quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Neste lugar, qualquer um sem nome é baleado na hora. Eu sou obrigado a fingir que ainda me lembro do meu nome

Eu me lembro de cambalear pela floresta à noite.

Estava de quatro no chão. A pistola tinha caído da minha mão e eu sentia a terra e a neve entre os dedos. Não muito longe, havia uma luz fraca. Eu semicerrava os olhos, tentando focar no chão abaixo de mim.

Naquele momento, ouvi um som.

Um farfalhar e um estalo a pouca distância. Parecia que estava se afastando.

Era impossível focar. Eu não fazia ideia de onde o barulho vinha, pra onde ia ou o que estava causando, mas estava perto.

Meus dedos roçaram num objeto duro de metal. A pistola — eu tinha encontrado. Peguei ela e me levantei. Quando me ergui, a luz já não estava mais visível.

Eu me encolhi de repente.

Um tiro.

Vi um clarão de luz lá longe. Escutei com atenção. Veio outro estrondo, seguido rapidinho por mais quatro em sequência, manchando a cena por instantes com manchas de luz. Depois ouvi outro som, um grito selvagem, desesperado. Ele foi calado poucos momentos depois.

Eu não dava a mínima pro tiro, pro grito ou pros sons sinistros ao meu redor; eu precisava sair daquele frio do caralho. Comecei a andar na direção do grito — na direção do lugar onde a luz agora estava apagada.

Andei e logo me vi na beira de uma clareira. No meio da clareira tinha uma cabana de madeira pequena e decadente. A cabana parecia inclinar pra direita, depois pra esquerda, e ficar em foco e desfocar. Estava ficando difícil permanecer consciente, mas eu precisava continuar andando. Tropecei na porta. Assim que entrei, os sons da floresta cortaram de vez, e eu caí pra frente.

Isso é tudo que me lembro daquela noite. Isso é tudo que me lembro, ponto final; a memória de onde eu estava ou como tinha chegado ali me escapa completamente.

Acordei no chão frio de madeira, de bruços. Meu rosto doía e meus músculos estavam tensos pra caralho. Sentei e olhei ao redor.

A cabana era um único cômodo e uma bagunça completa. Livros velhos, papéis e objetos diversos espalhados por todo lado. Tinha carvão na lareira, parte queimado, o resto jogado no chão da chaminé como se alguém tivesse tentado apagar o fogo às pressas.

Tinha uma mochila encostada na parede ao lado da lareira. Era um modelo padrão verde e marrom, com dezenas de itens variados amarrados nas laterais, coisas grandes demais pra caber direito no compartimento principal: um rolo grande de tecido, uma panela de metal e um machadinho pequeno pendurado atrás. Examinei os itens rapidamente, depois peguei o zíper e abri.

Joguei o conteúdo no chão.

Vi roupas enroladas bem apertadas, sacos e garrafas, latas e pacotes. Nada disso era útil imediatamente; nada me dizia onde eu estava ou quem eu era, porra.

Peguei um bolso menor na parte de fora da mochila. Dentro tinha um livro. Finalmente, pensei, informação.

Tirei o livro e olhei a capa dura de couro.

Alex

Não tinha título, nem datas, e, além do nome na capa, era totalmente sem enfeites. Julgando pelo equipamento de sobrevivência na mochila, quem quer que fosse esse Alex, a situação dele devia ser bem parecida com a minha. Só podia torcer pra que esse livro tivesse informação útil. Abri a primeira página.

“Um sobrevivente sem nome deve ser baleado na hora.”

Era um ponto absurdamente vago, mas fez os pelos da minha nuca arrepiar. Meu nome era a coisa que mais me escapava. Minha vida e minhas experiências eram borrões incompreensíveis de movimento, mas pelo menos eu reconhecia as emoções pelo que eram. Minha identidade, porém, era um vazio completo.

Qual podia ser o propósito daquele aviso? Pensei. Talvez uma pessoa que não dissesse o nome não pudesse ser confiável. Não — não podia ser tão simples assim.

A lista continuava por uma quantidade absurda de páginas, e cada anotação parecia mais louca que a anterior. Em algum momento, parei de ler o caderno de vez e só tentava entender do que se tratava. Os pontos eram todos sobre ficar seguro, não confiar nas pessoas e evitar “infecção”. Alguns eram senso comum, tipo saber onde fica o norte, mas outros eram bem mais estranhos, como só cortar o cabelo ao ar livre e sempre cortar o mais curto possível pra evitar “contaminação”. Meu cabelo estava bem curto, e me perguntei se essa regra tinha sido conhecimento comum pra mim em algum momento. Mas por que eu não lembrava?

Fechei o livro e me encostei pra trás. Olhei pra capa de couro.

Alex. Pensei comigo mesmo. Meu nome é Alex.

Era simples, na verdade; se eu não tivesse nome, ia pegar um pra mim até lembrar o verdadeiro. Alex. Servia tão bem quanto qualquer outro. Aí, se alguém perguntasse meu nome, eu podia dizer, e a regra estaria satisfeita. Qualquer que fosse o motivo da anotação, eu sabia que era importante ter um nome.

“Alex.” Falei em voz alta pra ver o quão natural conseguia soar. “Alex”, repeti. “Qual é o seu nome?”, disse, falando como se fosse pra um estranho. “É Alex.”

Olhei de novo pro caderno. Alex não era meu nome; era o deles — do dono da mochila. Meu nome verdadeiro estava perdido. Seria bom saber qual era, mas pelo menos eu podia me dar um. Podia começar por algum lugar.

Quem quer que fosse o verdadeiro Alex, ele estava morto, e lá estava eu, fuçando as coisas dele e roubando o nome. Disse pra mim mesmo que não importava mais.

Fui assustado de repente.

Uma batida na porta, depois mais três.

Levantei num pulo e corri pra entrada, procurando a pistola que tinha deixado cair na noite anterior. Achei e segurei firme no cabo, mas antes que eu pudesse me levantar, a porta abriu.

“Seu nome, qual é?” Uma voz disse da entrada.

Virei devagar, erguendo os olhos pra ver a mulher na porta. Eu via pelo cano de uma espingarda grande pra caralho. O dedo dela tensionou enquanto eu hesitava em falar.

“Alex!”, disse, “É Alex.”

Vi o aperto dela afrouxar um pouco, e o cano baixou.

“Qual é o seu nome?”, disse, tentando soar natural.

“Anna”, ela respondeu. Passou pela porta com um passo rápido e fechou atrás de si. “Você chegou cedo.”

Ela olhou o cômodo com uma cara de nojo leve, a espingarda ainda solta nos braços, apontando pro chão.

“Por que o fogo apagou?”

Pensei um segundo. “Teve… teve um problema ontem à noite. Fui obrigado a apagar.”, disse.

Ela me deu um olhar de desprezo. “Seu nome bate, então suponho que você seja o Alex que eu devia encontrar. Se não fosse por isso, você estaria morto, mas não pense que eu não vou ficar de olho em você. Temos muito pra conversar.”

No que eu tinha me metido? O que eu devia fazer? Eu não sabia quem era Alex, nem por que Anna esperava encontrar ele. Tinha que fingir.

Andei até onde Anna estava.

“Você já tem acesso à cidade?”, ela disse.

Tinha que me colocar no lugar do Alex, mesmo sem saber quem ele era ou onde ficava a cidade. Pensei na noite anterior — nos tiros, no grito.

“Não… não tenho.”

“Que bom que eu tô aqui, então.”

Não disse nada.

De repente, meu braço tremeu violentamente. Entrei em pânico e segurei com a outra mão pra parar. Minha respiração travou na garganta. Não sabia o que era o tremor, mas o que quer que fosse, Anna já estava desconfiada o suficiente. Olhei pra ela, esperando ver pelo cano da arma de novo.

A espingarda ainda apontava pro chão, e o olhar dela estava fixo na lareira. Ela não tinha visto o movimento repentino.

O tremor — o que tinha sido aquilo?

Anna olhou pro chão por alguns instantes, depois falou. “Vamos pra cidade assim que o sol se pôr. Você teve sorte deles terem decidido te dar acesso, Alex.”

Minha mente focou de novo. Tentei esquecer o tremor.

A cidade? Que cidade?

“É, suponho que sim.”

“A segurança tá bem rigorosa ultimamente; não me surpreende. As taxas de infecção estão subindo”, ela disse.

“Não posso culpar eles”, disse, embora não fizesse ideia do que estava falando.

“É”, Anna disse, “se um deles entrar, acabou tudo. Fico feliz que você entenda.”

Dessa vez, senti vindo antes de acontecer. Outro tremor. Senti subindo pelo pescoço como um inseto. Tive que balançar pra afastar.

Mas se Anna visse, e aí? Não sabia o que era o tremor, mas duvidava que fosse algo bom. Não podia deixar ela ver.

“Vou guardar minhas coisas de volta na mochila”, disse, tentando esconder a ansiedade.

“Claro.”

Assim que me afastei, sacudi a cabeça violentamente pro lado. O tremor forte foi seguido por uma sensação estranha de formigamento na garganta. Ainda bem que Anna não viu.

Antes de começar a juntar os itens da mochila, procurei loucamente o diário. Assim que achei, virei pra página que tinha lido por último.

Como se respondesse minhas dúvidas, a primeira frase da página dizia:

“Qualquer um que faça movimentos repentinos sem explicação deve ser baleado na hora.”

Fiquei com nojo de mim mesmo. O diário… era sobre gente como eu, e quanto mais eu lia, mais óbvio isso ficava.

“Amnésia é sinal certo de infecção.” Dizia a última frase da página.

Eu era o inimigo naquele diário. Mas por quê? Por que eu era perigoso? O livro não explicava nada.

Terminei de arrumar a mochila e me levantei, indo até onde Anna estava.

“Pronto, Alex?”

“Sim.”

“Estou convencida que você não é um deles, então acho que podemos seguir. Vou te dar acesso à cidade, mas você tem que me prometer uma coisa primeiro”, ela disse.

“Claro.”

“Se sentir qualquer sintoma, qualquer um mesmo, mete uma bala na cabeça antes de pôr o pé na cidade.”

Meu corpo tensionou.

“Alex, você tem que entender o que aconteceria se um deles entrasse. A cidade é o único lugar que sobrou; se ela cair, não vai ter mais nenhum lugar no mundo pra se esconder. Você promete?”

Eu não queria morrer. Com certeza tinha outro jeito… tinha que ter.

“Alex? Você ouviu?”

Não… eu não ia desistir. Não podia morrer ainda, não quando meu passado era um borrão de memória. Pelo jeito que eu via, minha vida tinha acabado de começar. Por que tinha que começar nesse pesadelo do caralho?

Antes que eu pudesse falar, ouvimos um barulho do lado de fora da cabana.

Um suspiro repentino, como se alguém tivesse emergido depois de ficar muito tempo debaixo d’água.

Anna correu pra fora antes que eu pudesse processar o que estava acontecendo. Eu a segui rápido.

Demos a volta na cabana até chegar na parede de onde veio o som.

Ali, encostado na parede da cabana, estava um homem coberto de sangue e neve com um rifle no colo. As feridas eram brutais e irregulares. Os olhos arregalados e o rosto pálido. Ele parecia apavorado.

“Que porra…”, Anna sussurrou.

O homem ofegava por ar.

A ficha caiu como um trem.

Os tiros, o grito.

Ele estava vivo.

“Alex, você conhece esse cara? Sabe o que aconteceu?”, Anna virou pra mim.

O homem olhou pra ela, depois devagar virou e olhou pra mim.

“Eu… eu não sei”, disse. “Ele deve ter chegado antes de mim.”

O homem sustentou meu olhar, e tinha algo mais nos olhos dele. Algo inconfundível e inegável. Raiva. Ele sabia.

Esse era Alex — o verdadeiro Alex. Se ele revelasse a verdade, seria o meu fim.

Ele abriu a boca.

“Não…”, ele chiou. “Eu sou…”

“Ele é um deles!”, gritei, abafando as palavras do homem antes que ele revelasse quem era. Eu nem sabia quem eram “eles”; só precisava dizer alguma coisa, qualquer coisa.

O homem ferido não disse nada; só ficou me encarando com os mesmos olhos silenciosos e julgadores. Parecia triste de algum jeito.

Vi ele tensionar o braço em volta do rifle no colo.

Um som ensurdecedor ecoou. Virei o rosto enquanto meus ouvidos zuniam. O barulho me pegou desprevenido, e demorei pra me recuperar.

Quando olhei de novo, a parede atrás do homem estava coberta de sangue fresco.

“Merda, por que ele tinha que tentar pegar o rifle?”, Anna disse. Fumaça saía do cano da espingarda dela. “Mas acho que você tá certo; ele já era carne morta mesmo.”

Meu estômago revirou. A culpa era minha. O verdadeiro Alex estava morto, e lá estava eu com o nome dele e sabendo que, se ele tivesse revelado quem era, Anna teria metido uma bala no meu peito.

Pelo menos o verdadeiro Alex está morto, pensei, e a informação foi com ele.

Mas o homem ainda respirava.

Anna tinha mirado baixo. A barriga dele era uma bagunça, mas ele ainda respirava.

Ele abriu a boca.

“Não… eu sou… Alex…”

Curto, quase inaudível, mas incriminador mesmo assim.

Um momento de silêncio horrível.

Não tinha saída.

“Seu filho da puta!”, Anna gritou.

Assim que vi o cano da espingarda apontado pro meu peito, me abaixei. O tiro ecoou e espalhou estilhaços ao meu redor.

Corri pra trás do canto da cabana e voei pra porta. Precisava pegar minha pistola.

Alex tinha levado um tiro de espingarda na barriga por minha causa, e agora Anna ia fazer o mesmo comigo. Me sentia um merda, mas não tinha tempo pra questionar minha decisão. Invadi pela porta no exato momento em que ouvi outro disparo de espingarda. Vidros explodiram dentro da cabana.

Pulei em direção à mesa onde estava minha pistola, segurando nela enquanto minhas costas batiam no chão.

Anna entrou correndo pela porta e atirou, mas meu corpo já estava no chão, e ela tinha mirado alto demais.

O gatilho não se mexeu quando apertei.

Mesmo sendo minha arma, eu não lembrava como usar.

Anna ajustou a mira. A arma dela clicou, mas nada aconteceu. Ela estava sem munição.

Girei um botão na lateral da minha pistola. Meu dedo estava tão tenso no gatilho que ela disparou imediatamente e sem esperar. Meus ouvidos zuniram, e virei a cabeça do clarão. Mais três tiros saíram, embora eu não tenha olhado pra ver onde acertaram.

Quando a fumaça da pistola baixou, ergui a cabeça.

A porta estava escancarada, e Anna tinha sumido.

Levantei num salto e corri pra porta, mas antes de sair, vi ela.

Anna estava deitada na neve lá fora. A espingarda dela apontava pra mim. Clicava inutilmente de novo e de novo.

Sangue escorria pela boca dela.

Depois de me encarar por alguns instantes, ela largou a espingarda e levou as mãos ao pescoço. Parecia que só um dos meus tiros tinha acertado.

Sangue jorrava entre os dedos dela.

Tropecei pra trás e caí no chão. Não aguentava. O que eu tinha feito? Eu nem entendia o que estava acontecendo — o que eu tinha feito pra merecer isso. Tinha agido por instinto; nunca quis matar ninguém. Disse pra mim mesmo várias vezes que não tive escolha.

Estou escrevendo isso agora nesse diário amaldiçoado — aquele que avisa sobre gente como eu.

Mas talvez eu realmente seja o inimigo. Afinal, eu sou responsável pelos corpos lá fora. Mas que escolha eu tinha? Eu precisava sobreviver.

O verdadeiro Alex está morto, e mesmo não tendo sido eu que apertei o gatilho, o sangue dele está nas minhas mãos. Talvez Anna estivesse certa; ele ia morrer mesmo.

Anna carregava um mapa e, mais importante, um cartão. Acesso aos portões da cidade, diz.

Os tremores pioraram; agora são quase incontroláveis. E tem uma fome crescendo dentro de mim, embora eu não saiba o que é nem o que ela quer. Será essa a infecção que o livro mencionava?

Talvez lá, na cidade, eles possam me ajudar.

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