sábado, 3 de janeiro de 2026

Ninguém se lembra do meu vizinho, mas eu o vi há apenas uma semana

Não sei com quem mais falar sobre isso. Acho que só preciso falar com alguém que… não more aqui.

Tudo isso começou algumas semanas atrás. A Vigilância do Bairro da minha região sempre foi mais uma piada do que qualquer outra coisa. É um subúrbio tranquilo, então, tirando o avistamento ocasional de um coiote, não costuma haver muito motivo para alarme. Mesmo assim, isso faz os moradores mais velhos se sentirem mais seguros e dá aos caras da vigilância uma sensação de propósito.

Sempre que vemos o pessoal da Vigilância por aí, oferecemos uma bebida gelada ou talvez um lanche, conversamos sobre a vida; é um bairro bem unido, então tentamos cuidar uns dos outros. Eles são, em sua maioria, aposentados; um deles já fez parte da polícia aqui da cidade, e isso o conforta, faz com que ele sinta que ainda está cumprindo seu papel de manter o bairro seguro. O nome dele é Jim. Os outros são Donny, Carl e Deon. Donny monta aviões em miniatura no tempo livre, Deon tem cinco netos e trabalhava nos correios, e Carl é um teórico da conspiração. Você acaba sabendo dessas coisas quando vive numa comunidade tão próxima assim. Todo mundo aqui se conhece. É isso que torna tudo isso tão estranho.

Cerca de três semanas atrás, a Vigilância do Bairro recebeu uma chamada de uma família quieta que morava uma ou duas ruas depois da minha, reclamando de barulhos estranhos vindos de fora da casa deles. Eu estava do lado de fora fumando um cigarro quando vi Donny passando apressado no carrinho de golfe dele, com um senso de urgência que eu raramente vejo por aqui. Perguntei qual era o problema, e ele me disse que os Millers tinham ligado, parecendo um pouco em pânico. Os Millers quase sempre ficavam na deles, então me surpreendeu saber que tinham recorrido à vigilância do bairro por causa disso. Ele seguiu com o trabalho dele, e eu apaguei o cigarro e fui dormir.

No dia seguinte, vi Donny fazendo a ronda perto do pequeno parque do bairro enquanto eu voltava das compras do mercado. A curiosidade falou mais alto, então encostei o carro para perguntar sobre o que tinha acontecido.

— Ei, Donny! — acenei pela janela, e ele acenou de volta, todo animado. — Vocês encontraram alguma coisa na casa dos Millers ontem à noite?

O sorriso de Donny desapareceu, dando lugar a um olhar vazio, com as sobrancelhas franzidas de confusão.

— Como é que é, Adam?

— Você estava investigando uma reclamação de barulho na casa dos Millers ontem à noite, lembra? — eu ri meio sem jeito, sem esperar aquela reação.

— Quem diabos são os Millers? — ele riu também, como se estivesse de fora de alguma piada.

Eu pausei, me perguntando se as faculdades mentais de Donny não estariam começando a se deteriorar com a idade. Aquilo seria devastador.

— Os Millers. Você sabe, a família da casa de esquina na Carmen Ave?

Ele me encarou por um longo momento, com uma expressão que dava a entender que ele achava que era eu quem estava perdendo a cabeça.

— Adam, aquela casa está vazia. Ninguém mora lá.

Abri a boca e depois fechei. Eu não sabia bem como interpretar o que estava acontecendo naquela conversa, mas não parecia que ela ia chegar a algum lugar produtivo.

— Ok, Donny, talvez eu tenha me confundido. Obrigado por cuidar do bairro!

Subi o vidro e comecei a dirigir para casa, mas havia um peso no meu estômago que não estava ali antes. Eu não conseguia identificar exatamente o porquê, mas algo na certeza dele parecia errado. Desconfortável. Passei direto pela minha garagem e fui direto até a casa de esquina na Carmen Ave. Não havia nenhum carro estacionado do lado de fora, como geralmente havia. Caminhei até a porta e toquei a campainha, ensaiando desculpas inventadas na minha cabeça para justificar estar ali.

Ninguém atendeu. Esperei um pouco e toquei de novo. Talvez eles só não estivessem em casa, isso explicaria a ausência do carro. Suspirei, balancei a cabeça diante da minha própria paranoia e voltei para casa.

Quando minha namorada chegou do trabalho, decidi falar com ela sobre isso.

— Laura, a coisa mais estranha acabou de acontecer. Lembra que eu te contei que o Donny ia dar uma olhada na casa dos Millers ontem à noite?

Ela me olhou como se eu tivesse acabado de acusá-la de adultério.

— Quem são os Millers?

Pisquiei.

— Os Millers, Laura, com os três filhos pequenos. Eles moram no terreno de esquina, uma rua depois da nossa. Eles trouxeram pão de banana pra gente no Natal uma vez.

Ela me encarava horrorizada.

— Do que você está falando? Isso é alguma piada com pegadinha? Ninguém nunca trouxe pão de banana pra gente no Natal e ninguém mora naquela casa.

Eu murchei um pouco. Ela começou a guardar as coisas, mas com uma expressão de quem estava tão confusa quanto eu.

Ao longo da semana seguinte, perguntei a mais algumas pessoas sobre isso, mas todas concordaram que nunca existiu uma família chamada Miller morando naquela casa. Na verdade, elas nem conseguiam se lembrar da última vez que aquela casa tinha sido ocupada. Comecei a me perguntar se eu tinha imaginado tudo, se tinha imaginado Donny falando sobre ir lá naquela noite. Caí num buraco de pesquisa na internet sobre o Efeito Mandela. Dormi muito mal por alguns dias, mas acabei jogando tudo na conta de “só uma dessas coisas estranhas” pela minha própria sanidade e tentei seguir em frente.

Consegui me sustentar nessa explicação por cerca de uma semana. Uma noite, minha namorada chegou tarde do trabalho com uma expressão claramente preocupada. Perguntei o que tinha acontecido, e ela comentou que tinha encontrado Deon no caminho para casa; ele estava indo às pressas para a casa do Alex e da Tanya, depois que eles relataram barulhos estranhos do lado de fora da casa deles. Eu percebi que ela estava perturbada.

— Adam, você não disse que o Donny te contou a mesma coisa sobre alguma outra família na semana passada? Os Miltons ou algo assim? — ela perguntou, incrédula, mas desconfortável com a familiaridade da situação.

— Os Millers — suspirei. — Só que ele não se lembra de isso ter acontecido, e todo mundo está me dizendo que os Millers não existem.

Os lábios dela se apertaram.

— Eu nunca vi uma família naquela casa e não conheço ninguém chamado Miller, mas é estranho… é estranho que eu tenha acabado de ter praticamente a mesma conversa com o Deon. — Ela engoliu em seco. — Você acha que talvez tenha sonhado com isso? Talvez tenha sido uma… uma, sei lá… premonição?

— Eu estava completamente acordado, Laura — minha voz quase falhou, derrotada por ela ainda questionar o que eu vivi naquela noite. — Não foi um sonho, mas eu… eu não sei o que foi. Eu sou a única pessoa que acha que isso aconteceu.

Minha mente começou a correr. Alex era um grande amigo meu. A gente fazia trilhas juntos e sempre ia ao bar assistir futebol durante os playoffs. Laura adorava a Tanya; elas trocavam receitas e serviam de cobaias uma para a outra quando testavam algo novo. Também trocavam recomendações de livros; Laura estava lendo, naquele momento, um livro que a Tanya tinha emprestado a ela alguns dias antes, quando nos convidaram para jantar. Eu não conseguia afastar essa paranoia crescente de que algo ruim ia acontecer com eles.

— Será que a gente não devia ir lá ver se está tudo bem? Só por garantia? — perguntei, sabendo como aquilo soava.

— Tenho certeza de que o Deon dá conta; ele é durão pra caralho — ela respondeu, mas com uma preocupação distante na voz. — Vamos ligar pra eles amanhã, só pra ter certeza de que está tudo bem.

Ela me deu um beijo no rosto e começou a se arrumar para dormir. Eu fiquei um tempo sentado na cozinha, digerindo tudo o que estava passando pela minha cabeça. Quando subi, ela tinha adormecido lendo o livro que pegou emprestado da Tanya. Coloquei-o com cuidado na mesa de cabeceira e me enfiei na cama. Foi mais uma noite inquieta.

No dia seguinte, tudo parecia normal. Nós dois estávamos de folga, então fiz um café da manhã tardio e cantei músicas idiotas, inventadas na hora, para o nosso gato enquanto cozinhava. Laura me aguenta bem demais. Depois de panquecas meio queimadas e ovos com a gema mole, fiz a pergunta sem pensar muito.

— Vou ligar pro Alex. Você quer ligar pra Tanya também, só pra garantir?

Ela me lançou aquele olhar de novo, como se eu tivesse crescido três cabeças a mais.

— Quem é a Tanya?

Eu fiquei realmente puto, mas tentei me controlar.

— Não fode comigo assim, Laura, isso não tem graça.

Ela ficou visivelmente abalada. Estava chocada com a minha linguagem, mas ao mesmo tempo parecia tentar resolver uma equação invisível na cabeça.

— Desculpa, o quê? — ela quase engasgou. O rosto dela estava sério. Laura sempre teve uma péssima cara de pôquer, e eu comecei a me preocupar que ela não estivesse brincando comigo. De algum jeito, isso era ainda pior.

— A gente viu eles dois dias atrás — eu gaguejei, incrédulo.

— Adam, isso não é engraçado — ela respondeu, aflita. As posições tinham se invertido. Agora nós dois estávamos igualmente descrentes um do outro.

Olhei para o livro que ela tinha trazido do quarto para ler enquanto eu cozinhava.

— Se você não conhece a Tanya, então de onde veio esse livro? — perguntei, apontando para ele de um jeito agressivo demais.

Os olhos dela percorreram a capa, e a boca ficou levemente aberta. Ela estreitou os olhos. Inclinou a cabeça.

— Eu não lembro — murmurou, claramente perturbada. — Talvez eu sempre tenha tido esse livro.

Dava pra ver que ela mesma não acreditava muito nisso e que também estava questionando a realidade naquele momento. Decidi deixar pra lá por enquanto e testar o resto do bairro. Uma vez podia ser “só uma dessas coisas estranhas”, mas duas vezes em poucas semanas era algo que eu não conseguia engolir.

Vesti o casaco e saí de casa, parando cada pessoa que via na rua para perguntar sobre Alex e Tanya. Todas diziam a mesma coisa. Não sabiam quem eram e ninguém morava naquela casa. Aquilo estava me enlouquecendo. Eu me sentia completamente fora de mim.

Fui até a casa do Alex e da Tanya, e o carro deles não estava lá. Bati na porta. Ninguém atendeu. Fiquei batendo de tempos em tempos por uns 20 minutos, como se eles fossem aparecer magicamente e abrir a porta. Não apareceram.

Pulei a cerca e entrei no quintal dos fundos. O triciclo do filho deles ainda estava estacionado perto da porta de trás. Aquilo me deixou, ao mesmo tempo, aliviado e horrorizado. Olhei pelas janelas e, tirando isso, a casa parecia abandonada. Passei cerca de uma hora andando pela propriedade, procurando qualquer prova de que eles tinham existido, mas tudo o que encontrei foi o triciclo. Invadir o quintal já tinha sido demais. Esse bairro fala. Eu nunca mais ouviria o fim disso se arrombasse a casa. Eu ainda não tinha certeza absoluta de que aquilo não estava só na minha cabeça, então fui embora e comecei a bater de porta em porta, perguntando às pessoas. Todo mundo me olhava como se eu fosse louco. Fiquei nisso por várias horas.

No começo, eu estava desnorteado. Isso é pouco. Eu estava furioso. Ficava repetindo para todos que tinha visto Alex dois dias antes, e eles só me encaravam com aquele olhar de quem acha que você perdeu completamente a sanidade. Aos poucos, comecei a me desgastar. Parei de tentar convencer as pessoas. Apenas agradecia pelo tempo delas e seguia em frente. A fúria foi lentamente dando lugar a uma tristeza e um luto esmagadores. Eu amava o Alex, e o mundo parecia simplesmente tê-lo apagado da existência, como se fosse um erro de digitação. Talvez eu nunca mais o visse. Como eu poderia entrar naquele bar durante os playoffs num mundo que nem se lembra de que ele existiu?

Quando o sol começou a se pôr, passei pelo pequeno escritório onde a Vigilância do Bairro se reúne todas as noites entre as rondas. Perguntei se eles tinham algum registro de eventos do bairro e fiquei desanimado ao descobrir que não mantinham nenhum, já que quase nunca acontecia nada. Perguntei sobre Alex e Tanya por hábito, mas já não fiquei surpreso quando disseram que não sabiam quem eram e que ninguém morava naquela casa.

Insisti em entrar para a Vigilância do Bairro. E se isso acontecesse de novo? Eu precisava saber o que estava acontecendo. Alguém que soubesse que isso estava acontecendo tinha que estar disponível para investigar, e parecia que eu era a única pessoa. Eles ficaram surpresos, mas dava pra ver que aquilo significava muito pra mim, e eles são caras legais, então me deram um colete e não questionaram demais.

Estou nisso há cerca de uma semana, e nada de mais aconteceu até literalmente agora há pouco. Recebemos uma ligação da Laura dizendo que há barulhos estranhos vindo do lado de fora da casa. Estou a caminho agora mesmo, apavorado com o que posso encontrar, mas ainda mais apavorado com a possibilidade de amanhã eu ter que continuar vivendo em um mundo que não acredita que Laura jamais existiu. Eu não sei se é preciso estar em casa para ser afetado por isso. Talvez eu nem esteja aqui amanhã. Isso talvez fosse até melhor. Se eu tiver sorte, talvez consiga descobrir o que está causando isso e acabar com tudo. Desejem-me sorte. Espero que todos vocês se lembrem disso amanhã.

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