sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Meu Melhor Amigo Está Morto

Eu venho lutando com isso há um tempo. Tenho certeza de que ninguém mais pode fazer nada para me ajudar, pelo menos não até eu estar pronto para me ajudar sozinho, mas eu precisava tirar tudo isso do peito. E agora eu não tenho mais ninguém com quem conversar. Só o meu computador.

Nunca fui uma pessoa sociável, nem mesmo quando era bem novo, mas finalmente consegui fazer um amigo. As coisas foram boas por um tempo. Ele era alegre e gentil; uma presença incansavelmente otimista que rompia o zumbido aparentemente infinito de melancolia que eu aprendi a conhecer. Nunca tinha convidado outra pessoa para entrar na minha casa antes, mas ele vinha me visitar com frequência, especialmente quando eu passava por crises de desespero que me mantinham trancado em casa por dias seguidos.

Não sei direito como ele morreu. Nem lembro quem me contou, mas ele se foi. Mesmo se ninguém tivesse me avisado, eu teria percebido. Minha campainha não toca há semanas. Os óculos dele ainda estão no parapeito da janela da última vez que ele veio aqui. Ele sempre foi tão distraído, e eu vivia reclamando disso. Agora, eu queria que ele tivesse esquecido mais coisas aqui.

Não saí de casa desde que soube. A porta da frente simplesmente parece intimidante demais pra mim. Talvez porque eu fique esperando que ele apareça na varanda e diga que foi tudo um engano. Ainda estou esperando que ele venha me tirar dessa tristeza, mesmo sabendo que não vai. Pelo menos, não do jeito que eu queria.

Eu tentei de verdade lembrar de tudo que ele me dizia. Mesmo nunca tendo visto nenhuma prova de vida após a morte ou de mortos interagindo com os vivos, eu ficava procurando pequenos sinais; tipo quando acordei com a luz do sol batendo na janela de um jeito perfeito que jogou um arco-íris pequeno no meu rosto.

Mas não parou nos detalhes pequenos assim. E nem todos são tão doces ou reconfortantes. Toda vez que ele vinha aqui, eu servia o mesmo chá na mesma caneca pra ele. Um dia eu fiz aquele chá, mesmo nunca tendo gostado dele. Não consegui mexer na caneca dele. Mas enquanto eu estava de costas pro armário, que eu tinha certeza de que tinha fechado, a caneca se jogou sozinha da prateleira e se espatifou no chão.

Fiquei horas parado ali olhando praquilo, como se meu coração tivesse se espalhado pelo azulejo no lugar do cerâmico desbotado com arco-íris. Pedi uma nova pela internet. Eu precisava substituir ou seria o mesmo que admitir que ele não ia voltar. Essa também caiu do armário, e a terceira também. Desmontei o armário inteiro tentando descobrir por que elas escorregavam, mas nunca entendi. Nenhum outro prato meu quebrou.

Eu tinha pegado no sono no chaise longue da sala de visitas menor e acordei com a televisão ligando de repente no volume máximo, tocando a música tema do desenho favorito dele. Mas enquanto eu ficava ali sentado, respirando em golfadas curtas e rápidas, algo deu errado. A imagem se dissolveu em blocos caóticos de cor borrados na tela e o áudio virou um chiado mecânico misturado com gritos. Não respondia ao controle remoto nem aos botões, então tive que desligar da tomada.

As coisas foram piorando até eu começar a ouvir a voz dele em cômodos vazios e ver vultos de roupa colorida pelo canto do olho. A presença dele não é nada reconfortante. Ele parece agitado e frustrado. Parece que está preso nessa casa comigo. E eu o conheço. Se não existir outro plano pra alma dele e os mortos ainda andarem pela Terra, ele preferiria muito mais vagar pelo mundo do que ficar parado num lugar só, mesmo que fosse com um amigo. Tenho medo de que minha fixação nele esteja mantendo ele preso aqui.

Por algum motivo, a atividade dele é mais forte no quarto do computador. Acho que deve ser porque passávamos muito tempo ali juntos quando ele era vivo. Ele jogava videogame enquanto eu escrevia meus romances. Às vezes jogávamos juntos.

Ele gostava dos consoles retrô que eu tenho, especialmente o Atari que está ligado num monitor CRT no fundo do quarto. Ele ainda senta na frente daquele computador antigo, olhando direto pra frente sem se mexer. Eu sei porque vejo ele no reflexo do vidro. Ele parece tão triste e eu queria poder ajudar.

O Atari liga sozinho em horários aleatórios, o computador também, e a tela plana na outra parede. Não preciso estar lá pra ele ligar. Imagino que ele esteja entediado, querendo jogar os jogos favoritos dele, mas parece que não consegue. Ele só liga. Ou só senta e chora. Nunca vi ele chorar em vida.

Eu quero ir embora. Quero deixar ele ir. Mas simplesmente não consigo. Em vez disso, todo dia eu sento na frente daquele monitor antigo e grosso, olhando praquela imensidão cinza-escura e vendo ele onde deveria estar o meu reflexo.

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