segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Dormi na Entrada de uma Estação de Metrô. Eu Não Devia Ter Ficado...

Eu não devia ter passado a noite ali, mas Nova York engana a gente quando o sol se põe. As luzes, o barulho que nunca para, a falsa sensação de que você nunca está completamente sozinho. Pensei que, se encontrasse um canto protegido do vento, conseguiria aguentar até o amanhecer sem maiores problemas.

Eu não era um sem-teto. Ficava repetindo isso pra mim mesmo enquanto caminhava com a mochila nas costas. Eu tinha estudo, já tinha trabalhado, inclusive tinha passagem de ônibus comprada pro dia seguinte. Dormir na rua era uma decisão pontual, uma noite ruim numa vida que ainda dava pra consertar. Pelo menos era o que eu acreditava na época.

Escolhi a entrada lateral de uma estação de metrô fechada, uma daquelas que estão interditadas há anos por causa de uma obra que nunca avança. O vidro estava coberto de poeira e cartazes velhos, e a escada descia uns poucos metros antes de ser bloqueada por um portão gradeado. Ali o vento batia menos forte.

Encontrei várias caixas de papelão secas encostadas na parede, empilhadas em camadas. Não estavam jogadas de qualquer jeito. Alguém tinha arrumado com cuidado pra formar uma superfície mais ou menos uniforme. Hesitei por alguns segundos, mas o frio já estava anestesiando meus dedos e o orgulho sempre perde quando o corpo começa a fraquejar.

Estendi meu saco de dormir por cima, tirei as botas e as coloquei dentro da mochila pra não endurecerem, e entrei sem tirar a roupa. O chão ainda transmitia o frio acumulado durante o dia inteiro, que subia devagar pelas minhas costas e se instalava nos ossos. Desliguei o celular pra economizar bateria e fiquei encarando o reflexo opaco do meu próprio rosto no vidro sujo.

Nova York continuava viva lá em cima. Carros, um grito distante, o barulho dos últimos trens passando embaixo da terra. Me tranquilizava pensar que, mesmo que ninguém pudesse me ver, eu estava cercado de gente.

Caí num meio-sono, aquele estado desconfortável em que o corpo descansa, mas a mente fica em alerta. Foi quando ouvi passos. Não sei se isso aconteceu antes ou depois de eu fechar os olhos.

Não eram passos normais. Não tinham ritmo. Eram arrastados, lentos, com uma irregularidade que não combinava com alguém simplesmente andando. Sentei dentro do saco de dormir e escutei. Os passos pararam exatamente na entrada da estação.

Prendi a respiração. Eu não devia ter dormido na rua. Agora me arrependia de não ter ido pra um albergue. E tudo isso pra economizar uns trocados.

Passaram-se vários segundos. Depois, um som diferente: uma expiração longa e profunda, muito próxima. Abri um pouco o saco de dormir e espiei.

Tinha um homem parado na minha frente.

Não dava pra saber a idade dele. Podia ter trinta anos ou sessenta. Era muito magro, de uma magreza doentia, com as roupas penduradas como se tivessem sido colocadas num corpo que já não existia mais. Usava uma jaqueta rasgada e tinha as mãos enfiadas nos bolsos. A pele era opaca, meio acinzentada, e os lábios estavam roxos.

Ele me encarava.

“Tá frio aqui”, ele disse.

A voz era rouca, mas não fraca. Tinha algo estranho nela, um eco seco que parecia não vir só da garganta.

“Meu nome é Daniel. Tô só passando a noite”, respondi. “Amanhã de manhã eu saio.”

Não sei por que senti necessidade de me justificar.

O homem abaixou lentamente a cabeça.

“Eu também já passei noites aqui”, ele disse. “Muitas.”

Ele deu um passo na minha direção. Senti um cheiro azedo e velho, uma mistura de umidade com algo mais difícil de identificar.

“Não quero confusão”, acrescentei, começando a sentir o medo subindo no estômago.

Ele sorriu. Não era um sorriso amigável. Era uma careta que mostrava dentes tortos e muito gastos.

“Ninguém quer confusão”, ele respondeu. “Ninguém quer ficar aqui.”

Ele se abaixou com dificuldade e apoiou uma mão no chão, bem em cima das caixas de papelão. A mão atravessou uma das camadas e tocou diretamente o concreto.

“Aqui que eu dormia”, continuou. “Bem aqui.”

Enfiei a mão na mochila sem tirar os olhos dele e tirei um cantil pequeno.

“Toma”, falei. “Pro frio.”

O homem olhou pro metal, surpreso. Por um momento achei que ele ia aceitar, mas ele balançou lentamente a cabeça.

“Não”, respondeu. “Eu parei de beber há muitos anos.”

Guardei o cantil, constrangido.

“O álcool acabou comigo”, ele completou. “Mais do que o frio jamais conseguiu.”

Não soube o que responder. Apenas balancei a cabeça em silêncio. Ele me olhou de novo e, pela primeira vez, não vi ameaça no rosto dele, apenas uma coisa que parecia um cansaço muito antigo.

“Toma, isso vai te ajudar a aguentar as noites na rua.”

Ele me entregou uma santinha da Virgem Maria. Estava amassada e desbotada. Coloquei no bolso do casaco.

O vento parou de repente, como se alguém tivesse fechado uma porta invisível. Minha respiração não formava mais nuvem grossa e senti o casaco começando a esquentar de novo.

“O que você quer?”, perguntei, com a voz tremendo.

Ele levantou o olhar e encontrou o meu.

“Não quero nada”, disse. “Já levaram tudo de mim.”

Ele se levantou com dificuldade e deu mais um passo na minha direção. Foi aí que vi claramente: os pés dele não tocavam exatamente o chão. Flutuavam uns poucos centímetros acima, o suficiente pra explicar o som arrastado de antes.

Tentei me levantar, mas o corpo não obedecia. O frio tinha anestesiado minhas pernas e o medo me paralisou por completo.

“Eu peguei no sono”, ele continuou. “Achei que aguentava até o amanhecer. Igual você.”

O rosto dele chegava cada vez mais perto. Senti uma pressão no peito, um peso invisível que impedia a respiração normal.

“Eu não senti o carro”, ele sussurrou. “Só o impacto. Depois esse frio. Sempre esse frio.”

Gritei. Ou tentei. Nenhum som saiu.

O homem estendeu a mão e colocou sobre meu peito. Não senti pele, mas o frio ficou insuportável, atravessando como um choque elétrico.

“Não se preocupa”, ele disse. “Sempre tem um momento em que a gente para de sentir.”

Ele retirou a mão devagar. O frio ficou, mas já não perfurava o peito com a mesma violência. Ele me olhou por mais alguns segundos, como se quisesse se certificar de algo.

“Não fica”, disse. “Se você ficar, não vai ser comigo que você vai se encontrar.”

Depois ele deu um passo pra trás.

Depois outro.

A silhueta dele começou a perder contorno, como se a luz que vinha da rua não conseguisse alcançá-lo direito. O som arrastado voltou, suave, cada vez mais fraco, até sumir completamente na escuridão da escada.

O silêncio voltou.

Não lembro quando voltei pro saco de dormir. O cansaço caiu em cima de mim de repente, pesado, e fechei os olhos sem pensar. O frio ainda estava lá, mas já não era a única coisa que eu sentia. Dormi mal, aos pedaços, com sonhos confusos e a sensação constante de que estava prestes a acordar.

Foi um barulho que me tirou do sono.

Não era batida. Era um murmúrio distante, o começo do dia entrando pela rua. O primeiro trânsito. Uma persiana sendo levantada. O amanhecer.

Sentei com dificuldade. Meu corpo doía, rígido de frio e má postura. Juntei o saco de dormir e a mochila como deu e comecei a subir as escadas pra saída da estação, querendo sair dali o mais rápido possível.

Quando já estava quase na rua, senti um empurrão forte nas costas. “Porra”, murmurei, antes de perder o equilíbrio. Não foi tropeço. Foi um golpe claro, intencional.

Perdi o equilíbrio e caí de cara, batendo a canela na borda da calçada. A dor explodiu no tornozelo quando caí mal. Gritei e levei a mão na perna, sentindo ela começar a inchar.

Tentei me levantar, mas antes que conseguisse, alguma coisa agarrou meu pé. Não senti mãos. Não senti dedos. Senti uma força disforme me puxando pra trás com uma precisão que não tinha nada de humano. Tinha algo na forma como me segurava que não era mão, mas também não era nada que eu conseguisse nomear.

Fui arrastado pelo chão, direto pro meio da rua. As rodas de um carro passaram a centímetros da minha cabeça.

Chutei com toda força, arranhando o asfalto com as mãos, enquanto aquela pressão puxava meu tornozelo com uma determinação cega e insistente.

Aí eu vi. Um carro vinha descendo a rua, ainda devagar, mas se aproximando. Os faróis me cegaram por um instante e entendi, com uma clareza gelada, que não estava tentando me segurar: queria me arrastar um pouco mais. Só o suficiente.

A força puxou de novo, me guiando pro centro da via, exatamente pro ponto onde as rodas não teriam como desviar. Ouvi o motor se aproximando. O asfalto vibrava embaixo do meu corpo.

Gritei, mas o som se perdeu no barulho do trânsito que acordava a cidade. Por um segundo, tive certeza absoluta de que não ia me soltar.

Sem querer, toquei o bolso onde estava a santinha.

E então, de repente, a pressão sumiu.

Fiquei deitado na rua, coração disparado e tornozelo pegando fogo, exatamente quando o carro freou a centímetros do meu corpo. Por alguns segundos, só conseguia ouvir minha própria respiração.

Depois, um barulho diferente. Uma vassoura arrastando no chão.

“Ei”, disse uma voz. “Calma. Não se mexe. Meu nome é Mike.”

Virei a cabeça com dificuldade. Um homem de colete refletivo vinha vindo da calçada, me olhando preocupado.

“Achei que você ia se matar”, ele completou. “Você estava muito perto.”

Tentei sentar, mas o corpo parecia pesado.

“O que aconteceu?”, perguntei.

O varredor de rua se apoiou na vassoura e me olhou com uma mistura de reprovação e alívio.

“Você teve sorte”, respondeu. “Um carro quase te pegou. Você rolou dali”, ele apontou pra entrada da estação, “como se alguém tivesse te empurrado.”

Coloquei a mão no peito. Debaixo da roupa, a pele estava gelada e dolorida.

“Não tinha ninguém lá”, murmurei.

O varredor ficou em silêncio por alguns segundos.

“É o que todo mundo diz”, respondeu por fim. “Mas aquele não é lugar pra dormir. Nunca foi.”

Ele olhou fixo pra entrada da estação e acrescentou:

“Não faz muito tempo, um carro atropelou um cara que dormia naquele vão. O nome dele era Walter. Não incomodava ninguém. Sempre deixava as caixas de papelão bem arrumadinhas e recolhia tudo de manhã antes de sair.”

Fez uma pausa breve.

“Alguns de nós levavam café pra ele quando estava muito frio. Era gente boa.”

“Falavam que ele estava bêbado”, o varredor continuou. “Por isso que não viu o carro vindo.”

Balancei a cabeça devagar.

“Ele não bebia”, falei. “Ele me disse ontem à noite.”

Mike parou de varrer.

Me olhou sem surpresa, sem descrença. Apenas sustentou meu olhar por alguns segundos.

“Então você viu alguma coisa”, disse.

Não respondi.

“Escuta”, ele acrescentou. “Nunca usa álcool pra se aquecer. Ele engana a gente. Faz a gente dormir. E aí acontece o que acontece.”

Ele apontou o queixo pro canto da rua.

“Vai no Joe’s Diner. Fica ali mesmo. Fala que foi o Mike que mandou. Pede um café com panqueca. Por minha conta.”

“Não precisa”, comecei a dizer.

Ele sorriu.

“E pede também um sanduíche de bacon, ovo e queijo”, completou. “Um de verdade.”

Fiquei sem palavras.

“Isso resolve seu café da manhã e almoço de hoje”, ele disse, voltando a pegar a vassoura. “Se quiser mesmo me agradecer…”

Ele olhou pra cima uma última vez.

“Dorme num albergue hoje à noite.”

Voltou a varrer, encerrando a conversa.

Levantei devagar e fui embora sem olhar pra trás. Quando passei pela entrada da estação, vi as caixas de papelão de volta no lugar, limpas, alinhadas, esperando outra pessoa acreditar que era só frio.

Lembrei da santinha. Olhei com atenção.

Era a Virgem de Covadonga.

Se o que eu tinha visto era o fantasma do Walter, como era possível que eu agora tivesse isso nas mãos?

O que era aquela força que queria me jogar debaixo das rodas de um carro?

Tenho certeza de que o Walter tentou me proteger dela.

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