Começou tudo de forma bem inocente. Vi o anúncio num site de empregos: “Não precisa de experiência. Salário competitivo. Precisa ter estômago forte e nenhuma alergia a frutos do mar.” Pensei: por que não? Eu tinha sido demitido do meu último emprego numa fábrica de enlatados — alguma coisa sobre automação substituindo mãos humanas — e minha grana estava acabando mais rápido que a maré baixa. A entrevista foi uma piada: uma conversa rápida com uma representante de RH entediada chamada Marlene, que me entregou um formulário e uma caneta. “Assina aqui, e tá dentro”, ela disse, com os olhos vidrados como se tivesse repetido aquela frase mil vezes.
O armazém era imenso, um labirinto de esteiras rolantes, freezers zumbindo e o barulho constante das máquinas. Meu posto ficava numa sala branca e estéril no fundo, isolada do piso principal. Chamavam de “Laboratório de Degustação”, mas parecia mais uma sala de exame clínico — luzes fluorescentes piscando no teto, uma mesa de metal com um banquinho, e um espelho falso na parede que eu jurava que sempre tinha alguém observando do outro lado. Todo dia eu batia o ponto, colocava rede no cabelo e luvas, e esperava as amostras.
O processo era simples: uma fenda na parede abria, e uma bandeja deslizava com dez a quinze camarões, descascados e limpos, às vezes crus, às vezes cozidos com vários temperos. Eu comia um por um, anotando textura, sabor, frescor num tablet digital. Salgado demais? Marcava. Borrachudo? Flagava. Gosto estranho que ficava na boca? Reportava. Depois, a bandeja voltava, e outra aparecia. Oito horas por dia, cinco dias por semana. Era monótono pra caralho, mas o pagamento era 25 dólares por hora, mais benefícios. Em Port Haven, isso era uma fortuna.
No começo, eu adorei. Camarão sempre foi um prazer culpado — camarão de coquetel em festas, camarão ao alho e óleo em noites de encontro, quando eu ainda tinha essas coisas. As amostras eram premium: gorduchos, suculentos, com aquele estalo salgado que só o fresco tem. Eu mastigava devagar, curtindo a explosão de sabor de mar, a doçura sutil por baixo do sal. Minhas anotações eram ótimas: “Firmeza excelente”, “Equilíbrio perfeito de umami”, “Sem gosto de peixe estragado”. Eu até comecei a sonhar com camarão — bandejas infinitas flutuando num mar de molho coquetel.
Mas lá pela terceira semana, as coisas começaram a ficar… estranhas. Começou pela textura. Um lote parecia errado, como se a carne fosse fibrosa demais, quase filamentosa, como se tivessem fios de algo mais duro entrelaçados. Anotei: “Ligeiramente mastigável, possível processamento excessivo.” No dia seguinte, outra bandeja veio com camarões que se mexiam levemente quando eu pegava. Pisquei, achando que era reflexo da luz, mas não — espasmos minúsculos, como se não estivessem bem mortos. “Atividade nervosa residual?”, digitei, com os dedos hesitando. Nos tempos da fábrica de enlatados, eu tinha visto peixe se contorcer depois de morto, mas camarão? Eles deviam estar inertes.
Comentei com a Marlene na reunião semanal. Ela deu risada, a voz metálica no interfone. “Ah, isso é só a nova origem. Estamos testando variedades de mar profundo — mais frescas que fresco. Mantém o sabor trancado.” Eu assenti, mas uma semente de dúvida se plantou. Camarão de mar profundo? Nunca tinha ouvido falar disso sendo viável comercialmente. As águas de Port Haven eram rasas, castigadas por tempestades, não os abismos do oceano.
Com o passar das semanas pros meses, as anomalias foram se acumulando. Alguns camarões tinham um brilho iridescente, como óleo na água, mudando de cor sob a luz — azul, verde, roxo. Outros tinham gosto metálico, um toque de cobre que ficava na língua por horas. Comecei a ter dores de cabeça depois dos turnos, enxaquecas latejantes que embaçavam a visão. Em casa, eu desabava no sofá, olhando pro teto, sentindo como se algo estivesse rastejando debaixo da minha pele.
Uma noite, depois de um lote especialmente esquisito — camarões que estouravam como caviar quando mordidos, soltando um fluido viscoso — sonhei vividamente. Eu estava debaixo d’água, numa vala oceânica vasta e escura. Formas bioluminescentes dançavam ao meu redor, não peixes, mas coisas alongadas com segmentos demais, olhos brilhantes em fileiras. Elas pulsavam com luz, me chamando. Eu estendi a mão, e uma se grudou no meu braço, as partes da boca se abrindo como pétalas. Acordei ofegante, com a palma da mão coçando onde não tinha nada.
No turno seguinte, as bandejas vinham mais rápido. Sem pausas entre elas. Eu mal terminava de registrar um lote e outro já deslizava. Os camarões estavam maiores agora, quase do tamanho de lagostins, com veias que pulsavam levemente sob a carne translúcida. Mordi um, e ele esguichou — quente, não frio como deveria ser. O sabor era mais rico, quase cremoso, com um fundo de algo terroso, como terra molhada misturada com sangue.
Flagrei: “Temperatura incomum — amostra quente na chegada. Perfil de sabor alterado.” Nenhuma resposta no interfone. Normalmente, a Marlene ou alguém dava uma desculpa. Silêncio.
Meu corpo começou a mudar. Notei no espelho uma manhã: minha pele parecia mais pálida, veias mais visíveis, especialmente no pescoço e nos pulsos. Linhas azuladas correndo por baixo da superfície. Eu coçava o tempo todo, arranhando até sangrar. As dores de cabeça viraram algo pior — sussurros, fracos no começo, como estática nos ouvidos. Palavras que eu não conseguia entender, borbulhando de algum lugar profundo.
No trabalho, o espelho falso às vezes embaçava, como se tivesse respiração do outro lado. Eu pegava vislumbres de movimento no reflexo, sombras se mexendo quando eu não olhava direto. Os camarões — meu Deus, os camarões — começaram a parecer diferentes. Não só na textura ou no sabor, mas no formato. Alguns tinham cristas extras na cauda, protuberâncias minúsculas como membros nascentes. Outros tinham o que pareciam manchas oculares, pontos escuros que me seguiam enquanto eu os levava à boca.
Tentei pedir demissão uma vez. Fui até o escritório da Marlene depois do turno, com o tablet nas mãos trêmulas. “Isso não tá certo”, eu disse. “As amostras… não são camarões normais.” Ela sorriu, com aquela mesma expressão vidrada. “Bobagem. Você é o nosso melhor testador. Melhores notas toda semana. Toma um bônus.” Ela deslizou um envelope na mesa — 500 dólares em dinheiro vivo. Eu peguei. Contas não se pagam sozinhas.
Naquela noite, a coceira piorou. No chuveiro, arranhei o antebraço até ficar em carne viva, e algo se mexeu debaixo da pele. Um ondulado, como um verme cavando. Eu fiquei olhando, com a água caindo em cima de mim, convencido que era alucinação. Mas não — aconteceu de novo. Um pequeno inchaço subindo pelo braço, depois sumindo.
Os sonhos ficaram mais frequentes. Sempre a vala, as criaturas brilhantes. Mas agora, elas falavam. Não com vozes, mas impressões — fome, paciência antiga, promessa de pertencimento. Eu acordava com crosta de sal nos lábios, mesmo morando a quilômetros da praia.
As bandejas nunca paravam. Eu comia centenas por dia, minha barriga inchando de dor, mas nunca me sentia satisfeito. Os camarões estavam vivos agora, sem dúvida. Se enroscavam quando tocados, antenas — antenas de verdade — se mexendo. Alguns tentavam fugir da bandeja, rastejando pra borda. Eu os prendia com o garfo, forçando goela abaixo. O gosto era uma agonia deliciosa: podridão doce, vitalidade elétrica correndo por mim.
Minhas anotações viraram bagunça: “Amostra apresenta motilidade. Recomendo parar.” “Sabor induz euforia — possível contaminante.” “Olhos presentes. Múltiplos.” Ainda assim, silêncio no interfone.
Comecei a levar amostras pra casa escondido. Embrulhadas em guardanapo, escondidas na marmita. Sob a luz da cozinha, ampliadas com uma lupa barata que comprei online, a verdade me encarava. Não eram camarões. Corpos segmentados, pernas articuladas dobradas, mandíbulas escondidas embaixo. Formas larvais, talvez, de algo bem maior. Horrores de mar profundo, colhidos de valas que nenhum submarino deveria alcançar.
Pesquisei na internet de madrugada, fóruns sobre vida marinha críptica, documentos vazados de expedições oceanográficas. Sussurros sobre “anomalias bentônicas” pegas em redes de arrasto na plataforma continental, coisas que imitavam espécies comerciais pra se infiltrar nas cadeias de suprimento. Parasitas que reescreviam os hospedeiros por dentro.
A coceira se espalhou por tudo. Costas, couro cabeludo, entre os dedos dos pés. No espelho, meus olhos tinham mudado — pupilas ligeiramente alongadas, íris salpicadas com o mesmo brilho iridescente.
Num turno, a fenda abriu, mas nenhuma bandeja veio. Em vez disso, uma voz — finalmente — no interfone. Não era da Marlene. Mais grave, ressonante, como ondas de pressão na água. “Você se adaptou bem. Fase de integração concluída.”
As luzes diminuíram. O espelho falso clareou, revelando não uma sala de observação, mas escuridão. Um abismo, iluminado por bioluminescência fraca. Formas se moviam além — massivas, segmentadas, familiares.
Olhei pras minhas mãos. A pele se abriu sem dor, descascando como uma casca. Por baixo, algo pálido e articulado se flexionou. Pernas? Antenas?
A bandeja chegou então, vazia. Um convite.
Eu entendi. Meu trabalho não era testar camarão. Era virar o recipiente. Levar eles pro interior, espalhar a ninhada.
Os sussurros ficaram claros: Nós somos a maré que retorna. Você é a ponte.
Eu dei um passo em direção à fenda. Ela se alargou, acomodando. O ar ficou frio, salgado.
Quando cruzei o limiar, pro escuro úmido além da parede, senti o que restava do velho eu se desfazendo. A fome permaneceu — a fome eterna, paciente.
Lá no laboratório, um novo banquinho esperava. Um novo tablet. Logo, outro candidato ia assinar o formulário.
Eu estou deitado nessa bandeja esperando por eles.


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