco, mas ninguém apareceu.
Mesmo parecendo a risada de uma criança, e sem nenhum sinal óbvio de perigo ou hostilidade, havia algo naquele riso que me deixou inquieto.
Recuei devagar, mas decidi chamar. Peguei meu capacete da moto e o ergui numa postura defensiva enquanto falava. “Oi?”
A risada parou na hora, assim como o som de todos os insetos na mata, mas uma rajada forte de vento atravessou as árvores.
Então tudo ficou em silêncio por pelo menos dois minutos. Eu continuava assustado, então arrisquei gastar o restinho de bateria do celular tentando ver se meu irmão estava perto. Mas o celular não conectava de jeito nenhum, e percebi que eu não tinha mais sinal.
Passos sobre folhas secas tiraram minha atenção do telefone, mas dessa vez não havia risada.
Enquanto eu tentava entender o que estava acontecendo, uma voz de criança falou de dentro dos arbustos. “Oi, me ajuda.”
Fiquei petrificado, sem conseguir me mexer nem responder.
“Me ajuda”, veio de novo. “Estou perdido.”
Foi então que me lembrei das histórias aterrorizantes e das lendas sobre aquela estrada, e dos relatos de pessoas que viram coisas das quais nunca se recuperaram.
O que uma criança estaria fazendo nos arbustos a essa hora da noite, pensei, tentando me convencer de que eu não estava com medo e de que a situação era completamente normal.
Um calafrio subiu pela minha espinha. Ainda não via sinal do meu irmão nem de qualquer outro carro, em nenhuma direção. Quando estava prestes a decidir qual seria meu próximo passo, a voz da criança apareceu outra vez. “O senhor pode me ajudar?”
“Quem é você?” consegui dizer, percebendo de repente que estava tremendo.
“Meu nome é Chuck”, disse o menino.
Meu medo de repente virou uma espécie de agressividade. “Olha, seja lá quem for você, isso não tem graça. Quero que você saia daí e...”
Alguns segundos depois, Chuck saiu de dentro do mato. Ele tinha a altura típica de uma criança de seis anos. Ainda abalado com a situação, fiquei olhando para ele enquanto ele parava ao lado da estrada, de cabeça baixa. A pequena figura silenciosa estava sem camisa, descalça, usando apenas um short escuro. Os alarmes continuavam disparando na minha cabeça. Estava frio, e não havia motivo nenhum para uma criança estar do lado de fora sem roupa. E o fato de ele ainda não ter levantado a cabeça fazia meu coração bater mais rápido.
A luz da lua revelou uma pele estranhamente pálida, quase acinzentada, sugerindo que ele talvez estivesse no frio havia muito tempo.
Então ele levantou a cabeça para me olhar, e eu recuei em horror. Eu esperava ver lágrimas no rosto de um menino, mas, em vez disso, enfiado na pequena estrutura de uma cabeça de criança, havia uma careta de homem idoso. Ao perceber meu terror, ele abaixou os olhos e um sorriso torto aprofundou ainda mais as rugas do rosto.
Gritei, deixei cair o celular e o capacete, e corri o mais rápido que minhas pernas aguentavam, deixando a moto para trás. Enquanto corria, achei que ouvi aquela risada assustadora e infantil atrás de mim.
Não corri por muito tempo até que uma luz forte me iluminou. Olhei por cima do ombro enquanto corria e vi de relance a minha sombra. Pela visão lateral, também vi uma sombra menor atrás da minha própria sombra, se movendo na mesma velocidade que eu. Parei de correr na hora, gritando palavras que não consigo lembrar. Olhei de volta para a direção da luz e só então ouvi o ronco de um motor, percebendo que era outro motociclista.
“Graças a Deus”, murmurei, enquanto ficava no meio da estrada, acenando para o piloto que vinha em alta velocidade na minha direção. A moto diminuiu a velocidade e eu olhei ao redor para ter certeza de que nenhuma figura sombria estava por perto. Corri até o motociclista para explicar a situação.
“Oh, obrigado, por favor, eu posso—” Minhas palavras travaram e meu coração pareceu pular uma batida. Na moto estava Chuck, com aquele sorriso macabro se espalhando de novo pelo rosto.
Um demônio, um fantasma, um alienígena — eu não fazia ideia do que era aquela figura humanoide. Ela tinha o rosto de um homem idoso, o corpo de uma criança e os olhos brilhavam com a mesma luz do farol.
“Precisa de carona?” disse ele. Só que não com voz de criança. Agora ele falava com uma voz grossa, de homem.
Gritei pela que parecia ser a centésima vez naquela noite e corri de volta na direção do J. Enquanto corria, notei que a moto não se mexia, então imaginei que a figura tinha saído dela e estava me perseguindo de novo. Corri ainda mais rápido.
Ao longe, eu conseguia ver a luz fraca do meu celular no chão.
Antes que eu chegasse até ele, senti os faróis me iluminando de novo. Eu estava exausto, mas ainda assim corri até a minha moto e tentei ligá-la, torcendo por um milagre. Não funcionou, e eu gritei. Ainda estava gritando quando ouvi uma voz.
“O que diabos está acontecendo?” disse a voz.
Era meu irmão. Ele desceu da caminhonete com uma expressão de confusão estampada no rosto. Corri até ele, ofegante.
“Precisamos ir!” eu disse, puxando-o até o carro.
“O quê? E a sua moto?” ele tentou dizer, apontando para o J parado ao lado da estrada.
“Temos que ir agora!” gritei de novo, quase chorando.
Ele ficou assustado, mas entrou na caminhonete, e nós saímos dali.
“O que foi? Que diabos está acontecendo? Você estava fugindo de alguém?” perguntou ele, com expressão preocupada.
Meus olhos marejados ainda estavam atentos. De vez em quando eu olhava para frente para ver se enxergava o Chuck ou a moto dele.
Meu irmão chamou meu nome e me trouxe de volta ao presente. “Você pode me contar o que aconteceu?”
Depois de alguns minutos, quando tive certeza de que já estávamos a quilômetros dali, contei a história toda para ele. Ele ficou perturbado, mas uma coisa que não fazia sentido era o fato de ele ter dito que não viu ninguém enquanto vinha na minha direção.
Ele tinha que ter visto a moto com aquela figura estranha, pensei. Aquilo não podia simplesmente ter desaparecido. Ou podia?
Ele me deixou em casa depois que eu disse que não queria ir à polícia naquela noite. Dei comida para meu cachorro, deixei ele correr um pouco do lado de fora e chorei como um menino o tempo todo.
Depois que meu cachorro foi alimentado e passeado, e depois que eu comi um pouco, me sentei no sofá e fiquei pensando nos acontecimentos da noite. Um leve toque foi ouvido em uma das janelas da frente da casa. Meus nervos foram direto para o teto.
Escutei enquanto meu coração começava a bater mais rápido. Meu cachorro me fez dar um pulo quando começou a latir. Eu sabia que havia problema. Abracei a mim mesmo e torci para que fosse um ladrão ou um vândalo. Qualquer um, menos o Chuck.
Quando não houve mais barulho por alguns minutos, corri para verificar todas as janelas. Quando não vi sinal de arrombamento, fiquei aliviado. Talvez fosse coisa da minha cabeça. Quando eu ia voltando para o meu quarto, congelei ao ouvir aquela risada horrível de criança.
Demorei um pouco para entender de onde vinha, mas logo percebi que vinha da porta da frente. Minha respiração ficou irregular, meu coração acelerou e minhas mãos começaram a suar.
Peguei um taco de beisebol no armário perto dali e fui até a porta. Abri devagar, com o taco erguido, e olhei ao redor. Não havia nada ali. Meu cachorro saiu ainda latindo para algo que eu não conseguia ver. Ela estava assustada e assanhada, mas não tão assustada e assanhada quanto eu.
Engoli seco e recueI para dentro de casa quando meus olhos o viram. O J estava estacionado bem na esquina da minha casa. Fiquei olhando para ele em silêncio por alguns segundos, depois bati a porta, fui até o telefone e disquei para a polícia.
Eu não moro mais lá, e já não tenho mais o J. Foi, de longe, a coisa mais apavorante que já aconteceu comigo.

