sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Não ia contar isso, mas aconteceu uma coisa quando eu era criança que nunca consegui explicar

Mais cedo, vi um post em que algumas pessoas nos comentários discutiam experiências paranormais reais que já tiveram. Quase comecei a digitar — mas hesitei. Algo aconteceu comigo há muito tempo que, com certeza, foi estranho. Não tenho certeza se chamaria de paranormal. Há outras palavras que me vêm à mente primeiro: perturbador, confuso, inesquecível, aterrorizante. "Paranormal" é mais difícil de afirmar com certeza.

Fui criado em uma família estritamente ateia. Meu pai era biólogo, e minha mãe faleceu de câncer quando eu tinha dois anos. Meu pai era pragmático. Histórias de fantasmas, casas assombradas, encontros espirituais, qualquer coisa religiosa — esses eram assuntos tabus. Ele sempre me dizia que havia uma explicação científica para tudo. Mesmo que ainda não a conheçamos, ela existe.

Acho que acredito nisso. Ou pelo menos sempre disse que acredito. Talvez seja só o que tenho me dito. Nunca vi nada que pudesse chamar de prova inegável do contrário.

Mesmo assim, há um incidente que ficou gravado na minha mente há mais de 40 anos — como um cachorro abandonado que nunca foi embora. Nunca consegui entender. Principalmente porque não faz sentido com nada que vivi desde então, ou com tudo que sei sobre como o mundo funciona. Se não fossem as pessoas na minha vida que se lembram daquele tempo — e se não fosse um recorte de jornal enterrado em uma caixa de coisas velhas — provavelmente teria descartado tudo como algo que imaginei. Mas aconteceu.

O que significou, ainda não sei dizer.

Se meu pai ainda estivesse vivo, ele diria que algo aconteceu também. Se ele acreditou na minha versão dos fatos, não sei. Mas ele se lembrou do evento até o dia da morte dele. Até há registros policiais sobre isso. O que segue é a minha lembrança honesta da coisa mais assustadora que já vivi. Não falo sobre isso há décadas. Vou contar exatamente como me lembro.

Tire suas próprias conclusões.

Cresci em uma cidade de cerca de 14 mil habitantes às margens do Rio Ohio, entre colinas ondulantes e florestas densas. Era um lugar verdadeiramente lindo — especialmente no início do outono, quando as folhas mudavam de cor e as colinas ardiam em dourado e carmim.

Como qualquer cidade pequena, tínhamos nossa cota de folclore. Histórias sussurradas em festinhas do pijama, murmuradas em bares depois de algumas doses. Havia uma sobre uma figura translúcida perto do rio, que diziam ser o fantasma da esposa de um capitão de barco a vapor dos anos 1800. Outra girava em torno de uma casa decadente no fim da rua onde minha prima morava. Alguns afirmavam que ela pertenceu a um pintor que fez um pacto com o diabo, e que suas obras amaldiçoadas ainda forravam as paredes tortas — esperando para sugar a alma de qualquer um corajoso (ou idiota) o suficiente para entrar e olhá-las.

Essas eram apenas algumas das histórias que assombravam nossos sonhos e nos mantinham acordados à noite.

Mas havia um mito que me assustava mais do que os outros. Diziam que algo — uma entidade — vivia na mata atrás do nosso quintal. As pessoas chamavam de Coração Negro.

Pra ser sincero, não me lembro de muitos detalhes da história em si. Só que era preciso tomar cuidado naquela mata, porque o Coração Negro poderia pegar você. Alguns diziam que era uma bruxa que vivia lá desde os anos 1700. Outros afirmavam que nem era humana. Não um "ela", não um "ele" — só algo diferente, algo de outro mundo.

Meu pai costumava dizer que era assim que a gente sabia que tudo era mentira. "Ninguém nem consegue contar a história direito", ele dizia. "Porque alguém inventou." Eu geralmente acreditava nele. Brincávamos naquela mata o tempo todo e nunca vimos nada estranho.

Mesmo assim... quando o sol se punha, a história me incomodava.

Principalmente porque a janela do meu quarto dava para o quintal — e de lá, eu tinha uma vista perfeita da linha das árvores. Costumava espiar pela cortina antes de dormir e me perguntar se ela — ou isso — estava lá fora, parada logo além da grama, escondida entre as árvores, esperando. Às vezes, imaginava um dedo longo e peludo se curvando em minha direção a partir das sombras, me chamando para sair.

Estou contando isso porque, na época, algumas pessoas disseram que o Coração Negro tinha algo a ver com o que aconteceu. Não estou dizendo que acredito nisso.

Mas também não estou dizendo que tenho certeza de que não teve nada a ver.

Enfim, estou divagando. Acho que estou adiantando, pra ser sincero. Não é fácil revirar tudo isso de novo. E, além disso, estou tentando entender como me sinto em relação a tudo isso enquanto escrevo.

Era outubro de 1984. Eu tinha nove anos.

Minha melhor amiga, Maura, morava três casas abaixo da minha. Estávamos de férias de outono e nos divertindo pra caramba. Como na maioria dos dias sem aula, passávamos o tempo fora de casa — da mata atrás do nosso bairro até a loja de doces na Rua Ponte, no centro da cidade. Mesmo depois do pôr do sol, podíamos ficar na rua, desde que não saíssemos da nossa quadra.

Maura e eu éramos melhores amigas desde o jardim de infância. Tínhamos dividido a mesma sala todos os anos. Nossas famílias se conheciam. Quando você tem nove anos, é impossível imaginar que sua melhor amiga um dia não estará mais lá — até algo forçar você a pensar nisso.

Às vezes, os amigos se afastam porque alguém se muda. O pai arruma um novo emprego. As famílias se mudam. Faz parte do crescer.

Mas o que aconteceu naquele outubro não era normal.

Já mencionei que nosso quintal levava até a mata. Isso não era incomum na nossa cidade. O lugar todo era praticamente cercado por floresta, exceto pelo lado onde corria o rio. Era fácil se perder naquela mata. Por isso, sempre tomávamos cuidado e garantíamos que pelo menos uma pessoa estivesse conosco.

Aquela parte específica da mata — logo depois do nosso quintal — tinha uma clareira escondida. Um campo imenso, cercado de árvores por todos os lados. Se você andasse uns 15 metros, chegaria lá. Mata densa no caminho, mas de repente ela se abria — e parecia que você tinha encontrado um mundo secreto. Grama dourada alta, balançando no vento. Pacífico. Isolado. E bem no centro do campo, um único e solitário bordo.

Amávamos aquela árvore. Costumávamos correr umas atrás das outras ao redor do tronco. Era tão grosso que não dávamos conta de abraçá-lo por completo. Geralmente, corríamos em círculos, tentando ver quem conseguia tocar as costas da outra primeiro.

Sempre começava da mesma forma. Cada uma ia para um lado oposto do tronco e contava até cinco. Depois, a perseguição começava. Eu gostava de fechar os olhos enquanto contava. Não era parte das regras — eu só fazia. Dava a sensação de que eu estava cortando o mundo por um momento. Quando os abria de novo no "um", estava concentrada só no jogo.

Naquele dia, assumimos nossas posições como sempre.

— Me avisa quando estiver pronta — eu disse.

— Pronta! — ela gritou do outro lado do tronco.

— Tá — respondi, e olhei para os meus pés. Comecei a contar em voz alta. — Um... dois...

E então — bem antes de dizer "três" — ouvi algo estranho.

Foi breve, sumiu quase tão rápido quanto apareceu. Um som, bem perto. Lembrava o bater de asas gigantescas, ou talvez um lençol estalando em uma rajada forte de vento. Mas era alto. E parecia perto. Pisquei, confuso, e instintivamente olhei para cima — mas só vi o dossel dourado balançando na brisa.

— Maura? O que foi isso? — gritei.

Nenhuma resposta.

Espiei ao redor do tronco, esperando vê-la espiando de volta. Não estava.

Andei ao redor da árvore — uma volta completa — e voltei ao ponto de partida.

Maura tinha sumido.

A princípio, fiquei só confuso. Mas a confusão rapidamente se transformou em pânico.

Girei devagar, escaneando toda a clareira. Nada. Nenhuma Maura. Nenhum movimento. Nenhum galho quebrado. O campo estava exatamente como segundos antes.

Mas quando meus olhos se fixaram na linha das árvores na extremidade oposta da clareira, senti um tipo de medo que ainda luto para explicar. Algo estava errado. Profundamente errado. Algo tinha acontecido que não deveria ter acontecido.

Gritei o nome dela.

Nunca mais ouvi minha voz daquele jeito. Não era um grito — era um uivo primal, cru. O som de algo se quebrando. Gritei de novo e de novo, mas sabia — de algum modo, na parte mais instintiva de mim — que ela não podia me ouvir. Mesmo que eu a tivesse visto momentos antes... ela já tinha ido.

Me lembro do que pensei. Mesmo com nove anos, meu cérebro tentou explicar logicamente. Mas cada teoria afundava sob o peso do que eu sabia: estávamos em um campo cercado por floresta. Do lugar onde estávamos, até um adulto rápido levaria pelo menos 30 segundos para correr da árvore até a mata. Eu tinha tirado os olhos dela por cinco segundos, no máximo. Ela não poderia ter saído correndo. Se alguém a tivesse agarrado e saído correndo, teria que ser mais rápido que um guepardo e mais silencioso que um sussurro. E mesmo assim — ela tinha sumido.

Então, fiquei ali, chorando. Gritando o nome dela. Gritando pelo meu pai.

E então, de repente, algo mudou.

Fui dominado por uma estranha vontade — de não olhar para cima. Não sabia por quê. Só sentia. Uma pressão no peito. Um aperto na garganta. Meu corpo me dizia: *Não olhe para o céu.*

E então me atingiu. Uma presença.

Era invisível, mas pesada. Densa. Opressiva. E irradiava algo que só consegui descrever como ódio. Ódio puro. Deliberado.

Mesmo agora, enquanto escrevo, os pelos da minha nuca se arrepiam. Minhas palmas suam. Porque me lembro vividamente.

Havia olhos em mim.

Não conseguia vê-los — mas sabia que estavam lá. Observando. Estudando. Aproveitando. A presença não estava no chão. Estava acima de mim. Eu estava a uns vinte passos da árvore. Já tinha olhado para cima quando ouvi o som pela primeira vez, e o céu estava vazio.

Mas agora... algo pairava sobre mim. Nenhuma sombra, nenhuma forma, nenhum contorno — mas estava lá. Podia sentir, pressionando para baixo. Parecia inteligente. Parecia ancestral. E queria que eu soubesse que estava lá. Tinha certeza de que estava aproveitando minha dor. Como se se alimentasse dela.

Sabia que estava em perigo. Perigo real. Imediato.

Fiquei paralisado. Não conseguia me mexer, nem gritar mais. Não sei quanto tempo fiquei assim.

E então ouvi a voz do meu pai me chamando. Ele tinha ouvido meus gritos e viera correndo.

Quando me alcançou, desabei nos braços dele, soluçando sem controle.

Depois, apaguei.

Os dias que se seguiram foram como aquele espaço entre sonhar e acordar — nebulosos, silenciosos, irreais.

Meu pai falou com a polícia. Muito. Eles também falaram comigo. Continuavam fazendo as mesmas perguntas, repetidamente.

— Você a viu sair andando? — Ela foi embora com alguém?

Só contei a verdade. Contei minha história.

Uma equipe de busca e resgate saiu naquele dia. Levaram todo o equipamento — cães, veículos, pessoas a pé. Deram aos cães o cheiro das roupas de Maura. Pentearam a floresta, uma e outra vez.

A busca durou dias.

Não encontraram nada. Nenhuma pegada. Nenhuma roupa rasgada. Nenhum objeto abandonado. Nenhum vestígio.

Sumida.

Como um truque de mágica. Puf.

Claro que questionaram todo mundo — qualquer um que estivesse por perto, qualquer um que já tivesse interagido com Maura. Mas não havia suspeitos. Nenhuma pista. Nem mesmo uma sombra de suspeita.

Acho que ninguém nunca realmente acreditou em mim. Porque as pessoas não simplesmente desaparecem.

Nunca contei a eles sobre a presença que senti naquele dia. Mesmo então, sabia que soaria absurdo demais. Eu mal conseguia entender sozinho. Ainda não consigo. Nunca senti nada parecido desde então.

Também nunca mais pus os pés naquela mata.

Por um tempo, me fechei. Fiquei quieto. Retraído.

Cerca de um ano depois, nos mudamos. Meu pai arrumou um novo emprego em Chicago, e acho que a cidade grande foi melhor para mim. Me deu outras coisas em que pensar. Algo mais rápido. Mais barulhento. A vida lá não deixava muito espaço para divagações.

O tempo também ajudou.

Não porque o tempo cura alguma coisa — mas porque o tempo força você a seguir em frente, querendo ou não.

Cresci rápido em Chicago. Eu e meu pai nunca mais falamos realmente sobre o que aconteceu. Ele acreditava em mim? Ele dizia que sim... mas não tenho certeza. Ele me amava. Sei disso. E não acho que ele jamais pensou que eu estivesse mentindo. Talvez achasse que me lembrava errado. Talvez acreditasse que bloqueei o que realmente aconteceu. Se tinha dúvidas, nunca as expressou.

Pelo menos, não para mim.

Agora há uma grande distância entre a pessoa que sou e aquele garotinho que eu era em 1984. E uma distância ainda maior entre Maura e eu.

Penso nela mais do que em qualquer outra coisa. Para onde ela foi? Foi levada? E, pior de tudo — como foi para ela?

Meu coração se parte por ela. E pelos pais dela.

Às vezes, gostaria de poder ver um vídeo do que realmente aconteceu. Como se houvesse uma câmera escondida na árvore que captou tudo. Sonho com isso às vezes. No sonho, vejo o que aconteceu — e é pior do que tudo que imaginei. Mas quando acordo, nunca me lembro do que vi. Só do medo. Só do peso dele.

É como se o que aconteceu fosse estranho demais — errado demais — para a luz do dia.

Enfim, essa é a minha história. Tenho certeza de que, para alguns, soa loucura. Mas se você chegou até aqui, obrigado por ler. Foi bom finalmente colocar isso para fora.

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