A mãe dela sempre me deu arrepios.
Quero dizer, eu sempre achei que tinha alguma coisa meio errada com ela — nada absurdo demais, só algo incômodo, inconveniente. Mas aquilo foi a gota d’água. Nunca mais durmo lá. Vou começar pelo começo, a primeira vez que fui à casa delas.
A gente estava saindo havia algumas semanas quando ela decidiu que já era hora de eu visitar a casa dela e conhecer a mãe. Eu estava nervoso, mas tudo bem, isso faz parte de qualquer relacionamento, eu precisava fazer a minha parte. Chegamos lá e ela mora com a mãe num apartamento minúsculo: você entra e já dá de cara com a cozinha; à esquerda fica a sala, que só tem espaço para uma mesa de jantar e um piano, nada mais. Olhando reto à esquerda fica o corredor, onde o cachorro vive, e no final há três portas: à esquerda o banheiro, à direita o quarto da minha namorada e, bem em frente, o quarto da mãe dela.
O pai está fora de cena e ninguém fala sobre ele. Vivemos numa metrópole enorme, então classe média aqui quase parece pobreza, e tudo é absurdamente caro, mas é a vida. Assim que entramos, a primeira coisa que notei foi um Akita Inu gigantesco vivendo confinado num corredor de uns 1x3 metros. Eu até me sentiria pior por isso se aquele não fosse o cachorro mais neurótico que já existiu.
Jon, o Akita caramelo, é em todos os sentidos um bebê grande, bobo e peludo… com a dona. Com qualquer outra pessoa que não seja minha namorada, ele é extremamente hostil — inclusive comigo, que amo cachorros. Mas com a mãe dela, ele simplesmente a odeia. Então imagine minha surpresa quando entro no apartamento, o cachorro trava os olhos em mim e começa a rosnar imediatamente. Aí ela me diz:
“Não olha nos olhos dele, isso desafia o domínio do território.”
O quê ele é, um tubarão?
Mas num piscar de olhos, rápido demais pra eu sequer tirar os olhos do cachorro, vejo a maçaneta atrás dele começar a girar. Como se tivesse um sensor de movimento, ele se vira e começa a latir e uivar. Da escuridão surge uma figura: 1,75 de altura, quase da minha altura, acima do peso e vestida de pijama — a mãe dela.
Ela tem dificuldade de passar pelo cachorro, que pula e faz um escândalo naquele corredor apertado, e então diz:
“Esse é o seu novo namorado?!”
É aí que vejo os dentes podres na boca dela e os óculos de grau, tão grossos e fortes que fazem os olhos parecerem duas bolinhas pretas minúsculas. Minha namorada imediatamente dá um chega-pra-lá nela, dizendo que, se ela não se comportar, a gente vai embora. A mãe faz pouco caso.
Achei isso estranho, porque você espera que o pai ou a mãe dê sermão, mas depois entendi que, quando faltam figuras parentais, o filho acaba assumindo esse papel — alguém precisa estar no comando.
O que veio depois foi o jantar mais desconfortável da minha vida, cheio das perguntas clássicas sobre faculdade e família, intercaladas por silêncios constrangedores. A mãe dela repetia o tempo todo o quanto eu era bonito, para total desgosto da minha namorada, que lançava olhares cada vez mais furiosos a cada comentário. Ela tinha uma risada alta e exagerada, seguida por uma sessão de tosse que durava quase um minuto. Foi doloroso do começo ao fim, mas necessário — quando você se compromete, precisa fazer concessões.
Depois que fomos embora, perguntei à minha namorada de onde a mãe dela era, porque ela tinha um sotaque estranho, talvez argentino, talvez do Leste Europeu, tipo Hungria ou Romênia, sei lá. Difícil de identificar por causa do ceceio bem forte.
“Ela é da cidade vizinha, mas vive aqui na capital a vida toda”, ela disse.
Eu falei que isso era muito estranho por causa do sotaque tão evidente, mas minha namorada disse que nunca tinha reparado. Talvez, por ouvir aquilo desde sempre, ela tivesse se acostumado. A mãe falava quase como em inglês antigo, usava palavras muito complicadas e obscuras, enquanto pronunciava errado palavras simples e comuns e errava tempos verbais básicos. Ela também puxava os “erres” como o Bela Lugosi, o que, admito, era até engraçado.
Com o passar dos meses, fui conhecendo melhor minha namorada e a relação dela com a mãe. Ela era jovem, saudável e uma coisinha furiosa, extremamente determinada e ousada, às vezes até demais. Uma vez fomos assaltados à mão armada; enquanto eu entregava meu velho iPhone 7 com a tela quebrada, ela tentava chutar o assaltante e arrancar o celular da mão dele. Ela foi negligenciada durante boa parte da infância e saiu mais forte por causa disso. Ninguém é perfeito, e por causa da solidão ela se tornou muito apegada a mim, querendo que eu ficasse com ela o dia todo e a noite inteira — às vezes quando eu tinha aula, às vezes quando eu tinha trabalho. Apego virou ciúme, e isso me deixa maluco, até hoje, mas é o preço que eu pago.
Ela adorava especialmente quando eu dormia com ela na casa dela, porque meus pais também são muito ciumentos comigo e não gostam nem um pouco que eu passe a noite fora, e ficam cheios de dedos se ela fica na minha casa até tarde da manhã (eu tenho 21 anos). Era uma questão de escolher quem eu iria irritar naquele dia: ela ou meus pais. Mas, mais importante, dormir com ela significava dormir sob o mesmo teto que a mãe dela. Isso me assustou no começo, mas, vendo que era minha namorada quem mantinha tudo em ordem na casa, ela podia fazer o que quisesse.
Foi na segunda ou terceira noite que descobri que a mãe dela nem sabia que eu estava lá. Eu sempre tentava evitar ser visto pra não ter que conversar, o que era fácil, já que a mulher parecia trancada no quarto o dia e a noite inteira, só saindo ocasionalmente.
Numa dessas noites, estávamos no quarto da minha namorada quando, de repente, fomos alertados pelos uivos e latidos do cachorro no corredor de que a mãe estava saindo do quarto. Minha namorada mandou eu me esconder no espaço apertado entre o guarda-roupa e a parede, quando a mãe entra como nos primeiros minutos de Shrek, berrando perguntando onde estava a comida dela. Eu pensei no quão fodida aquela situação era: eu escondido atrás de um armário durante uma briga familiar da qual eu não tinha nada a ver. A partir daí comecei a ir lá cada vez menos. Depois de muita insistência da minha namorada, eu disse que o problema era a mãe dela. Ela não se ofendeu, apenas entendeu. A mãe era muito difícil de lidar e, além disso, uma doença que quase a matou alguns anos antes — e que quase transformou minha namorada em órfã de fato — me fez sentir pena tanto da mãe quanto dela.
Isso continuou por alguns meses. Me esconder e ficar em silêncio às vezes virou um compromisso que eu aceitei. Não era tão ruim assim; a pior parte era quando eu precisava usar o banheiro no meio da noite e, de repente, a mãe também precisava. Eu tinha que apagar as luzes e fingir que não estava lá, mesmo vendo a sombra dela através da porta de vidro fosco do banheiro, tentando forçar a porta trancada. Eu me sentia um personagem de filme de terror, escondido no banheiro enquanto o monstro mexia na porta, torcendo pra perder o interesse e ir embora. A porta de correr de vidro era para a cadeira de rodas que eles usaram quando a mãe estava doente, o que tornava a cena ainda mais perturbadora do que precisava ser.
Quatro anos se passaram e ainda estamos juntos. A estranheza da mãe dela virou o menor dos meus problemas; a vida já é complicada o bastante, eu não quero ter que me preocupar também com o skinwalker que mora com a minha namorada. Aprendi a lidar com as esquisitices da mãe, mas algumas situações eram simplesmente bizarras demais: comprar uma quantidade absurda de frutas, não comer nenhuma, deixar tudo apodrecer e encher a casa de moscas; ficar brava comigo porque joguei fora os caroços dos abacates que usei pra fazer guacamole (ela COME os caroços); viajar constantemente de ônibus para uma cidade onde não tem parentes vivos, entre muitas outras coisas.
Mas houve outra ocasião em que tudo mudou.
Eu fiz o sacrifício de dormir lá depois de uma sessão noturna de Psicose (que ironia), e estava cansado demais pra dirigir de volta pra casa.
Eram umas dez da manhã quando fui à cozinha pegar um copo d’água. Eu estava só de cueca porque achei que a mãe estaria dormindo profundamente a essa hora. Foi aí que o cachorro deu o aviso e a porta no final do corredor se abriu. Pensei: fodeu. Eu estava diretamente no campo de visão dela, não tinha como ela não me ver. Tentei me explicar por cima do barulho do cachorro latindo, mas desisti rápido. Notei que ela não estava olhando pra mim, estava olhando direto para o chão.
Eu só fiquei encarando enquanto ela pulava a grade do cachorro, entrava na sala e passava direto por mim, indo para a cozinha. Ela serviu um copo d’água, bebeu, enquanto eu estava prensado no canto, observando. Depois voltou, passando novamente por mim, a poucos centímetros de distância. Pulou a grade de novo, para o desespero do cachorro, e entrou no vazio negro que era o quarto dela, fechando a porta atrás de si.
Ela não me viu. Nem um pouco. Ela estava sem os óculos, mas eu também não enxergo um palmo na frente do rosto sem os meus, e ainda assim perceberia uma pessoa parada no canto da minha própria casa, mesmo que borrada. Meu coração disparou como numa maratona, suei como um porco, mas nada realmente aconteceu. Ela era cega como um morcego e não me viu, então qual é o problema? Eu é que sou o “invasor” e fico nervoso? Dei de ombros e voltei pro quarto da minha namorada.
Ela tinha acordado e eu contei o que aconteceu. Ela não achou nada demais e atribuiu tudo aos 12 graus de miopia que a mãe tinha em cada olho. Como as outras ocorrências, tentei esquecer aquilo, assistimos um ou dois episódios de Spy x Family no notebook dela até dormirmos. Eu sempre tiro meus óculos quando começo a ficar com sono pra não esmagá-los; dessa vez, eu queria não ter tirado.
Estava tudo meio enevoado, mas acordei de repente, incomodado pela luz que eu tinha deixado acesa sem querer. Quando percebi a porta escancarada e, logo em seguida, uma cabeça surgindo na porta. Só podia ser uma pessoa. Fechei os olhos rapidamente e fingi que estava dormindo; achei melhor lidar com isso de manhã do que ser confrontado agora. Abri os olhos só um pouquinho pra ver se ela tinha ido embora, e não só a figura ainda estava ali como foi aí que notei o quão alta ela era. A cabeça quase raspava no topo da porta. Dessa vez fechei os olhos de medo. Que porra era aquela e por que era tão alta?
Fiquei deitado ali, acordado de olhos fechados, por mais alguns minutos que pareceram horas. Tentei me convencer de que ainda estava sonhando, de que aquilo não tinha acontecido. Mas eu tinha deixado a luz da sala acesa sem querer; com a porta aberta, não estava escuro, estava claro. E eu sei o que vi: uma massa cinza e arredondada, uma cabeça, espiando pela porta, nos observando dormir.
Devo ter apagado em algum momento depois disso. Acordei encharcado de suor, na mesma posição em que tínhamos dormido, e contei tudo. De novo, minha namorada disse que era só a “mãe verificando se ela estava dormindo porque as luzes estavam acesas”. Eu não compro essa história. Saí de lá abalado, me sentindo invadido. No caminho de volta, fiquei repassando o acontecimento, analisando cada detalhe pra saber se tinha sido mesmo um sonho. Mas foi real. Minha visão não ficaria nítida assim num sonho. Aquilo realmente aconteceu. Mais importante: não parecia um sonho. O medo era real demais; lembro de tremer e suar frio.
Quando achei que não podia piorar, lembrei do detalhe mais crucial: eu não ouvi o cachorro. Ele ficou em silêncio o tempo todo.
Isso resolve tudo. Nunca mais vou dormir lá. Ela pode chutar, gritar, fazer o que quiser — eu não vou. Nenhum amor é tão grande assim. Ela tentou explicar, depois tentou me convencer de que aquilo não aconteceu. Mas eu sei o que vi, e não tenho certeza se era a mãe dela. E, afinal, se minha namorada tem tanta certeza de que isso não aconteceu… então por que, pouco tempo depois, ela mandou colocar trancas em todas as portas?
Fim.


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