Tudo começou, e vai terminar, com aquelas figuras estranhas. Relatos e avistamentos de gente encapuzada — bom, o que a gente achava que era gente — parada nas esquinas à noite. Elas pareciam interessadas nos pontos históricos: o tribunal, a velha rua principal, alguns dos prédios antigos da cidade. Pelo menos no começo.
Não tem nada de ilegal em andar pelas ruas principais de capa à noite. Mesmo assim, a polícia local quis trocar uma ideia. Só que as figuras encapuzadas sempre davam um jeito de escapar. Elas “sumiam na escuridão com uma velocidade sobrenatural”, segundo os relatórios.
O que começou como uma curiosidade meio esquisita virou medo generalizado rapidinho quando elas começaram a rondar os bairros. Moradores apavorados ligavam toda noite pra denunciar aquelas figuras encapuzadas estranhas andando pelas ruas. Espiando pelas janelas. E, mesmo assim, sumiam antes que a polícia conseguisse prender alguma.
Vou admitir que eu também fiquei com um puta medo. Eu tinha visto elas no escuro, e quando começaram a mexer nas maçanetas das portas, eu me rendi. Fui lá e comprei uma arma. Nunca tinha tido uma na vida, mas o barulho da maçaneta da minha porta chacoalhando no meio da madrugada foi o suficiente pra me mandar correndo pra loja de armas mais próxima. Acabei levando pra casa um revólver Smith & Wesson bem padrão, e ele ficou morando bem embaixo da minha mesa de cabeceira. Pelo bem que me fez, podia muito bem ter ficado lá pra sempre.
As coisas pioraram rápido depois disso. Os avistamentos ficaram mais frequentes, até de dia. Isso deixou bem claro a postura e as proporções sobrenaturais das figuras. Nunca vou esquecer o primeiro vislumbre que peguei em plena luz do dia. O torso alongado. A corcunda exagerada. E, mesmo assim, nenhuma foi capturada.
O pesadelo de verdade começou com o canto na praça. As figuras se reuniram num parque no centro da cidade, bem ao lado da velha rua principal. Ficaram em círculo no meio da noite, cantando numa língua de outro mundo até o amanhecer.
Você deve estar se perguntando por que ninguém fez nada pra parar elas, ou pelo menos identificar quem eram. E eu te digo: tentaram, sim. Quando ficou claro que as figuras estavam hipnotizadas no canto delas, chamaram as autoridades, e alguns corajosos se aproximaram.
Eu não estava lá — só os mais curiosos estavam —, mas a história se espalhou rápido. Desmascararam as figuras, jogaram os capuzes pra trás, e o que tinha embaixo era difícil de entender.
Eram criaturas brancas como osso, deformadas. Algumas tinham cabeças alongadas. Outras eram bicudas, parecidas com pássaros. Outras ainda tinham traços quase incompreensíveis, como se só de olhar pro rosto delas já fosse tentar resolver um nó górdio.
Os seres não reagiram à exposição. Pelo que me contaram, não se mexeram nem um centímetro. Não é que não se mexiam — é que eram imóveis. Estátuas indomáveis que cantavam. Que provocavam fenômenos que nem eu, nem nenhum outro morador de Crenshaw, conseguia entender.
Alguns dos que estavam lá reagiram com medo e fugiram pras casas. Esses foram os espertos. Outros reagiram com agressividade, descarregando armas de fogo nas criaturas, mas de nada adiantou. Elas não se abalaram. Não pararam o canto.
O mais perturbador foram os que reagiram com loucura. Os que gritavam, riam e se juntavam ao canto incompreensível. Talvez, no fundo, fossem os mais sábios. Eles foram deixados em paz. Porque quando o canto parou, Crenshaw passou a ser deles.
Não sei quanto tempo se passou. Não tem mais dia em Crenshaw. Só um crepúsculo sépia eterno, cortado por períodos esporádicos de escuridão absoluta, impossíveis de medir. As criaturas e a prole insana delas rondam as ruas como se estivessem caçando. Quando pegam um morador que ainda tem um pingo de sanidade… Bom, eu já vi vários desfechos. Elas não são consistentes. Se eu tivesse que chutar um motivo, diria que é a loucura. Elas desejam loucura. Querem cultivar ela. Quem é pego passa por todo tipo de coisa feita pra quebrar a mente. Mas nunca é igual.
Já vi homens gritando na rua enquanto as criaturas avançam sobre eles. Às vezes é tortura. Às vezes atos depravados que eu nem vou descrever, só pra provocar a insanidade. Às vezes é uma cacofonia de guinchos de outro mundo que ecoam pela cidade inteira, reverberando em cada casa. Em cada mente. Às vezes é só um olhar silencioso. Esse parece ser o método mais eficaz pra provocar loucura. Todo mundo que encara o olhar delas acaba cedendo.
Mas o mais aterrorizante são os desmembramentos aleatórios e repentinos. Isso me faz duvidar de tudo que eu achava que entendia sobre os seres. Se o objetivo é instilar loucura, então por que eles arrancam membros de moradores aleatórios com tanta violência? Não é uma prática constante. Nada é constante com elas. Talvez seja exatamente esse o ponto. Pra instilar ainda mais loucura na gente que se esconde.
Somos poucos agora. Todos nós tentamos fugir em algum momento, mas sempre acabamos voltando pra Crenshaw. Lutar não adianta nada. Temos pouca munição aqui. Só as armas que os americanos do interior costumam ter, que na maioria dos casos seriam suficientes pra repelir um pequeno exército, mas não têm efeito nenhum nas criaturas — os Precursores, como passamos a chamar eles. Porque junto com a chegada deles veio outro fenômeno. Um que acontece na mente de cada último morador de Crenshaw. Visões noturnas do Apocalipse. A Terra se rachando e engolindo a humanidade numa bocarra de fogo e fumaça. Meteoros caindo do céu. Oceanos fervendo. Calamidade e devastação. Morte e loucura levadas a todo homem, mulher e criança. Sempre os mesmos sonhos, toda vez que alguém dorme.
Já pensei em acabar com a minha própria vida. Muitos de nós pensaram. Mas… eu não consigo. Nenhum de nós consegue. Quando chegamos perto, uma curiosidade profunda, repugnante e ao mesmo tempo irresistível toma conta. Um desejo de saber mais sobre os Precursores. De olhar pra eles. De entender eles. De ver o que vem depois. Todo dia isso fica mais forte. Então eu me escondo, e espero. Espero pra ver o que os Precursores vão trazer.


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