Afinal, a maioria dos moradores teve destinos horríveis ao fazer isso.
Eu testemunhei algo além de qualquer explicação. E, olha, eu já tinha visto um fantasma quando era criança, então sempre acreditei no paranormal: espíritos, outros planos de existência. Mas nunca tinha acreditado em algo como aquela névoa negra que estava afogando a minha vila. Envenenando meus vizinhos e amigos. Fazendo-os se voltarem uns contra os outros. Pintando seus rostos com veias negras e colocando palavras monstruosas em suas línguas. Eles diziam coisas vis, enquanto se dilaceravam com dedos e dentes.
Mas nós, que conseguimos ficar longe da névoa negra, não éramos tão sortudos quanto imaginávamos.
Fui expulso da minha casa por vizinhos infectados. Eles arrombaram minha porta da frente e gritaram que iriam me despedaçar, me fazendo fugir para a noite, com um xale de inverno amarrado no rosto para evitar inalar aquela substância negra que pairava espessa no ar. Corri pelo meu quintal e contornei a borda do meu bairro até uma rua cheia de névoa e violência. Depois, me atirei em direção ao portão lateral da casa de Harold, ignorando os gritos que vinham da névoa negra, e esbarrei de cabeça na minha vizinha não infectada, Jane, no gramado da frente do velho. Ela tinha tido a mesma ideia que eu.
Veja, o Velho Harold era um conhecido preparador do apocalipse. Ele passou anos equipando o abrigo da Segunda Guerra Mundial dos pais dele, no fundo do seu terreno, e o homem não perdia uma oportunidade de encher o saco dos moradores falando sobre isso. Bem, parecia que alguns vilões tinham prestado atenção no velho ao longo dos anos, porque Jane e eu corremos pelo lado da casa de Harold e encontramos outros dois no jardim, batendo na porta do bunker dele, meio enterrado no chão: Millie, a moça da mercearia, e Ruben, um advogado de família.
Nós quatro estávamos com os rostos cobertos, gritando para o velho nos deixar entrar. Então, veio o rangido do metal e uma voz abafada, e a porta do bunker se abriu, revelando um Harold de cara séria, equipado com máscara de gás e uma roupa de proteção contra materiais perigosos.
— Cala a boca e entra logo, ou eles vão nos encontrar! — ordenou Harold.
Nós quatro nos esprememos pela porta e descemos as escadas até o bunker, enquanto Harold fechava a porta de metal atrás de nós. Lá dentro, não era um abrigo enferrujado e decadente da Segunda Guerra, mas uma fortaleza reformada, com paredes à prova de som, feitas de concreto reforçado com aço. O bunker media dez metros de comprimento e quatro de largura, com um beliche encostado em uma das paredes laterais e prateleiras de suprimentos na outra. Um sofá largo ficava encostado na parede do fundo, e uma mesa de jantar ocupava o centro do cômodo.
— Dois de vocês no beliche. Um no sofá... Alguém vai ter que se contentar com um saco de dormir no chão, e eu vou junto. Tenho suprimentos de sobra, mas com cinco pessoas aqui dentro, pode ficar apertado — disse Harold. — Da última vez, a névoa levou três semanas para passar.
— Última vez? — Ruben respondeu.
Harold assentiu.
— Sim. A cada vinte anos, um arco-íris morto paira sobre a costa, trazendo chuva negra e o pior de cada um.
— Como você sabe de tudo isso? — perguntei.
Ele baixou a cabeça, envergonhado.
— Porque morei lá a maior parte da minha vida. Vi isso acontecer duas vezes naquela cidade, mas eu... Eu fugi na terceira vez. Na última vez. Eu fugi para cá.
— Não fugiu muito longe, né? — Ruben zombou.
Harold balançou a cabeça.
— Acho que sempre quis manter meu antigo território por perto. Aquela cidade é um lugar especial. Claro, essa vila aqui é idílica o suficiente, mas vocês não entendem. Minha antiga casa era — é — um paraíso. O preço de vinte em vinte anos é pequeno. Os mais velhos por aqui entendem isso. A maioria foge quando sente a tempestade se aproximando.
— Não foi paraíso o suficiente para você ficar, foi? — disse Ruben. — E eu não chamaria isso de "preço pequeno". Eu vi... Eu vi a Sra. Craw comer o rosto do Sr. Craw.
Harold assentiu, solene.
— Bem, vocês estão seguros agora. Venham. Sentem à mesa. Vamos comer bem hoje à noite, e amanhã começamos a racionar.
— Três semanas aqui embaixo... — engoliu em seco Millie. — Talvez a gente devesse tentar pegar um dos nossos carros? Sair dirigindo da vila?
— Tem demais daqueles filhos da puta lá fora — disse Ruben.
Harold assentiu.
— E vocês teriam que dirigir três milhas para sair dessa zona. Mas quem sabe? Vocês são livres para tentar. A porta está ali.
— Vamos nos reorganizar - sugeriu Ruben. — Comer, dormir, e decidir o que fazer de manhã. Eu voto para ficar até a névoa passar, mas... quem sabe? Talvez amanhã tenha uma brecha para escaparmos.
— Talvez — disse Harold, mas era um "talvez" de velho; daquele tipo que diz: Eu estou aqui há mais tempo que vocês e sei melhor.
O preparador do apocalipse acendeu uma vela alta no centro da mesa, depois pegou lentilhas e arroz enlatados. O velho distribuiu para cada um de nós à mesa e se desculpou por não ter pratos, já que o espaço no bunker era limitado. Nenhum de nós reclamou — pelo menos não em voz alta. Tínhamos comida na barriga. Tínhamos abrigo contra os horrors dos vilões brigando lá em cima. Éramos sortudos. Mas algo não estava certo.
Eu só não sabia o quê.
Sabia apenas que minha cabeça latejava, e meus olhos não paravam de ser atraídos para a entrada do bunker, no topo da escada íngreme. Naquele espaço apertado, iluminado apenas por uma lâmpada balançando acima de nossas cabeças, tudo parecia preto e sombrio; mas a barreira entre nós e o mundo exterior parecia a coisa mais negra de todas. Uma escuridão dolorosa de se encarar, mas eu não desviava o olhar.
Não sei quanto tempo fiquei olhando fixamente para aquela porta, mas voltei a prestar atenção na conversa quando uma discussão começou.
— .. só pessoas ruins — Ruben terminou. — Elas já eram ruins antes dessa névoa negra infectá-las.
— Não seja tão cruel — argumentou Millie. — Nós seríamos iguais a elas se tivéssemos inalado.
— Não, não seríamos — disse Ruben. — Nós somos pessoas boas. Com moral. Com decência. Os Craws eram uns bigodudos. Fascistas. Coisas feias saíam da boca deles muito antes da chuva, da névoa ou do vapor colocar palavras feias na boca deles.
— Tá, mas... eles ainda são pessoas! — protestou Millie.
— Não mais — interrompeu Harold. — Escuta, docinho...
— Não me chame de "docinho" — bufou ela.
Harold revirou os olhos.
— Millie, se você quiser tentar fugir amanhã, não vou te impedir. Talvez a luz do dia facilite a fuga. Talvez não. A chuva negra encobre o céu a qualquer hora, pelo que me lembro. Mas se você sair lá amanhã, vai ter que entender que aquelas coisas não são mais seus vizinhos ou amigos. Não são mais as pessoas que você conhecia. Elas estão possuídas.
Aí as coisas ficaram ainda mais estranhas.
— Terroristas? — perguntou Millie, com os olhos inchados e a voz embargada, como se algo estivesse preso na garganta.
Harold franziu a testa.
— O quê? Não... Acho que você ouviu errado...
— Seu velho bastardo! — rosnou Millie, parecendo transformada. — Não me importa se as coisas eram diferentes na sua época. Não tem necessidade de chamar nossos vizinhos de "terroristas". Não tem necessidade de trazer raça para isso. Os Craws são pessoas boas. A cor da pele deles não importa.
Fiquei tão confuso. Harold e eu trocamos um olhar preocupado, mas Jane e Ruben pareciam indiferentes àquela estranha incompreensão entre o velho e a jovem atendente. Eles estavam comendo suas lentilhas e arroz, com os olhos baixos. Havia uma pancada atrás dos meus olhos, como se alguém estivesse tentando esculpir minha testa, e meu foco não parava de voltar para a porta escura do bunker, profundamente enterrada nas sombras.
— Millie — comecei, — **Harold não disse o que você acha que ele disse... Você está se sentindo bem?
Harold balançou a cabeça para mim, como se dissesse para não me dar ao trabalho, e então se levantou da cadeira.
— Acho que vou para a cama, Eric. As tensões estão altas hoje. Nós não estamos em nosso juízo perfeito.
O velho se afastou para o canto do cômodo, provavelmente para pegar seu saco de dormir.
Juízo perfeito.
Aquelas palavras ecoaram na minha mente, que não estava nada perfeita.
— Você deveria deixar Harold em paz — disse Ruben, levantando os olhos da comida e fitando Millie. — O velho nos salvou, sua ingrata vaca.
Levantei as mãos, que pareciam fracas e moles, mesmo com uma refeição quase completa no estômago.
— Calma, Ruben.
Millie arfou.
— O que você acabou de me chamar?
— Nada tão terrível quanto o que você chamou Harold — cuspiu Ruben. — A família dele morreu no Holocausto, e você vai usar termos preconceituosos assim?
Termos preconceituosos? Franzi a testa. Millie não tinha dito nem insinuado nada do tipo. O que está acontecendo?
Mais marteladas atrás da minha testa. E os recantos sombrios do bunker pareciam mais profundos, mais escuros e mais longos a cada segundo. Tentáculos de sombra rastejavam pelo teto como trepadeiras em uma treliça, alcançando a lâmpada no centro.
Minha cabeça não estava funcionando. Doía demais.
Errado. Era tudo o que eu conseguia pensar. Isso está errado.
Millie fugiu da mesa em lágrimas, quebrada com facilidade por Ruben, e a jovem atendente se esgueirou para o beliche de cima, no lado do cômodo.
— Isso é típico de você — disse Jane, com desdém para Ruben.
Tentei olhá-la, mas meus olhos estavam cheios de lágrimas, e o cômodo estava embaçado.
— O que é típico de mim? — ele perguntou.
— Fazer sinal de virtude — respondeu ela. — Fingir que se importa com Harold e a herança da família dele. Tudo o que você realmente quer é derrubar Millie. Derrubar uma jovem, seu porco machista.
Ruben revirou os olhos vermelhos.
— Não tem nada a ver com o gênero dela. Ela é só uma idiota. Uma idiota preconceituosa.
— E você também é — sibilou Jane. — Um bastardo que odeia mulheres. Espero que você morra sozinho e infeliz, seu filho da puta.
— Seja como for — resmungou Ruben, levantando-se. — Vou dormir.
Então, só Jane e eu ficamos à mesa.
Eu não queria fazer isso. Não queria fazer o que os outros tinham feito. Mas enquanto enxugava as lágrimas dos olhos e piscava, tentando enxergar claramente naquele abrigo sombrio, me virei para encarar minha vizinha. Minha amiga.
— Jane — disse eu, — por quê? Não esperava isso de você.
Ela me encarou com raiva, os olhos vermelhos e o rosto pálido.
— Ah. Defendendo seu colega, é? Faz parte do clube dos meninos, hein?
— Não — ofeguei, sentindo falta de ar. — Eu... Eu não consigo...
— Não consegue o quê? — murmurou Jane, com uma voz nova; sussurrante, leve, e não totalmente presente.
Esfreguei os olhos com força com a manga, e quando os abri, a lâmpada pendurada parecia cegantemente brilhante por um momento.
Aí eu vi tudo.
Claramente.
Gritei ao ver a cena ao redor da mesa de jantar. Nenhum dos convidados tinha ido para a cama. Harold, Millie e Ruben ainda estavam sentados em seus lugares. Mas não se mexiam. Não respiravam. Eram cadáveres nus sentados com as cabeças jogadas para trás nos encostos, e a pele que vestiam, do pescoço para baixo, não era deles; a carne esfolada de Millie cobria o corpo esfolado de Ruben, e a carne enrugada e esfolada do Velho Harold cobria o corpo esfolado de Millie. Cada cadáver estava envolto em pele que não lhe pertencia.
Harold era diferente. Ele tinha sido a primeira vítima na cadeia, então não usava carne no corpo mutilado abaixo da garganta; em vez disso, uma camada amarelada de hipoderme estava exposta.
Pior ainda, e de forma impossível, ele ainda estava vivo.
— Frio... — ele ofegou para mim, os olhos injetados de sangue cravados nos meus, enquanto massageava sua carne esfolada com mãos desprovidas de pele.
Lembrei-me da verdade. Harold tinha sido dilacerado por Millie. Millie tinha sido dilacerada por Ruben. Ruben tinha sido dilacerado por Jane. E eu deveria dilacerar Jane. Sentia o chamado para fazer isso. Sentia algo rastejando na minha mente. Nós não estávamos infectados pela névoa negra nas veias, mas isso não significava que estávamos em nosso juízo perfeito, como Harold tinha dito.
Entendi o que meu subconsciente tentava me dizer.
Havia algo no bunker conosco.
Algo no canto do cômodo.
Eu podia vê-lo dançando ao redor do contorno do corpo de Jane, como se a manipulasse das sombras. Manipulando-a de qualquer dimensão de onde viesse. Enquanto Jane me olhava friamente e sem ver, eu sabia que ela não estava por trás daqueles olhos; e também sabia que não havia como se esconder do arco-íris morto ou de sua névoa negra. Pessoa boa. Pessoa ruim. Não importava. Ele tinha vindo por todos nós.
— Acho que, se você não quer me vestir — sussurrou Jane, com uma voz quebrada, enquanto se levantava trêmula, — então vou ter que vestir você, Eric. E aí vem o banquete.
As mãos dela foram rápidas, arranhando meu rosto como se fosse um animal. Gritei de agonia enquanto as unhas dela lascavam meu rosto, me marcando, e me joguei para trás, aterrorizado, com os braços se debatendo; e, com isso, derrubei a vela. Aquela vela alta, com seu pavio comprido. Ela fez um trabalho rápido em incendiar a mesa, os beliches e o sofá.
Um trabalho rápido demais.
Um trabalho antinatural, como tudo o mais. O fogo se espalhou tão rápido quanto a névoa antinatural pela nossa cidade e a sombra negra pelo nosso bunker. Não havia lógica nem razão para as chamas. Mas eu era grato por isso. Grato enquanto Jane e Harold eram consumidos pelas chamas, apesar de nenhum dos dois soltar gritos de dor. Eles iriam morrer, e eu estaria seguro. Era tudo o que eu pensava enquanto cambaleava para trás pelo bunker.
Millie e Ruben já estavam mortos há muito tempo, é claro, mas as chamas os assavam do mesmo jeito. E enquanto eu subia as escadas, com medo de desviar o olhar da forma possuída da minha ex-amiga, houve um último espetáculo aterrorizante. Jane e Harold ainda estavam, impossivelmente, vivos; e ela estava arrancando tiras de sua própria carne queimada do corpo, antes de envolvê-las ao redor da forma carbonizada e sem carne do velho.
— Obrigado — ouvi Harold sussurrar enquanto eu abria a porta do bunker.
O homem em chamas agradecia à garota em chamas por cobri-lo com a própria carne, enquanto os dois queimavam vivos.
Corri para o jardim, voltando para uma noite de névoa negra, derramamento de sangue e gritos. É um milagre não ter inalado nenhuma daquela névoa, e um milagre ainda maior ter escapado do bunker em chamas antes que a coisa lá dentro conseguisse rastejar para a minha mente. Pelo menos, é o que eu digo a mim mesmo. Eu saí a tempo.
Mas, na verdade, não me lembro do mês seguinte. Não me lembro do que fiz enquanto esperava a névoa negra do arco-íris morto passar. Gosto de imaginar que me escondi dos monstros lá fora. Me escondi dos escombros em chamas do bunker no fundo do jardim, que só apagou completamente dois dias depois. Outra impossibilidade. A única memória que tenho é de medo quando as chamas se apagaram de vez, porque isso mergulhou o mundo exterior na escuridão total. Não havia mais nada para ver pelas janelas de Harold. Só preto e mais preto.
Há um vazio na minha memória. Acordei no chão do banheiro de Harold em janeiro de 2024, com a luz do sol entrando pela janela. A névoa negra tinha desaparecido, e não havia cadáveres nas ruas. Sinais de propriedade destruída, mas nenhum derramamento de sangue. Os poucos vilões que sobreviveram me disseram que tinham visto os monstros se transformarem em vapor e transcendarem para o céu, talvez se preparando para voltar daqui a vinte anos.
Mas a nossa vila não voltou a ser idílica nesse meio tempo. Talvez a antiga cidade litorânea de Harold seja diferente, mas duvido. Não existe coisa como "utopia". Não há alegria a ser encontrada nos períodos silenciosos entre os horrors. Não existe esquecimento. Não de verdade.
Eu sei que, como eu, os outros vilões sobreviventes estão simplesmente escolhendo não se lembrar.
Estamos escolhendo acreditar que não nos tornamos monstros também, por semanas a fio. Mas nos tornamos. Eu sei que nos tornamos. Não nos infectamos e desaparecemos no céu com o resto dos monstros vaporizados, mas nos tornamos monstruosos do mesmo jeito; controlados por qualquer escuridão que eu vi lá naquele bunker. Qualquer escuridão que se esgueirou pelas frestas da porta reforçada e se escondeu nas sombras entre nós, nos levando a nos dilacerar uns aos outros.
Os outros vilões terão histórias como a minha. Histórias de algo que roubou seus corpos para cometer atrocidades terríveis e aterrorizantes até que a névoa negra finalmente se dissipasse. Veja, o que eu mais tento esquecer, acima de tudo, é o banheiro de Harold.
Acordei no chão, rodeado por sangue, sujeira e tiras de carne. Algumas daquelas imundícies estavam nas minhas roupas e debaixo das minhas unhas.
Nada daquilo era meu.


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