Hoje em dia, pesquisas mostram que há pouca relação entre videogames e comportamento violento. No passado, porém, a ideia de que “videogames causam violência” era bastante comum entre os pais. A principal razão para esse mito era a falta de controle na época, que permitia que jogos com conteúdo extremamente perturbador e narrativas homicidas, como a série Manhunt e os jogos Lucius, circulassem livremente.
Atualmente, por conta de mudanças culturais e de uma censura mais rígida sobre conteúdos de entretenimento, esse gênero de jogos extremamente violentos praticamente desapareceu. A maioria das pessoas não sente falta disso, mas alguns fãs mais dedicados — eu incluso — ainda sentem saudade de experimentar aquela brutalidade crua e sem filtros mais uma vez. Os poucos lançamentos recentes não atenderam às minhas expectativas e, claro, eu poderia simplesmente rejogar Manhunt 2, mas sejamos sinceros: até a execução mais criativa perde a graça depois de ver a mesma coisa pela milionésima vez.
Por esses motivos, fiquei empolgado demais quando descobri um jogo de PlayStation 2 totalmente desconhecido chamado “Simulador de Assassino Psicopata”. Encontrei o jogo em uma venda de garagem, a apenas duas quadras do meu apartamento. O antigo dono era um homem asiático-americano na casa dos quarenta anos, que estava se mudando para outra cidade. Ele me disse que o jogo era exclusivo do Japão e havia sido banido internacionalmente por ser violento demais, então ninguém nos Estados Unidos sequer tinha ouvido falar dele.
Eu fiquei com o pé atrás, claro. O nome parecia aquelas tentativas modernas de chamar atenção que infestam a Steam hoje em dia, e eu não conseguia ler nada da capa. Ainda assim, o cara insistia que era “a experiência definitiva de terror gore” e, como o jogo estava extremamente barato, acabei comprando.
Naquela mesma noite, corri de volta para casa, abri um emulador no meu computador e comecei a jogar imediatamente. O jogo inteiro estava em japonês, mas o vendedor já tinha me explicado os comandos básicos, então não tive muita dificuldade. O jogo era curto, com apenas cinco fases, e a jogabilidade era relativamente simples. Em cada fase, eu controlava um maníaco que precisava descobrir como matar seus alvos em um ambiente aberto. Para ser justo, parecia mais um jogo de quebra-cabeça do que de ação, mas a criatividade e a brutalidade de cada execução eram impressionantes para alguém fã de filmes de assassino em série, como eu.
Na primeira fase, o maníaco perseguia uma funcionária de escritório solitária. Ele descobria seu perfume favorito, sua comida preferida e sua flor favorita; depois, passava-se por um pretendente apaixonado, convidando-a para jantar e drogando sua comida. Após o encontro, o assassino levava a mulher desacordada para casa, fazia coisas indescritíveis com ela, depois cortava seu corpo em pedaços e os enterrava no quintal.
Na segunda fase, meu personagem precisava invadir o necrotério de um hospital local, arrancar a cabeça de um cadáver e deixar algum tipo de marca registrada. O único familiar vivo desse morto, seu irmão, ficava, compreensivelmente, furioso. No entanto, o hospital o impedia de chamar a polícia, pois estava envolvido em atividades ilegais com os corpos dos pacientes. Ao provocar o homem com outra marca, o assassino o atraía até sua casa, o emboscava e o decapitava. Em seguida, dissolvia o corpo da vítima, deixando apenas a cabeça guardada no armário como troféu, ao lado da do irmão.
Nesse ponto, comecei a perceber algo estranho. A casa do assassino era praticamente idêntica à casa do antigo dono do jogo, o que deveria ser impossível para um jogo de 25 anos. Concluí que aquele “jogo desconhecido de PlayStation 2” era, na verdade, um produto totalmente novo se passando por antigo. O cara que me vendeu provavelmente era o desenvolvedor. Talvez estivesse tentando divulgar o jogo, criando uma falsa sensação de nostalgia. Talvez fosse parte de algum tipo de jogo de realidade alternativa de terror que eu desconhecia. De qualquer forma, o jogo ainda era interessante o suficiente para eu continuar.
O jogo começou a mostrar sua verdadeira natureza na terceira fase. Dessa vez, os alvos eram um casal viajante. Meu personagem preparava a casa como se fosse uma hospedagem, os drogava às escondidas e fazia coisas indescritíveis com eles antes de matá-los. Nesse ponto, a violência gráfica e a perversidade da história já tinham ultrapassado meu limite. Eu só queria uma violência mais cartunesca, não algo tão perturbador assim. O desenvolvedor era um completo doente por ter criado cenas tão distorcidas. Pensei em apagar o jogo e até destruir o disco. Ainda assim, como diz o ditado, a curiosidade matou o gato — e eu estava morrendo de curiosidade para saber como aquilo terminava.
Eu não esperava que a próxima fase fosse me assustar ainda mais.
O assassino escolhia como alvo um fã de filmes de assassino em série e vendia a ele um cartucho de videogame. Depois de terminar o jogo, a vítima era tomada pela curiosidade e ia voluntariamente até o matadouro do assassino. Diferente das fases anteriores, essa terminava no momento em que o alvo entrava na casa. Tentei iniciar a quinta fase, mas nada carregava — apenas uma caixa de texto em inglês dizendo: “Venha ver por si mesmo!”
Aquilo era algum tipo de piada de mau gosto? Será que aquele cara esperava que eu fosse até a casa dele depois de jogar esse jogo maldito? Talvez fosse tudo apenas um jogo de realidade alternativa, e eu estivesse exagerando. Mas, apesar de gostar de filmes gore, no fundo eu sempre fui um covarde. Recusei-me a correr o risco e fui direto à polícia na manhã seguinte.
O policial riu de mim no começo, mas seu rosto ficou sério quando ouviu minha descrição das vítimas. Elas batiam exatamente com quatro pessoas desaparecidas nos últimos dois anos. Senti como se minha alma tivesse saído do corpo quando soube que a polícia havia investigado a casa e encontrado quatro corpos — exatamente como eu descrevi.
Acontece que o homem que conheci tinha se mudado para lá dois anos antes, usando um nome falso — e era, de fato, o responsável pelos assassinatos.
A polícia confiscou o jogo como prova e, desde então, nunca mais toquei em jogos violentos. Até hoje fico arrepiado só de pensar no que poderia ter acontecido se eu tivesse ido até a casa dele naquela noite.
Pior ainda… na semana passada encontrei um bilhete na minha caixa de correio:
“Eu achei que você fosse um gato, mas não é. Bom jogo!”
Até hoje, aquele desgraçado ainda está solto — e eu não sei se a polícia algum dia vai capturá-lo.
A única coisa que eu sei com certeza…
é que você nunca deve jogar algo chamado “Simulador de Assassino Psicopata”.

