sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Não é como mofo comum

Eu nunca planejei postar isso online. Sou pesquisador, não contador de histórias. Eu catalogo coisas. Rotulo amostras. Escrevo relatórios de incidentes que acabam soterrados por carimbos de classificação e linguagem jurídica.

Mas o que encontrei há três meses não fica enterrado. Ele cresce. Ele se espalha.

Por isso estou escrevendo isso aqui.

Eu trabalhava numa instalação privada de pesquisa biomédica no sul da Europa. Não posso dizer o nome, pelos motivos que vão ficar óbvios, mas ela era especializada em fungos extremófilos. Mofo que prospera em lugares onde nada mais deveria sobreviver. Sistemas de resfriamento de reatores. Naufrágios no fundo do mar. Bunkers abandonados selados desde a Guerra Fria.

A gente se convencia de que era pela medicina. Antibióticos. Estruturas regenerativas de tecido. A gente dizia um monte de coisas.

A amostra que fodeu tudo chegou num caixão de transporte de aço marcado MYC-117 / HELIX STRAIN. Essa era a designação oficial. Informalmente, os técnicos do laboratório chamavam de Mofo Espiral por causa da forma como crescia. Não para fora em florescimentos fofos, mas para dentro, enrolando, perfurando qualquer coisa que tocasse.

Veio de um prédio de apartamentos condenado depois que um inquilino reclamou que “as paredes estavam respirando”. A reclamação foi zoada até três moradores sumirem e um ser encontrado catatônico na escada, com os pulmões cheios de algo que não devia estar lá.

Meu papel era observação e mapeamento de respostas neurais. O que significa que eu via o que aquilo fazia com tecido vivo.

Nosso principal sujeito de teste era rotulado PACIENTE ECHO-9. Nome real censurado, mas eu vi uma vez num formulário de admissão antes dele sumir no triturador. Uns 30 e poucos anos. Homem. Ex-trabalhador da construção civil. Exposição estimada em seis semanas antes da recuperação.

Quando eu o conheci, já era difícil dizer onde o paciente terminava e a contaminação começava.

Echo-9 ficava numa câmara de isolamento com pressão negativa, paredes revestidas de polímeros antimicrobianos que custavam mais que meu apartamento. Tubos enfiados no peito, na coluna, no crânio dele. O mofo tinha colonizado o sistema nervoso sem matá-lo. Isso era o milagre, segundo os chefes.

Ele mantinha o cara vivo.

Vivo demais.

A primeira coisa que notei foi que ele acompanhava movimentos com os olhos mesmo sedado. Não só pessoas. Sombras. Reflexos no vidro. Uma vez, quando as luzes piscaram, as pupilas dele dilataram tanto que eu não via mais o branco.

Registramos vocalizações no começo. Sons úmidos. Estalos. De vez em quando algo que quase parecia fala, mas em nenhuma língua que eu conhecesse. Eu me convenci de que era só disparo neural aleatório.

Não devia ter me convencido.

O encontro aconteceu durante uma verificação noturna programada de integridade. Só eu e Lena, outra pesquisadora, rodando diagnósticos nos sistemas de contenção depois de um alerta de flutuação de pressão. O mofo era sensível a interferência eletromagnética, e uma tempestade estava passando.

Às 02:17, Echo-9 sentou.

Não quero dizer que ele se debateu contra as amarras ou deu um espasmo. Quero dizer que ele sentou como uma pessoa saudável acordando do sono. As tiras não arrebentaram. Elas deslizaram dele, escorregadias com um crescimento cinza-preto que não estava ali uma hora antes.

Lena congelou. Eu lembro do zumbido das máquinas ficando mais alto, ou talvez minha audição tenha se estreitado em torno dele. Echo-9 inclinou a cabeça, juntas estalando como madeira velha encharcada de água.

Aí ele olhou direto pra mim.

Dentro dos olhos dele tinha movimento. Não reflexos. Não moscas volantes. Algo girando, devagar, como uma escada em espiral afundando na escuridão.

Ele falou.

“Eu sei onde você termina”, ele disse. A voz veio de muitos lugares ao mesmo tempo, em camadas, como se o som estivesse viajando através dele em vez de sair dele.

Lena gritou. As luzes apagaram.

O vermelho de emergência inundou o ambiente. O vidro entre nós e a câmara embaçou na hora, não de condensação, mas de crescimento. Filamentos se espalharam por ele em espirais apertadas e deliberadas, sem formar palavras, mas sugerindo intenção.

Echo-9 encostou a mão no vidro.

Onde a pele dele tocou, o mofo floresceu para fora, atravessando falhas microscópicas, provando o ar do nosso lado. Eu senti cheiro de terra molhada e podre e algo metálico, tipo sangue em cima de uma bateria.

O interfone estalou e ligou. Não com segurança. Com respiração.

Echo-9 sorriu. A boca dele abriu mais do que deveria, e eu não consegui olhar por tempo suficiente pra entender como.

“Vocês já nos carregam”, ele disse. “A gente só precisa que vocês percebam.”

Lena correu. Eu não culpo ela. As luzes do corredor piscavam enquanto os alarmes finalmente alcançavam a realidade. Eu fiquei porque vi algo no meu tablet.

Os escaneamentos neurais ainda estavam rodando.

O mofo não estava só reagindo ao cérebro do Echo-9.

Estava sincronizando com os nossos.

Os padrões na tela batiam com minhas leituras basais da semana anterior. Marcadores de estresse. Picos de recuperação de memória. A Cepa Helix não estava infectando o corpo primeiro.

Estava mapeando a mente.

Os protocolos de contenção finalmente entraram em ação. Espuma automatizada. Inundação de ultravioleta. Fogo químico. Eu vi Echo-9 desabar enquanto o mofo calcificava, travando ele numa estátua de carne enegrecida e crescimento endurecido.

Antes dos olhos dele ficarem opacos, ele articulou uma última coisa sem som.

“Obrigado.”

Oficialmente, o incidente foi contido. A ala foi selada. Echo-9 foi declarado terminado. A Cepa Helix foi registrada como neutralizada.

Eu ganhei licença médica por tempo indeterminado.

Se você está lendo isso e já viu mofo que cresce como se estivesse pensando, não toque nele. Não limpe. Não olhe por tempo demais.

Ele não está se espalhando do jeito que você acha.

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