quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Meu Trabalho é Comer Camarão, ou o Que Eu Achava Que Era Camarão

Eu sempre fui um cara de rotina. Acordo às 5:30 da manhã, preparo uma cafeteira de café preto forte o suficiente pra tirar tinta de parede, e saio pro trabalho de merda que paga as contas. Nos últimos seis meses, esse trabalho tem sido na Oceanic Delicacies, um armazém gigantesco nos arredores de Port Haven, uma cidade costeira enevoada no Maine onde o ar sempre cheira a sal e podridão. O trampo? Testador de controle de qualidade de camarão. Isso mesmo, você ouviu direito. Meu trabalho é comer camarão. Ou pelo menos, o que eu achava que era camarão.

Começou tudo de forma bem inocente. Vi o anúncio num site de empregos: “Não precisa de experiência. Salário competitivo. Precisa ter estômago forte e nenhuma alergia a frutos do mar.” Pensei: por que não? Eu tinha sido demitido do meu último emprego numa fábrica de enlatados — alguma coisa sobre automação substituindo mãos humanas — e minha grana estava acabando mais rápido que a maré baixa. A entrevista foi uma piada: uma conversa rápida com uma representante de RH entediada chamada Marlene, que me entregou um formulário e uma caneta. “Assina aqui, e tá dentro”, ela disse, com os olhos vidrados como se tivesse repetido aquela frase mil vezes.

O armazém era imenso, um labirinto de esteiras rolantes, freezers zumbindo e o barulho constante das máquinas. Meu posto ficava numa sala branca e estéril no fundo, isolada do piso principal. Chamavam de “Laboratório de Degustação”, mas parecia mais uma sala de exame clínico — luzes fluorescentes piscando no teto, uma mesa de metal com um banquinho, e um espelho falso na parede que eu jurava que sempre tinha alguém observando do outro lado. Todo dia eu batia o ponto, colocava rede no cabelo e luvas, e esperava as amostras.

O processo era simples: uma fenda na parede abria, e uma bandeja deslizava com dez a quinze camarões, descascados e limpos, às vezes crus, às vezes cozidos com vários temperos. Eu comia um por um, anotando textura, sabor, frescor num tablet digital. Salgado demais? Marcava. Borrachudo? Flagava. Gosto estranho que ficava na boca? Reportava. Depois, a bandeja voltava, e outra aparecia. Oito horas por dia, cinco dias por semana. Era monótono pra caralho, mas o pagamento era 25 dólares por hora, mais benefícios. Em Port Haven, isso era uma fortuna.

No começo, eu adorei. Camarão sempre foi um prazer culpado — camarão de coquetel em festas, camarão ao alho e óleo em noites de encontro, quando eu ainda tinha essas coisas. As amostras eram premium: gorduchos, suculentos, com aquele estalo salgado que só o fresco tem. Eu mastigava devagar, curtindo a explosão de sabor de mar, a doçura sutil por baixo do sal. Minhas anotações eram ótimas: “Firmeza excelente”, “Equilíbrio perfeito de umami”, “Sem gosto de peixe estragado”. Eu até comecei a sonhar com camarão — bandejas infinitas flutuando num mar de molho coquetel.

Mas lá pela terceira semana, as coisas começaram a ficar… estranhas. Começou pela textura. Um lote parecia errado, como se a carne fosse fibrosa demais, quase filamentosa, como se tivessem fios de algo mais duro entrelaçados. Anotei: “Ligeiramente mastigável, possível processamento excessivo.” No dia seguinte, outra bandeja veio com camarões que se mexiam levemente quando eu pegava. Pisquei, achando que era reflexo da luz, mas não — espasmos minúsculos, como se não estivessem bem mortos. “Atividade nervosa residual?”, digitei, com os dedos hesitando. Nos tempos da fábrica de enlatados, eu tinha visto peixe se contorcer depois de morto, mas camarão? Eles deviam estar inertes.

Comentei com a Marlene na reunião semanal. Ela deu risada, a voz metálica no interfone. “Ah, isso é só a nova origem. Estamos testando variedades de mar profundo — mais frescas que fresco. Mantém o sabor trancado.” Eu assenti, mas uma semente de dúvida se plantou. Camarão de mar profundo? Nunca tinha ouvido falar disso sendo viável comercialmente. As águas de Port Haven eram rasas, castigadas por tempestades, não os abismos do oceano.

Com o passar das semanas pros meses, as anomalias foram se acumulando. Alguns camarões tinham um brilho iridescente, como óleo na água, mudando de cor sob a luz — azul, verde, roxo. Outros tinham gosto metálico, um toque de cobre que ficava na língua por horas. Comecei a ter dores de cabeça depois dos turnos, enxaquecas latejantes que embaçavam a visão. Em casa, eu desabava no sofá, olhando pro teto, sentindo como se algo estivesse rastejando debaixo da minha pele.

Uma noite, depois de um lote especialmente esquisito — camarões que estouravam como caviar quando mordidos, soltando um fluido viscoso — sonhei vividamente. Eu estava debaixo d’água, numa vala oceânica vasta e escura. Formas bioluminescentes dançavam ao meu redor, não peixes, mas coisas alongadas com segmentos demais, olhos brilhantes em fileiras. Elas pulsavam com luz, me chamando. Eu estendi a mão, e uma se grudou no meu braço, as partes da boca se abrindo como pétalas. Acordei ofegante, com a palma da mão coçando onde não tinha nada.

No turno seguinte, as bandejas vinham mais rápido. Sem pausas entre elas. Eu mal terminava de registrar um lote e outro já deslizava. Os camarões estavam maiores agora, quase do tamanho de lagostins, com veias que pulsavam levemente sob a carne translúcida. Mordi um, e ele esguichou — quente, não frio como deveria ser. O sabor era mais rico, quase cremoso, com um fundo de algo terroso, como terra molhada misturada com sangue.

Flagrei: “Temperatura incomum — amostra quente na chegada. Perfil de sabor alterado.” Nenhuma resposta no interfone. Normalmente, a Marlene ou alguém dava uma desculpa. Silêncio.

Meu corpo começou a mudar. Notei no espelho uma manhã: minha pele parecia mais pálida, veias mais visíveis, especialmente no pescoço e nos pulsos. Linhas azuladas correndo por baixo da superfície. Eu coçava o tempo todo, arranhando até sangrar. As dores de cabeça viraram algo pior — sussurros, fracos no começo, como estática nos ouvidos. Palavras que eu não conseguia entender, borbulhando de algum lugar profundo.

No trabalho, o espelho falso às vezes embaçava, como se tivesse respiração do outro lado. Eu pegava vislumbres de movimento no reflexo, sombras se mexendo quando eu não olhava direto. Os camarões — meu Deus, os camarões — começaram a parecer diferentes. Não só na textura ou no sabor, mas no formato. Alguns tinham cristas extras na cauda, protuberâncias minúsculas como membros nascentes. Outros tinham o que pareciam manchas oculares, pontos escuros que me seguiam enquanto eu os levava à boca.

Tentei pedir demissão uma vez. Fui até o escritório da Marlene depois do turno, com o tablet nas mãos trêmulas. “Isso não tá certo”, eu disse. “As amostras… não são camarões normais.” Ela sorriu, com aquela mesma expressão vidrada. “Bobagem. Você é o nosso melhor testador. Melhores notas toda semana. Toma um bônus.” Ela deslizou um envelope na mesa — 500 dólares em dinheiro vivo. Eu peguei. Contas não se pagam sozinhas.

Naquela noite, a coceira piorou. No chuveiro, arranhei o antebraço até ficar em carne viva, e algo se mexeu debaixo da pele. Um ondulado, como um verme cavando. Eu fiquei olhando, com a água caindo em cima de mim, convencido que era alucinação. Mas não — aconteceu de novo. Um pequeno inchaço subindo pelo braço, depois sumindo.

Os sonhos ficaram mais frequentes. Sempre a vala, as criaturas brilhantes. Mas agora, elas falavam. Não com vozes, mas impressões — fome, paciência antiga, promessa de pertencimento. Eu acordava com crosta de sal nos lábios, mesmo morando a quilômetros da praia.

As bandejas nunca paravam. Eu comia centenas por dia, minha barriga inchando de dor, mas nunca me sentia satisfeito. Os camarões estavam vivos agora, sem dúvida. Se enroscavam quando tocados, antenas — antenas de verdade — se mexendo. Alguns tentavam fugir da bandeja, rastejando pra borda. Eu os prendia com o garfo, forçando goela abaixo. O gosto era uma agonia deliciosa: podridão doce, vitalidade elétrica correndo por mim.

Minhas anotações viraram bagunça: “Amostra apresenta motilidade. Recomendo parar.” “Sabor induz euforia — possível contaminante.” “Olhos presentes. Múltiplos.” Ainda assim, silêncio no interfone.

Comecei a levar amostras pra casa escondido. Embrulhadas em guardanapo, escondidas na marmita. Sob a luz da cozinha, ampliadas com uma lupa barata que comprei online, a verdade me encarava. Não eram camarões. Corpos segmentados, pernas articuladas dobradas, mandíbulas escondidas embaixo. Formas larvais, talvez, de algo bem maior. Horrores de mar profundo, colhidos de valas que nenhum submarino deveria alcançar.

Pesquisei na internet de madrugada, fóruns sobre vida marinha críptica, documentos vazados de expedições oceanográficas. Sussurros sobre “anomalias bentônicas” pegas em redes de arrasto na plataforma continental, coisas que imitavam espécies comerciais pra se infiltrar nas cadeias de suprimento. Parasitas que reescreviam os hospedeiros por dentro.

A coceira se espalhou por tudo. Costas, couro cabeludo, entre os dedos dos pés. No espelho, meus olhos tinham mudado — pupilas ligeiramente alongadas, íris salpicadas com o mesmo brilho iridescente.

Num turno, a fenda abriu, mas nenhuma bandeja veio. Em vez disso, uma voz — finalmente — no interfone. Não era da Marlene. Mais grave, ressonante, como ondas de pressão na água. “Você se adaptou bem. Fase de integração concluída.”

As luzes diminuíram. O espelho falso clareou, revelando não uma sala de observação, mas escuridão. Um abismo, iluminado por bioluminescência fraca. Formas se moviam além — massivas, segmentadas, familiares.

Olhei pras minhas mãos. A pele se abriu sem dor, descascando como uma casca. Por baixo, algo pálido e articulado se flexionou. Pernas? Antenas?

A bandeja chegou então, vazia. Um convite.

Eu entendi. Meu trabalho não era testar camarão. Era virar o recipiente. Levar eles pro interior, espalhar a ninhada.

Os sussurros ficaram claros: Nós somos a maré que retorna. Você é a ponte.

Eu dei um passo em direção à fenda. Ela se alargou, acomodando. O ar ficou frio, salgado.

Quando cruzei o limiar, pro escuro úmido além da parede, senti o que restava do velho eu se desfazendo. A fome permaneceu — a fome eterna, paciente.

Lá no laboratório, um novo banquinho esperava. Um novo tablet. Logo, outro candidato ia assinar o formulário.

Eu estou deitado nessa bandeja esperando por eles.

Os Precursores

Estou numa cidade fora do espaço e do tempo. É a única explicação que consigo imaginar. Como de outra forma seria possível sair dirigindo, atravessar a floresta densa dos Apalaches, e acabar voltando direto pra placa de boas-vindas? Às vezes eu me pergunto se esse lugar ainda existe de verdade. Me pergunto o que diabos aconteceu com Crenshaw, na Pensilvânia.

Tudo começou, e vai terminar, com aquelas figuras estranhas. Relatos e avistamentos de gente encapuzada — bom, o que a gente achava que era gente — parada nas esquinas à noite. Elas pareciam interessadas nos pontos históricos: o tribunal, a velha rua principal, alguns dos prédios antigos da cidade. Pelo menos no começo.

Não tem nada de ilegal em andar pelas ruas principais de capa à noite. Mesmo assim, a polícia local quis trocar uma ideia. Só que as figuras encapuzadas sempre davam um jeito de escapar. Elas “sumiam na escuridão com uma velocidade sobrenatural”, segundo os relatórios.

O que começou como uma curiosidade meio esquisita virou medo generalizado rapidinho quando elas começaram a rondar os bairros. Moradores apavorados ligavam toda noite pra denunciar aquelas figuras encapuzadas estranhas andando pelas ruas. Espiando pelas janelas. E, mesmo assim, sumiam antes que a polícia conseguisse prender alguma.

Vou admitir que eu também fiquei com um puta medo. Eu tinha visto elas no escuro, e quando começaram a mexer nas maçanetas das portas, eu me rendi. Fui lá e comprei uma arma. Nunca tinha tido uma na vida, mas o barulho da maçaneta da minha porta chacoalhando no meio da madrugada foi o suficiente pra me mandar correndo pra loja de armas mais próxima. Acabei levando pra casa um revólver Smith & Wesson bem padrão, e ele ficou morando bem embaixo da minha mesa de cabeceira. Pelo bem que me fez, podia muito bem ter ficado lá pra sempre.

As coisas pioraram rápido depois disso. Os avistamentos ficaram mais frequentes, até de dia. Isso deixou bem claro a postura e as proporções sobrenaturais das figuras. Nunca vou esquecer o primeiro vislumbre que peguei em plena luz do dia. O torso alongado. A corcunda exagerada. E, mesmo assim, nenhuma foi capturada.

O pesadelo de verdade começou com o canto na praça. As figuras se reuniram num parque no centro da cidade, bem ao lado da velha rua principal. Ficaram em círculo no meio da noite, cantando numa língua de outro mundo até o amanhecer.

Você deve estar se perguntando por que ninguém fez nada pra parar elas, ou pelo menos identificar quem eram. E eu te digo: tentaram, sim. Quando ficou claro que as figuras estavam hipnotizadas no canto delas, chamaram as autoridades, e alguns corajosos se aproximaram.

Eu não estava lá — só os mais curiosos estavam —, mas a história se espalhou rápido. Desmascararam as figuras, jogaram os capuzes pra trás, e o que tinha embaixo era difícil de entender.

Eram criaturas brancas como osso, deformadas. Algumas tinham cabeças alongadas. Outras eram bicudas, parecidas com pássaros. Outras ainda tinham traços quase incompreensíveis, como se só de olhar pro rosto delas já fosse tentar resolver um nó górdio.

Os seres não reagiram à exposição. Pelo que me contaram, não se mexeram nem um centímetro. Não é que não se mexiam — é que eram imóveis. Estátuas indomáveis que cantavam. Que provocavam fenômenos que nem eu, nem nenhum outro morador de Crenshaw, conseguia entender.

Alguns dos que estavam lá reagiram com medo e fugiram pras casas. Esses foram os espertos. Outros reagiram com agressividade, descarregando armas de fogo nas criaturas, mas de nada adiantou. Elas não se abalaram. Não pararam o canto.

O mais perturbador foram os que reagiram com loucura. Os que gritavam, riam e se juntavam ao canto incompreensível. Talvez, no fundo, fossem os mais sábios. Eles foram deixados em paz. Porque quando o canto parou, Crenshaw passou a ser deles.

Não sei quanto tempo se passou. Não tem mais dia em Crenshaw. Só um crepúsculo sépia eterno, cortado por períodos esporádicos de escuridão absoluta, impossíveis de medir. As criaturas e a prole insana delas rondam as ruas como se estivessem caçando. Quando pegam um morador que ainda tem um pingo de sanidade… Bom, eu já vi vários desfechos. Elas não são consistentes. Se eu tivesse que chutar um motivo, diria que é a loucura. Elas desejam loucura. Querem cultivar ela. Quem é pego passa por todo tipo de coisa feita pra quebrar a mente. Mas nunca é igual.

Já vi homens gritando na rua enquanto as criaturas avançam sobre eles. Às vezes é tortura. Às vezes atos depravados que eu nem vou descrever, só pra provocar a insanidade. Às vezes é uma cacofonia de guinchos de outro mundo que ecoam pela cidade inteira, reverberando em cada casa. Em cada mente. Às vezes é só um olhar silencioso. Esse parece ser o método mais eficaz pra provocar loucura. Todo mundo que encara o olhar delas acaba cedendo.

Mas o mais aterrorizante são os desmembramentos aleatórios e repentinos. Isso me faz duvidar de tudo que eu achava que entendia sobre os seres. Se o objetivo é instilar loucura, então por que eles arrancam membros de moradores aleatórios com tanta violência? Não é uma prática constante. Nada é constante com elas. Talvez seja exatamente esse o ponto. Pra instilar ainda mais loucura na gente que se esconde.

Somos poucos agora. Todos nós tentamos fugir em algum momento, mas sempre acabamos voltando pra Crenshaw. Lutar não adianta nada. Temos pouca munição aqui. Só as armas que os americanos do interior costumam ter, que na maioria dos casos seriam suficientes pra repelir um pequeno exército, mas não têm efeito nenhum nas criaturas — os Precursores, como passamos a chamar eles. Porque junto com a chegada deles veio outro fenômeno. Um que acontece na mente de cada último morador de Crenshaw. Visões noturnas do Apocalipse. A Terra se rachando e engolindo a humanidade numa bocarra de fogo e fumaça. Meteoros caindo do céu. Oceanos fervendo. Calamidade e devastação. Morte e loucura levadas a todo homem, mulher e criança. Sempre os mesmos sonhos, toda vez que alguém dorme.

Já pensei em acabar com a minha própria vida. Muitos de nós pensaram. Mas… eu não consigo. Nenhum de nós consegue. Quando chegamos perto, uma curiosidade profunda, repugnante e ao mesmo tempo irresistível toma conta. Um desejo de saber mais sobre os Precursores. De olhar pra eles. De entender eles. De ver o que vem depois. Todo dia isso fica mais forte. Então eu me escondo, e espero. Espero pra ver o que os Precursores vão trazer.

Um Anjo Morreu no Beco

Perdi a casa quando minha mãe morreu e eu não consegui pagar o aluguel. Fiquei sem teto por cinco anos, pobre por vinte. Tirei a pior carta da vida: pobre demais pra faculdade, sem bolsa, sem talento especial. Ninguém queria contratar um fedorento inútil como eu, então eu vagava por aí, pedindo esmola. Nunca ficava muito tempo num lugar só; andava ao lado de rodovias, dormia no mato, pegava carona quando dava sorte. Quando encontrava uma cidadezinha pequena, ficava uma semana mais ou menos e depois seguia em frente. Mas dessa vez eu conheci alguém.

Eu tava sentado do lado de fora de um mercadinho, tentando dormir em cima de um papelão no concreto duro, quando uma mulher de meia-idade colocou cinquenta dólares no meu copo. Ela não parecia nada especial: cabelo castanho crespo, blusa e calça social. Mas graças a ela eu consegui comprar comida no 7-Eleven por uma semana inteira, e quando os cinquenta acabaram ela voltou com mais cinquenta. Virou rotina: toda semana ela aparecia e me dava cinquenta dólares, e no fim do mês me dava parte das compras dela.

Depois de uns dois meses disso tudo, descobri o nome dela. Era Marianne, trabalhava na igreja local como professora de escola dominical e contadora. Ela nunca tentou me converter nem nada, nem me convidou pra igreja dela, só aparecia e me dava as coisas. Eu tava acostumado com o povinho que dá um dólar de forma cerimoniosa pra se exibir pros filhos ou pros colegas de igreja, então foi uma surpresa bem-vinda ter alguém sendo genuinamente gentil pela primeira vez.

Um dia ela propôs que eu fosse morar com ela. Tinha um quarto sobrando e não queria aluguel. Eu esperei o pior: seita secreta, aliciamento, serial killer. Mas confiei nela. Acho que foi a bondade que ela mostrava que me fez ir contra meu instinto, mas minha consciência provou que tava errada. Na primeira noite que passei lá, ela me deu um pratão de espaguete e acesso livre ao banheiro. Foi a primeira vez em anos que eu me senti aquecido e de barriga cheia.

A casa dela era boa. Dois andares, bairro suburbano tranquilo. Ela me deu meu próprio quarto, já com cama e umas roupas no armário. Nunca me pressionou pra arrumar emprego nem pra ajudar em casa, só me deixou morar lá.

A casa era decorada direto dos anos 80. Vários enfeites de crochê, um monte de cruzes e frases da Bíblia nas paredes, e uma TV gorda com videocassete e decodificador de cabo. O que me incomodava era que todas as fotos pela casa eram de uma velhinha e da família dela, todos loiros. Perguntei pra Marianne e ela disse que cuidava daquela senhora até ela morrer, e que a velhinha deixou a casa e todo o dinheiro pra ela no testamento. Perguntei se a família tinha ficado feliz com isso e ela disse que não, mas que ela devolveu três quartos do dinheiro pra família e isso deixou eles felizes. O dinheiro era uns seis milhões de dólares, nada pra se torcer o nariz. A velhinha era fera em apostas na bolsa.

Morando com a Marianne por dois anos, uma coisa que nunca me desceu direito foi a generosidade extrema dela. Num Dia de Ação de Graças ela convidou um monte de mendigos desconhecidos da cidade pra jantar na casa dela. Um deles achou o cofre e roubou quinhentos dólares, mas ela simplesmente deixou ele levar. Doou o carro dela pra família do lado cuja caranga tinha sido destruída porque o filho adolescente bebeu e dirigiu. E ganhou um carro novo da igreja. Dava 20% do salário que recebia da igreja de volta pra mesma igreja como dízimo. Tiveram que dar um aumento pra ela só pra ela conseguir ter um salário básico. Ela era louca, mas todo mundo amava ela por isso. A cidade inteira chamava ela de anjo do céu. Se eu não conhecesse melhor, ia achar que aquela cidadezinha secretamente a adorava como líder de culto. Mas em algum momento eu aprendi a enxergar ela do ponto de vista deles. É difícil negar o jeito calmo e encantador dela.

Mas ela nunca dormia. Nunca ouvi ela usar o banheiro e nunca vi ela se servir de comida. Fora ir pras reuniões da igreja e outras atividades na cidade, ela passava os dias assistindo TV, até vendo programas antigos em preto e branco de madrugada. Acho que nunca vi ela lendo a Bíblia fora da igreja. Pra qualquer outra pessoa isso seria normal, mas pra ela parecia estranho. Eu sempre atribuía a ela ser uma andarilha silenciosa, uma mijadora silenciosa, alguém que fazia jejum intermitente, que comia quando eu não tava comendo, que tinha decorado a Bíblia inteira. Afinal, ela me abrigava, era generosa demais pra ter algo sinistro por trás.

Numa Black Friday eu insisti pra ela comprar uma TV nova. Ela ficava vendo TV cinza e cheia de chuvisco há anos, então eu quis fazer algo legal pra ela. Arrumei um emprego num fast-food da cidade e juntei grana suficiente pra comprar algo pra ela. Ela precisava receber um pouco de generosidade de vez em quando. Fomos pra cidade grande à noite e entramos numa loja de departamentos que tinha a TV certa dentro do meu orçamento. Não era grande coisa, mas era boa o suficiente pros dois. Quando saímos, fomos abordados por dois caras, um deles com arma. Gritaram que queriam a TV e a Marianne, anjo que era, entregou a TV com um sorriso.

Não sei se foi o jeito que ela entregou ou se o cara tava chapado de crack, mas ele atirou na cabeça da Marianne. Sabendo que tinham ferrado tudo, correram. Eu quis correr atrás, mas a Marianne me segurou, agarrando minha perna.

“Perdoe eles.” Ela disse com voz fraca. Nunca tinha visto ela chorar, e doeu ver aquilo. Mas algo rapidamente secou as lágrimas do meu rosto. O sangue dela era cor de cobre. Mergulhei os dedos nele e ergui contra a luz: estava brilhando.

“Desculpa por ter mentido pra você.” Ela disse. Eu rastejei até ela e a abracei. Minha confusão secou meu rosto.

“Do que você tá falando? Você não fez nada.” Eu disse, mas ela falou outra coisa que transformou minha confusão em irritação.

“Afaste-se.” Ela disse. Comecei a gritar: “Do que você tá falando, Mary, o que você quer dizer?!”

Então o rosto dela começou a derreter. A pele escorreu até um cobre grosso, expondo os músculos do rosto. Eu pulei pra trás. Os músculos derreteram em uma gosma vermelha enquanto revelavam o crânio. Milhares de olhos minúsculos estavam incrustados nos ossos, só um centímetro menores que os olhos castanhos dela. Todos olhando pra mim, olhos de todas as cores me encarando. Eu vomitei no chão, olhei pros braços dela, manchando a blusa rosa cheia de babados, os mesmos olhos cravados nos braços, mãos e dedos me fitando. Rastejei até a parede atrás de mim e gritei.

“Não temas.” Ela disse com uma voz rouca e profunda enquanto rachaduras começaram a se formar e se espalhar entre os milhares de olhos. Uma luz que perfurava todo o esqueleto explodiu em uma claridade intensa. Meus olhos queimaram como se estivessem enfiando ferros quentes nas órbitas. E depois de alguns segundos, ela sumiu. A única coisa que eu conseguia ver na minha visão embaçada era o que sobrou dela: as roupas carbonizadas. Pedacinhos da blusa voaram com o vento, mas eu nem me mexi pra pegar.

A polícia não me interrogou. O beco tinha câmera e o que eles viram foi o mesmo que eu vi. Depois de ficar umas três horas na sala de entrevista, fui questionado por dois caras de terno. Eu não quis me meter em merda de governo, então eles me deixaram em paz, me deram carona no carro da polícia até a casa dela. Eu não tinha carteira de motorista, então tive que chamar o guincho pra trazer o carro dela pra casa. Tive que abrir o cofre pra pegar a grana, foi horrível. A carteira dela tava queimada mas sobreviveu, a polícia me entregou. Só encontrei uns dólares generosos queimados e uma foto queimada que parecia ser ela com a velhinha. Ela não tinha documento nenhum, nem carteira de identidade, nem número de seguro social. Três dias depois um advogado bateu na porta. Disse que ela tinha alterado o testamento um ano antes e que a casa e dois milhões de dólares agora eram meus. Perguntei como ela conseguiu fazer isso sem nenhuma prova de que existia e o advogado disse que era confidencial, então imagino que foi um pouco de boa vontade e generosidade.

Usei parte do dinheiro pro funeral de caixão fechado. A cidade inteira apareceu. Nunca vi tanta gente chorar por um caixão vazio. A polícia achou um dos caras que mataram ela; disseram que o outro morreu de overdose. Acho que uma parte da Marianne, ou seja lá o que ela fosse, continuou vivendo dentro de mim, porque eu não pressionei nenhuma acusação. Ele agora é meu colega de casa. Era só um moleque que seguia o irmão mais velho, então não culpei ele pela Marianne. Ele me ajudou e me guiou pela casa até eu conseguir óculos novos pra cegueira. O dinheiro me ajudou a ficar estável até eu tirar o diploma do ensino médio e até eu virar gerente distrital do fast-food onde trabalhava. Mantive a casa do mesmo jeito, mantive a TV, uma parte de mim quis seguir o exemplo dela e respeitar a velhinha que a abrigou. Eu acredito que ela era um anjo, muita gente acredita, espero que a Marianne olhe pra mim de cima e tenha orgulho do que ajudou a melhorar. Seja gentil. Nem todo mundo pode ser anjo, mas, porra, o mundo precisa de mais deles.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

NÓS TE VEMOS...

Quando eu era criança, tinha terrores noturnos. Não era toda hora, mas o suficiente pra deixar uma marca permanente na minha cabeça que ainda tava se formando. Eu não lembro direito de quase nada do que acontecia neles. Tipo um sonho tão foda que a memória simplesmente rejeita lembrar, te deixando só com um medo profundo, remexendo no estômago, como se aquilo pudesse ter te seguido pro mundo acordado.

O que eu lembro é pouco. Eu tava no escuro, um escuro infinito, vazio. Não era breu total, mais parecido com o inverso daqueles quartos brancos vazios que usam pra gravar clipe. Parecia que não acabava nunca, em qualquer direção. Eu lembro vagamente de borrões se arrastando pelo canto do olho, formas que pareciam se desfazer no segundo que eu tentava focar nelas, mas tudo tá bem nebuloso agora.

A coisa que eu realmente lembro, e que ficou grudada em mim e fixou qualquer memória que eu tenha, marcada na minha lembrança como uma cicatriz, era a sensação do estômago despencando, e aquela impressão de ser disparado pra frente. O mundo – se é que dá pra chamar assim – se dissolvendo ao meu redor enquanto eu sentia ser arrastado pra frente, depois pra cima numa velocidade impossível. Tudo na minha visão se esticando em borrões de cinza e preto.

Eu acordava de supetão, lágrimas escorrendo pelo rosto, aquela propulsão violenta ainda correndo pelo corpo, me seguindo pra consciência. E por alguns segundos horríveis, eu sentia o quarto ao meu redor se distorcer. Objetos esticando ou encolhendo, paredes respirando pra dentro e pra fora, como se eu estivesse vendo tudo com um binóculo que não parava de refocar. Chegava ao ponto de eu dar zoom e ver o branco dos olhos dos meus pais enquanto eles vinham correndo pra me consolar de má vontade.

Eu era uma criança nervosa, mesmo sem os terrores noturnos, e a vida familiar nunca foi muito estável. A gente mudava muito por causa do trabalho do meu pai no exército, e justo quando a gente começava a se acertar ou eu fazia um amigo raro, o serviço dele arrancava a gente e jogava em outro contrato militar. Mal dava tempo de aprender o mapa de uma escola antes de ser jogado em outra. Falando nisso, parecia que ele tava ausente praticamente toda a minha infância. Trabalhava até tarde, e nas raras vezes que saíamos pra um jantar em família ou passeio, ele era bombardeado com ligações “importantes” e tinha que correr pra algum lugar fazer sei lá o quê. Eu nunca soube o que meu pai fazia de verdade, e mesmo quando cresci e perguntei, só me diziam que ele trabalhava na divisão de “pesquisa”, seja lá o que isso significasse.

Minha mãe também não ajudava muito, eu sempre me sentia mais um peso morto, um estorvo. Ela parecia responder com um suspiro antes mesmo de eu terminar a frase, como se já estivesse cansada de mim. Eu era filho único, então não tinha ninguém pra dividir esses sentimentos, e claro que cresci achando que aqueles terrores noturnos eram só mais um sintoma de uma infância vivida em terreno instável, tipo tentar subir um morro de cascalho. Tudo parecia explicável.

O estopim veio no meu aniversário de 18 anos. Obviamente, meus pais não tinham planejado nada, por mais que eu tivesse esperança de pelo menos um cartão, um bolo, qualquer coisa. Mas eu tinha reservado uma mesa pra nós três numa pizzaria perto de casa e avisei. Minha esperança era que, por ser um marco na minha vida, eles finalmente fizessem algum esforço, alguma concessão pra comemorar o filho único deles. Fui direto do turno diurno no bar onde eu tinha arrumado um trampo e esperei. Esperei. Passaram 45 minutos e, percebendo que não iam aparecer, eu saí. Chegando em casa, o carro do meu pai não tava na garagem, como era de se esperar, e ao passar pela sala vi minha mãe dormindo no sofá, ela, a garrafa de vinho vazia e a de remédio pela metade na mesinha, iluminadas pelo brilho da TV.

Duas semanas depois, depois de ruminar meu estado lamentável, num impulso autodestrutivo e angústia adolescente, eu peguei uma garrafa de uísque do armário do meu pai e saí escondido, o zumbido da geladeira na cozinha sendo o único som numa casa sempre silenciosa. Digo saí escondido. Meu pai tava no trabalho e quase nunca aparecia, e minha mãe não tava exatamente fiscalizando. Cheguei nos trilhos de trem perto de onde a gente morava naquele mês.

Cheguei na ponte sobre os trilhos, passei as pernas por cima da grade, abri a garrafa e comecei a engolir aquele líquido marrom nojento, engasgando enquanto queimava a garganta, juntando coragem líquida pra... você sabe, esperando um trem passar. Eu não tinha amigos, nem namorada. Me sentia um hóspede indesejado na minha própria casa, sem perspectivas. Inevitavelmente, o estilo de vida nômade fodeu minha escola, e eu era o último da turma desde que me conheço por gente, trabalhando num emprego sem futuro que eu odiava.

Quando senti o tremor característico da minha libertação iminente com um trem se aproximando, e levantei a garrafa pros lábios pra um último gole, senti minha gola sendo puxada pra trás. Meu primeiro pensamento naquele segundo antes de bater no metal frio da passarela foi que alguém se importava. Alguém tinha vindo me impedir de fazer uma burrice. Mas não. Era um grupo de outros adolescentes da minha idade que eu via pela cidade, rindo de mim enquanto eu andava sozinho. E eles começaram a me dar uma surra do caralho, me deixando um amontoado sangrento e inconsciente na ponte.

Acordei no dia seguinte numa cama de hospital, no ambiente estéril e estranho, a única companhia uma cadeira vazia ao lado da cama. Nem preciso dizer que nenhum dos meus pais tava lá esperando quando eu acordei. O médico disse que eu tive uma concussão leve e três costelas quebradas. Disse que eu tive sorte de não morrer de hipotermia, porque um mendigo viu a cena, afugentou os vagabundos e chamou a polícia. Naquele momento eu não consegui evitar sentir um apego melancólico por ele, pensando no meu salvador fantasma como a única pessoa que talvez realmente se importasse comigo. Eu certamente não me sentia sortudo.

Fiquei no hospital pra observação por mais 3 dias, o único contato dos meus pais sendo uma mensagem da minha mãe perguntando quando eu ia ter alta e quando ela devia me buscar. Ela não disse uma palavra no caminho de volta pra casa e, sem falar nada, assim que chegamos, eu fui pro meu quarto, arrumei uma mochila com roupa e saí. Me sentindo estranhamente calmo e decidido. Era inevitável, na real. Ela só ficou parada na porta me vendo ir embora pela rua, não disse nada, e eu nem olhei pra trás.

Eu tinha um dinheirinho guardado do trampo no bar, e eles toparam me manter em período integral. Daí dormi na rua por umas semanas até achar uma república perto do trabalho. A casa era uma zona, gente aleatória, móveis que não combinavam e primeiras impressões constrangedoras. Meu quarto mal cabia uma cama de solteiro e um guarda-roupa, com papel de parede descascando e mofo no teto no canto oposto à cama. Mas com o tempo, eu senti algo que nunca tinha sentido antes: uma conexão. Essas pessoas que eu nunca tinha visto viraram as mais importantes da minha vida, minha primeira ligação de verdade. Me ancorou e me fez perceber o quanto eu tinha sido idiota. Me permiti esquecer, ou pelo menos começar a esquecer, aquela parte de mim que se sentia à deriva, e simplesmente me deixar pertencer.

Por um tempo, as coisas pareceram normais. Eu tinha minha rotina. Geralmente trabalhava até fechar, pegando o máximo de turnos que dava. Levava comida sobrando da cozinha pra casa, e eu e minha turma maluca sentávamos no chão ou no sofá remendado vendo qualquer série nova no streaming que a gente dividia a senha. Não era grande coisa. Não era nada, mas era normal. Era perfeito.

Um dia, porém, eu me vi naquele espaço vazio de novo. Eu tava de atestado por causa de uma gripe foda que me deixou delirando, e também naquele vazio escuro toda vez que fechava os olhos. Fazia anos que não ia lá, e só lembrava do lugar no momento que chegava. Dessa vez foi diferente. Antes, as formas que eu via se mexiam de um lado pro outro fora do meu campo de visão; agora elas tavam paradas. Essas formas impossíveis que pareciam se distorcer quando eu olhava, de tamanhos variados, só tavam lá. Enquanto eu absorvia mais o ambiente, percebi que tinha um monte delas, todas viradas pra mim, tentadoramente fora do meu foco pra eu distinguir detalhes, cobertas pela penumbra. Mas uma coisa eu sabia: antes elas não pareciam me notar; agora com certeza notavam. Elas tavam me observando.

Senti o corpo inteiro travar. Um frio de gelar o sangue desceu da cabeça até os pés e, enquanto isso acontecia, eu senti – não vi – as figuras se lançando em cima de mim. Por instinto levantei os braços pra me proteger, pro pouco que isso adiantaria, quando senti aquela velha sensação familiar. Aquela de ser disparado pra frente e pra cima em velocidades impossíveis. Aquela que me assombrava tanto na infância agora aparentemente vindo me salvar.

Acordei de sobressalto na cama, meu primeiro instinto sendo agradecer que tinha acabado. O segundo, enquanto recuperava o fôlego, foi olhar ao redor enquanto via as paredes respirando pra dentro e pra fora e os objetos do quarto se aproximando na minha visão. Depois de alguns segundos, quando controlei a visão e a respiração, ouvi o rangido característico da porta se abrindo. Prendendo o fôlego que eu tinha lutado pra recuperar, senti uma gota de suor salgado escorrendo devagar pela bochecha, no mesmo ritmo da porta abrindo. Lá estava Tina, uma das minhas colegas de casa, encostada no batente. Com as sobrancelhas erguidas, ela disse: “Pesadelo?”. Concordei com a cabeça, passei as pernas pra fora da cama, esfreguei o rosto com as mãos e olhei pra ela de novo. “Fumar um?” ela disse, apontando pro baseado na mão esticada, o cheiro doce enjoativo enchendo o quarto.

Passamos o resto da noite chapados e eu contei pra ela o sonho, ou melhor, o terror. Expliquei que não tinha mais isso desde criança, mas que ficar doente tinha acionado algo na minha cabeça. Falei do zoom na visão, das paredes respirando, e a gente fez uma pesquisa chapada na internet.

“Te lembra alguma coisa? Distorção de escala, alucinações visuais, esse tipo de coisa?” Tina disse, apontando pra um artigo no celular enquanto me passava o baseado. Dei um trago, li o título. Síndrome de Alice no País das Maravilhas. Continuando a ler, descrevia uma condição neurológica rara, mais comum em crianças. Percepções distorcidas de tamanho. Objetos parecendo maiores ou menores do que deveriam. Macropsia. Micropsia. Palavras clínicas pra algo que nunca tinha parecido clínico pra mim.

“Parece coisa que um adolescente emo que odeia os pais e passa tempo demais no Tumblr inventaria”, Tina zoou, me cutucando nas costelas com o cotovelo. A gente riu, e eu me senti mais aliviado do que queria admitir. Tinha um nome praquilo. Outras pessoas tinham passado por isso. O artigo dizia que era benigno. Rolei por alguns relatos em primeira mão, meio que esperando ver minhas próprias palavras me encarando. A maioria era curta. Vagosa. Reclamações de dor de cabeça. De quartos parecerem errados por alguns minutos. Nenhum mencionava figuras espreitando nas bordas da visão. Nenhum falava da sensação de ser arrastado, lançado pra frente, como se o chão da realidade tivesse sumido.

Eu disse pra mim mesmo que isso não importava.

Só fiquei feliz por não estar louco. Feliz por isso não ser algum tipo de psicose.

“Pensa assim”, Tina disse, parando pra dar um trago longo, “muita gente pagaria caro pra uma viagem dessas. Menos os demônios ou seja lá o que for.” Ela riu. “Você devia fazer o que eu faço”, acrescentou. “Ter um diário de sonhos do lado da cama. Se acontecer de novo, escreve na hora, enquanto tá fresco. Ajuda a entender, e às vezes é engraçado reler.”

Concordei com a cabeça, já pensando que algumas coisas, depois de escritas, param de ser engraçadas.

Passaram umas semanas, e eu mantive o diário. Não teve mais terror noturno. Nem macropsia ou micropsia, ou seja lá como o artigo chamava. Só sonhos fragmentados sobre nada em particular. Impressões banais do dia anterior, ou cenas claramente roubadas de série ou filme que eu tinha visto antes de dormir.

Tina e eu às vezes trocávamos figurinha de manhã, lendo as anotações um do outro e zoando o quanto eram sem graça. Eu tinha lido em algum lugar que fumar maconha atenuava o sono REM, a fase onde a maioria dos sonhos acontece, então fizemos um pacto meio sério de parar por um tempo, nem que fosse pra ver no que dava.

John, outro colega de casa, sugeriu tentar sonho lúcido. Disse que se eu caísse num daqueles terrores de novo, poderia ajudar se eu conseguisse tomar controle em vez de só aguentar. Tentamos por um tempo sem sucesso, até que uma noite, por impulso, resolvi testar uma técnica que li online. Dizia pra deitar de costas, mãos ao lado do corpo, e ficar olhando pro teto. Só isso.

Parecia fácil. Eu queria ver se conseguia voltar pra aquele lugar que me assustava desde que me conheço por gente. Disse pra mim mesmo que, se eu chegasse lá de propósito, seria diferente. Eu seria o que mandava, pela primeira vez.

Então tentei. Deitei de costas, mãos ao lado do corpo e fiquei encarando o teto. Foquei nos desenhos no gesso em cima da cama. Traçando os relevos e rachaduras com os olhos, repetidamente. Depois de um tempo, foquei na respiração pra distrair das pálpebras pesadas como cimento, contando cada volta que dava nos padrões lá em cima.

Eu tava sozinho naquela noite, todo mundo tinha ido pro bar. A casa tava pesada de silêncio, aquele silêncio que só rola de madrugada. Pairava grosso sobre tudo, o único som além da minha respiração profunda sendo o zumbido baixo do aquecedor no quarto ao lado, constante e distante.

Não teve um momento específico que eu consiga apontar. Nenhum limite claro que senti ter cruzado. Em algum ponto senti a distância entre mim e o gesso rachado no teto crescer cada vez mais. Não mais alto, só... mais longe do que tinha direito de ser. Os padrões no gesso amoleceram nas bordas e se enrolaram, esticando na minha direção quando eu tentava focar. Senti a escuridão e o peso atrás dos olhos ficar mais denso, até que precisei piscar.

Nem percebi onde tava no começo, só senti a ausência da cama embaixo de mim. Isso até tentar olhar ao redor e perceber que tinha chegado. Eu tava naquele lugar escuro de novo.

Dessa vez eu conseguia perceber mais. Não tudo, mas mais do que nunca. À minha frente tinha uma multidão daquelas figuras que me assombravam desde que me lembro, de costas, se arrastando em direção a alguma estrutura no horizonte. Impossivelmente longe, o formato indistinto contra a penumbra.

As figuras se moviam juntas com um propósito quieto. Não dava pra dizer o quão longe tavam, só que a distância entre nós parecia intencional. Como se tivessem acabado de me perder de vista. Pela primeira vez, eu conseguia ver detalhes. Elas vinham em todos os tamanhos e formas, vagamente humanas, cobertas por fiapos de fumaça ou névoa. Quando se mexiam, a vapor rareava e se abria, revelando rapidamente corpos brancos como osso por baixo, disformes, inacabados, antes da fumaça se fechar de novo.

Elas não tinham me visto. Eu pretendia manter assim.

Segui elas enquanto iam em direção ao que quer que as atraía. Pareciam horas passando, mas eu nunca cansava. O tempo não parecia se comportar como deveria ali.

Enquanto eu andava, o número delas crescia. Nunca vi nenhuma nova chegar. As figuras simplesmente apareciam, como se sempre tivessem feito parte da multidão e eu só tivesse notado agora. Algumas arrastavam outras atrás. Essas tavam envoltas numa fumaça diferente, cinza em vez de preta, mais grossa, mais pesada. As formas dentro dela não se mexiam sozinhas.

Continuei seguindo. Queria aprender as regras daquele lugar. Já tava claro que eu não conseguia mudar nada ali, mesmo sabendo que era sonho. O espaço resistia a esse tipo de influência. Então resolvi só observar, entender o máximo que pudesse.

O tempo continuou passando, impossível medir quanto. Mais e mais figuras se juntavam, entrando no lugar sem cerimônia, e a única mudança real era a estrutura no horizonte ficando mais perto. Quando chegamos perto, o formato se definiu como algo mais plano. Mais longo. Uma parede.

Ela se esticava até onde a vista alcançava nos dois lados, a superfície emitindo um brilho pálido e fraco que parecia vir de lugar nenhum e de todos ao mesmo tempo. Ouvi primeiro antes de entender o que tava vendo.

O som chegou até mim, gemidos e gritos desumanos que faziam meus dentes doerem, um coro de vozes sobrepostas tão denso que eu não conseguia dizer onde uma acabava e outra começava. Parei de andar.

A parede era feita de carne. Rostos pressionados na superfície em intervalos irregulares, bocas se abrindo e fechando em gritos mudos, a fonte do barulho enterrada em camadas e camadas de matéria viva.

Quando a procissão chegou na beira da parede, as figuras que arrastavam outras começaram a trabalhar juntas. Levantavam e empurravam os fardos pra frente, pressionando contra a superfície viva. Braços brotavam da parede pra encontrá-los. As figuras sumiam sob uma maré de membros agarradores, os contornos se dissolvendo enquanto eram puxadas e absorvidas, os corpos adicionados à massa imensa e gritante. Nenhum dos rostos que eu conseguia distinguir na parede parecia estranho. Eu só não lembrava onde tinha visto antes.

Cambaleei pra trás e virei pra correr, mas meus pés se enrolaram e caí feio, de bunda no chão. De onde tava deitado, olhei pra parede. Todas elas tavam me olhando agora.

As figuras tinham parado. Os rostos incrustados na parede tinham parado. Os gemidos cessaram completamente, substituídos por um silêncio tão absoluto que zumbia nos meus ouvidos, alto o suficiente pra ensurdecer. Então as figuras começaram a se mexer. Devagar no começo. Com cautela. Quando se mexeram, o som voltou, não delas, mas da parede. Sussurros abafados vazavam da carne dos dois lados de mim.

“Saaaaaiiii daaaaquiii.”

As palavras se sobrepunham, espalhadas, saindo de dezenas, centenas de bocas ao mesmo tempo. Enquanto as figuras se aproximavam, os sussurros ficavam mais altos, virando gritos, depois berros, um coro frenético e desesperado me mandando embora. As figuras tavam quase em cima de mim. “SAAAAAI DAAAAAQUIIII”.

Tentei me forçar a disparar. Fazer o que sempre fiz sem pensar, deixar aquela força familiar me arrancar pra cima e pra fora. Nada aconteceu.

O que quer que eu tivesse contado todos aqueles anos atrás, eu não conseguia acessar conscientemente. O pânico tomou conta. Me levantei aos tropeços e corri. Corri até os gritos da parede sumirem ao longe, substituídos pela respiração úmida e irregular das figuras me perseguindo.

Meu peito queimava enquanto eu corria. Mesmo num sonho. Nesse lugar. Cada respiração parecia rasa e rápida demais. Continuei correndo até o espaço ao redor começar a se esticar de novo, o chão puxando como tapete sob meus pés, e minhas pernas parecerem pequenas demais pro distância que precisava cobrir. Eu tava piorando as coisas, percebi de repente.

Me bateu uma clareza súbita: eu tinha conseguido escapar aquelas vezes antes porque nunca tentava. Quando criança, eu não FAZIA nada pra sair dali. Chorava. Entrava em pânico. E então, exausto, simplesmente parava.

A ejeção, o lançamento, seja lá como chamar, sempre vinha depois disso.

Tropecei e, em vez de tentar me equilibrar, me deixei cair. Antes mesmo de bater no chão, aquelas figuras me cercaram. As formas lotando minha visão, a respiração quente, perto e desesperada. Enquanto sentia elas me agarrando e puxando, vi fiapos cinzas subindo da minha pele, queimando onde tocavam. Fechei os olhos e parei de tentar fugir.

Tentei focar na respiração. Tentei lembrar os cachos e padrões do gesso no teto acima do meu corpo, por mais longe e distante que parecesse. Depois do que pareceu tempo demais, tarde demais, aquela sensação familiar voltou. Aquele puxão violento bem-vindo, mas dessa vez não veio de cima ou de baixo, veio de algum lugar dentro de mim. Não resisti, e me deixei ser arrancado pra cima e pra longe daquele lugar.

Acordei ofegante. Acordar parece termo errado, porque nunca senti que dormi. Aquela sensação de ser empurrado pra cima ficou no peito enquanto eu sentava na cama arfando, o fôlego ainda não tendo me alcançado. Por alguns segundos eu não sentia meu corpo, nada. Só um peso afundando no colchão.

Então minha visão voltou ao normal. O quarto se esticou e contorceu. Paredes curvando pra dentro, depois pra fora. Objetos distantes avançando em clareza impossível, o edredom encharcado de suor inchando na visão até eu ver as linhas desfiadas na costura.

Foi aí que vi os olhos.

Eles tavam na altura do pé da cama. Baixos demais pra pertencer a alguém, alguma coisa em pé. Amarelos e sem piscar. Me observando com atenção total. Apertei meus próprios olhos enquanto lágrimas escorriam.

Quando abri de novo, aqueles olhos tinham sumido, mas substituídos por outra coisa. Movimento. O papel de parede no fundo do quarto rasgou com um som úmido e nojento. Dedos cobertos de fiapos forçando passagem pelo gesso por baixo. Se esticando pra tentar se apoiar.

Eu nem conseguia gritar mesmo se quisesse.

Então, tão de repente quanto começou, parou.

O quarto voltou ao normal. As paredes pararam. E aquele silêncio familiar e reconfortante voltou, comum e vazio. Meu coração martelava nos ouvidos, e depois de alguns minutos consegui domar a respiração acelerada.

Depois de um tempinho, peguei o caderno do lado da cama. Queria anotar tudo enquanto lembrava os detalhes, embora algo me dissesse que eu não ia esquecer tão cedo.

Virei pra o que deveria ser uma página em branco. Mas não tinha nenhuma. Em todas as páginas, rabiscado repetidamente, numa caligrafia desesperada e faminta, estavam as mesmas 3 palavras, de novo e de novo.

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